Textos de Feliz Ano Novo para celebrar com esperança e otimismo

Um dia eu desci,
desci leve, sonhadora,
pra começar uma nova história,
a jornada do ensino médio,
cheia de risos, cadernos e aurora.


Ontem eu desci de novo,
mas o peso era outro nas mãos
uma certidão antiga e áspera,
como o clima duro do sertão.


Sim, a certidão de nascimento,
que agora muda de nome e sentido,
pra comprovar não só um papel,
mas o amor que tenho vivido.




28/10/2025

AINDA TEM AMOR AQUI


Cê viu?


Nosso tempo não foi gentil
Nessa casa cheia de lembranças
Seu riso esqueceu o caminho da cama
E eu não digo nada pra não te ferir


O corpo tá tão perto mas eu tô distante
Como quem parte antes sem se despedir
Eu fecho os olhos só por um instante


E sinto que ainda tem amor aqui


Sinto que ainda tem amor aqui
Sinto que ainda tem amor aqui


O bate boca calou o amor
Me vejo numa cena de filminho antigo
Seu olhar cruza o meu como nunca cruzou
Como quem fuzila
Rindo um velho inimigo


Mas há vestígios


A mesa do café e a rosa do jardim
Talvez amar seja tudo isso
Mesmo quando o vento insiste em cantar um fim
Sinto que ainda tem amor aqui


Sinto que ainda tem amor aqui
Sinto que ainda tem amor aqui


Sabe que eu gosto do teu cheiro e cheirar teu travesseiro e que me faz resistir
A gente errou feio tentando fazer certo
Mas sinto que ainda tem amor aqui


Sinto que ainda tem amor aqui
Sinto que ainda tem amor aqui


Ainda tem amor aqui
Ainda tem amor aqui

O Odor do Caos

Era fim de tarde na rua Cecília.
Catorze homens jogavam futebol no campo de terra, rindo alto, enquanto a poeira dourada do sol cobria tudo.

De repente, um carro vermelho parou ao lado do campo.
Dele desceu uma moça de cabelos longos e olhos flamejantes.
Com voz calma, pediu ajuda para trocar o pneu furado.

Por um instante, o jogo cessou.
Os homens se entreolharam, silenciosos, mas quem se aproximou foi Jorge — um homem negro, alto, de cabelos compridos.

Quando ele a viu, algo dentro dele se rompeu.
Como se uma voz antiga, enterrada na carne, despertasse.
Um instinto primitivo, misto de medo e desejo, ascendeu nele como febre.
E então ele começou a falar — palavras duras, quase blasfemas —
profecias nascidas do fundo escuro de si mesmo.
Falava como se fosse um mensageiro de algo maior,
exigindo que ela se rendesse,
que aceitasse uma submissão absurda, quase sagrada.

A tensão cresceu no ar.
Os outros observavam, sem saber se assistiam à loucura ou à revelação.

Então, Mariana — amiga de Jorge, que estava próxima — decidiu agir.
Sem dizer uma palavra, correu até o cercado onde sete cachorros estavam presos e abriu o portão.
Os animais dispararam, excitados e famintos, e avançaram com fúria.
O caos começou.

Gritos se misturaram ao barulho do metal e ao som seco dos corpos caindo.
Os cães devoravam carne e poeira, enquanto um cheiro espesso se erguia no ar — o cheiro do sangue.

Era o odor do caos.
Algo antigo e primitivo havia despertado.
Um motim — uma fúria coletiva, selvagem — tomava conta de todos.

Ninguém compreendia o que estava acontecendo,
mas todos, de alguma forma,
queriam um pedaço.

A Casa de Jorge

Uma catarse bem feita era um caos anunciado,
na casa de Jorge, tudo era sagrado e profano, misturado.
Quando deixava a filha ir ao centro espírita, em paz,
perguntava-se em vão por que sua fé nunca mais.

Falava baixo, num tom de ironia e desvelo:
— Minhas crenças têm rosto, mas não têm espelho.
Covardes são deuses com forma e razão,
que pedem joelhos, mas negam o pão.

Virou-se à esposa e, num riso cansado,
disse: — Rosas e borboletas são belos pecados.
Mas de nada adianta beleza na pele,
se a fome é o que fere e o tempo repele.

A TV seguia o jornal — tragédia e ruído.
Jorge apenas via o mundo perdido.
Foi então que a filha, pela porta direita, entrou,
e o silêncio da casa, de leve, mudou.

Contou-lhe cinco amores, cinco quedas, cinco vias,
e cada história acendeu antigas nostalgias.
Por um instante, pai e filha se olharam contentes,
como se o tempo, cansado, parasse entre gentes.

