Textos de Humildade
A rainha
Conta-se a lenda de uma rainha que viveu num país além-mar há muitos séculos. Sempre coberta de jóias e adornos preciosos que enfeitavam sua vestimenta valiosa, ela não media esforços para atormentar seus servos em prol do aumento da produtividade para saciar seus desejos de ostentar ainda mais a riqueza, ser admirada por todos e tornar-se um exemplo, embora o povo sequer conhecesse o sabor do pão que, em enormes recipientes, eram jogados no lixo todos os dias daquele castelo em que a rainha vivia e de onde raramente saía.
- Nada de útil esse povo pode oferecer-me além do ouro e da seda - dizia ela - para que possa ser dado o tratamento que eu, majestade, mereço. Muitos têm que sofrer para que poucos, como eu, desfrutem do prazer de viver. Essa é a lei! Tenho tudo que preciso: jóias, sedas e um mundo de facilidade e felicidade por isso.
Certa noite, enquanto todos dormiam, um de seus servos bateu à porta de seu aposento e deixou uma carta que dizia:
"Vossa majestade, por favor, com todo seu conhecimento e poder, peço que dê ao povo o que é do povo." Surpresa, a rainha ordenou que os servos trabalhassem mais uma hora por dia e aumentou os impostos da população.
Aproximadamente quinze dias depois, novamente outra carta fora deixada com os mesmos dizeres. A rainha, dessa vez, dobrou a sanção imposta aos servos e ao povo. Assim, passaram-se dois meses; cartas seguidas do aumento de horas e impostos, até que um dia a rainha subitamente sentiu-se mal, sendo constatado por médicos que não resistiria muitos dias devido à sua gravíssima condição.
Em seu leito, reuniu os servos e perguntou quem, durante aqueles dias, deixara cartas solicitando para dar ao povo o que é do povo, bem como o que deveria ser dado. Um dos servos tomou a dianteira do grupo e disse:
"Majestade, sempre acreditei que o que torna um homem rico e um exemplo de vida é o seu trabalho honesto, o reconhecimento de seu esforço e a dedicação com amor àqueles que o cercam. As jóias, os tecidos, nada disso levaremos em nossa trajetória. Gostaria apenas que vossa majestade desse ao povo o que é do povo: respeito enquanto ser humano, admiração enquanto trabalhador e amor como um irmão, pois somente isso nos faz crescer e nos tornarmos admirados, além de ser tudo o que realmente precisamos na vida para alcançarmos a felicidade".
Então, a rainha quase sem forças entregou a ele sua coroa dizendo em tom baixo de voz: "Irmão, vos faço meu sucessor, pois demonstrastes que dentro de ti reina os mais nobres sentimentos! Não fui digna da coroa, mas és digno desse povo!"
Com um delicado desejo de sucesso fechou os olhos e adormeceu para a eternidade.
Temperos para a infelicidade: orgulho, egoísmo, ira, inveja, avareza e angústia. Misture tudo e beba com um pouquinho de arrogância e indiferença.
Tempero para a felicidade: humildade, altruísmo, serenidade, aceitação, partilha e paz. Misture tudo e beba com um pouco de respeito e gratidão.
Ser santo é ser cheio de misericórdia.
Ser santo é viver o esquecimento total de si mesmo.
Ser santo é não buscar em nenhum momento, por menor que seja, os próprios interesses.
Ser santo é ter amizade com Deus e inimizade com o mundo.
Ser santo é não gastar o que Deus dá com nossos próprios prazeres.
Ser santo é largar a soberba e se abraçar à humildade.
Ser santo é se sujeitar a Deus e resistir ao inimigo.
Ser santo é não falar mal uns dos outros, é não julgar.
Ser santo é sempre se perguntar: "Afinal, quem sou eu para julgar o meu próximo?"
Reflexão "Família"
Família com certeza é o valor que eu mais me identifico, pois na família todos os outros valores existem e podem ser praticados.
Foi na minha família que eu fiz a experiência mais transformadora que vivi, a experiência da educação.
Foi na minha família que eu aprendi a importância de ser unido com os meus irmãos, por isso hoje consigo me colocar no lugar das pessoas e busco ajudá-las naquilo que precisam e que está ao meu alcance.
Foi na minha família que eu aprendi que o mundo é feito de gente diferente da gente, e que eu devo ser respeitoso com todos.
