Textos de Saudade de Falecido
"Talvez eu já tenha sentido falta, mas nunca saudade.
Sentir falta é ausência, saudade é um futuro não realizado, com nossa metade.
Eu amo tanto aquela mulher, que até evito pensá-la, pois ao fazê-lo, meu peito arde.
Eu achava que só sentiria falta de você no fim de tarde.
Mas olha eu aqui, pela madrugada, lembrando você, minha beldade.
Já disse que te amo, já disse te quero, já disse que almejo você como mãe dos meus filhos, me chame de tolo a sábio, mas nunca covarde.
Dizem que incomensurável é o amor, então por que o meu para ti nada vale?
Meu coração pertence a ti, o desavergonhado, sarnento, algoz deste que lhe escreve, não bate.
Ele ladra, late.
Jogado na rua, tentando apagar toda memória sua, umas e outras rogando-me pragas, “cafajeste”, “traste”.
Deus, que fase!
É uma miríade de sensações, sinto seu cheiro ao vento, o apertar do abraço, te vejo em cada penumbra que envolve meu eu no fim de tarde.
Te sinto em todo perfume, te vejo em todo rosto, que parecem-me ser um todo de sua face.
Sinto você no frio da chuva, e no Sol do meio-dia, que me assola a fronte, também esta la você, minha beldade.
Eu sinto tanto ao lhe sentir, descrever-lhe, escrever-te, que chega a faltar-me ao âmago serenidade.
Amada minha, sinto tanto sua falta, indago-me: Será saudade?"
"'Amor, estou morrendo de saudades.'
Ah, meu bem, saudade foi feita pra ser sentida.
O engano foi feito para aperfeiçoar a vida.
Ledo engano deste que há muito lhe ama, achei que você fosse feita pra ser minha.
Infelizmente, meu amor, o seu beijo, seu abraço, a nudez do seu corpo serão incapazes de curar as minhas feridas.
Mas sou grato pela tentativa.
Mas é o seu 'morrer' que me drena a vida.
Sei que não tem inocência, és um todo de malícia.
Lascívia.
Pronta para novamente destruir a minha vida.
Agora vens e me dizes algo que há muito eu queria.
'Amor, estou morrendo de saudades.'
Quisera eu ser capaz de novamente afogar-me em seu poço de leviandades e resolver a minha vida.
Eu sei, você sabe, perdão não cura ferida.
E a saudade, amor, foi feita para ser sentida..."
Só Falta Você
A saudade de um amor que me deixou
O eco das risadas ainda pela minha casa
Seus presentes de crochê na minha gaveta
Então por que você não me diz como é que eu faço pra te esquecer,
Se tudo o que sobrou ainda me lembra você?
Mesmo com a casa estando vazia,
Todo o meu ser só consegue dizer o quanto sinto falta de você.
Há mais de um mês que eu não sei o que é dormir direito,
Deito do lado contrário da cama, tentando arrumar um jeito.
Já fiz de tudo pra mudar o meu pensamento,
Mas não se apaga um sentimento assim no vento.
Eu tentei te esquecer, fiz de tudo pra mudar,
Mas quanto mais eu tento, mais eu quero te buscar.
Você se foi, mas o meu peito não entendeu...
Que o amor que era nosso, agora é só meu.
Então por que você não me diz como é que eu faço pra te esquecer,
Se tudo o que sobrou ainda me lembra você?
Mesmo com a casa estando vazia,
Todo o meu ser só consegue dizer o quanto sinto falta de você...
Falta de você...
Só falta você.
Saudade do que foi vivido
Sinto saudade não do que faltou,
mas do que existiu inteiro,
do riso que aconteceu sem esforço,
do tempo em que o corpo não doía por lembrar.
É uma saudade estranha,
porque não pede volta,
só reconhecimento.
Ela diz: isso foi real, isso me atravessou.
Tenho saudade do jeito que eu era
quando aquilo cabia em mim,
quando o mundo não pesava tanto
e amar não exigia sobrevivência.
