Textos sobre Felicidade
A vida não acontece depois
Talvez uma das maiores ilusões humanas seja acreditar que a vida começará quando alguma coisa finalmente acontecer.
Quando tivermos mais dinheiro.
Quando encontrarmos alguém.
Quando formos reconhecidos.
Quando os problemas terminarem.
Quando estivermos preparados.
E assim transformamos o presente em uma sala de espera para um futuro que nunca chega exatamente como imaginamos.
Esperamos o momento certo sem perceber que o tempo não espera nossa certeza.
A vida acontece enquanto planejamos vivê-la.
Talvez o problema não seja desconhecermos o caminho, mas permanecermos parados esperando garantias que nenhum caminho poderá oferecer.
Toda escolha carrega uma renúncia.
Escolher uma direção significa abandonar, ainda que temporariamente, inúmeras outras possibilidades. E é justamente por não querermos perder nenhuma possibilidade que, algumas vezes, perdemos a oportunidade.
Queremos certeza antes da experiência, quando muitas certezas somente poderão nascer depois dela.
Coragem não é ausência de medo.
É compreender que o medo pode participar da viagem sem necessariamente assumir a direção.
Há pessoas esperando deixar de sentir medo para começar. Talvez descubram tarde demais que nunca precisaram eliminá-lo; precisavam apenas impedir que ele decidisse por elas.
Porque aquilo que evitamos também participa da construção daquilo que nos tornamos.
Somos feitos pelas decisões que tomamos, mas também pelas conversas que adiamos, pelos limites que não estabelecemos, pelas oportunidades que recusamos e pelas palavras que nunca tivemos coragem de dizer.
Não existe neutralidade diante da própria existência.
Até permanecer no mesmo lugar produz consequências.
Por isso, protagonizar a própria história não significa controlar tudo aquilo que acontece.
Isso seria impossível.
Protagonizar significa não entregar aos acontecimentos o direito de determinar completamente quem nos tornaremos.
Nem sempre escolhemos o capítulo.
Mas continuamos participando da escrita.
Talvez liberdade seja justamente compreender essa diferença.
Não somos absolutamente livres diante das circunstâncias, mas podemos ampliar nossa liberdade diante das respostas que construímos para elas.
A pergunta, então, deixa de ser apenas:
“Por que isso aconteceu comigo?”
E passa a ser:
“O que farei a partir daquilo que aconteceu?”
Essa pequena mudança de pergunta pode representar uma enorme mudança de posição diante da vida.
De vítima permanente das circunstâncias para participante consciente da própria construção.
De espectador para autor.
De coadjuvante para protagonista.
E ser protagonista não significa ocupar o centro do mundo.
Significa ocupar o lugar que jamais deveria ter sido abandonado:
o centro da responsabilidade pela própria existência.
Talvez não precisemos descobrir exatamente quem seremos amanhã.
Precisamos apenas ter coragem suficiente para não abandonar quem podemos começar a construir hoje.
Porque a vida não começa depois.
Enquanto esperamos para viver, já estamos vivendo.
Carlos Eduardo Balcarse
02 de setembro de 2026
Consciência sem autoria
Consciência sem autoria é perceber a própria vida e continuar permitindo que outros a escrevam.
Talvez não baste saber quem somos, reconhecer nossas dores, compreender nossos comportamentos e identificar aquilo que precisa mudar. Podemos ter consciência de tudo isso e, ainda assim, continuar vivendo exatamente da mesma maneira.
Porque perceber não é necessariamente transformar.
Há pessoas conscientes de suas prisões que continuam entregando as chaves aos outros.
Sabem que vivem para corresponder às expectativas alheias. Sabem que determinados caminhos já não fazem sentido. Sabem que algumas escolhas não lhes pertencem. Reconhecem seus medos, suas insatisfações e até aquilo que desejariam fazer diferente.
Mas continuam.
Nesse momento, a consciência tornou-se espectadora daquilo que já conseguiu enxergar.
Não basta acordar se continuamos vivendo como quem ainda dorme.
Autoria começa quando a consciência deixa de apenas observar e passa a participar.
Não significa controlar tudo aquilo que acontece. Existem circunstâncias que não escolhemos, perdas que não autorizamos, acontecimentos que não podemos impedir e páginas que a vida escreve sem pedir nossa permissão.
Mas uma história não é formada apenas pelo que acontece.
Também é formada pela maneira como respondemos ao que aconteceu.
Não somos autores de todos os acontecimentos, mas podemos assumir a autoria das respostas que damos a eles.
Talvez seja exatamente aí que o protagonismo deixe de ser discurso e se transforme em responsabilidade.
Assumir autoria não é acreditar que podemos tudo.
É parar de entregar aos outros a responsabilidade por aquilo que ainda podemos escolher.
Família influencia.
Sociedade influencia.
Passado influencia.
Medo influencia.
Circunstâncias influenciam.
Mas influência não deveria significar autoria definitiva.
Quando vivemos exclusivamente para atender às expectativas externas, podemos construir uma vida admirada por muitos e desconhecida por aquele que precisa vivê-la.
E existe uma diferença enorme entre ser aceito e pertencer a si mesmo.
Quem passa a vida tentando caber nas expectativas dos outros pode terminar sem espaço dentro da própria existência.
Por isso, consciência precisa produzir movimento.
Perceber.
Discernir.
Escolher.
Responsabilizar-se.
Agir.
Rever.
Transformar.
Talvez esse seja o caminho entre consciência e autoria.
Porque conhecer a própria história é importante, mas chega um momento em que precisamos decidir quem continuará segurando a caneta.
O passado?
O medo?
A necessidade de aprovação?
As expectativas?
Ou a consciência que finalmente compreendeu que também pode participar daquilo que ainda será escrito?
Consciência sem autoria é perceber a própria vida e continuar permitindo que outros a escrevam.
Autoria é diferente.
É olhar para uma história que nunca esteve completamente sob nosso controle e, mesmo assim, assumir responsabilidade pelas páginas que ainda podemos escrever.
Porque talvez protagonizar a própria existência não seja ocupar o papel principal diante dos outros.
É algo muito mais difícil:
deixar de ser coadjuvante diante de si mesmo.
Carlos Eduardo Balcarse
02 de setembro de 2026
TEMPO É VIDA
“Tempo é vida, pois nem todo dinheiro do mundo compra mais tempo.”
Existe uma contradição silenciosa sustentando quase toda a nossa existência:
vendemos tempo para ganhar dinheiro, mas nenhum dinheiro consegue comprar o tempo que vendemos.
Trabalhamos por hora.
Recebemos por mês.
Calculamos salários.
Negociamos valores.