Foi na minha família que eu aprendi o valor dos estudos, e que para ter êxito na vida eu deveria buscar sempre estudar, mas também ser humilde e não me achar melhor do que ninguém.
Foi na minha família que eu aprendi que ser educado é ser dono de si, não deixando com que os impulsos e afetos controlem minhas decisões e atitudes.
Foi na minha família que eu aprendi que a educação está para o amor, assim como o amor está para a educação.
Família não é só formada por nossos parentes sanguíneos, mas família é todo aquele vive na mesma casa que a gente e no mundo que a gente habita, porque família somos todos nós.
Na família formada por gente unida encontramos grandes cases de sucesso comunitário e não individualizado, pois uma família unida é um berçário de estrelas em formação e uma fábrica de vitórias.
Por isso é que gente incrível faz coisas incríveis, porque só os seres humanos possuem o dom de se relacionar afetivamente, promovendo a construção de laços fortes, capazes de viverem a união necessária para construir relacionamentos incríveis e duradouros.
O amor é a maior inovação que existe, pois ele nos faz buscar, todos os dias, transformar a vida das pessoas, estejam elas próximas a nós ou não.
Quando conseguimos praticar a inovação do amor, aprendemos então que a felicidade está exatamente no êxito em praticar essa ousada inovação que é amar, para podermos ensinar que o amor é o maior propósito da vida humana.
Sejamos então donos de nós mesmos, para que com ousadia, coragem e resiliência, continuemos em busca do nosso grande sonho, que é construir uma grande família formada por gente, que vive com êxito a inovação do amor, contagiando o mundo que tem fome e sede desse amor.
Cerque-se de boas intenções
Não tente prejudicar ou humilhar alguém, cuidado com as palavras! afinal tudo é boomerang.
Aceite as pessoas como são, e acredite, elas tem também grandes qualidades.
Se arrependa do mal que fizeres, ainda é tempo.
Tenha gratidão se você é quem faz a oferta.
Seja feliz com coisas simples, e lembre-se essas “coisas”, são seus melhores e maiores valores. Deus conhece cada coração, apenas o preencha de amor. Seja luz! e receberás luz.
Cuide de quem te ama, tenha paciência e não banalize o que realmente importa. Um dia você irá procurar, e não terás mais
O tempo é contra nós, mas também é de grande favor. Tenha grandeza e reconheça seu erro. Aprenda!
Tudo passa, o momento é agora.
Nara Nubia Alencar Queiroz
“Tenha a certeza que pelo meio do caminho aparecerá alguém que te julgue, te magoe, te humilhe, que te deseje o mal e te decepcione.
Mas também tenha a certeza que por este mesmo caminho aparecerá quem te apoie, te ajude, te consola, te entenda, te estenda a mão e alegra sua vida. É essa pessoa que te dará força para seguir está luta com força e continuar com determinação. Guarde palavras que alimente sua alma e jogue as que te entristece de pessoas invejosas ao vento como as folhas de outono retornando a você em forma de amor, paz, felicidade constante.
Não olhe para quem te inveja, olhe para quem te admira e é feliz por você ser.”
—By Coelhinha
A ROSA ESCURA DA DOR.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão. Ano, 2025.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Todos temos dores que não pedem cura, apenas permanência.
Elas florescem no interior como uma rosa que se alimenta do próprio sangue do sentir.
Não gritam. Não suplicam. Apenas se abrem, pétala por pétala, no silêncio mais denso da consciência.
A dor que aqui habita não deseja redenção.
Ela existe como rito, como escolha íntima de quem compreendeu que certos sofrimentos não são falhas, mas revelações.
Há uma voluptuosidade secreta no padecer que se reconhece, uma dignidade austera em suportar a própria sombra sem implorar por luz.
O espírito inclina-se diante de si mesmo, não em derrota, mas em reverência.
Cada pensamento torna-se um espinho necessário, cada memória um perfume escuro que embriaga e ensina.
A alma aprende que nem toda ferida quer ser fechada, algumas precisam permanecer abertas para que a verdade respire.
Há uma doçura austera no ato de suportar-se.
Uma forma de amor que não consola, mas sustenta.
A consciência, exausta de fugir, ajoelha-se diante da própria dor e a reconhece como mestra silenciosa.
Assim floresce a rosa escura.
Não para ser admirada, mas para ser compreendida.
Não para enfeitar a vida, mas para dar-lhe gravidade.