Não é ausência.
É memória viva.
Algo que passou, mas não morreu.
Algo que vivi, e por isso, deixou marca.
Saudade é isso:
não um buraco,
mas uma cicatriz quente
provando que houve vida ali.
San Telmo
Tenho saudade de San Telmo
não como lembrança bonita,
mas como falta física.
Daquelas que apertam o peito sem pedir licença.
Saudade das ruas gastas,
do chão que já ouviu passos demais
e ainda assim sustenta quem passa.
Ali, o tempo não corre. Ele observa.
Sinto falta do cheiro antigo das casas,
do tango escapando pelas esquinas
como quem não quer ser esquecido.
Em San Telmo, até o silêncio tem memória.
Ali eu era parte do cenário,
não visita.
O bairro me reconhecia
antes mesmo de eu dizer meu nome.
Hoje carrego San Telmo dentro,
feito ferida que não infecciona,
mas também não fecha.
É casa que virou ausência.
Não dói por ser passado.
Dói porque ainda é meu.
Há quem olhe de longe
não por saudade,
mas por inquietação.
Curiosidade não é cuidado.
É a pergunta que se faz
sem coragem de escutar a resposta.
Quem observa em silêncio
costuma carregar dúvidas
que não sustenta em voz alta.
Espia para confirmar
se a escolha feita
ainda se justifica.
Mas olhar não é presença.
E visitar não é permanecer.
Há histórias que não aceitam plateia
de quem escolheu não ficar.
Algumas portas seguem visíveis
não por convite,
mas por transparência.
Outras jamais se reabrem,
mesmo quando vistas.
E se alguém entende ao ler,
entende porque sabe.
Curiosidade reconhece
aquilo que não foi resolvido.
Ainda sinto saudade daquela criança.
Da pureza de acreditar que ser bom bastava.
De vestir uma capa imaginária
e sair pelo mundo acreditando
que ninguém deveria ficar sozinho.
Hoje eu sei que heróis também cansam.
E talvez eu não queira mais salvar ninguém.
Talvez eu só queira, pela primeira vez,
que alguém olhe para mim
e diga:
“Agora deixa.
Dessa vez,
eu salvo você.”
Saudade fazem lágrimas rolar
Beijam lábios, sentem o paladar
E o sabor da saudade
Misturam-se nas voltas do tempo
Viajam nas ondas do vento
Onde giram pensamentos
Por tantos vividos momentos
Para alguns tem breve sentido
Outros emoções febris
Lembranças tristes ou alegres
Mas o que se apura de verdade
É o tempo que não tem idade
Mesmo que entre lágrimas e risos
Para alguns saudade, poucas ou demais
Dos tempos que não voltam nunca, jamais!
Tão somente restam saudade!
Que o Senhor da Vida liberte os que trilham as Estradas da Saudade calçados com as Sandálias do Remorso!
Amém!
Liberta, Senhor!
Arrebentai as Sandálias do Remorso de todos que revisitam as lembranças dos que partiram antes de nós!
Saudades, sim — Tristeza, não!
Amém!?!
Porque a Saudade, por si só, já é estrada longa o bastante — feita de Memórias, Silêncios e Ausências que aprendem a conversar conosco.
Mas há quem caminhe por ela ferindo os próprios pés, calçado com as sandálias do arrependimento.
São passos, às vezes, demasiadamente pesados, que machucam o coração a cada lembrança do que não foi dito, do abraço adiado, da reconciliação interrompida...
No entanto, a verdadeira cura começa quando entendemos que o amor não termina com a partida — apenas muda de endereço.
E quem parte não deseja nos ver presos ao que faltou, mas gratos pelo que foi vivido.
Descalçar o remorso é um gesto sagrado: é permitir que a saudade volte a ser caminho de amor e não de castigo.
Que possamos, então, revisitar nossas lembranças com a graça de quem sabe que o perdão é o único calçado capaz de levar a alma em paz, sobretudo pelas estradas pavimentadas pela Saudade.