Mas talvez tenhamos calculado tudo errado.
Porque o salário não paga apenas o nosso trabalho.
Paga uma parte da nossa vida.
Quando alguém diz: “meu salário é tanto”, talvez devesse perguntar:
quanto da minha vida estou entregando para recebê-lo?
Dinheiro se ganha.
Dinheiro se perde.
Dinheiro se recupera.
Tempo, não.
O dinheiro pode voltar para a conta.
O ontem não volta para o calendário.
E aqui começa o paradoxo:
passamos grande parte da vida tentando ganhar dinheiro para viver, enquanto gastamos a própria vida tentando ganhá-lo.
Ganhamos dinheiro perdendo tempo.
E podemos perder a vida acreditando que estamos ganhando.
Não se trata de condenar o dinheiro.
Precisamos dele.
Literalmente vendemos nosso tempo para sobreviver. Entregamos horas, dias, conhecimento, esforço, presença, corpo e mente em troca de recursos que nos permitem continuar existindo.
O problema não está em vender parte do tempo.
O problema começa quando vendemos tanto tempo para sobreviver que já não sobra vida para viver.
Talvez uma das maiores ilusões humanas seja chamar de “custo de vida” apenas aquilo que pagamos com dinheiro.
Existem coisas que custam dinheiro.
Outras custam tempo.
E algumas custam tanto tempo que, no final, custaram a própria vida.
Uma casa pode custar vinte anos.
Uma carreira pode custar trinta.
Uma ambição pode custar uma família.
Uma mágoa pode custar décadas.
Uma espera pode custar uma oportunidade.
E aquilo que aparentemente não tinha preço pode ter custado justamente aquilo que não tinha reposição.
Tempo é a moeda invisível da existência.
Talvez por isso seja tão fácil gastá-lo.
Não vemos o tempo saindo de nossas mãos.
Vemos o dinheiro saindo da conta, mas não vemos a vida saindo do corpo.
O relógio não marca apenas horas.
Marca ausências.
Cada minuto que chega traz uma possibilidade.
Cada minuto que passa leva uma impossibilidade.
Por isso, o tempo é estranho:
quando temos, não sabemos quanto temos.
Quando perdemos, descobrimos que não tínhamos tanto.
E quando percebemos seu verdadeiro valor, parte dele já virou passado.
Passamos anos dizendo:
“quando eu tiver dinheiro…”
“quando eu tiver tempo…”
“quando tudo melhorar…”
Mas talvez a pergunta seja outra:
quanto da vida estamos adiando enquanto esperamos começar a viver?
O futuro é o lugar onde depositamos quase tudo aquilo que não tivemos coragem de viver no presente.
Só existe um problema:
o futuro aceita depósitos, mas não oferece garantia de saque.
Acumulamos patrimônio imaginando segurança.
Mas ninguém acumula amanhã.
Podemos deixar dinheiro para nossos filhos.
Podemos deixar casas.
Empresas.
Livros.
Terras.
Investimentos.
Mas não podemos deixar para eles os nossos minutos não vividos.
Porque tempo não se transfere.
Não se herda.
Não se financia.
Não se parcela.
Não se estoca.
Tempo só se vive — ou se perde.
Talvez riqueza, então, precise ser repensada.
Rico não é apenas quem possui muito.
Talvez seja também quem ainda consegue possuir a si mesmo.
Quem ganha dinheiro sem perder completamente a vida.
Quem trabalha sem transformar toda a existência em expediente.
Quem entende que produzir é necessário, mas existir é anterior à produção.
Porque há pessoas com muito dinheiro e nenhum tempo.
E pessoas com algum tempo que passam a vida inteira tentando transformá-lo em dinheiro.
No final, ricos e pobres possuem uma conta que nenhum banco apresenta:
o saldo de vida.
E esse saldo diminui mesmo quando o patrimônio aumenta.
Essa talvez seja a conta mais cruel da existência:
podemos enriquecer enquanto empobrecemos de tempo.
Por isso, não pergunte apenas quanto você ganha.
Pergunte quanto de você custa aquilo que você ganha.
Não pergunte apenas quanto vale sua hora de trabalho.
Pergunte quanto vale uma hora da sua vida.
São perguntas parecidas.
Mas não são a mesma pergunta.
Uma calcula dinheiro.
A outra calcula existência.
E talvez cheguemos à conclusão mais incômoda:
não trabalhamos apenas para ganhar dinheiro.
Trocamos fragmentos irrepetíveis da nossa existência por dinheiro.
Portanto, escolha cuidadosamente aquilo pelo qual você aceita trocar seu tempo.
Porque dinheiro é uma moeda que carregamos.
Tempo é uma moeda que somos.
Quando gastamos dinheiro, temos menos dinheiro.
Quando gastamos tempo, temos menos nós.
E quando o último minuto chegar, talvez finalmente compreendamos aquilo que passamos a vida inteira tentando aprender:
não fomos proprietários do tempo.
Fomos passageiros dele.
O relógio nunca esteve contando as horas.
Estava descontando a vida.
Por isso digo:
“Tempo é vida, pois nem todo dinheiro do mundo compra mais tempo.”
E acrescento:
Não venda sua vida tão barato apenas porque decidiram pagar seu tempo por hora.
Dinheiro pode comprar quase tudo aquilo que existe ao nosso redor.
Mas não compra aquilo que já deixou de existir dentro do calendário.
Afinal,
podemos gastar a vida para ganhar dinheiro,
mas não podemos gastar dinheiro para ganhar outra vida.
E talvez a maior riqueza não seja ter dinheiro suficiente para comprar tudo o que desejamos.
Talvez seja perceber, antes que seja tarde demais, o que não deveríamos vender por dinheiro algum.
Carlos Eduardo Balcarse
02 de setembro de 2026
MÉTODO PROTAGONISTA: ASSUMA A AUTORIA DA SUA HISTÓRIA
Por Carlos Eduardo Balcarse
A vida não nos oferece o controle de todas as circunstâncias, mas isso não significa que estejamos condenados a ser meros espectadores da nossa própria existência.
Entre aquilo que nos acontece e aquilo que fazemos com o que nos acontece, existe um espaço de discernimento, consciência e possibilidades de resposta.
É nesse espaço que nasce o protagonismo.
Ser protagonista não significa acreditar que tudo depende exclusivamente de nós. Significa reconhecer os limites da realidade sem transformar esses limites em justificativas automáticas para a ausência de ação.
Não escolhemos todas as circunstâncias, mas podemos aprender a examinar nossas possibilidades de resposta diante delas.
A consciência nos permite perceber. O discernimento nos ajuda a examinar. A autoria consciente nos convoca a assumir a responsabilidade por aquilo que podemos realizar.