Pois somente quem aceita sangrar em silêncio conhece a profundidade do que é existir.
MEU CÃO - A FIDELIDADE QUE SOBREVIVE AO TEMPO E À RUÍNA DOS CORPOS.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
* “Prefiro confiar em meu cão São Bernardo do que confiar na criatura humana.”
Dr. Axel. Munthe, autor do best-seller: O Livro De San Michele. Escrito originalmente em 1929.
A história de Argos, o cão que aguardou por vinte anos o retorno de seu senhor, permanece como uma das mais elevadas expressões éticas legadas pela tradição clássica. Mais do que um episódio secundário da epopeia homérica, ela constitui um testemunho silencioso acerca da natureza da fidelidade, da memória e da lealdade que resiste ao desgaste do tempo, à corrosão da matéria e à falência moral dos homens. Nessa narrativa, a condição animal não se apresenta como inferior, mas como depositária de uma virtude que a civilização, em sua complexidade, gradualmente perdeu.
O retorno de Odisseu a Ítaca não se dá sob o brilho do triunfo, mas sob o véu da decadência. Após vinte anos de ausência, dez consumidos pela guerra e outros dez diluídos em errâncias e provações, o herói regressa envelhecido, marcado pela dor, pela fadiga e pela experiência. Aquele que outrora fora símbolo de engenho e vigor já não possuía o corpo que o consagrara, mas carregava em si a memória viva de tudo o que fora perdido. A própria astúcia, outrora instrumento de glória, agora servia apenas à ocultação de sua identidade.
Atena, expressão da prudência e da razão estratégica, aconselha-o a ocultar-se sob a aparência de um mendigo. A pátria que deveria acolhê-lo transformara-se em território hostil. Os pretendentes haviam tomado sua casa, dissipado seus bens e ameaçado a integridade de sua linhagem. Nem mesmo Penélope, símbolo da fidelidade conjugal, foi capaz de reconhecê-lo sob o véu da decrepitude. A visão humana, condicionada pelas aparências, falhou. O olhar viu, mas não reconheceu.
Foi então que a fidelidade se manifestou onde menos se esperava. Argos, o velho cão abandonado à margem do palácio, esquecido entre a poeira e os detritos, conservava intacta a memória do seu senhor. O corpo exausto já não sustentava a vida com vigor, mas a essência permanecia desperta. Ao ouvir a voz e sentir o odor daquele que amara, ergueu-se como pôde, moveu a cauda e reconheceu. Nenhuma máscara, nenhum disfarce, nenhuma degradação física foi capaz de enganá-lo. O reconhecimento foi imediato, absoluto e silencioso.
O gesto de Argos possui uma força simbólica que transcende a narrativa. Ele não exige palavras, recompensas ou reconhecimento. Sua fidelidade não depende de promessas nem de reciprocidade. É fidelidade ontológica, inscrita na própria natureza do ser. Odisseu, impedido de revelar-se, contém as lágrimas, pois compreende que ali, naquele instante, se manifesta uma verdade mais profunda do que qualquer triunfo humano. Logo após cumprir sua última função, Argos morre. Não por abandono, mas por consumação. Sua existência encontra sentido no ato final de reconhecer aquele a quem sempre pertenceu.
Esse episódio, narrado no Canto XVII da Odisseia, ultrapassa o campo da épica para inserir-se no domínio da reflexão ética. Ele revela que a fidelidade não é produto da razão discursiva, mas da constância do ser. Enquanto os homens se perdem em interesses, disfarces e conveniências, o animal permanece fiel àquilo que reconhece como verdadeiro. A memória afetiva, nesse contexto, revela-se mais poderosa do que qualquer construção racional.
É nesse ponto que a reflexão de Axel Munthe se insere com notável precisão. Ao afirmar que * " Prefere confiar em seu cão a confiar no ser humano " , o médico e pensador não profere um juízo de misantropia, mas uma constatação ética fundada na observação da realidade. Sua experiência com o sofrimento humano ensinou-lhe que a razão, quando desvinculada da integridade moral, converte-se em instrumento de dissimulação. O cão, ao contrário, desconhece a duplicidade. Sua fidelidade não é estratégica, mas essencial.
A frase de Munthe revela uma crítica severa à condição humana moderna. O homem, dotado de linguagem, inteligência e consciência, frequentemente utiliza tais atributos para justificar a traição, disfarçar interesses e legitimar a ruptura dos vínculos. O animal, desprovido dessas faculdades, conserva uma coerência ética que o eleva moralmente. Ele não promete, mas cumpre. Não calcula, mas permanece. Não racionaliza, mas é fiel.