Amém!
Quando eu me calar, eu sei que o mundo não sentirá saudade da minha voz, mas se alguém sentir, que se contente com ela.
Sei que o mundo seguirá em frente — como sempre seguiu — indiferente à ausência da minha voz.
Não porque ela não tenha existido, mas porque os ruídos do mundo, muito raramente, o deixam perceber silêncios que não gritam por atenção.
Ocupado demais com os próprios ecos, ele não notará a falta de uma voz tão insignificante que nunca quis ser multidão.
E está tudo bem.
Porque quando eu me calar, talvez não seja por ausência de palavras, mas por excesso de lucidez.
Há momentos em que falar já não acrescenta, explicar cansa e gritar não cura…
Então o silêncio deixa de ser fuga e passa a ser escolha.
Nem toda ausência precisa virar ruído.
E nem todo silêncio é pedido de aplauso.
Se alguém sentir saudade, que a sinta por inteiro, sem pressa de transformá-la em cobrança.
Saudade não exige devolução, não pede palco e nem reclama resposta.
Ela apenas existe — como prova de que algo foi dito, vivido ou sentido no tempo certo.
Ainda assim, se alguém sentí-la, que não lamente.
Que se contente com ela.
E que guarde essa voz como quem guarda um copo d’água no deserto: não para exibir, mas para lembrá-la.
Porque há vozes que não foram feitas para ecoar em multidões, e sim para alcançar um coração de cada vez.
O silêncio, quando escolhido, não é derrota nem esquecimento.
É o berço do descanso da alma…
O lugar onde a palavra aprende a ter peso justamente por não ser dita.
É a forma mais honesta de permanecer inteiro quando as palavras já não alcançam.
E se restar alguém que sinta, que se contente com o sentir.
Porque há afetos que não precisam de voz para continuar verdadeiros — sobrevivem, intactos, exatamente no espaço onde o silêncio começa.
Saudade dos bons e velhos tempos em que quase todos queriam — e se atreviam — a ser diferentes uns dos outros.
Havia uma coragem deveras silenciosa em não caber nos moldes.
As pessoas ousavam ter opiniões impopulares, gostos estranhos, sonhos improváveis.
Erravam com a própria assinatura.
Discordavam sem medo e sem culpa — olhando nos olhos.
Não precisavam de plateia para existir, nem de aplausos para sustentar suas convicções.
E muito menos subir o tom para tentar sustentar uma ideia.
Hoje, a pressa por pertencimento parece ter substituído o desejo de identidade.
A originalidade virou risco; a repetição, estratégia.
Ser diferente, que antes era um ato quase instintivo de afirmação, passou a ser cuidadosamente calculado para não desagradar o rebanho — ainda que cada um jure ser pastor de si mesmo.
Talvez o medo de ficar só tenha nos ensinado a falar em coro.
Talvez a avalanche de vitrines e vozes tenha nos convencido de que é mais seguro ecoar do que criar.
Mas há um preço muito alto nessa homogeneização voluntária: quando todos repetem, ninguém realmente diz; quando todos performam, poucos vivem.
Sentir saudade daquele tempo é, no fundo, sentir saudade de uma liberdade mais bruta, menos polida e menos aprovada.
Uma liberdade que permitia ser estranho sem ter que pedir desculpas.
Que entendia que a verdadeira diversidade não nasce de discursos ensaiados, mas da coragem nua e crua de sustentar a própria diferença.
Porque, no fim, não há nada mais semelhante do que pessoas tentando, desesperadamente, parecer iguais.
Os que sacrificam demais o presente para viver o futuro, chegam nele com saudade da saúde que não aproveitaram no passado.
Quem negligencia o presente para viver o futuro costuma acreditar que está fazendo um investimento muito seguro.
Troca horas de sono por promessas, adia encontros por metas, empurra o cuidado com o corpo para depois da próxima conquista.
