Textos de Feliz Ano Novo para celebrar com esperança e otimismo
AMOR TRANCADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O silêncio se rende aos teus passos lá fora;
eu me atenho às caladas desta sala escura;
fantasio, desejo, percebo de ouvidos,
que vieste segura, e porcerto estás bem...
Quero abrir essa porta para o corredor
e mirar o teu porte, fazer gentileza,
ver a cor do vestido com que foste hoje,
mas me vem a certeza de não ser prudente...
É preciso estancar este quase rompante,
pra manter meu instante, meu culto secreto
e sonhar com a chance que jamais terei...
Logo escuto ruídos da chave que fecha
tua porta pra minha, teu mundo pro meu;
o museu de miragens deste coração...
FIM SEM FIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É um fim arrastado, preguiçoso e lerdo...
desistiu até mesmo dessa desistência...
fez a cama no beco do seu tanto faz
e se fez reticência que não tem mais fim...
Um adeus esticado, sonolento e turvo...
que se deu e no entanto não deu a partida...
uma ida que fica pra mostrar que foi,
mas não sai do que foi, como se fosse ainda...
O passado é presente na versão dos olhos,
temos corpos presentes que já não se têm,
porque somos ausências, apesar de corpos...
Este fim infinito, rebuscado e tenso
no silêncio acuado que refina o grito,
é um mito que paira sobre o que morreu...
PAIS, MÃES E FILHOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca tive saudades do meu pai. Tive, sim, saudades do pai que meu pai não foi. Na verdade, saudades de qualquer saudade que teria, se a minha história e de meus irmãos com ele fosse outra.
Ao me tornar e “retornar” pai, passei a ter medo. Um medo imenso de que minhas filhas algum dia não tenham saudades do pai que tiveram, mas, do pai que não fui. Ou que tenham saudades de qualquer saudade que pudessem ter, se nossa história fosse outra. Se tivéssemos história, pelo menos que valesse a pena lembrar.
Pais e mães deveriam refletir mais a respeito disso. Deveriam se preocupar em construir com seus filhos, histórias relevantes. De amor e presença. De atenção e cumplicidade. Se houver sofrimento - e sempre há -, que o sofrimento seja compensado por esses atributos indispensáveis à relação pai, mãe e filhos.
Que seja por egoísmo. Pelo simples deixar saudades. Não tem problema, porque esse egoísmo tem a capacidade mágica de salvar os filhos de uma frustração eterna.
RENDIÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
És bem-vinda, não posso mais fugir,
já me achei nos conflitos do meu ser,
quero ser teu menino bem mimado
e morar no teu colo; tua entranha...
Podes vir, o meu corpo me agasalha
pra que tenhas calor na minha essência,
minha malha estendida se oferece
numa pesca de sonhos em comum...
Sempre quis esse afeto, esse aconchego,
teu apego, essa chama persistente
que venceu a frieza exposta em mim...
Tive medo de amar, mas podes vir,
há um sim sobre todos os meus nãos,
tenho vãos que te vestem desde já...
AULAS DE SER GENTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aprendi a me aproveitar dos mais simples. Tirar partido e vantagem dos humildes. Explorar os de boa fé. Confesso que tenho me dado bem com essa prática, e recomendo o mesmo a todos os espertos de alma; os safos de coração.
Dos mais simples, humildes e de boa fé, absorvi a riqueza de olhar o mundo com ânimo, justamente porque eles existem. E se eles existem, é possível crer na humanidade, pois a beleza de seus pensamentos, virtudes e atos fazem a vida valer a pena. São eles os guardiões do amor e da verdade. Os paladinos da paz e do bem. Mensageiros da luz que nos orienta e guia entre as trevas formadas pelos homens e as mulheres de má vontade.
Os mais simples, humildes e de boa fé são os fortes que os outros pensam que são. Têm a sabedoria que os outros pensam que têm. São tão eles, que, sem querer, confundem os intelectuais; enlouquecem os gênios instituídos que não querem saber ou realmente não sabem que nada sabem.
Tenho andado no encalço desses anjos. Reconheço a distância entre nós, como reconheço que nunca os alcançarei, mas tiro minhas lascas. Aprendo lições. Colo secretamente para passar, mesmo que apertado, nas muitas provas do meu tempo aqui. Tento em vão recompensá-los com um pouco do meu saber empolado; minhas vãs filosofias; o inchaço da letra que me preparou para ser metido a besta. Eles não precisam, mas não fazem desfeita.