Mas o tempo não cessa, é cruel e atento.
Trouxe com ele um último contratempo:
um estalo no gás, um sopro, um ardor,
e o fogo tomou o lugar do amor.

Explodiu o botijão, queimando os momentos,
os risos contidos, os sentimentos.
Restou o ar seco, o chão em ruína,
e a fé consumida na própria fuligem fina.

Assim, a catarse se fez, por inteiro,
limpando a dor, mas num fogo traiçoeiro.
E na casa de Jorge, entre cinza e verdade,
ardeu o milagre da humanidade.

Luccas Perottoni

O Rei de Pão e Covardia

Era uma vez um francês,
chamado Michael, burguês.
Três vezes por semana, inglês,
às seis da manhã, seu pão, sua altivez.

Comia em silêncio, convicto,
que o gesto o tornava distinto.
Um rei de café e costume,
com ares de classe e perfume.

Mas um dia, no velho trajeto,
o ônibus tomou outro aspecto.
A estrada virou confusão,
gritos, bandeiras, tensão.

Três homens bradavam na via,
contra a lei, contra a polícia.
Michael olhou — e reagiu,
sem saber por que o fez, fugiu.

De burguês virou milícia,
no susto, na própria malícia.
Um ato sem honra, sem guia,
feito no medo, na covardia.

E o povo, que nada entendia,
ergueu-lhe um trono — ironia.
Promulgaram-no rei por herança,
morto em sua própria arrogância.

Assim finda a realeza vazia:
um pão frio, uma fé tardia.
Um francês que quis ser alguém,
e acabou rei — depois, ninguém.




Luccas Perottoni

Mariana e as Sombras

Mariana tinha sete amigas.
Todas moravam na rua de cima —
exceto Júlia, que morava na rua de baixo.

Elas brincavam no parque toda sexta-feira, treze,
enquanto caminhavam sobre as águas,
imitando Jesus.

Certo dia, estavam distraídas,
brincando com as nuvens,
transformando-as em algodão.

Foi então que um homem passou
e ofereceu um sorvete.

Elas se entreolharam, confusas,
e se questionaram sobre aquilo:

quais sombras haveriam naquele homem?
E por que estaria ele tão comprometido
em realizá-las?

Eu amo esse contraste entre o urbano e o natural, a calmaria dos pássaros se misturando às rotinas caóticas dentro dos apartamentos.


A mãe que corre para levar o filho à escola.
A senhora que acabou de receber a visita da filha para um café.
O CEO estressado com as reuniões do dia.
O casal que vibra com a notícia de um bebê a caminho.


Enquanto isso, as folhas das árvores balançam lentamente com a brisa de uma manhã nublada.


Contraste.
É ele que nos faz perceber o quanto tudo é paralelo, vidas inteiras coexistindo em tempos e mundos diferentes.


Enquanto uns sorriem, outros choram.
Enquanto o mundo gira em sua rotina incessante e cansativa,
a natureza permanece plena, intacta,
sempre disposta a nos acolher na calmaria.


Contraste.
O que nos move e nos desperta gratidão.
Sem ele, talvez nunca perceberíamos a diferença entre o caos e a paz.


E é por isso que eu o amo tanto.


Respira… há um universo inteiro de paz ao seu redor.

Fazer amor, arte,
Sobre o momento da vida.
Escrevo sobre o sentimento,
Amor, arte, céu.
Sentimento escrevo,
Sobre o momento.


No fazer amor, encontro a arte,
No momento da vida, escrevo.
Sobre o sentimento que me invade,
Amor e arte sob o céu.
Escrevo o sentimento,
Preso neste momento meu.


Fazer amor é arte,
A vida, um momento escrito.
O sentimento no céu,
Amor e arte, infinito.
Escrevo o momento,
No sentimento bendito.

A vida, às vezes, parece um caminho estreito cheio de pedras invisíveis.
A gente tropeça, cai, sangra, mas continua. Porque há algo dentro da alma — uma pequena chama — que insiste em não apagar.
As dores ensinam o que os dias bons escondem. As perdas moldam o que os aplausos não alcançam.
E é nesse vai e vem de quedas e recomeços que a gente descobre que ser forte nunca foi sobre vencer, mas sobre continuar acreditando, mesmo quando tudo parece perdido.
A vida não pede perfeição. Pede presença.
E quem caminha com fé e coragem, mesmo ferido, já está mais perto da vitória do que imagina.


—Purificação

✨ Poema — Raízes e Saberes ✨


O agricultor planta o pão,
com suor, com fé, com chão.
Da terra brota o sustento,
trabalho puro, alimento.


