Textos Vc Nao foi Homem pra Mim
Ando também aprendendo o silêncio. Hoje entendo que quando uma tempestade parece querer se aproximar, preciso manifestar a calma, para com doçura olhar bem dentro do olho do furacão. Aprendi que, assim, posso escolher se será uma luta que vale a pena travar. Se será uma tempestade, que na rua, enfrentarei seu despertar. Mas quando se descobre certos silêncios, às vezes é necessária essa busca por um teto. Essa busca por se acolher e se proteger do mundo caindo sobre sua cabeça. Não, não vale a pena enfrentar certas tempestades e sair delas toda ensopada. Não, não vale a pena logo após pegar um resfriado. Quando se escolhe o que de fato vale a pena ser travado, se torna menos pesado viver vestindo a própria pele. Mesmo que nesse silêncio seja preciso ocasionalmente, engolir o próprio vômito.
No jarro em cima da mesa, flores de corte que já passam de uma semana. Algumas direcionadas a janela, exalam perfume que manifesta vida. A suave luz as manteve ainda de pé. Quando giro de leve o jarro, encontro algumas murchas, que mesmo do lado das sombras, já não mas com tanta força, esbanjam um perfume discreto mesmo exibindo seu próprio cenário fúnebre. Elas já encarnavam a não vida. E estranhamente, mesmo estando no fim, mesmo coberta por sombras, o seu perfume ainda é perceptível. Em um mesmo jarro, dois lados. Que cumpre de forma orgulhosa o seu papel. Uma em condições favoráveis, outra em desvantagem. E naquela que já padecia, encontrei a força que sempre lhe era residente. Totalmente murcha e perdendo a cor, mas não deixando de encantar. Afinal, até mesmo quando as pétalas se vão, o perfume da beleza também nos encontra.
No amor também se aprende. No amor também se cresce. A gente se perde em acreditar que é só na queda e no rasgar dos joelhos que fazem os nossos músculos se esticar. A cicatriz medonha nos faz lembrar do sabor amargo e por isso tudo se torna mais enfático. Porém, o amor também nos marca de diversas formas. A diferença é que o seu toque é suave como o vento no crepúsculo do verão. Toca, te molda, e ainda deixa a pele que veste teus ossos intacta, e ainda assim, não mais a mesma.
Algo me diz que preciso correr. E é o que as minhas pernas desejam fazer. Mas já sei que no meio do caminho, embalada pelo desespero, e ainda sem preparo, cansarei muito mais rápido se tivesse escolhido caminhar admirando o percurso trilhado. Essa velocidade inumana inventada por quem procura andar com calma só fará com que tropece um pé sobre o outro. Só terá queda e arranhões no joelho. E no levante, é sempre possível recuperar o caminho. A gente acha que quando a gente corre e o desespero está infundado nos olhos, a gente chega mais rápido, mas na verdade é o contrário. É a paralisação que encontramos na próxima esquina. E no final correr, parece que não serve para nada. Só está ali para deixar nossas pernas ainda mais cansadas. E para fazer perder a beleza emergir nos olhos.
Tiro o elástico de borracha das flores de corte e coloco em cima da mesa. No vaso já com água fresca, coloco uma por uma por vezes tocando de leve as suas pétalas sensíveis. Depois fito o elástico abandonado no canto faltando um fio para se romper. Esticado de todas as formas até a borracha chegar no limite. Nas minhas mãos o coloco, e em um simples movimento ele se parte em dois. Mesmo que eu o amarrasse ele não ficaria o mesmo. E é isso que acontece quando deixamos que ultrapassem os nossos limites. Quando permito que rompam com essa linha tênue, já sei qual caminho de destino. A gente permite por medo de abrir a boca e transferir o não. Para o outro, para nós mesmos. No fim de tudo, quem despedaça somos nós, não quem rompeu com a nossa barreira.
Admiro as asas que batem suaves ao vento, até emergir na certeza do pouso. E ali contemplo. Na luz que adentra os olhos furtivos, encaro a certeza ainda maior de que não quero esperar tanto para encontrar a beleza que não mora apenas no céu azul, mas também dentro do casulo. Mesmo que na pele ainda vista lagarta.
Nos lugares menores há mais fé e devoção do povo... quase sempre a cruz é vista num lugar estratégico qualquer: no santuário, diante dos olhos da comunidade paroquiana, no corpo tatuado de um jovem, no gesto simples de um devoto (ao sinal da santa cruz) três vezes: na fronte, para que Deus abra a sua mente; na boca, para que o proclame; e no coração, para que receba à Sua Palavra em bom grado). — E assim, mais três cruzes transparecem nesse hábito de ofício do cristão católico.
