Textos que Falem eu Nao Vivo sem Voce
PELOS CORTES DA VIDA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
É que a gente se foge de tanto fugir;
já não pode com nada, mas quer se poder;
nem quer mais se fundir ao que a vida forjou,
mas no fundo se toca; está toda fundida...
Nada pode salvar a quem o mundo pode,
pois explode no abismo de quem foi podido,
foi fugido e não foge do alvo da fuga
cuja rota lhe foge no fim da ilusão...
Quando a gente se arvora o mundo vem podar
pelos cortes da vida, pois a vida é poda;
uma roda cortante que o mundo não cega...
Ninguém pode poder o que pode sem fim,
apesar de fundida sei que a gente foge
pelo sim, pelo não, de ser o que não é...
A POESIA É O POETA
Demétrio sena - Magé
Nenhum poeta em essência; em essência, mesmo, e não por formalidade ou ofício deve temer nem aceitar a ideia de fazer poesia errada. Não existe poesia errada, seja ela soneto, haicai, trova, terceto, aldravia, o chamado poema livre ou marginal.
Que nenhum pretenso deus das letras confunda o verso clássico de pé quebrado com o não verso. Sonetos fora de métrica, mesmo assim serão poesias, e vale o mesmo para qualquer outra modalidade fixa que por ventura fugiu à regra ou à ditadura. E ninguém confunda versos brancos com versos em branco.
Poesia é sentimento, e não se pode afirmar que alguém errou na expressão do que sentiu. Só quem sente sabe a forma, profundidade ou fôrma do que sente. Além do mais, nenhum ser humano deixa de ser humano por haver quebrado a perna, o braço, a costela. Ninguém é alienígena porque nasceu diferente.
A cada dia que vivo e faço versos, reconheço mais e mais a poesia como legítima expressão das emoções humanas...
... Ao mesmo tempo, deploro as academias de letras tão semelhantes às de musculação que induzem ao uso de silicone ou anabolizante, pela propaganda enganosa de que apenas os corpos mais esculpidos correspondem à ideia de saúde perfeita.
GOSTEI DE VIVER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não é de morrer que tenho medo. É de não nascer de novo. Temo a treva do vácuo e da desexistência. Os domínios do nada. O fim que chega e pronto. Reina por todo o nunca. Tenho medo é do nunca mais. Do para sempre nunca mais.
E ao supor levemente que não nascerei de novo, dói a ideia de não repetir os amores vividos, as amizades conquistadas, os laços extras de afeto que fiz mundo adentro e me ajudaram a construir uma riqueza íntima que nada substitui.
Gostei de viver. Sofreria de novo as dores passadas. Os medos, angústias e privações. Todas as perdas, frustrações e perigos. Os baques. Os tombos. Desafetos. Desertos e solidões. Teria os mesmos vícios; defeitos; estranhezas.
Meu único pedido é ter de volta minha mãe. Meus oito irmãos. Minhas duas filhas. Os afetos reais e sinceros das pessoas especiais que jamais cruzaram meu caminho. Ficaram. Moraram em minha vida. possuíram meu coração.
SOLITÁRIA SAUDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando vejo a saudade que não sentes,
ou a tua nenhuma nostalgia,
minha mente reage ao coração
e resfria os sentidos do meu ser...
Mas a falsa frieza não perdura,
pois o sol do que sinto atinge a neve;
faz a greve do afeto em desalinho
derreter os chavões de minha mágoa...
Eternizo a saudade solitária,
meus ensaios de orgulho são só fases,
frágeis quases que nunca se completam...
Restituo meus olhos pro vazio;
fio bamba da fé na eternidade;
linha tênue de horizonte sem luz...
FELIZ ANO TODO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Peço a todos, licença para não gostar, nem mesmo agora, no calor das obrigações do fim de ano, daquela pessoa que o meu coração ainda considera indigna de afeto, respeito e admiração. Verdade não dá trégua. Sinceridade não tira férias. E se de repente me deu aquele desejo de perdoar ou ser perdoado, peço também licença para fazê-lo depois. Bem depois da fragilidade a que somos expostos no fim do ano, por influência das propagandas e as mensagens institucionais específicas destes dias.