Foi a partir dessa compreensão que desenvolvi o Método PROTAGONISTA, uma proposta teórico-pedagógica e metodológica fundamentada na Autoria Consciente Situada (ACS).
O método articula autoliderança, discernimento, agência humana, autorregulação e responsabilidade proporcional, considerando que nossas possibilidades de ação são condicionadas pelas circunstâncias concretas em que vivemos.
Não se trata de prometer controle absoluto sobre a vida, mas de investigar como podemos reconhecer e construir respostas possíveis, conscientes e responsáveis.
Essa proposta integra meu projeto intelectual dedicado à consciência, ao discernimento e à autoria humana, estabelecendo também uma interface conceitual com o METADISCERN.
O protagonismo começa quando deixamos de confundir os limites da realidade com os limites das nossas possibilidades.
Não podemos escrever todas as páginas da nossa história, mas podemos aprender a assumir a autoria daquelas que ainda nos cabe escrever.
Afinal, consciência sem autoria é perceber a vida e permitir que outros a escrevam.
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📚 PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA
O artigo “Método protagonista: autoria consciente situada, arquitetura da resposta possível e agenda de validação”, de Carlos Eduardo Garcia Moreno Balcarse, foi publicado em 24 de setembro de 2026, na Revista JRG de Estudos Acadêmicos, volume IX, número 21.
A publicação apresenta a fundamentação conceitual do Método PROTAGONISTA e sua agenda de validação científica.
DOI: 10.55892/jrg.v9i21.3775
Artigo completo: https://doi.org/10.55892/jrg.v9i21.3775
Carlos Eduardo Balcarse
Escritor, pesquisador, professor e palestrante.
Palavras-chave: Método PROTAGONISTA; Carlos Eduardo Balcarse; Autoria Consciente Situada; autoliderança; protagonismo humano; discernimento; METADISCERN; responsabilidade proporcional; agência humana; desenvolvimento humano.
QUEM DECIDE POR VOCÊ QUANDO VOCÊ NÃO DECIDE?
Há pessoas que passam a vida inteira fazendo escolhas que nunca foram verdadeiramente suas. Reproduzem expectativas, obedecem aos próprios medos e confundem adaptação com liberdade.
O maior perigo não é alguém controlar sua vida. É você acreditar que está no controle enquanto apenas executa decisões que outros escreveram.
Consciência sem autoria é perceber a vida e permitir que outros a escrevam.
É sobre essa diferença entre existir, escolher e assumir a própria trajetória que desenvolvi minha pesquisa científica sobre o Método PROTAGONISTA.
Pensar por si mesmo não é pensar em si mesmo.
Carlos Eduardo Garcia Moreno Balcarse
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Escritor e Pesquisador
19 de outubro de 2026
VOCÊ ESTÁ COMPARANDO SUA VIDA COM UMA VITRINE
Nas redes sociais, quase tudo pode ser selecionado: a fotografia, o enquadramento, a legenda e o momento da publicação.
O que vemos é uma parte. Mas frequentemente comparamos essa parte com a totalidade da nossa existência.
Comparamos nossos bastidores com o palco dos outros.
E, nessa comparação desigual, até uma vida satisfatória pode parecer insuficiente.
A felicidade publicada não revela necessariamente a realidade vivida.
Isso não significa que toda demonstração de felicidade seja falsa. Significa apenas que uma publicação não oferece acesso completo à experiência de alguém.
Antes de desejar a vida que aparece na tela, convém lembrar que não conhecemos tudo aquilo que ficou fora dela.
Nem toda vida admirada é uma vida conhecida.
Carlos Eduardo Balcarse
31 de outubro de 2026
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-3484-6914
Pensadores são pessoas que dedicam a vida a refletir, questionar e criar teorias sobre a existência, a sociedade, a ciência e a moral.
Sou um bom pensador?
Bem essa é uma pergunta que instiga toda mente desafiadora, afinal..
o valor é ditado pela maioria, a sociedade dita o valor mesmo quando não há s for, é valor, caso contrário não é, no final tudo dependerá da decisão da maioria. É preciso muitos tomates para enfrentar essa maioria com garra.
A Vida Começa a Mudar Quando Você Decide Caminhar
Será que adianta continuar falando sobre caminhadas aos meus amigos, se muitos deles não fazem o menor esforço para começar? Essa pergunta já me passou pela cabeça inúmeras vezes. Entretanto, depois de tantos anos percorrendo caminhos, descobri que incentivar alguém a caminhar também é uma maneira de demonstrar amizade, carinho e preocupação com sua qualidade de vida.
Caminhar talvez seja uma das maneiras mais simples e gentis de cuidar do corpo e apaziguar a mente. Não exige grandes investimentos nem equipamentos sofisticados. Sabe o que é preciso para começar? Pernas, quando elas nos permitem, e vontade. E, para quem enfrenta limitações de mobilidade, existem outras maneiras de se movimentar e aproveitar o ar livre, respeitando as próprias possibilidades.
Há quem diga que até os mais lentos conseguem chegar longe, desde que não desistam. Eu acrescentaria que ninguém precisa caminhar depressa, muito menos competir com os outros. Basta substituir aquela velha promessa, "Amanhã eu começo", por uma decisão muito mais poderosa: "Hoje eu vou caminhar!"
Certa vez, enquanto pesquisava sobre os benefícios das caminhadas, encontrei uma reflexão que me chamou a atenção: a parte mais difícil de uma caminhada nem sempre é o percurso, mas o primeiro passo para fora de casa. E como isso é verdadeiro! Muitas vezes, inventamos desculpas antes mesmo de calçar os tênis. Entretanto, basta começar para perceber que alguma coisa muda dentro de nós. O corpo desperta, a respiração encontra seu ritmo, as preocupações perdem intensidade e a mente finalmente encontra espaço para respirar.
Hoje, depois de quinze anos de caminhadas e milhares de quilômetros percorridos, já não me preocupo tanto em bater recordes ou competir com alguém. Continuo gostando de grandes desafios, mas minha maior satisfação está na liberdade de caminhar, na alegria de contemplar a natureza e na certeza de que ainda tenho forças para seguir em frente. A cada caminhada, é como se eu lembrasse aos meus pés que eles conhecem o caminho e ao meu corpo que ele não nasceu para ficar parado.
Com o passar dos anos, percebi que o mundo se tornou mais leve aos meus olhos. Não porque os problemas tenham desaparecido, mas porque aprendi a enfrentá-los de outra maneira. As caminhadas mudaram minha vida, e mudaram para melhor. Ensinaram-me a ter paciência, respeitar meus limites, valorizar pequenas conquistas e compreender que a felicidade muitas vezes está nas coisas mais simples.