Que névoa alguma repouse sobre os meus olhos. Que meu toque permaneça sã. Que o maravilhamento pelas miudezas resista, apesar da dureza que se apresenta a cada nova esquina. Que ao ouvir um miado, ou a uma risada longa de uma criança, não perca a graça de ver ali a poesia mais bonita. Que observar a lua acompanhada das estrelas não deixe de meus olhos marejar. Quero sentir, como se deve sentir o sentir. Que não deixe de cantar em plenos pulmões a minha canção favorita, não importando o quão antiga ela seja. Que permaneça encanto o brilho dos detalhes que andam esquecidos. Que fortemente sinta a beleza de passar um café e sentir o seu aroma, mesmo numa manhã cinza. Que mesmo, com tanto atravessamento, não perca o deslumbramento pela magia vida.
É um voo livre. Finalmente descobri. Depois de tanto que me mantive engaiolada com o passado de cárcere ensinado. É um voo livre e vou mesmo com as asas cortadas, todas picotadas, com pontas ensanguentadas, por tesouras desamoladas de quem não aceita o que precisa crescer e partir. É um voo livre, depois de muito tempo, finalmente descobri.
Vou catando a felicidade em cada algodão que uso para limpar as feridas que ainda teimam em sangrar. Nas asas de uma libélula, vou tentando encontrar essa liberdade da pressa de encontrar um feitiço, um antídoto, que cure com mais pressa as feridas que os fantasmas fizeram se alastrar sobre a pele vistosa que tinha. Não, não preciso ter tanta pressa por esse dia. Afinal, em alguns casos, ele nunca chega. É preciso buscar e com coragem encontrar essa paz miserável em meio aos algodões manchados de vermelho.
Me recuso a ser definida por um mero vislumbre de quem passa correndo e se esbarra comigo. Me recuso a ser definida por olhos que projetam seus desejos nos meus. Sou tantas. Sou múltipla. Carrego tanta vida. Tanta morte. Carrego tanta história tatuada na pele suada e que divide cicatrizes e algumas inflamações abertas. Carrego tanto amor, mas também tanto ódio. Não me canso de dizer que sou. Que sou muitas. Tão doce como mel. Tão azeda como biribiri chupado com sal. Sou santa e profana. Sou mansidão em mar em um dia perfeito de sol. Sou água raivosa em seu pico alto em tempestade. Eu sou tantas. A menina, a mulher. A princesa e a bruxa. A bruxa. Eu sou tantas. A real, a mágica. A esperança, a trágica. Que não quero ser definida apenas por um mero vislumbre de quem passa correndo e se esbarra comigo.
A vida me apresentou um garoto que me fez ver o mundo com outros olhos. Eu sempre fui uma pessoa que reclamava de tudo, se chovia ou se fazia muito sol, estava destinada a reclamar. Conheci ele em uma festa na casa de uma amiga, saímos algumas vezes e depois de cinco meses nós começamos a namorar. Ele sempre teve muitos motivos para reclamar, mas nunca ouvi uma palavra do tipo saindo da boca dele, mesmo perdendo os pais ainda quando criança e fora as outras histórias de vida dele que chegavam a tocar qualquer coração. Ele jamais culpou o universo, não brigava com a vida, ele simplesmente entendia que não podia se preocupar com coisas que estão fora de seu alcance. Por meses ele me alertou, buscava me ajudar a parar de ser uma pessoa ingrata, eu tinha tantas coisas naquela época e não era capaz de notar. Como aquele vício já havia se feito presente em mim, eu também reclamei de nós dois, e por consequência, eu também o perdi. Eu precisei perder pessoas magníficas para compreender que a gratidão é o que move a nossa vida. Quanto mais se pratica, mais motivo terá para agradecer. Infelizmente, não pude ter a oportunidade de ser uma pessoa melhor com ele, não o julgo, pois, faria o mesmo se tivesse ao lado alguém que só enxergasse as falhas. Se ele chegasse dez minutos atrasado eu reclamava, mesmo se o motivo fosse algo que estava fora do controle dele. Se acontecesse algo comigo no trabalho, eu já descontava tudo aquilo nele, como se o mesmo tivesse culpa. A vida não permite que você tenha outra chance com a mesma pessoa, mas a vida me permitiu o conhecer para que assim eu pudesse ser uma pessoa grata. Ele seguiu sua vida e se casou com uma pessoa admirável. Graças a ele eu comecei a valorizar as coisas que eu tinha e passei a agradecer por tudo o que me acontecesse, hoje eu consegui o emprego que sempre sonhei e tive a oportunidade de encontrar um homem incrível. Há amores que servem apenas para aprendizado, é magnífico ter tido o privilégio de ter sido o seu amor, mesmo que por pouco tempo, mas é enriquecedor saber que eu saí daquele relacionamento com uma mente evoluída.
Atitude e disposição, também para uma queda. Um nobre também golpeia e sabe se despir da coroa para resolver nos punhos, quem sabe até precise degolar impondo seu trono. O bom Rei não se acovarda atrás de seu exército, mas vai à frente das suas guerras, ainda que seu sangue se derrame antes do que valoriza, defendendo.