Há, portanto, uma convergência profunda entre a figura de Argos e a reflexão de Munthe. Ambos denunciam a fragilidade moral do homem civilizado e exaltam uma fidelidade que não depende de convenções sociais, mas de uma adesão silenciosa ao outro. Essa fidelidade não se anuncia, não se exibe, não se justifica. Ela simplesmente é.
Assim, a história de Argos e a sentença de Munthe convergem para uma mesma verdade essencial: a de que a grandeza moral não reside na eloquência, no poder ou na razão instrumental, mas na capacidade de permanecer fiel quando tudo convida ao abandono. Nesse sentido, o cão torna-se espelho daquilo que a humanidade perdeu ao longo de sua história. E ao contemplar esse espelho, resta ao homem reconhecer que, por vezes, a mais elevada forma de humanidade habita silenciosamente no coração de um animal.
AO ANO NOVO:
SEMENTES DE CONSCIÊNCIA E RENOVAÇÃO INTERIOR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
Ao alcançar o limiar de um novo ciclo temporal, o espírito lúcido recolhe-se por instantes à intimidade do próprio ser, não para julgar-se com aspereza, mas para compreender-se com maturidade. Esse gesto interior, silencioso e profundo, constitui um dos mais nobres exercícios da consciência humana. Nele, o ser reconhece as experiências vividas como lições pedagógicas da vida espiritual, compreendendo que nada foi inútil, nada foi em vão. Esse movimento reflexivo representa o amadurecimento do ego, que deixa de reagir impulsivamente aos fatos e passa a interpretá-los com discernimento e responsabilidade. Carl Gustav Jung afirmava que o autoconhecimento é o início de toda transformação autêntica, pois somente aquele que se observa com honestidade pode integrar suas sombras e libertar suas potencialidades latentes. Assim também ensina a psicologia espírita, ao reconhecer que cada vivência é um instrumento educativo da alma em processo de aperfeiçoamento.
A Doutrina Espírita, em consonância com esse entendimento, esclarece que a existência corporal não se fragmenta em começos e fins absolutos. Trata-se de uma etapa contínua no itinerário evolutivo do espírito imortal. Allan Kardec, ao sistematizar os princípios que regem a vida espiritual, demonstra que cada encarnação é oportunidade concedida pela lei divina para o progresso moral e intelectual. Nada ocorre ao acaso. Tudo coopera para a edificação do ser, ainda que, no instante da dor, essa verdade pareça obscurecida.
As provações que ferem também educam. As renúncias que custam amadurecem. As quedas, quando compreendidas, tornam-se degraus. Reconhecer isso é reconciliar-se consigo mesmo e libertar-se da culpa estéril. O espírito não se define pelos erros cometidos, mas pela coragem de transformar-se a partir deles. Tal compreensão fortalece a autoestima legítima, aquela que nasce do esforço íntimo e da fidelidade à própria consciência.
A verdadeira prosperidade não se mede pelos bens transitórios, mas pelo crescimento interior conquistado dia após dia. Cada pensamento elevado, cada gesto orientado ao bem, cada superação silenciosa constitui patrimônio imperecível do espírito. Como ensina a psicologia humanista, o sentido da vida não reside na acumulação, mas na realização interior que nasce do alinhamento entre valores, ações e propósito existencial.
O novo ciclo que se inicia apresenta-se como campo fértil de escolhas conscientes. Ele não promete facilidades, mas oferece oportunidades constantes de aprimoramento moral. A cada amanhecer, a vida concede ao espírito a chance de refinar suas intenções, fortalecer sua vontade e agir com maior lucidez e compaixão.
Que este tempo vindouro seja vivido com serenidade, responsabilidade e fé racional. Que cada consciência encontre em si mesma a força para perseverar, aprender e amar com mais profundidade. E que jamais nos esqueçamos de que o verdadeiro ano novo não se inaugura no calendário, mas no instante em que decidimos evoluir com dignidade, lucidez e fidelidade aos valores que elevam a alma.