O professor planta a ideia,
faz da mente fértil a seia.
Do saber nasce a esperança,
colhe-se luz, confiança.


Um cultiva o corpo e o dia,
outro, o sonho e a poesia.
Ambos regam, com valor,
a justiça e o amor.


Pois sem campo e sem lição,
não há vida nem nação.
O agricultor e o professor —
raízes do mesmo valor. 🌾📚

Jardim do Amor


No jardim onde as flores ardentes floresciam, com a alma alimentada por histórias em livros que se liam.
A fonte cantava serena, bem no meio do jardim.
Sentada ao banco a pintar, vendo o infinito e o fim, cada pincelada era um suspiro, a cor que ia vibrar, pois ali, em silêncio e arte, sentia o seu amor pulsar.

Mel do meu amor

Você é o mel que adoça minha boca
e amarga meu paladar quando não está comigo.
Sentimento que corrói, se quer ir embora me faço de dodói, e você fica um pouco mais.

É infantil, eu sei, agir dessa maneira, mas
quando se ama demais, dá minutos de bobeira

Seu amor me leva ao céu, à glória.Não quero ser só mais um na história, que você brinca, quando se cansa joga fora.

Brinque comigo, mas também me leve à sério, meu destino ao seu está traçado, por isso faço manha para ficar sempre ao seu lado.

És para mim como o néctar é para o beija-flor
você é o mel que adoça meu amor!
Já nasci destinado pra você.

Foi Deus que quis assim, peço a Ele que faça você gostar de mim, ao menos a metade do quanto gosto de você e, juntos, o amor se multiplica em cada amanhecer...

O que aconteceu com nosso amor

O que aconteceu com nosso amor
ainda existe ou terminou.
Não vejo o mesmo brilho em seu olhar
Não sei se vai embora ou fica para me amar

Viver nesa indecisão faz mal para o coração, fere a alma e afunda na solidão.
Qualquer certeza é melhor do que estou vivendo agora. Hoje está comigo, amanhã ameaça ir embora.

O que aconreceu com nosso amor
Não veio agora, ficou para vir depois, será que se perdeu e por aí ficou.

Se o amor morreu, não dá para continuar, mas se adormeceu, ainda podemos acordar.
Preciso saber se você ainda me ama
Não quero que a tristeza me pegue indo sozinho para a nossa cama.

Acorde seu amor, que o meu sempre esteve acordado.
Por você ainda estou completamente apaixonado.

O Ator do Cotidiano
William Contraponto


Veste o papel sem perceber,
repete gestos da rotina,
crê-se destino no dever,
mas vive cena clandestina.


Sorri o rosto que não é,
fala o que o hábito ordena,
o ser se perde no que vê,
num ato vão de fé pequena.


O mundo aplaude o disfarçar,
confunde vida e personagem,
ninguém recorda o perguntar
que rompe a trama da engrenagem.


No reflexo resta um breve olhar,
vazio entre o script e o ser,
onde o silêncio quer lembrar
aquilo que não quis nascer.


E ao fim, cortina e solidão,
cumpre o papel sem cor nem voz,
talvez a falta, em ilusão,
seja o autor de todos nós.

No Barril de Cerâmica
William Contraponto


É mais livre quem desapega,
para dizer o que pensa.
No palácio o pensamento se vende,
no barril de cerâmica não se rende.


A cidade adora coroas,
mas teme quem anda descalço.
O luxo brilha e apodrece,
a verdade mora no espaço escasso.


Quem tudo possui, é possuído,
quem nada tem, respira inteiro.
O ouro pesa mais que a alma,
e o desejo é um cativeiro.


O sábio dorme entre pedras,
mas sonha com clareza.
O tolo repousa em seda,
e acorda sem certeza.


É mais livre quem se basta,
quem não precisa fingir grandeza.
Entre o trono e o chão da praça,
fico com a nudez da natureza.

Retratos


Somos o nosso espelho...
A nossa verdade...
O que falam ...
Não é nem nunca será...
A razão da verdade...
Espelhos perfeitos...
Guardam imperfeições...
De gerações de grandes...
Que não passam de ladrões...
Cantam como Deuses...
Sem castigo algum...
Heróis de merda...
De mundo nenhum...
Livremo.nos desta praga...
De pequenos raivosos...
Que pensam pequeno...
Gritemos pra eles..
Que não os tememos...
Sou humano quero viver...
Meu sentimento é sublime...
Meu mundo..a humildade...
Minha força..é só uma...
Abraçar..tudo.. tudo ...
Mas só com muita verdade...