Quero continuar em torno dos mais simples. Ser a mosca dos humildes. Parasita nos de boa fé. Desviar indefinidamente para minha conta no vermelho, migalhas ou centavos dos valores humanos dessa gente que tanta gente menospreza.
INCONVENIÊNCIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sempre tento não ser inconveniente. Mas acontece. A boa notícia para quem lida comigo, é que a minha inconveniência não se repete com a mesma pessoa. Basta um leve sinal de contrariedade, uma reticência, um olhar, palavra ou silêncio, e me percebo. Logo me afasto para sempre ou assumo completa formalidade a partir daí, se for uma convivência obrigatória por trabalho, negócios ou outros interesses em comum. Neste caso, passo a lidar como se a minha presença, por si só, já fosse a própria inconveniência.
Depois de me sentir dessa forma, não adiantará qualquer esforço futuro da outra parte, para que haja uma reaproximação. Quem sabe um reaquecimento gradativo dos laços de amizade ou coleguismo. Se me conheço e fui uma vez inconveniente, jamais correrei o risco da reincidência quando menos esperar. E para ter a certeza de que assim será, sem qualquer abalo de minha parte, fico na esperança de que a pessoa em questão seja como eu. Caso contrário, será sua vez de ser inconveniente.
A IDIOTICE DO SABER ENGESSADO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Não existe argumento contra o discurso embasado na passividade unilateral dos que só reproduzem ou plagiam dados engessados; estatísticas favoráveis à sua conveniência. Essas pessoas têm um temor contínuo de se render às evidências contrárias ao que pensam que pensam, por acharem que o mundo à sua volta os acusará de não terem personalidade. Personalidade que realmente lhes falta, quando mais nada justifica os arroubos mantidos a todo custo; contra todas as provas do seu equívoco e seu empacamento.
Ao decorarem os discursos que julgam torná-los mais imponentes, dando-lhes ares de sofisticação e gravidade, os tolos se decoram de sábios e já não querem desfazer seus trejeitos; suas caras e bocas. Não concebem a ideia de rever conceitos, posturas, visões dos fatos, e mesmo que o façam secretamente, jamais confessariam aos seus admiradores também equivocados. Muito menos aos que sempre pensaram de formas diferentes, embora mais modestas; menos técnicas; e assim, se tornaram os alvos prediletos de seus olhares de viés; suas ironias; seus ares de pretensa superioridade. Suas palestras insistentes e gratuitas nas esquinas, salas de visitas, redes sociais e outros meios que não as contrataram.
Será sempre constrangedor nos vermos forçados a mudar de pensamento, filosofia e postura, depois de já termos ironizado; às vezes constrangido e tratado como idiotas os que não concordaram com os nossos discursos institucionais prontos e decorados... ou plagiados. Especialmente se percebermos que essas pessoas, com toda a simplicidade de seus pensamentos informais, sem dados históricos, estatísticos ou sociológicos, estão certas. Que suas visões pessoais, leigas e despretensiosas são infinitamente mais fundadas e sensatas do que todos os nossos arrotos de intelectualidade; nossos rompantes de conhecedores de história, ou de apenas uma versão raivosa, radical, de esquerda ou direita.
Eis o segredo: não escolhermos cegamente um lado de qualquer questão, pois a verdade é sempre distribuída pelas faces diferentes do todo, como a mentira é. Se só assistimos aos canais de tevê, só lemos os livros e jornais e só ouvimos as rádios que dizem o que desejamos ver, ler ou ouvir, ou correspondem exatamente aos nossos gostos, nossos pretensos níveis de cultura ou conhecimento, seremos sempre robôs. Seguiremos programados por um conceito unilateral. Jamais teremos um leque de opiniões, informações e conceitos para pormos à mesa com as nossas vivências e observações, e tirarmos conclusões próprias.
Flexíveis, abertos às diferenças de pensamento, ao moinho de conhecimentos formais ou informais e às adversidades nas visões de tudo, não seremos os idiotas absolutistas que nunca podem retroceder, porque já se blindaram. Já se tornaram estátuas de quem são. Dessa forma, seria constrangedor para nós eventualmente concluir e confessar que as muitas pessoas ofendidas, diminuídas e ridicularizadas pela nossa arrogância estavam certas o tempo todo.
OS GÊNEROS E O AMOR
Bem mais profundas e sinceras, as mulheres veem antes o que vai por dentro. Depois partem pro exterior, do qual gostam, por já amarem. Mais fúteis e visuais, os homens veem antes o que vai por fora. Depois partem pro interior, do qual gostam, também por já amarem.