Além de proporcionar momentos agradáveis, caminhar regularmente traz inúmeros benefícios à saúde. Para muitos adultos, trinta minutos de caminhada moderada, cinco vezes por semana, já representam uma excelente contribuição para uma vida mais saudável. A atividade ajuda a melhorar a circulação sanguínea, controlar a pressão arterial, fortalecer músculos e ossos, auxiliar no controle do diabetes e do peso corporal, reduzir o estresse e a ansiedade, melhorar o sono e preservar a saúde do cérebro.
Mas existe um benefício que considero especialmente importante: caminhar nos devolve o prazer de estar vivos.
Eu me considero uma pessoa feliz por tudo aquilo que ainda consigo fazer. Quando me lembro do câncer que enfrentei, dos medos que precisei vencer e das incertezas que me acompanharam, compreendo o quanto as caminhadas foram importantes para reconstruir minha confiança. Não posso afirmar que tenham sido a única razão para minha recuperação, mas tenho a convicção de que contribuíram enormemente para minha qualidade de vida.
Houve um tempo em que eu temia o futuro. Hoje, prefiro caminhar em direção a ele.
Talvez seja por isso que continuo tentando convencer meus amigos a caminhar. Não quero transformá-los em atletas, muito menos levá-los a percorrer os mesmos quilômetros que percorro. Quero apenas que descubram o prazer de sair de casa, respirar um pouco de ar puro, contemplar a natureza e conversar sem a pressa que domina nossas vidas.
Costumo dizer que caminhar também é uma excelente oportunidade para colocar a conversa em dia. Afinal, muitos dos meus amigos adoram conversar, mas, quando os convido para uma caminhada, parece que suas pernas entram imediatamente em greve!
Já perdi a conta de quantas vezes fiz convites como estes:
— Bora dar uma volta no cerrado hoje, no fim da tarde? Precisamos colocar o papo em dia e arejar a cabeça!
— Vamos caminhar juntos? É muito mais agradável conversar sem pressa enquanto apreciamos a paisagem.
— Não precisa vestir roupa de atleta. Basta colocar um tênis confortável e ter vontade de sair de casa.
E, para aqueles que gostam de um bom café, tenho uma proposta quase irresistível:
— Que tal caminharmos quarenta minutinhos pelo cerrado e depois pararmos na padaria para tomar um café?
Aos amigos que enfrentam uma rotina pesada de trabalho, procuro lembrar que o corpo e a mente também precisam de descanso e movimento. Uma caminhada tranquila, depois de um dia cansativo, pode aliviar as tensões e recuperar o bom humor.
Entretanto, com o tempo, aprendi uma lição importante: ninguém pode caminhar pelo outro, assim como ninguém pode viver a vida do outro. Cada pessoa tem seu ritmo, suas limitações e seu momento de despertar para a importância de cuidar da saúde. Insistir demais pode transformar um convite carinhoso numa obrigação desagradável.
Por isso, quando percebo que meus amigos não estão interessados, respeito suas decisões. Para alguns, digo:
— Tranquilo! Se um dia vocês resolverem dar uma volta, me avisem. Terei o maior prazer em acompanhá-los!
Para outros:
— Tudo bem! Vou esticar as pernas sozinho. Depois a gente conversa!
E, para aqueles com quem tenho mais intimidade, não perco a oportunidade de brincar:
— Tudo bem, vou sozinho mesmo! Mas, se encontrar alguma onça ou algum extraterrestre nas trilhas, prometo avisar vocês!
Afinal, caminhar também precisa ter bom humor. E quem me acompanha sabe que minhas jornadas já me proporcionaram encontros surpreendentes com animais, paisagens inesquecíveis e situações que renderam boas histórias.
Mas que caminhar faz bem, ah, isso faz!
Sinto uma enorme satisfação em compartilhar meus vídeos, fotografias e textos sobre os caminhos que percorro. Não faço isso para exibir os quilômetros caminhados, mas para mostrar que a vida oferece experiências maravilhosas àqueles que se dispõem a descobri-las.
Uma das minhas maiores alegrias acontece quando pessoas que nem conheço entram em contato comigo para pedir informações sobre algum caminho. Algumas contam que assistiram aos meus vídeos, leram minhas histórias e decidiram conhecer lugares por onde passei. Nessas horas, percebo que meus passos podem estar incentivando outros passos. E isso, para mim, vale mais do que qualquer recorde.
Sei perfeitamente que nem todos poderão caminhar quarenta, cinquenta ou cem quilômetros. Aliás, ninguém precisa fazer isso para desfrutar dos benefícios de uma boa caminhada. Cinco minutos, dez minutos, meia hora ou uma volta pelo quarteirão podem representar uma grande conquista para quem estava acostumado a permanecer parado. O importante é começar, respeitando a saúde e os próprios limites.
Às vezes, fico imaginando quantas pessoas deixam de contemplar um belo pôr do sol, ouvir o canto dos pássaros, sentir o perfume da terra molhada ou descobrir uma paisagem encantadora simplesmente porque ainda não tiveram coragem de dar o primeiro passo.
A natureza não cobra ingresso para nos oferecer seus espetáculos. O vento não pergunta nossa idade, os pássaros não querem saber nossa profissão e o sol nasce todos os dias sem exigir que sejamos atletas. Basta estarmos dispostos a aproveitar esses pequenos presentes da vida.
Aos meus amigos que ainda resistem aos meus convites, deixo uma reflexão: não esperem que a idade avance, que a saúde reclame ou que o médico recomende uma mudança de hábitos para descobrir o prazer de caminhar. Sempre que possível, comecem enquanto têm disposição e condições para isso.
E não se preocupem comigo. Continuarei caminhando, com ou sem companhia, porque descobri que os caminhos também são meus grandes amigos. Neles encontro silêncio quando preciso refletir, respostas quando estou inquieto e motivos para agradecer a Deus por mais um dia de vida.
Se algum dos meus textos ou vídeos conseguir despertar em uma única pessoa a vontade de se levantar do sofá, calçar um tênis e sair para uma caminhada, já terei encontrado mais uma razão para continuar compartilhando minhas experiências.
Porque a maior vitória de um peregrino não está apenas nos quilômetros que ele percorre, mas também nos passos que consegue inspirar outras pessoas a dar.
E, se você chegou até aqui, permita-me fazer um último convite: não deixe para amanhã a caminhada que pode começar hoje. Não importa a distância, a velocidade ou o destino. O importante é dar uma oportunidade ao seu corpo, à sua mente e à sua vida.