O Crepúsculo do Encanto”
“O último encanto de alguém não se extingue no instante da desilusão, mas nela se revela. É quando o véu cai que a alma, despojada de ilusões, reconhece o que restou de si mesma. A desilusão não é o fim do sentir, mas o ponto em que o afeto abandona a ingenuidade e se converte em lucidez. Somente ali o espírito compreende que amar não é permanecer encantado, mas sustentar a dignidade mesmo quando o encanto se desfaz.”
LEITURA DO CREPÚSCULO INTERIOR.
Nas horas em que o peito se torna caverna,
e a esperança aprende a falar baixo,
há um cântico antigo que retorna,
feito bruma sobre a memória.
Não chama pelo nome,
não exige resposta,
apenas envolve,
como quem conhece a fadiga de existir.
A dor, então, se refina,
abandona o grito e escolhe o sussurro,
e o sofrimento deixa de ser castigo
para tornar-se linguagem.
Quem suporta esse instante,
sem pressa de escapar,
descobre que o abismo
também é um lugar de revelação.
E compreende que resistir
é uma forma elevada de oração,
na qual o espírito se ergue silencioso
e permanece inteiro diante da noite.
CATEDRAL DA CISÃO INTERIOR.
Há dias em que sou lâmina
há noites em que sou abismo
Em mim a razão constrói altares
logo depois o delírio os incendeia
Penso com rigor antigo
sinto com fúria primitiva
sou ordem que se ajoelha
sou caos que aprende a rezar
A lucidez ergue-se como torre
a vertigem responde como mar
uma promete sentido
a outra exige verdade
Carrego duas coroas invisíveis
uma de espinhos silenciosos
outra de luz que cega
Quando amo sou excesso
quando penso sou ruína
e no centro desse império partido
governo-me sem trono
Ainda assim caminho
pois mesmo dilacerada
a consciência avança
como dor ferida que se recusa a cair.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
CAPÍTULO XX
A NOITE NUPCIAL DA CONSCIÊNCIA.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A noite não chegou como ameaça
veio como véu.
Camille não a esperou
apenas ficou
e o escuro reconheceu nela aquilo que sempre foi seu.
Não houve testemunhas
pois toda união verdadeira acontece fora do mundo
a consciência não pediu permissão à razão
nem explicou-se à memória
ela apenas desceu até onde não havia mais nome.
O porão tornou-se câmara nupcial
não de carne mas de sentido
ali a sombra não foi negada
foi acolhida
como quem recebe enfim o rosto que sustentou a vida inteira.
Camille não lutou contra si
pois já sabia
toda guerra interior é atraso
a maturidade começa quando o eu depõe as armas
e consente em ser inteiro”
“Nessa noite não houve promessa
porque prometer é ainda temer
houve entrega
e na entrega a consciência deixou de se fragmentar
o que era dor tornou-se forma
o que era medo tornou-se escuta.
A sombra não lhe pediu absolvição
pediu presença.
Camille respondeu ficando
e ao ficar selou a união
não com palavras
mas com silêncio suficiente para sustentar o real.
Desde então ela não busca luz
pois a luz que se busca cansa
ela carrega dentro de si o escuro reconciliado
e caminha
não para fora
mas a partir do centro.
E assim a noite nupcial não termina
pois tudo o que é verdadeiro continua
e aquele que ousa unir-se a si mesmo
ergue no íntimo um reino que não desmorona jamais.
O SONHO QUE NÃO SE ENCERRA.
“Sonho realizado é somente aquele que se continua sonhando”.
Há sonhos que se quebram ao tocar o chão da conquista.
Outros morrem no instante em que recebem nome e forma.
Mas há um terceiro tipo mais antigo mais raro mais verdadeiro.
Aquele que não se satisfaz com o cumprimento.
Aquele que continua.
O sonho autêntico não busca conclusão.
Ele aceita o cumprimento apenas como passagem.
Realizar não é fechar.
É aprofundar.
Não é possuir.
É permanecer fiel.
Quando o sonho continua sonhando ele se torna caminho.
Já não depende de aplauso nem de resultado.
Ele respira no espírito como vocação silenciosa.
E transforma o viver em obra em vez de troféu.
Psicologicamente esse sonho amadurecido recusa o vazio da chegada.
Ele compreende que o sentido não está no fim mas na constância.
E que só permanece vivo aquilo que se renova no desejo consciente.
Sonhar assim exige coragem antiga.
A coragem de não declarar vitória.
De não encerrar o mistério.
De seguir adiante mesmo depois da realização.
Porque somente quem continua sonhando honra o sonho.