Mulheres amam de dentro para fora. Homens amam de fora para dentro. Fazem do amor seu lugar-comum, pelo que um dia esse desencontro acaba e ambos se acertam com seus defeitos e as eventuais virtudes.
Evidentemente, falo de amor. De quando se ama e se deixa amar. Afora isto, ambos os gêneros são seres humanos, e conhecemos bem nossa natureza... principalmente quando a solidão domina.
CARÊNCIA DE VOCÊ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Estava carente. Muito carente de carinho. Não de qualquer carinho, mas do seu. Queria muito voltar a ser alvo desses olhos e atrair seus cuidados mais intensos; mais extensos; mais descuidados. Desfrutar de seu colo e cafuné. Sua voz miúda, emocionada, e seu silêncio capaz de me dizer o que mais quero escutar.
Só queria mesmo aquilo. Só aquilo tudo. Sentir que o tempo não apagou nosso afeto inexplicável. Não esmaeceu a intensidade; a força mágica do que nos faz tão próximos, ainda que distantes. Precisava muito pedir um tempo à distância física, para tê-la de novo mais que perto; mais que presente; pretérito mais que perfeito.
Por isso fiz armadilha. Não pra você cair, mas entrar lentamente. Conscientemente. Sem nenhum risco de se ferir; se culpar; macular seus princípios. Violar conceitos e produzir entulhos; cargas; pesos futuros. Não posso nem quero causar isso, em nome da magia que nos faz tão nossos; tão livremente nossos.
Estava carente de você. De tudo isso que você traz, quando se traz até meu mundo. Quando filtra o tempo; a distância; vence a vida e seus afazeres. Queria muito essas horas de querer que o tempo morra. E sonhava ensinar, como nunca fizera, os caminhos do meu corpo às suas mãos não de amiga, mas de fada, que é simplesmente, ou não tão simples assim... o que você é pra mim.
AO PROFESSOR QUE NASCEU PARA SER PROFESSOR
Agradeço todos os dias ao destino, pela graça de ser educador. Arte-educador. Inserir-me nesse contexto como profissão me fez mais do que um profissional: alguém que se reconhece como quem nasceu para isso. Tenho, evidentemente, minhas angústias relacionadas a proventos, condições ideais de trabalho e as grandes dificuldades externas que acompanham nossos alunos até os espaços formais de aulas, oficinas e projetos educativos, tanto no conceito pedagógico, especificamente, quanto nos conceitos da arte e da cidadania.
Sou um professor que não dá nota. Que pode mudar, todos os dias, as estratégias para vender suas ideias e seduzir os alunos. Atraí-los para contextos mais prazerosos do que a obrigação de alcançar notas e pontos para passar de ano. Às vezes, adulá-los. Talvez por isso, eu não tenha nem condições de alcançar a grandeza dos esforços diários dos professores em disciplinas obrigatórias, que têm a dura missão de preparar pessoas para o mercado de trabalho. Para disputas mercadológicas e a sobrevivência em uma sociedade competitiva e cruel, devido à falta de espaço confortável para conquistas.
Não tenho a mínima condição de avaliar precisamente a realidade total das salas de aula, mas sempre que vejo um professor de pelo menos alguns anos de profissão, admiro-o profundamente por ter atravessado esses anos, diante do que vejo. São muitos e muitos os professores que portam condições plenas de abraçar profissões muito mais rentáveis, e o fariam competentemente, mas não fogem do que escolheram, porque seriam somente profissionais. E como nasceram para ser professores, não seriam felizes se não fossem profissionais e seres humanos, como tem que ser, mais do que ninguém, quem nasceu para ser professor.
Reitero, portanto, meu profundo respeito e minha admiração aos que trabalham com amor e sofrimento; com revolta e dedicação; com sorrisos muitas vezes salobros, porque se misturam ao pranto, mas logo se sobressaem, porque o amor ao que fazem tem sempre reserva de otimismo.
Ao mesmo tempo, meu desprezo profundo e a não admiração aos patrões da educação tanto particular quanto pública e aos cidadãos de má vontade responsáveis pelo sofrimento, a revolta e as lágrimas do professor que nasceu para ser professor.
HORIZONTES
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Ando meio sem tempo de nutrir
depressão, baixa estima, insônia e mágoa,
estou meio sem água pra chorar
o que o mundo guardou dentro de mim...
Já não cabe me abrir à própria crise
de sentido, propósito e contexto,
ao deslize de minhas esperanças
onde o texto fugiu de meu rascunho...