Afinal, quem começa caminhando para cuidar da saúde pode acabar descobrindo, pelo caminho, uma nova maneira de ser feliz.
Bora caminhar!
Peregrino Nino Carneiro
Atos 20:24
Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.
O verdadeiro sucesso não é preservar a vida, mas terminar a carreira que Jesus nos entregou.
Na nossa vida pessoal, os parentes, e os amigos, devem ser, sempre, a nossa prioridade. É ali que cultivamos o afeto, a lealdade, e a nossa verdadeira base...... ❤️
Mas, na vida profissional, o princípio que deve reinar, com firmeza, é a equidade. Tratamento justo, respeito ao mérito, e total profissionalismo, para todos. ⚖️💼
Porque andamos por fé e não por vista.
Em meio às incertezas e desafios da vida, somos convidados a caminhar não pelo que vemos, mas pela fé no Deus que nos guia. Quando a estrada parece turva e o futuro incerto lembre-se confiar em Deus é o melhor caminho. Ele conhece cada passo e está com você em cada momento.
Hoje escolho andar pela fé...
Escolha você também E Deixe que a confiança em Suas promessas ilumine seu caminho, mesmo quando a visão estiver embaçada.
Que o Senhor da Vida liberte os que trilham as Estradas da Saudade calçados com as Sandálias do Remorso!
Amém!
Liberta, Senhor, onde dói!
Arrebentai as Sandálias do Remorso de todos que revisitam as lembranças dos que partiram antes de nós!
Saudades, sim — Tristeza, não!
Amém!?!
Que o Senhor da Vida, em Sua infinita Misericórdia, nos ensine a distinguir a saudade que nos aproxima do amor da culpa que nos aprisiona às ruínas do passado.
Porque a saudade, por si só, já é estrada longa o bastante — feita de memórias, silêncios e ausências que, embora invisíveis aos olhos, continuam aprendendo a conversar conosco nas profundezas da alma.
É estrada que não se percorre com os pés, mas com o coração; não se mede em quilômetros, mas na intensidade dos afetos que sobreviveram à despedida.
Nela, cada lembrança é uma estação, cada fotografia é uma janela para o tempo e cada silêncio guarda a eloquência de tudo aquilo que a morte interrompeu, mas não conseguiu apagar.
Afinal, morrer é deixar de habitar o tempo dos nossos encontros, mas não necessariamente abandonar o território das nossas permanências.
Há pessoas que partem do mundo sem partir inteiramente de nós.
Permanecem nos gestos que aprendemos, nas palavras que repetimos, nos conselhos que, inesperadamente, reaparecem em nossa consciência, na maneira como abraçamos alguém porque um dia fomos abraçados por elas.
Permanecem, sobretudo, naquilo que nos tornamos depois de tê-las conhecido.
E talvez seja essa uma das mais belas contradições da existência: há ausências que continuam produzindo presenças, assim como há presenças que, mesmo estando ao nosso lado, jamais conseguem alcançar a profundidade de uma ausência amada.
Entretanto, nem todos percorrem as Estradas da Saudade com a serenidade de quem reconhece a eternidade dos afetos.
Há quem caminhe por elas ferindo os próprios pés, calçado com as Sandálias do Remorso.
São almas que transformam lembranças em tribunais, recordações em sentenças e despedidas em processos intermináveis, nos quais o coração assume, simultaneamente, os papéis de acusador, réu e carrasco.
Revisitam o passado não para reencontrar o amor, mas para interrogar a própria consciência.
Perguntam-se, repetidamente, por que não disseram aquela palavra, por que adiaram aquele abraço, por que permitiram que uma discussão terminasse sem reconciliação, por que não perceberam que determinada visita poderia ter sido a última, que determinado sorriso poderia ter sido a derradeira imagem, que determinado adeus talvez já estivesse acontecendo sem que ninguém soubesse.
E assim, sem perceber, sofrem não apenas pela pessoa que perderam, mas também pela pessoa que acreditam ter sido quando ainda podiam amá-la de outras maneiras.
É uma segunda perda: além de perderem quem partiu, perdem também a possibilidade de aceitar a própria humanidade.
Porque existe uma dor que nasce da ausência e outra que nasce da pretensão de que deveríamos ter sido perfeitos diante dela.
A primeira é consequência do amor.
A segunda, muitas vezes, é consequência de uma exigência impossível.
Não fomos oniscientes quando amamos.
Não conhecíamos o último capítulo enquanto ainda escrevíamos a história.
Não sabíamos que aquele encontro seria o último, que aquela conversa seria a derradeira, que aquele cotidiano aparentemente banal se transformaria, um dia, em relíquia.
Vivíamos.
E viver é também não saber.
Eis uma das grandes fragilidades da condição humana: somente depois que o tempo fecha determinadas portas é que compreendemos a dimensão das oportunidades que passaram por elas.
A consciência, então, volta ao passado munida de uma sabedoria que não possuía no momento dos acontecimentos.
Reescreve diálogos, aperfeiçoa respostas, inventa atitudes e imagina reconciliações possíveis.
Mas o passado não pode ser corrigido pela tortura do presente.
Podemos compreendê-lo, reinterpretá-lo, aprender com ele e, quando necessário, reparar no presente aquilo que ainda estiver ao nosso alcance.
O que não podemos é exigir de quem fomos a lucidez que somente adquirimos depois.
A maturidade consiste, também, em perdoar a versão de nós mesmos que ainda não sabia o que sabemos hoje.
Isso não significa negar os erros, banalizar as omissões ou transformar o perdão em desculpa para a indiferença.
Significa reconhecer que a responsabilidade é capaz de produzir transformação, enquanto a culpa, quando convertida em morada permanente, pode apenas prolongar o sofrimento.
Há arrependimentos que nos despertam para a necessidade de amar melhor os que permanecem.
Outros, porém, mantêm-nos acorrentados aos que já partiram, como se o sofrimento pudesse funcionar como uma moeda de troca com a eternidade.
Como se sofrer bastante fosse capaz de desfazer o que fizemos.
Como se a nossa dor pudesse retroceder o relógio.
Como se a autopunição fosse uma forma de ressuscitar o instante perdido.
Mas infelizmente não é.
Nenhuma lágrima, por mais sincera, devolve o tempo que passou.
Nenhuma noite em claro reabre, por si só, uma porta que a morte fechou.
Nenhuma sentença pronunciada contra nós mesmos modifica o que aconteceu.
O remorso não ressuscita os mortos; apenas corre o risco de sepultar os vivos dentro de si mesmos.
E é precisamente nesse ponto que a fé se encontra com a filosofia, que a teologia se aproxima da experiência humana e que a esperança começa a sussurrar onde a razão já reconheceu os seus limites.