E faz da própria existência um gesto contínuo de fidelidade ao que chama por dentro.
E jamais se cala.
AQUELE QUE CAMINHA NO INVISÍVEL.
Caminho como quem aprende a ver novamente.
Não procuro respostas. As respostas fazem barulho.
Prefiro o silêncio. É nele que a verdade repousa como uma criança adormecida.
É estranho.
Sem querer dizer sim sou levado para fora de mim.
Na memória que não me pertence reconheço teu rosto. Reconheço como se reconhece um deserto.
Não pela aridez. Mas pela fidelidade ao essencial.
Cada lembrança é uma lâmina delicada.
Ela não corta de uma vez.
Ela ensina.
Nota a nota o tempo escreve em mim sua música severa.
Gota a gota a ausência aprende a falar.
Lágrima a lágrima descubro que amar é aceitar ser atravessado.
O infinito não grita.
Ele observa.
Parece vazio apenas para quem olha com pressa.
É pleno para quem aceita perder-se.
E assim sigo.
Mais leve porque ferido.
Mais verdadeiro porque não fugi.
Somente aquele que consente em ser tocado pelo invisível torna-se digno de guardar o eterno no coração humano.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
GANÂNCIA E APRENDIZADO.
"Perguntou o ganancioso ao senhor do mundo. Senhor, tu que tudo criastes, deixa-me tomar quanto eu puder deste mundo. E o senhor respondeu. Pois não, meu filho. Vai até onde teus pés e teu desejo te levarem. Moral da história. O doente ganancioso morreu exausto de tanto andar."
Autor. Um amigo.
Comentário moral. A narrativa, simples e antiga como as parábolas que atravessam os séculos, ensina que a ganância não impõe limites a si mesma. O desejo, quando não educado pela medida e pela consciência, transforma-se em força exaustiva que consome o corpo, obscurece o espírito e converte a liberdade em cativeiro interior. O mundo não nega nada ao homem. É o próprio homem que se perde ao confundir possibilidade com necessidade e caminho com posse.
Assim, aprende-se que a verdadeira sabedoria não está em ir até onde os pés alcançam, mas em saber quando deter-se, pois somente quem domina o próprio desejo consegue caminhar sem morrer de cansaço por dentro.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro.
ADMINISTRAR O TEMPO COMO EXERCÍCIO DE CONSCIÊNCIA.
Administrar o tempo, sob a ótica espírita, não é apenas organizar horas e compromissos. É, sobretudo, educar a própria consciência diante da finitude da existência corporal e da continuidade da vida espiritual. O tempo deixa de ser um recurso externo e passa a ser um campo íntimo de responsabilidade, fio condutor para a vida cotidiana.
Na visão espírita, o tempo é concessão auxiliadora. Cada encarnação dispõe de um intervalo preciso para o aperfeiçoamento do espírito. Não se trata de urgência ansiosa, mas de vigilância consciente. O desperdício do tempo não se mede apenas pela inatividade, mas pelo uso reiterado em ações que não promovem crescimento moral, reparação de faltas ou desenvolvimento do amor. Administrar o tempo, aqui, significa perguntar diariamente se as escolhas realizadas aproximam o ser de sua finalidade espiritual.
Sob o prisma filosófico clássico, o tempo sempre foi compreendido como bem irrecuperável. A tradição antiga já advertia que viver sem examinar o uso do tempo equivale a viver sem direção. O tempo revela valores. Aquilo a que se dedica a maior parte da vida denuncia o que se ama, o que se teme e o que se considera essencial. Administrar o tempo, portanto, é ordenar prioridades conforme uma hierarquia de bens que não se dissolve com a morte.
Na psicologia, o modo como o indivíduo lida com o tempo reflete seu estado interno. A dispersão constante, a procrastinação crônica ou a obsessão produtivista não são meros problemas de agenda. São expressões de conflitos psíquicos, angústias não elaboradas e fugas do encontro consigo mesmo. Uma administração saudável do tempo pressupõe autoconhecimento, limites claros e a capacidade de permanecer presente em cada tarefa, sem fragmentar-se.
No campo moral, o tempo assume caráter de dever. Cada minuto desperdiçado em prejuízo do bem possível é oportunidade recusada de servir, compreender, perdoar ou reparar. A ética do tempo não exige perfeccionismo, mas coerência. Exige que as ações diárias estejam alinhadas aos princípios que se professam. Não há moralidade autêntica onde o discurso é elevado e o tempo é consumido em vaidades estéreis.