Vivem como se a vida fosse um rascunho — como se o agora fosse apenas um corredor apertado que precisa ser atravessado às pressas para, enfim, chegar ao grande salão do “um dia”.
Mas o futuro tem um hábito curioso: ele chega.
E quando chega, não traz de volta as madrugadas mal dormidas, as refeições engolidas às pressas, os abraços adiados, os sinais ignorados do próprio corpo.
Ele chega cobrando juros silenciosos — nas dores crônicas, no cansaço que não passa, na energia que já não acompanha os sonhos.
Há uma ironia delicada nisso tudo: trabalhamos para garantir dias melhores e, no processo, entregamos os dias que já eram bons.
Buscamos segurança e acumulamos ausência.
Queremos estabilidade e perdemos vitalidade.
E quando finalmente alcançamos o futuro tão esperado, às vezes ele nos encontra com a saúde fragilizada, e uma saudade imensa do tempo em que podíamos ter vivido com mais equilíbrio.
O presente não é inimigo do futuro.
Ele é a matéria-prima dele.
É no agora que o corpo se fortalece ou se desgasta, que a mente respira ou se sobrecarrega, que a alma floresce ou se cala.
Não há amanhã saudável construído sobre um hoje negligenciado.
Talvez a sabedoria não seja abandonar os planos, mas aprender a não se abandonar enquanto os constrói.
Porque sucesso algum compensa o arrependimento de ter tratado a própria saúde como algo descartável.
E não há futuro tão próspero que substitua o privilégio de estar inteiro — física, mental e espiritualmente — na única linha do tempo que realmente nos pertence: o agora.
O melhor dia para se viver é hoje.
Não é a saudade comum das horas mortas,
Nem a dor previsível que o tempo traz.
É algo maior que habita em mim, e me devora,
Um fantasma de vida que não me deixa em paz.
Existe um mistério além do meu próprio peito,
Algo que sobrevive e pulsa no ar,
Enquanto eu me perco no labirinto imperfeito
De contar as horas sem te tocar.
O dia amanhece como uma sentença fria:
Saber que não terei o calor do teu corpo ao meu lado,
Que tua respiração mansa não vai embalar o meu dia,
E teu sorriso... Ah, teu sorriso estará guardado
Em algum lugar distante do meu alcance,
Deixando minha retina em um eclipse forçado.
Isto não cabe no molde estreito do dicionário,
Palavra nenhuma traduz a forma como me desfaço.
É um flagelo sem nome, um hábito diário,
Uma auto-tortura tecida em cada espaço.
É existir sabendo que parte de mim está em ti,
E que sem o teu toque, sou só a sobra do que sou.
Saudade de você
É estranho sentir saudade
de alguém que ainda está tão perto,
mas que já mora tão fundo em mim.
Às vezes, não é a distância que faz falta...
é o seu jeito,
a sua voz,
a paz que existe quando você está.
E então percebo
que saudade não é apenas querer alguém por perto.
É carregar sua presença
mesmo quando você não está.
É fechar os olhos
e encontrar você
onde ninguém mais consegue chegar.
Talvez seja isso que você fez comigo...
Sem perceber,
deixou um pouco de você em mim.
E agora,
onde quer que eu esteja,
sempre existe um lugar
onde você está.
Sinais do Silêncio
Ele, também poderia se retratar – entrar em contato, dizer que a saudade consumiu os seus dias. Que o seu corpo sentiu a mesma intensidade que o meu. Dizer que tudo não passou de um mal-entendido, explicar as suas razões, de ter sumido, talvez deixar clara a situação.
Desmontar toda essa confusão e revelar o que se passa dentro do seu coração. Esses mal-entendidos poderiam ser esclarecidos. Eu poderia tentar entendê-lo. Mostrar que tudo o que se passou foi intenso, sublime. Mostrar que fui importante.