A fé não nos promete uma existência sem despedidas.
A filosofia não nos oferece o poder de abolir a finitude.
O amor não nos concede imunidade contra a perda.
Mas todos esses caminhos, cada qual à sua maneira, podem nos conduzir a uma compreensão muito fundamental: a impossibilidade de mudar o passado não nos condena à impossibilidade de encontrar a paz.
Na tradição cristã, o perdão não é a declaração de que nada aconteceu, mas a possibilidade de que aquilo que aconteceu não tenha a última palavra sobre a nossa existência.
A graça divina não apaga necessariamente as marcas da história; ela pode transformar a maneira como essas marcas habitam a alma.
Deus não precisa que nos destruamos para reconhecer a sinceridade do nosso arrependimento.
O sofrimento não é um tributo que precisamos pagar para merecer Misericórdia.
Se cremos em um Deus que conhece a fragilidade humana, devemos também considerar que Ele conhece as limitações com que amamos, as palavras que não conseguimos pronunciar, os medos que nos silenciaram e as circunstâncias que, tantas vezes, nos impediram de agir como gostaríamos ou deveríamos.
O Senhor da Vida conhece o que fizemos, mas conhece também o que não soubemos fazer.
Conhece as intenções que ninguém percebeu, as lágrimas que escondemos, as batalhas interiores que jamais conseguimos traduzir em palavras.
E talvez seja justamente por isso que a misericórdia divina não deva ser confundida com uma nova acusação.
O Deus que acolhe o arrependido não o chama à autodestruição, mas à conversão do coração; não o convida a permanecer eternamente diante dos escombros, mas a aprender a construir, com a experiência adquirida, uma existência mais consciente, compassiva e amorosa.
Se o arrependimento nos ensina a amar melhor, ele pode ser caminho de transformação.
Se nos obriga a odiar indefinidamente a nós mesmos, deixa de ser ponte para o aprendizado e se converte em prisão.
Por isso, Senhor, liberta-nos!
Liberta-nos da ilusão de que a dor prolongada é prova de amor.
Liberta-nos da crença de que precisamos permanecer infelizes para demonstrar que não esquecemos.
Liberta-nos da ideia de que seguir vivendo significa abandonar aqueles que partiram.
Porque não é a tristeza que preserva os mortos em nossa memória, assim como não é a alegria que os expulsa do nosso coração.
Podemos sorrir e sentir saudade.
Podemos celebrar a vida e chorar diante de uma fotografia.
Podemos agradecer pelos dias vividos e lamentar os dias que não chegaram.
Podemos reconhecer que houve imperfeições sem permitir que elas destruam a beleza de uma história inteira.
A alma humana não precisa escolher entre a gratidão e o lamento, entre a memória e o recomeço, entre a lágrima e o sorriso.
Há espaço para tudo isso dentro de um coração que aprende a amar sem exigir que o passado seja diferente do que foi.
Saudades, sim — Tristeza, não!?!
Mas não porque a tristeza seja proibida, vergonhosa ou incompatível com a fé.
A tristeza também merece acolhimento.
O luto tem seus próprios ritmos, e nenhuma consciência pode ser obrigada a atravessá-lo segundo o calendário de outras pessoas.
Há dias em que a saudade chega de mansinho, quase como uma visita querida.
Em outros, chega metendo os pés na porta, invadindo a casa inteira, ocupando os cômodos da memória e nos faz sentir que o mundo prosseguiu depressa demais para quem ainda está aprendendo a conviver com a ausência.
Não há pecado em chorar.
Até o Filho do Homem chorou.
Não há fraqueza em sentir falta.
Não há falta de fé em admitir que determinadas despedidas doem mais do que conseguimos explicar.
A questão não é eliminar a tristeza, mas impedir que ela seja transformada em condenação.
Não é exigir que a saudade deixe de doer, mas permitir que, com o tempo e o acolhimento necessário, a dor encontre outros modos de existir.
Não é esquecer quem partiu, mas aprender a recordá-lo sem converter cada lembrança em uma nova punição.
Porque a saudade pode continuar sendo profunda sem precisar ser destrutiva.
E o amor pode permanecer vivo sem exigir que a nossa vida seja interrompida junto com a vida de quem perdemos.
Descalçar as Sandálias do Remorso é, portanto, um gesto de coragem espiritual.
É admitir que somos seres finitos, falíveis e incompletos.
É reconhecer que nem sempre dissemos tudo o que deveríamos, que nem sempre compreendemos tudo o que vivemos e que nem sempre soubemos oferecer o amor na linguagem de que o outro precisava.
É aceitar que algumas histórias terminaram sem a conversa que mereciam, que certas reconciliações não aconteceram e que algumas perguntas talvez permaneçam sem resposta.
Mas é também compreender que uma história de amor não pode ser reduzida aos seus últimos minutos, assim como uma vida inteira não deve ser julgada exclusivamente pelas suas últimas páginas.
Houve um tempo antes da despedida.
Houve encontros, risos, cuidados, aprendizados, cumplicidades e gestos que talvez tenham parecido pequenos demais para serem lembrados, mas que hoje sustentam a grandeza da memória.
Houve amor, mesmo quando imperfeito.
Houve presença, mesmo quando insuficiente.
Houve vida, mesmo quando não sabíamos que estávamos diante de algo irrepetível.
E é injusto permitir que aquilo que faltou apague tudo aquilo que existiu.
Talvez o perdão de que precisamos não seja apenas aquele que esperamos receber de quem já não pode nos responder.
Talvez precisemos também conceder a nós mesmos a liberdade de continuar vivendo.
Não para absolver irresponsabilidades, mas para reconhecer que o aprendizado precisa de futuro.
Não para negar o passado, mas para impedir que ele se transforme em uma prisão permanente.
Não para diminuir a importância de quem partiu, mas para honrar essa importância por meio da maneira como escolhemos viver daqui em diante.
Afinal, se aqueles que amamos deixaram marcas em nós, que essas marcas se tornem sementes de bondade, e não instrumentos de sofrimento.
Se nos ensinaram a cuidar, que cuidemos.
Se nos ensinaram a perdoar, que perdoemos.
Se nos ensinaram a rir, que não tenhamos vergonha de sorrir novamente.
Se nos ensinaram a importância de uma presença, que estejamos mais presentes na vida daqueles que ainda caminham ao nosso lado.
Talvez uma das formas mais bonitas de honrar os mortos seja permitir que aquilo que recebemos deles continue produzindo vida em nós.
Que a memória se transforme em responsabilidade amorosa.
Que a ausência se converta em sensibilidade diante da dor alheia.
