Um Estranho Impar Poesia
A tristeza é um mar calmo onde a gente pode afundar sem fazer barulho, deixando que a pressão da água nos abrace até que não sintamos mais o frio da superfície. É um refúgio perigoso, um abraço de ferro que nos protege do mundo ao custo de nos tirar o ar.
Há um ranger de tábuas velhas em cada pensamento meu, um eco de presenças que partiram e deixaram apenas o vácuo como inquilino da minha memória. Eu converso com as sombras, não porque perdi o juízo, mas porque as sombras são as únicas que sabem ouvir sem interromper.
O mundo é um moinho que tritura nossos sonhos até que eles virem farinha para o pão de cada dia, uma massa insossa que comemos apenas para sobreviver. Eu tento temperar essa massa com um pouco de poesia amarga, para que o sabor da existência não seja totalmente esquecível.
Sinto que minha vida é um filme em preto e branco passando em uma sala de cinema vazia, onde eu sou o único espectador que não consegue ir embora antes dos créditos finais. A beleza está no contraste, na forma como a sombra define a luz e a ausência define o que restou.
A depressão é como um nevoeiro que entra pela janela aberta e apaga as cores do jardim, deixando tudo com um tom de cinza-hospitalar que nos tira o apetite de viver. A gente aprende a tatear os móveis e a caminhar no escuro, esperando que o sol decida voltar das suas férias eternas.
O tempo é um ladrão que nos rouba a juventude, a saúde e os amigos, mas que, ironicamente, nos deixa a sabedoria de que nada disso nos pertencia de fato. Somos apenas guardiões temporários de tesouros que a terra acabará por reclamar para si no final da jornada.
Minha alma tem a textura de um papel de carta que foi dobrado e desdobrado tantas vezes que as marcas da dobra agora fazem parte da mensagem. Sou um texto cheio de rasuras, correções de última hora e uma caligrafia que revela o tremor da mão que o escreveu.
A saudade é uma onomatopeia que ninguém consegue pronunciar, um eco de passos que nunca chegam a tocar o chão do corredor. Escrevo o teu nome no vidro embaçado, esperando que o frio traduza em som o que o peito tenta, mas falha em organizar. No fim, resta apenas esse vocábulo estranho, um balbucio oco, a onomatopeia de um adeus que não teve coragem de fazer barulho.
A fé não me tira da tempestade, mas me dá um remo e a ilusão necessária de que eu posso chegar à outra margem se continuar remando com fé. Às vezes, a ilusão é o que nos separa do fundo do mar, e eu a abraço com a força de quem não tem mais nada a perder.
O amor é um hóspede barulhento que bagunça toda a casa da nossa alma e depois vai embora sem ajudar na limpeza, deixando apenas o cheiro de um perfume que odiamos lembrar. Mas, no fundo, a gente sabe que a casa vazia e limpa é muito mais triste do que o caos que ele causou.
Os espíritos imundos não param de sussurrar no meu ouvido, vivo em um cemitério de lápides vazias, quebradas, com nomes escritos que não consigo decifrar. Os fantasmas que me atormentam não têm rostos, não falam comigo, apenas me observam na escuridão em que me enterro.
Minha mente é um calabouço, frio, escuro e esquecido. Aqui dentro, o tempo é relativo, um nó entre o passado e o presente. Tudo é confuso, há mais perguntas que respostas. Não sei quanto tempo faz, nem se a liberdade é uma promessa real. Enquanto o fim não vem, vou aceitando esse estado de sobrevivência.
Ser humano é ser uma contradição ambulante, um ser que deseja o céu mas que está irremediavelmente preso à terra por fios de necessidade e medo. Vivemos nesse esticamento eterno, nessa tensão que é o que nos faz produzir música, arte e esses suspiros que chamamos de frases.
O destino é um tabuleiro de xadrez onde eu sou apenas um peão que sonha em ser rei, mas que sabe que acabará sendo sacrificado para que o jogo continue sem mim. Aceito meu papel com a dignidade de quem sabe que, na caixa, todas as peças voltam a ser do mesmo material.
Às vezes, meus passos ecoam no vazio da minha alma, como se cada movimento fosse um sussurro de quem insiste em existir mesmo quando tudo grita o oposto.
Quando olho minhas cicatrizes, percebo que elas não são falhas, mas mapas de lugares onde um dia a minha esperança foi reduzida à poeira e ainda assim se recosturou.
Eu carrego um deserto na boca do estômago, onde cada passo é areia movediça e cada sonho, um miragem que não se aproxima.
Pensar é um risco contínuo, porque cada conclusão abre espaço para novas dúvidas, e não existe ponto final nesse processo, apenas pausas temporárias antes de recomeçar.
Eu me tornei alguém que observa mais do que vive, como se estivesse sempre um passo atrás da própria existência, avaliando cada emoção antes de permitir que ela me atravesse, mas sempre algo escapa… e talvez seja isso que ainda me mantém humano.
Minha mente é um quebra-cabeça sem imagem final, onde cada peça parece deslocada, sem encaixe possível, e ainda assim eu insisto em montar algum sentido, como se desistir fosse admitir que tudo foi em vão.
- Relacionados
- Poesia de amigas para sempre
- Poemas de aniversário: versos para iluminar um novo ciclo
- Poesia Felicidade de Fernando Pessoa
- Poemas de amizade verdadeira que falam dessa união de almas
- Frases de Raul Seixas para quem ama rock e poesia
- Frases de efeito que vão te fazer olhar para a vida de um novo jeito
- Frases para falsos amigos: palavras para se expressar e mandar um recado