Integrar essas quatro dimensões conduz a uma administração desse recurso que é, em essência, uma administração da própria vida. Planejar sem rigidez, agir sem pressa, refletir sem paralisia e servir sem adiamento. O tempo que sempre age, quando bem vivido não é o mais cheio, mas o mais significativo.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
Mateus 13:14 - INVERSÃO DE VALORES.
A CEGUEIRA MORAL COMO SINTOMA DE UMA ERA DESORIENTADA.
A mensagem contida em Mateus 13:14, expressa uma diagnose espiritual de elevada gravidade ética. Ela descreve não um desvio episódico de costumes mas uma erosão profunda dos critérios que sustentam o juízo moral coletivo. A chamada inversão de valores constitui um processo de entorpecimento da consciência no qual o discernimento é gradualmente substituído pela conveniência e pela complacência afetiva.
Quando o texto evangélico afirma que muitos escutam sem assimilar e observam sem compreender ele aponta para um fenômeno de opacidade interior. A inteligência permanece ativa. A sensibilidade espiritual porém encontra-se embotada. O indivíduo passa a filtrar a realidade não segundo a verdade mas segundo o que lhe é confortável. Essa disposição gera uma anestesia ética na qual o erro deixa de provocar inquietação e o bem passa a ser percebido como incômodo.
A passagem de Mateus 13:14 descreve um fechamento voluntário da percepção moral. Não se trata de incapacidade cognitiva mas de recusa deliberada ao chamado interior. O sujeito preserva os sentidos físicos mas abdica da escuta profunda e da visão penetrante. Forma-se assim uma consciência seletiva que legitima desejos e invalida princípios. Nesse estado o certo parece excessivo e o errado parece justificável.
Em Mateus 18:7 a advertência assume uma dimensão estrutural. Os escândalos emergem como subprodutos de ambientes morais degradados. Eles não surgem por acaso. Eles florescem onde há permissividade normativa e diluição da responsabilidade pessoal. O texto não absolve o contexto. Ele responsabiliza o agente. O escândalo não é apenas um fato social. Ele é uma falha ética personificada.
Sob uma ótica tradicional essa degeneração revela o abandono de parâmetros objetivos de verdade. Quando a retidão passa a ser relativizada e a transgressão passa a ser celebrada instala-se uma confusão axiológica que compromete a formação do caráter. A pedagogia perde autoridade. A disciplina é confundida com opressão. E a liberdade é reduzida a impulso.
Essa desordem não permanece restrita ao plano individual. Ela infiltra-se nas instituições. Contamina o discurso público. E normaliza práticas que antes seriam moralmente reprováveis. O escândalo deixa de causar repulsa. Ele passa a ser assimilado como expressão cultural. O alerta ético passa a ser tratado como intolerância. E a tradição passa a ser caricaturada como atraso.
A mensagem portanto atua como um espelho severo aos desatentos. Ela recorda que toda sociedade que rompe com sua herança moral perde progressivamente a capacidade de orientar seus membros. A tradição não é um apego nostálgico ao passado. Ela é a sedimentação de experiências humanas que preservaram a ordem interior e a dignidade ao longo do tempo. Quando essa memória é descartada o homem permanece entregue às próprias pulsões sem norte e sem medida.
Uma civilização que confunde indulgência com virtude e rigor com maldade não caminha para o progresso mas para a dissolução silenciosa de sua própria base de diretriz.
Inspirado por Jesus o guia moral por excelência o espírito perseverante encontra força para não " Apenas sonhar com um mundo melhor, mas edificá-lo com suas próprias mãos e intenções purificadas.
A transformação íntima é, pois, a semente espiritual do futuro regenerado, destinada a florescer nas consciências que compreendem que a verdadeira reforma começa no coração e se expande, como luz, até os confins da humanidade."
" O que, até aqui, deu força ao Espiritismo; o que dele fez uma ciência positiva e de futuro, é que ele jamais avançou levianamente; que não se constituiu sobre nenhum sistema preconcebido; que não estabeleceu nenhum princípio absoluto sobre a opinião pessoal, nem de um homem, nem de um Espírito, mas somente depois que esse princípio recebeu a consagração da experiência e de uma demonstração rigorosa, resolvendo todas as dificuldades da questão. "
Allan Kardec.