Que a despedida nos ensine a não adiar indefinidamente as palavras necessárias.
Que a experiência da perda nos torne menos arrogantes diante do tempo e mais generosos diante das imperfeições humanas.
E que o amor, agora amadurecido pela consciência da finitude, encontre novas maneiras de se manifestar.
Porque a morte pode interromper uma conversa, mas não precisa interromper tudo o que aprendemos com ela.
Pode encerrar uma convivência, mas não consegue determinar, sozinha, o significado de uma existência.
Pode separar corpos, mas não transforma automaticamente em nada aquilo que, durante a vida, se tornou parte da nossa história.
Quanto ao mistério do que existe depois da morte, a fé pode contemplar a promessa da ressurreição e da vida eterna; a razão, por sua vez, reconhece os limites do que pode demonstrar.
Entre a esperança e o mistério, que permaneça a dignidade de viver o presente com amor.
E talvez seja nessa fronteira entre o que sabemos, o que cremos e o que esperamos que a saudade revele uma de suas dimensões mais profundas: ela nos recorda que amar alguém é aceitar a possibilidade de perder sua presença sem precisar negar o valor de sua passagem por nossa vida.
Por isso, quando voltarmos a percorrer as Estradas da Saudade, que não o façamos como prisioneiros de um passado que já não pode ser alterado.
Que caminhemos como guardiões de uma história que merece ser lembrada por inteiro e sem remorso.
Que levemos conosco a gratidão pelo que recebemos, a humildade diante do que erramos e a serenidade de reconhecer que nenhuma vida humana é perfeita o bastante para não deixar lacunas, nem imperfeita o bastante para que todas as suas belezas sejam anuladas por elas.
Que as fotografias não sejam apenas testemunhas do que perdemos, mas também provas silenciosas do que tivemos.
Que os nomes pronunciados com saudade não nos façam esquecer os nomes daqueles que ainda precisam ouvir de nós uma palavra de carinho.
Que as lágrimas encontrem consolo, que as lembranças encontrem abrigo e que os corações cansados de se acusar descubram, finalmente, a possibilidade de descansar.
E, quando a saudade apertar os nossos passos, que nos lembremos de que não precisamos caminhar depressa, tampouco fingir que a estrada é fácil.
Precisamos apenas aprender a caminhar sem transformar cada pedra em castigo e cada lembrança em sentença.
Porque a saudade é estrada longa o bastante.
Não precisamos acrescentar-lhe os espinhos do remorso.
Que o Senhor da Vida nos conceda a graça de recordar sem nos destruir, de chorar sem nos condenar, de reconhecer os erros sem nos tornarmos prisioneiros deles e de amar os que partiram sem abandonar aqueles que ainda permanecem.
Que o perdão seja o nosso calçado.
Que a gratidão seja a nossa bússola.
Que a esperança seja a luz que ilumina os trechos mais escuros do caminho.
E que a misericórdia divina nos recorde, sempre que a culpa tentar falar mais alto, que somos mais do que os nossos erros, maiores do que os nossos arrependimentos e capazes de aprender mesmo com aquilo que já não podemos modificar.
Que a memória seja altar de gratidão, não tribunal de condenação.
Que a Saudade seja ponte entre o amor vivido e o amor que ainda podemos oferecer.
Que o passado permaneça como mestre, mas nunca mais como carcereiro.
E que a vida, apesar das ausências, continue sendo recebida como dádiva — não porque a dor deixou de existir, mas porque o amor ainda encontra motivos para florescer.
Saudades, sim — porque amar é também guardar a presença de quem partiu na intimidade de tudo o que nos tornou melhores.
Tristeza, não como sentença perpétua — porque nenhuma ausência deve exigir que renunciemos à vida que ainda nos cabe viver.
E remorso, Senhor, somente enquanto puder nos ensinar alguma coisa; jamais como uma condenação eterna contra a nossa própria humanidade.
Que saibamos, enfim, despedir-nos daquilo que não pode mais ser mudado sem nos despedirmos do amor que permanece.
Que tenhamos a sabedoria de aceitar o irreversível, a coragem de transformar o possível e a fé necessária para entregar ao mistério divino aquilo que ultrapassa a nossa compreensão.
E, quando chegar a nossa vez de partir, que as pessoas que nos amaram possam recordar-nos com lágrimas, se precisarem chorar, mas também com sorrisos, se a memória lhes devolver a alegria.
Que não se sintam obrigadas a sofrer para provar que nos amaram.
Que não carreguem como penitência aquilo que a nossa própria imperfeição humana não nos permitiu resolver.
Que encontrem, na lembrança do amor que compartilhamos, a liberdade de continuar vivendo.
Porque o amor verdadeiro não deveria transformar a ausência em cárcere, mas em uma presença interior que nos encoraja a seguir.
E, se existe uma oração capaz de resumir tudo o que aqui desejamos, talvez seja esta:
Senhor da Vida, não nos permitais confundir saudade com penitência, memória com condenação, arrependimento com autodestruição ou amor com sofrimento obrigatório.
Ensinai-nos a aceitar que nem todas as histórias terminam como gostaríamos, que nem todas as palavras chegam a ser pronunciadas e que nem todas as despedidas nos concedem o privilégio de um último abraço.
Dai-nos, porém, a graça de reconhecer que a impossibilidade de mudar o ontem não nos retira a oportunidade de santificar o hoje com gestos de amor.
E, quando nossos pés se cansarem nas Estradas da Saudade, arrebentai, Senhor, as Sandálias do Remorso!
Deixai-nos caminhar descalços sobre a verdade da nossa humanidade, amparados pela misericórdia, guiados pelo perdão e sustentados pela esperança.
Que a saudade nos faça recordar.
Que o amor nos faça agradecer.
Que o perdão nos permita descansar.
E que a vida, mesmo atravessada pela dor das despedidas, continue a florescer em nós.
Porque quem partiu não precisa que morramos um pouco a cada lembrança.
Quem partiu merece que honremos o amor que vivemos — e quem ficou merece a oportunidade de continuar vivendo.
Que as Estradas da Saudade permaneçam abertas à memória, mas que nelas já não caminhemos calçados com as Sandálias do Remorso.
Que caminhemos com os pés livres, a consciência amadurecida, o coração reconciliado com a própria imperfeição e a alma disponível para amar novamente.
E que, ao final de cada oração, de cada lembrança e de cada lágrima, possamos encontrar não a obrigação de esquecer, mas a liberdade de recordar em paz.
Amém!?!
Asas do amor (Texto poetico)
Numa vida repleta de grandezas, que não a materialidade das
coisas, vãs são todas as outras que aprisionam sua liberdade,
podando-lhes as asas para que se esqueçam de poder voar.