E não posso me dar sequer ao luxo
do lamento e da velha nostalgia,
cada dia requer um novo sonho...
Fico meio sem chão pra me plantar,
sem arpão pra morrer na minha praia
cujo mar está cheio de horizontes...
FANATISMO POLÍTICO-PARTIDÁRIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Amor extremado e cego. Não; não me refiro ao amor de mãe. Até porque, algumas mães, por mais que amem conseguem ver. Falo do amor de certas pessoas por determinados partidos políticos e os seus eleitos; especialmente governantes. Para tais pessoas, esses políticos podem fraudar, se corromper à vontade, afundar a nação, e caso queiram, assaltar ou cometer homicídio à luz dia, que mesmo assim serão inocentes. O amor por eles estará sempre lá. Incólume. Nenhuma prova, por mais fundamentada que seja, será suficiente.
Os demais cidadãos, que um dia também votaram nessas figuras, reagem às traições. Protestam contra os desmandos. Reclamam. Muitos nem fazem nada, mas ainda ficam indignados. Não gostam de apanhar, e se não apanham, por algum privilégio pessoal, não gostam de ver quase todos à sua volta sofrerem com o desgoverno, a impunidade política e suas consequências. Sofrem com os que mais sofrem por serem mais vulneráveis ou desfavorecidos. A maioria da população.
Falo desses pobres coitados que o poder desconhece, não têm acesso a qualquer esquema, e se algo sobeja para eles não passa de migalhas. Na maioria das vezes nem as migalhas, em troca da devoção. Mesmo assim defendem; brigam; criam desafetos em nome do fanatismo político-partidário. São burlados em seus direitos padecem perdas salariais causadas por incompetência ou corrupção política e passam por privações, não têm perspectivas ou estão desempregados há muito tempo, apesar dos bons currículos, mas nada os dissuade. Não há nada que tire suas mãos do saco dos poderosos.
Quem ama extremada e cegamente os ocupantes do poder político sem nenhuma razão plausível, nem mesmo torta ou suspeita, é como aquelas amantes de malandros: gostam de apanhar, e até sentem falta. Justificam a covardia de seus homens, taxando-os de injustiçados, incompreendidos e vítimas de sabe-se lá o quê. Pior ainda, repetem aos quatro ventos as desculpas lamuriosas de seus algozes, depois de cada surra.
Aos amantes longínquos do poder, nada resta... ou nada que não seja esse sentimento não correspondido... não reconhecido ou recompensado, em momento algum, por esses ícones que nem sabem o quanto são amados incondicionalmente. Desses pobres diabos que nunca deixam de ser povo, até o poder da indignação se perdeu no espaço e no tempo já perdido com tanto amor em vão.
Amor secreto
Tenho rédea e te quero na medida,
como posso e bem sei meu não poder,
deixo a vida esquecer a vigilância
e me deixo furtar alguns momentos.
Fantasio, me visto e me desnudo,
te componho na descomposição,
tiro tudo e mergulho no meu sonho
pra que teu coração não sobressalte...
É assim que nos tenho cá, no fundo,
há um mundo moldado para nós
numa chance que o mundo não dará...
Sonho enquanto preservo este segredo,
sem o medo que veste a flor da pele
ou afia os espinhos dos meus olhos...
CUPIDO INDOMÁVEL
Conte sempre comigo em suas crises
de revolta incontida, inexplicada,
seus deslizes, as quedas do equilíbrio
que a paixão não consegue sustentar...
Hoje posso entender as invenções
dos acessos de fúria sem sentido,
das razões descabidas e sem chão
que o cupido indomável incendeia...
Só não posso voltar ao que se foi;
ao amor que não tive; só tentei;
já não sei me doar como quem doa...
Mas não nego meus olhos, meu ouvido
nessas breves sessões de terapia
para tão ressentido sentimento...
POLÍTICA E OUTROS LAÇOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É melhor não perdermos pessoas que amamos,
quando menos importa ganhar ou perder
nas questões do poder que nos faz consumir
tantos verbos opostos e desencontrados...
Valem mais os afetos que preservam laços,
o calor que não cabe nas leis distorcidas,
os olhares, abraços e risos sinceros
que não acham valor em paixões partidárias...
Saiba menos ou nada pra quem sabe tudo,
tenha mais incerteza pro discurso pronto,
seja tonto por fora e bem você por dentro...
Essa grande alegria de alegrar os seus
é o dom da verdade que não tem senhor,
mas a força do amor; a renúncia do ego...