Duas pessoas, fortuitamente, têm sua sina convergentes. A fusão se dá mediante muito esforço e, se desconsideramos os aplicativos de namoro, grandes facilitadores, o evento é ainda mais finito e soa até inverossímil. No entanto, para efeito desse texto, utilizaremos essas redes sociais. Há um número quase infinito de seres que recorrem ao Tinder, a título de exemplo, de diferentes faixas etárias, com diferentes propósitos. Aumentar o número de possibilidade é elevar o número de combinações? Nem sempre. Nessas situações, a angústia pode ser imensa, em virtude do avalanche emocional: cada match, uma expectativa nova e que, todavia, pode ser frustrada. Observa-se, assim, que mais possibilidade é, com efeito, mais sofrimento, em razão de que pensamentos do tipo "e se eu buscasse mais um pouco antes de me firmar com esse aqui, que nem é tão igual a mim?" Podem surgir. Por esse motivo, aqueles que, mediante todo esse cenário (muitas vezes superficial e insosso), conseguem encontrar alguém com quem se identificam e, ainda que não sejam idênticas (o que é absolutamente normal), se respeitam dessa maneira e se estimam pelo o que são e não pelo o que gostariam de ser, são dignos de reverência.
Casualmente eu acordaria com você na cabeça, casualmente eu iria tomar banho, escovar os dentes e tomar meu café da manhã pensando em você, casualmente eu teria ido a escola e mesmo com aquele assunto complicado de química eu ainda estaria pensando em você, casualmente no almoço na roda de amigos e ate no meu sono a tarde eu estaria com você na minha cabeça, casualmente eu tenho pensado em você todos os dias, todas as horas e em todos os lugares. Casualmente eu estaria pensando em você agora, isso casualmente. Porque agora eu resolvi viver, e casualmente esquecer de você.
Certa vez perguntaram ao enigmático Conde Cagliostro se ele era discípulo do famoso alquimista o Conde de St. Germain, e se assim o fosse qual seria seu segredo para imortalidade.Dizem que Cagliostro silenciou se mas Voltaire, que estava perto disse francamente a respeito do Conde "é um tipo diferente de eternidade pois um homem que sabe um pouco de tudo, decerto nunca morrerá ".
Os homens desejam as mulheres que não existem
Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler.
Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus. O que falta? Órgãos internos?
Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..."
Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem.
Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem.
A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele.
Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens?
Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..."
Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas?
Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação.
É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva.
Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real.
Por isso, com a crise econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade.
A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro.
A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Será que fui apenas barrado do baile?
Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.
(trecho de entrevista dada em 1977)
Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome.
(Perto do coração selvagem)
Sou implícita. E quando vou me explicitar perco a úmida intimidade.
(Água viva)
Lembrar-se com saudade é como se despedir de novo.
(Água viva)
A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.
(Perto do coração selvagem)
Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?
(Perto do coração selvagem)
Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.
(Água viva)
Agora é um instante. Você sente? Eu sinto.
(Água viva)
Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem.
(Crônicas para jovens: de amor e amizade)
Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.
(Água viva)
Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.
(A hora da estrela)
O Direito do Palavrão
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.
"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas Pra caralho, o Sol é quente Pra caralho, o universo é antigo Pra caralho, eu gosto de cerveja Pra caralho, entende?
No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não" o substituem. "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma! . O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepne", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o- pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o- pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cú!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cú!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cú!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!". Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda- se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se!.
Grosseiro, mas profundo... Pois se a língua é viva, inculta, bela e mal-criada, nem o Prof. Pasquale explicaria melhor. "Nem fodendo..."
Era o amor que tentei te oferecer!
Não consigo me entender
Sei o que devo fazer
É certo tenho que te esquecer
Mas é só aparecer,
Que me entrego a você.
Mas assim não pode ser,
Entregar-me e não te ter.
Não consigo me compreender,
Sei que não posso exceder.
Vou lutar contra meu querer,
Na minha cabeça meter,
Que um fim é o que tenho que fazer,
Quando será que vou aprender?
Meu desejo era te manter,
E cada dia mais te conhecer.
Agora começo a perceber,
O que eu não queria ver,
E o que você não tinha coragem de dizer.
Nunca me amaste, era apenas o aquecer.
Sexo, cama, e tudo que quisesse manter,
Sabe que basta me tocar para me derreter.
Sei que teus desejos consigo atender,
Nosso amor tem início ao anoitecer
E perdura até o amanhecer.
Mas não posso me corromper,
Sem você tenho que sobreviver,
Seguir a vida e me conter,
As lágrimas irei beber,
A saudade desfalecer,
Seguir em frente, nada irá me deter.
Adeus quem me fez viver,
Momentos que irão permanecer,
Loucuras de prazer,
Amei-te mas a este amor irei vencer.
E um dia quando você me rever,
Verás que mais do que prazer era o amor que tentei te oferecer!