Quando você ama, não deseja podar asas, mas cuidar destas;
traçar novos voos e, junto, também voar. Se, no momento do
voar, esquecem-te, após ajudar a cuidar das asas, não é amor
que tens - então, é o momento de voar sozinho mais uma vez,
e mais quantas vezes não valorizarem e cuidarem também
de vossas asas.
Amar é isso; deixar voar e voar junto na mesma direção.
Há, com toda certeza um pouco de sonho e um pouco de
poesia neste escrevinhar, mas nada absurdo para quem
consegue simplesmente enxergar e ver além de
suas próprias asas.
Marcelo HB
À Sombra do Sol
Enquanto alguns passam a vida lamentando as falhas dos pais,
outros escolhem superá-los. A grande diferença é que os
primeiros viverão sob a sombra do passado, enquanto os
segundos se transformarão em seus próprios sóis...
Ninguém escapa da própria raiz,
Carregamos a história que o sangue diz.
Mas o destino não é o que herdamos,
É o caminho que nós mesmos traçamos.
Enquanto alguns passam a vida a lamentar,
As falhas dos pais que não puderam mudar,
Outros escolhem a dor de crescer,
E vão além do que viram nascer.
A grande diferença habita no fim:
Uns vivem na sombra, trancados em si,
Reflexos eternos do que os gerou.
Os outros são sóis que a vida acendeu,
Brilhando na luz que o peito escolheu.
Estar à sombra do sol é entender,
Que a própria luz faz a sombra nascer.
Não é apagar o passado ou a história,
É caminhar sob a própria vitória.
Marcelo HB
Entre a Vida e a Morte, O Tempo
O mundo gira em seu fluxo constante,
Vidas se apagam, histórias se vão,
A existência termina num instante,
Outras continuama pulsar como coração.
É uma verdade de peso profundo,
Desconfortável de se carregar,
Deixaremos, um dia, este mundo,
Sem aviso, sem tempo para adiar.
Que a urgência não traga o lamento,
Mas abra os olhos para o agora,
Viver cada dia, cada mês, cada momento,
Antes que a luz se despeça e vá embora.
Na pressa dos anos que o tempo consome,
O segredo mais puro e real consiste:
Ver a grandeza no que não tem nome,
Pois no mais simples, a vida reside.
Marcelo HB
Do Verso á Fé
"Deixe de lado certas convicções, pense sobre a sua vida, livre-se das coisas materiais, acolha aquilo que não é visível, mas é guiado pelo Amor Perfeito — depois que os mares resvalarem em sua face suave e marcada pelo tempo, aceite o que Ele tem reservado
para você; Luz!"
Sabedoria Cristã
Mãe dos Aflitos
"Quando a tristeza invade, escurece o meu dia
Quando a vida se aperta e o medo irradia
Curvo o meu corpo, minh'alma Te reverencia
Fecho os meus olhos e rezo uma Ave Maria
Já não represo as lágrimas do meu olhar
Sinto o perfume de rosas neste lugar
Mãe dos aflitos, uno o meu grito
Há tantas preces aqui
Vida doçura na hora escura
Nós recorremos a Ti
Cheia de graça, vida, esperança
Ouro dos que nada têm"
Bruno Faglion
Rosa de Saron
A Precariedade da Vida Vista
Precisamos pausar de tempos em tempos,
silenciar os passos, desacelerar a mente,
para contemplar o que nos cerca e
o que há além.
É nesse instante que a vida se revela
divina, generosa e surpreendente.
Muitas vezes o peito desanima
diante dos gestos ou silêncios alheios,
frutos de julgamentos apressados
que fazemos.
Esquecemos, porém, que o outro é mistério:
apenas uma onda na imensidão do oceano,
nunca o mar inteiro.
O segredo está em desenhar o hoje,
viver o agora com entrega e propósito,
sem o peso dos planos longos do amanhã.
Afinal, nossa permanência aqui é breve,
uma passagem bonita, mas passageira.
O valor real habita no cotidiano,
na tentativa sincera de acolher cada dia.
A vida guarda uma imensidão discreta,
uma grandiosidade que raramente notamos,
mas que exige de nós o milagre
de aprender a olhá-la e senti-la por inteiro.
Marcelo Hypolito Botelho
Os Sete Dons
"Tenhamos sabedoria para enxergar a
vida sob a perspectiva de Deus
e de amar o que vem do Alto.
Sejamos inteligentes para penetrarmos
mais profundamente nas verdades da
fé e no sentido dos mistérios divinos,
Escutemos o conselho que é o discernimento
que ilumina a consciência para escolher o
caminho correto e agir segundo
a vontade de Deus, não a o do mundo.
Fortaleçamos a coragem e a força interior
para permanecermos fiéis diante das
provações, sofrimentos ou perseguições.
Utilizemos a ciência para reconhecermos
a presença de Deus na criação e a lidar
retamente com as coisas do mundo,
inundando-nos a partir do espírito.
Cultivemos a piedade que inspira a
relação filial e afetuosa com Deus,
além de amor pela Igreja e pelo próximo.
Temamos a Deus, mas não um
medo servil, mas um profundo respeito,
reverência e o receio de afastar-se
do amor divino e tudo que Ele esbarra.
Sabedoria, Entendimento, Conselho,
Fortaleza, Ciência, Piedade e o
Temor a Deus - dons do Espírito Santo."
Sabedoria Cristã
...Busquemos!
E então, ela se virou e sussurrou:
- Foi a partir daquele momento que a vida começou a morrer; ali nasceu o rumor, o barulho que tudo mata.
Silêncio!
Eu peço silêncio, nada mais!
E com os olhos acesos de presságio, continuou a sussurrar com a voz doce e rouca:
- Ali, naquele instante em que a vida começou a desvanecer, o rumor cresceu, e com ele, o barulho que devora a alma.
Silêncio!
Eu imploro por silêncio!
Antes que até o silêncio morra também.
Eu sou Simplesmente, Bruxa, a que pressente
o fim e o início e os transforma em feitiço.
Ela se virou devagar e, num sopro de despedida, completou:
- Foi a partir daquele momento que a vida começou a morrer em mim, um rumor discreto, um barulho que foi apagando o encanto das coisas.
Silêncio!
Eu só peço silêncio.
Porque às vezes, o silêncio é o último feitiço
de quem amou demais.
Assim fui, assim sou e assim serei, nos milênios dos milênios, no tempo dos tempos.
Sempre e eternamente.
Simplesmente, Bruxa, a bruxa que ama o silêncio.
👉 Parte do conto "Simplesmente bruxa"
✍@MiriamDaCosta
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