Entendo que talvez o sentimento seja apenas de minha parte. Mas então, porque há invasão em meus pensamentos? Invasão em meus dias ternos e serenos? Tudo vira uma revolução, uma guerra interior, quando, sem permissão, ele vem - sem ser convidado.
Há pendências batendo à porta. Esse estranho caminho que me conduz por encruzilhadas desconhecidas, me mantém em alerta.
Os sinais que a vida dá são claros. Dizem tudo o que eu preciso saber. Mostram caminhos.
Rita Padoin
Escritora
AMAMOS, MESMO SABENDO QUE UM DIA SERÁ SAUDADE
Talvez uma das maiores coragens humanas seja amar sabendo que podemos perder. Sabemos disso desde o princípio, embora quase nunca tenhamos coragem de dizer em voz alta. Quem chega pode partir. Quem abraçamos hoje talvez amanhã exista apenas na memória. A voz que agora escutamos poderá um dia transformar-se em lembrança, e aquele rosto que conhecemos de olhos fechados talvez passe a habitar somente o território silencioso da saudade. Mesmo assim, amamos.
E talvez seja justamente nisso que o amor revele sua grandeza.
Porque amar nunca foi possuir. Possuir é desejar permanência; amar é compreender a impermanência e, ainda assim, permanecer enquanto for possível. Há uma espécie de loucura consciente no amor: entregamos partes de nós a pessoas que o tempo não prometeu conservar. Construímos casas sabendo que envelhecerão, fazemos planos sabendo que a vida poderá interrompê-los, criamos lembranças sabendo que algumas delas um dia doerão. Beijamos como se houvesse eternidade, embora saibamos que somos feitos de tempo.
E por que fazemos isso?
Porque talvez o contrário da perda não seja a permanência. Talvez seja nunca ter amado.
Quem tenta proteger-se de toda perda precisa proteger-se também de todo vínculo. Para jamais sentir saudade, seria necessário jamais ter alguém de quem sentir falta. Para nunca sofrer uma despedida, seria preciso nunca experimentar verdadeiramente um encontro. Para impedir que o coração se parta, teríamos que impedir também que ele se abrisse. E que espécie de vida seria essa?
Talvez seja por isso que o amor seja tão profundamente humano. Ele não exige garantias para existir. Ama-se sem contrato com o amanhã. Ama-se uma mãe sabendo, ainda que não queiramos pensar nisso, que um dia seu abraço poderá nos faltar. Ama-se um companheiro sabendo que nenhuma promessa pode derrotar completamente o tempo. Amam-se os filhos sabendo que eles crescerão, partirão e construirão caminhos onde talvez já não sejamos presença cotidiana. Amam-se amigos sabendo que a vida espalha pessoas por cidades, distâncias e destinos diferentes. Ainda assim, continuamos dizendo: fique. Venha. Sente-se ao meu lado. Conte-me sobre seu dia.
Isso é extraordinário.
Talvez Viktor Frankl estivesse certo ao perceber no amor uma das grandes possibilidades de sentido da existência. E talvez C. S. Lewis também compreendesse que amar nos torna vulneráveis justamente porque aquilo que realmente importa pode ferir-nos quando desaparece. Não existe amor profundo completamente protegido da dor.
Por isso não considero a saudade uma inimiga do amor.
A saudade é uma de suas consequências.
Só sentimos profundamente a ausência daquilo que um dia teve presença dentro de nós.
E há algo ainda mais difícil de aceitar: às vezes perderemos tudo.
Perderemos juventude, lugares, objetos, certezas, pessoas. Um dia outros entrarão nas casas onde vivemos. Nossos passos desaparecerão dos corredores. Nossos nomes serão pronunciados cada vez menos. O tempo continuará fazendo aquilo que sempre fez: passando.
Mas existe uma pergunta que o tempo não consegue responder por nós:
enquanto tivemos, nós amamos?
Talvez essa seja uma das poucas perguntas verdadeiramente importantes.
Não quanto acumulamos.
Não quanto conseguimos preservar.
Não quantas vezes vencemos.