Nosso porto inseguro
Morre um pouco de vida no sonho frustrado,
mas o sonho dá muda e renova o caminho,
revisita o passado em razão do futuro
que se rende às verdades de boa raiz...
Vivo desse voltar das entranhas do fim;
desse fundo que o poço no fundo não tem,
quando quem o conhece não quer prosseguir
pela sombra do nada e sua desistência...
Os que nascem das mortes vivem como nunca,
têm o sempre nas margens do seu nunca mais
lá na praia e no cais do seu porto inseguro...
Há um tempo a ganhar onde o tempo perdido
reconhece o sentido de voltar ao sonho,
recompor a vontade que se decompôs...
NOCAUTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eram gritos demais pra pouco eco;
meu silêncio chegou a ficar rouco;
fui um louco incurável por você,
pela minha insistência em ficar são...
Foi usura sem bens, nenhum valor,
porque sempre sonhei lhe ter do nada,
sem falar desse amor trancafiado
no meu medo; na minha timidez...
Muita espera pra nenhuma procura,
tanta era e nenhuma ocasião
pro desvão dos meus olhos inibidos...
Deveria ter dado som aos gritos,
corpo ao mito, equilíbrio ao coração
que bateu até ser nocauteado...
GERAÇÕES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Minha geração cresceu ouvindo Chico, Bethânia, Tony Tornado, Roberto, "Joões", Caetano, Gil, Jorge Ben, Clara Nunes... lendo Cecília, Bandeira, Ferreira, Drummond, Vinícius, Aghata, Cora, "Veríssimos"...
Minha geração cresceu combatendo, cada um ao seu modo, as ditaduras política, social, familiar... também cresceu aprendendo ofícios desde os dez anos. Assumindo responsabilidades aos quatorze. Quem queria estudar, precisava querer muito, e quando conseguia, tinha o respeito e as oportunidades que os formados de hoje não têm. Naqueles tempos, ter o "científico", análogo ao contemporâneo ensino médio, valia muito mais, tanto em conhecimento quanto em valia, do que ter o atual e defasado curso superior.
Minha geração cresceu sabendo que seria mantida pelos pais até o início de sua juventude, quando os pais é que passariam a ser mantidos por ela. Cresceu sem a proteção do termo adolescência, da lei contra o bullyng, cujo termo também não existia, e das leis contra os preconceitos e pelos direitos humanos.
Minha geração cresceu sob o peso dos erros da geração anterior... dos extremos que a fizeram sofrer muito, suar e se auto exigir, para sobreviver... mas acho que foi por isso que minha geração cresceu... porque não tinha como não crescer... era crescer ou morrer, oprimida por um sistema que não dava outra saída.
Mas a minha geração, pelas lembranças de nosso tempo, comete outros erros com a geração atual... outros extremos, como dar liberdade além do sensato, não exigir nenhuma responsabilidade, criar na barra-da-saia, oferecer o máximo sem exigir o mínimo... mimar, dizer todos os sins e ceder às chantagens emocionais de uma geração preguiçosa para fazer o certo e pensar nas gerações futuras, que pelo visto, serão ainda mais propensas a não crescer. Com todos os erros de uma geração que pelo menos teve o desejo de acertar, minha geração cresceu... cresceu crescendo... cresceu enquanto crescia.
ENTREGA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Foi assédio afetivo; confesso que foi;
um afeto sem asas pra voos escusos,
para os fusos empenhos ou atos avessos
ao exato sentido que tinha que ter...
Foram idas desnudas de planos a mais,
depois vindas serenas, de plena leveza,
com a branda certeza do mesmo desvelo
sem apelos, cobranças, anúncios de assaltos...
O carinho assedia e se deixa tomar
de cuidados, descuidos, entregas fluentes;
é a forma de amar que se rende sem peso...
Querer bem nos desarma, nos livra por dentro
e nos torna indefesos com quem se defende
como centro de todos os mísseis do mundo...
LUA NO MAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A missão se cumpriu em quem foi verdadeiro;
quem traçou sua meta sem ferir princípios;
teve o cheiro sincero do sabor que deu
a quem foi sorteado com sua presença...
O sentido da vida se fez inconteste
na leveza dos passos de quem se levou
entre os testes e provas de sua existência,
sem pesar seu amor distribuído aos seus...
Foi o dom de ser simples que te fez enorme
sem a fútil soberba dos que julgam ser;
sem tecer a quimera das grandezas vãs...
Pela tua missão enriqueceste vidas
que jamais se deixaram desaguar da tua;
foste lua no mar que desaguou no céu...
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