Depois, sim. Caso ainda sinta esse desejo de me aproximar ou reaproximar de quem quer que seja, quero fazê-lo despojado; sem emoções obrigatórias e qualquer selo de religiosidade sincera ou hipócrita. Que seja mesmo eu, aquela pessoa prostrada ou ereta confessando as falhas e pedindo perdão ou praticando a grandeza de perdoar; o que é bem mais fácil, porque nos deixa bem "na foto". Seja qual for minha posição, ela só há de ser autêntica ou pelo menos confiável, se o meu caráter não estiver bêbado nem hipnotizado pela ocasião maciça. Mais ainda, se a minha temperança, boa vontade ou repentino amor ao desafeto secular não tiver montado suas bases em conveniências de última hora.
Quem espera qualquer atitude nobre de minha parte, pegue a senha e fique na fila. Detesto correr o risco de fazer firulas ou dar espetáculos ocasionais que a médio prazo poderão perder consistência e gerar interrogações. Tenho, sim, velhos arrependimentos que pretendo expurgar um dia, com pedidos de perdão, porque me sinto mesmo culpado, e até alguns perdões para distribuir, pois algumas pessoas, mesmo poucas, também me devem esse pedido e até já o fizeram. Só falta minha parte. Não sou bom em ser bom. Seja como for, nada será no fim do ano. Nem na páscoa ou no dia do perdão. Muito menos no dia da bandeira.
Quanto aos mais, aqueles que já desfrutam do que há de melhor ou menos pior em mim, quero e deixarei carimbados os meus sinceros desejos de um feliz ano todo e um próspero todo dia. Aos familiares e amigos queridos, a reiteração do amor, o respeito e admiração. Aos desafetos, meu nada. Nem ódio nem amor. Nem isto nem aquilo. Somente o lamento por não sabermos, de ambos os lados, o que estamos eventualmente perdendo, quiçá evitando, com a distância do próximo.
FICAR MADURO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Caminhei por estradas que não eram minhas
e voltei muitas vezes pra recomeçar,
tive tempo a ganhar porque me dei um tempo
cada vez que perdi a noção do meu rumo...
Foram tantos os passos que passei pra trás
onde vi que o abismo estava logo à frente,
minha mente calou meu coração afoito
que saía do peito pra pulsar na boca...
Repensei as certezas que tive do incerto,
cheguei perto e senti que a distância pertence
às quimeras criadas por nosso capricho...
Só se fica maduro pra saber que o fim
é um sim que dizemos ao não das conquistas,
quando a vida revela que só se revive...
PLANTIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não existe uma vida sem alguns buracos;
um enredo perfeito, real nem escrito;
carnaval sem seus cacos de cascos e copos
que nos contam passagens de glória e tragédia...
Mesmo assim pinto rumos pra vê-los melhor
ou invento brinquedos de agir e pensar,
faço versos de amor e decanto as maldades;
elas ficam curáveis em minha esperança...
É a vida que tenho pra chamar de minha;
que me deu de presente, passado e futuro
a magia do escuro transformado em luz...
Os buracos são férteis e planto mais vida;
uma vida sem vida não vale seu tempo
e quem planta se apronta para renascer...
ESPERANÇA BLINDADA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Emoção pessoal não se rende às baratas
e as traças não comem os planos de vida;
nenhum verme de ofício virá me tomar
o que tenho aqui dentro por lei natural...
Cuspirei marimbondos pra todos os lados;
vencerei esses ratos de todos os tronos;
esses donos pretensos do que não é seu;
inclusive os mistérios do mundo e dos tempos...
Quero ter liberdade pra ir e voltar,
para ser e pensar como vem das entranhas
o que foi desenhado pelo coração...