Mas quanto estivemos presentes enquanto aquilo que amávamos ainda estava diante de nós.
Porque existe uma tragédia maior do que perder: perceber tarde demais que tivemos alguém ao nosso lado e não soubemos estar ali. Guardamos palavras para depois. Adiamos abraços. Economizamos “eu te amo”. Deixamos para amanhã uma conversa que pertencia a hoje, como se tivéssemos recebido alguma garantia secreta de que o amanhã nos seria concedido.
Não recebemos.
E talvez seja justamente por isso que o amor seja urgente.
Não uma urgência desesperada, mas consciente. A consciência de olhar demoradamente para quem amamos. De escutar um pouco mais. De perdoar quando for possível. De dizer aquilo que precisa ser dito enquanto ainda existem ouvidos para ouvir. De abraçar enquanto ainda existem braços capazes de nos devolver o abraço.
Amar é aceitar silenciosamente uma verdade terrível e maravilhosa:
isto pode acabar.
E, em vez de fugir por causa disso, aproximar-se ainda mais.
Talvez a grandeza do amor não esteja em vencer o tempo.
Talvez esteja em dar sentido ao tempo que nos foi dado.
Porque no final talvez percamos muitas coisas que julgávamos nossas.
Mas aquilo que verdadeiramente amamos terá participado daquilo que nos tornamos.
E então compreenderemos que algumas pessoas podem partir de nossas mãos sem jamais partir completamente de nossa existência.
Elas permanecem na maneira como falamos, nas coisas que aprendemos, nos gestos que repetimos sem perceber, nas histórias que contamos, nas músicas que ainda nos comovem, nas palavras que herdamos e até naquele silêncio inexplicável que às vezes chega quando uma lembrança atravessa o coração.
Talvez seja isso que reste quando tudo parece perdido.
Não a posse.
Não a presença.
Mas a transformação.
Amamos alguém e nunca mais somos exatamente a mesma pessoa.
Por isso continuamos amando, mesmo sabendo que um dia poderemos perder aquilo que amamos.
Porque a alternativa seria atravessar esta breve existência intactos, protegidos e vazios.
E talvez a maior derrota de uma vida não seja terminar com o coração marcado pelas pessoas que amamos.
Talvez seja chegar ao fim com o coração perfeitamente inteiro porque nunca tivemos coragem de entregá-lo.
"Pais são abraços que permanecem mesmo quando os braços já não alcançam.
Na saudade, descobrimos que cada lembrança é gratidão;no silêncio, entendemos que não há arrependimento, apenas o eco de um amor eterno.
Ser filho é carregar no coração o abraço que nunca se desfaz."
— Roberto Ikeda
Quando a distância é longa, a saudade é cada vez mais curta
E no coração, um nó que não desata.
A mente viaja, a alma se acalma.
E no silêncio, um nome se multiplica.
A cada dia, um pouco mais perto
do momento em que vou tentar te esquecer.
A ansiedade aperta, o tempo acelera os dias.
E a saudade, um fogo que arde e não sacia.
Mas na memória, um sorriso.
E a esperança de um flerte se avança.
E mesmo sufocado, um brilho se acende.
É a certeza de que o amor não se rende.
(Saul Beleza)
Nem imagina o estrondo que saudade faz
Ecoa no peito, sem parar
Eu aqui com meus madorno, sonhos repentinos
Vendo tua imagem, sem te encontrar
A distância é um abismo, que não se cruza
Só resta a memória, e a vontade de voltar
Mas por agora, só resta sonhar
Com o reencontro, e o abraço que vai durar.
(Saul Beleza)
Sou uma hospedaria de quartos vazios
Onde a saudade é a única hóspede
Enche o vazio com lembranças, suspiros
E o silêncio é o único som que ecoa
Os quartos, antes cheios de vida e amor
Agora são túmulos de sonhos e promessas
A espera é a única companhia
E a saudade, a única que nunca vai embora.
(Saul Beleza)