Gafanhotos não podem devorar meus sonhos;
fiz um trato comigo e pretendo cumpri-lo;
não há grilo mais forte que minha esperança...
O SONHO NÃO ACABOU
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Com tristeza profunda, vejo que todo sonho acabou. Minha esperança tardia se desfaz em sombra, fumaça e decepção... deixa de ser esperança.
Cabisbaixo, faço meia volta. Se não há mais sonho, nada resta. Não há nada que adoce a constatação deste momento sem sentido. Nem existe o que açucare a queda vertiginosa do prazer com que cheguei aqui.
Mas o mundo é fantástico. A vida é inesperada. O tempo surpreende o destino em questão de segundos, e muitas vezes o põe a favor das nossas expectativas mais frustradas.
Foi assim comigo. Eu já sumia na esquina, quando meu coração acelerou. Emocionou-se com uma voz amiga e solidária que rompeu meus ouvidos e se aninhou bem fundo.
Meu amigo há anos, o confeiteiro Nando anunciava que nem todo sonho acabara. Havia três, ainda frescos, guardados especialmente para mim.
IMORALISTA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sou do tipo indecente,
que não quer ser imoral.
Nem perder a decência.
Ou do tipo imoral,
que não quer ser indecente...
nem perder a moral...
ou ser amoral...
Não sonho ter a indecência
de moralizar o mundo,
sendo assim como sou...
humano em essência.
Deixo longe de mim
a moralidade inglória
de ser o mural,
o moral
e a moral da história.
AMOR VERBAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Prestar favores que não demandam sacrifício... fazer gentilezas que não pesam... oferecer solidariedade ativa que não traz prejuízo, são atitudes básicas... o mínimo que devemos fazer por quem podemos alcançar. Mesmo assim, classificamos tudo isso como dar moleza e falamos cada vez mais em amor ao próximo.
GENTE VIVA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Gente viva me atrai porque tem luz,
não há peso nos traços, na expressão,
seu olhar não tem sombra nem capuz
ou algemas; ranger de assombração...
Muita gente se priva da emoção
de sonhar e se abrir ao que a seduz,
tem um tom de flagelo e contrição
como quem se corrói ao pé da cruz...
Quero laços com gente sem amarras;
que se atira, se doa, mostra garras,
não parece viver atrás da porta...
Nunca mais interajo com granito;
quem não tem atitude; só tem rito;
já me canso de gente meio morta...
RESPEITO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não acho que deva conter ou omitir minhas convicções e preferências como forma de respeito a quem pensa e sente diferente, sem a mesma obrigação de omitir e conter. A melhor forma de respeito ao próximo é o reflexo do respeito que o indivíduo tem por si mesmo.
AS DEZ MAIS DO PRECONCEITO VELADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
... Não tenho preconceito, desde que, eles lá, eu cá... vai que alguém ache que também sou.
... De minha parte, nenhum preconceito contra negros; no entanto, não quero ter filhos que mais tarde serão vítimas de preconceito.
... O problema com sua religião não sou eu; são a minha família e meus irmãos de fé.
... Gosto dela e não vejo nenhum problema em sua deficiência física; o problema, mesmo, é o que podem pensar de mim.
... Olhe, querida; eu a conheço e sei do seu caráter, mas nenhum rapaz direito vai levá-la a sério com esses cabelos vermelhos.
... Veja bem; não tenho nada contra piercings e tatuagens; mas você acha que alguma empresa vai querer contratá-lo assim?
... Nunca tive nenhum problema em conviver com pessoas dessa classe, porém você sabe; os outros falam.
... Desculpe, amiga; se você sair por aí com essa roupa, a galera vai rir geral.
... Sei que abraço não transmite aids, mas quem me vir assim tão íntimo poderá pensar que também tenho.
... Se eu ficar de amizade com gente do mundo, vai pegar mal pra mim diante da igreja.
... ...
Os outros... os outros. Terceirizar seus preconceitos é o golpe mais baixo dos preconceituosos.
INEGOCIÁVEL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho mais a querer do que todas as coisas;
coisas não me completam; são coisas e só;
são do pó do qual vem esta coisa tocável
que reveste o que diz que viver é bem mais...
Há um mundo sem ferro, argamassa e tesouros,
uma vida sem sedas, motores, status,
onde os ratos não podem roer o meu sonho
mais real do que tudo que se possa ter...
Mergulhei bem profundo pra chegar aqui,
pra saber como nunca se sabe de nada,
mas o pingo no i mora nesta ciência...
Hoje busco somente o que as coisas não têm;
ser alguém que se preza sem peso em moeda
e não vende as verdades nas quais acredita...
MINHAS ASAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Perco minhas certezas e não sinto falta,
cada dia me supre de novas surpresas,
desde quando abri mão de querer tudo à mão
ou criar uma pauta pra reger a vida...
Desaprendo as verdades que viraram placas;
hoje volto no tempo e reciclo saudades;
o depois está posto no próprio depois,
para ser nada menos do que já será...
Quanto ao mais não preciso saber de meus pés,
minhas asas me levam por qualquer espaço
que se abra no tempo e no sonho disperso...
Neste meu descompasso aprendi a morrer
sem o medo que rege uma vida murada,
uma saga iludida por vontades prévias...
PODERES ALÉM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Acho às vezes que ateu não é termo pra mim;
nem qualquer nominata que se predisponha;
sou apenas alguém que nem sonha que sabe
quem é Deus, o que faz, o que aprova e condena...
Creio até que meus textos não são heresias,
mas apenas delírios, licenças de vate,
são aquelas poesias que vagam sem rumo
e não acham a rota pro planeta céu...
Não consigo alcançar esse Deus dissecado;
sobre o qual sabem tudo, apesar de ser Deus;
Criador recriado pelas criaturas...
É um Deus do tamanho das conveniências
de ciências, de credos e todos poderes
que terão mais poderes quanto mais o usem...
DOR DE NÃO DOER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
No lugar da saudade não sentida
um abismo de sonhos defasados,
uma vida sem nada pra lembrar
do passado que nunca foi presente...
A saudade que tenho é da saudade
que jamais alcançou meu coração,
é daquela emoção que faz chorar
pelas voltas em tempos bem vividos...
Fico triste porque faltam tristezas,
dói sentir que não há por que sentir
que a beleza de outrora está no vento...
Não há como viver sem a magia
de se ter nostalgia pra voar
lá nos tempos que a vida fez valer...
LONGA ESPERA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Qualquer dia em que tenhas excesso de tempo
e não tenhas mais nada pra fazer da vida,
nem aquelas saídas pras compras de sempre
ou a festa importante pra manter status...
Quando fores alguém sem nenhum compromisso,
sem um nome a zelar, uma imagem, um hobby,
uma dessas bobagens de muita importância
que te servem de lobby nos vãos sociais...
Só então te recordes e voltes pra mim,
venhas livre de amarras, cabrestos e ranços,
recomeces do fim de nem sabes o que...
Continuo no rastro de minha soltura
e te quero comigo, mas te quero inteira,
minha beira de abismo te chama pro sonho...
ARMA BRANCA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já depois de uma vida não sabes quem sou;
tens um olho em meus olhos, outro no talvez,
quando chego e me dou às tuas atenções
e não conto até três para fechar os olhos...
Vejo quanto esbanjei o meu tempo em afetos;
fui solícito, exposto e desarmei meu ser,
para ser transparente, suave, sem véu
onde os vetos do mundo faziam fumaça...
Lá se vai uma vida e não me gabaritas;
na verdade nem tiras uma nota honrada;
quase nada conheces de minhas questões...
A minh´alma; meu corpo; tudo quanto expunha
para ser o teu livro de leitura franca
se tornou arma branca e me feres de mim...
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