Antonio José Ferreira

Seja grato.
Se Deus te colocar na posição de prosperidade, seja espelho da sua vontade, mantenha-se Justo,honesto e generoso.
Não se decepcione se a reciproca das pessoas não forem a mesma.
A ingratidão é considerada um pecado,
Então não peques também!
Seja grato pelas bênçãos de Deus na sua vida.
Muitos confundem bondade com fraqueza
pensam q estão se aproveitando ...pq ingratidão e arrogância caminham lado a lado.
Pobres coitados!
Triste , um dia verão que a corrida da vida nao e pelo ouro e sim pela glória!
Seguimos firmes com Jesus..

Tempo perdido


Já batalhei tudo o que tinha a batalhar
Já falhei tudo o que tinha a falhar
Hoje só batalho se assim precisar
Hoje só falho se me deixar enganar


Já trabalhei tudo o que tinha a trabalhar
Já trilhei tudo o que tinha a trilhar
Hoje só trabalho se for para o meu salário aumentar
Hoje só trilho se o caminho for o certo para triunfar


Já ralhei tudo o que tinha a ralhar
Já avacalhei tudo o que tinha a avacalhar
Hoje só ralho se alguém realmente se portar mal
Hoje só avacalho se a pessoa comigo se armar


Já atrapalhei tudo o que tinha a atrapalhei
Já olhei tudo o que tinha a olhar
Hoje só atrapalho se for para tempo, ganhar
Hoje só olho se aquele olhar estiver mesmo a matar

🌿 A Princesa do Rio e o Amor no Mato Grosso


Às margens de um rio tão largo que parecia tocar o céu, vivia Princesa Carla, herdeira de um pequeno reino conhecido por suas águas puras e peixes raros.
Mas Carla não se sentia completa no palácio. Havia algo dentro dela — uma inquietude, um chamado para além das margens.


Essa inquietude tinha nome: Kairo.
Eles se conheciam por cartas, enviadas por mensageiros que cruzavam florestas e rios. As palavras dele eram tão vivas que pareciam trazer o cheiro do mato, o canto das araras e o calor do sol de lá.


Numa noite iluminada pela lua, Carla se sentou no cais, os pés tocando a água. Ao lado dela, estava Helena, sua dama de confiança.


— Helena, eu decidi… vou para o Mato Grosso.
— Mas, princesa, o que seu pai dirá?
— Ele vai dizer que é perigoso. E é mesmo. Mas viver sem conhecer Kairo seria o maior perigo para o meu coração.
— E se ele não for como você imagina?
— Então ao menos eu saberei que tentei.


Na madrugada seguinte, Carla partiu sozinha em uma canoa de madeira.
O rio era lindo, mas traiçoeiro. Correntes fortes tentavam empurrá-la para trás, e a cada noite a escuridão trazia sons misteriosos.


No segundo dia, um trovão estourou no céu. Chuva grossa caiu, virando a canoa quase de lado. Carla segurou firme o remo.
— Eu não vim até aqui para voltar atrás! — gritou, como se o próprio rio pudesse ouvir.


Na manhã seguinte, encontrou um velho barqueiro pescando.
— Moça, essas águas não são para qualquer um. O que está procurando? — perguntou ele, intrigado.
— Procuro um homem chamado Kairo. Vive no Mato Grosso.
O velho sorriu, revelando dentes falhos.
— Então siga o canto das araras. Elas sempre levam a quem se ama.


Carla seguiu seu conselho e, após mais um dia de viagem, o rio se abriu em uma imensa planície verde. No centro de uma clareira, ela viu um homem alto, de olhar firme, cortando lenha.


— Kairo? — chamou, a voz tremendo.
Ele largou o machado e se virou, como se reconhecesse a voz antes mesmo de vê-la.
— Carla… você veio mesmo.
— Nem o rio, nem as tempestades, nem o medo puderam me impedir.
Kairo correu até ela, segurando suas mãos como se fossem um tesouro.
— Eu prometo que você nunca mais terá que viajar sozinha.


Os meses seguintes foram de aprendizado e amor. Eles plantavam juntos, pescavam e riam das dificuldades. Mas o Mato Grosso também testava sua coragem: houve seca, que quase destruiu a plantação, e tempestades que derrubaram o telhado de sua casa. Ainda assim, eles nunca deixaram de se apoiar.


Um dia, Carla contou uma novidade, enquanto segurava uma carta para enviar ao seu antigo reino.
— Kairo… vamos ter um filho.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, os olhos marejando.
— Então é verdade… o rio me trouxe minha família.


Meses depois, nasceu uma menina de olhos brilhantes.
— Ela se chamará Cora — disse Carla. — Porque é o coração que nos uniu.


Mas a vida ainda guardava uma última surpresa.
Num fim de tarde, um grupo de cavaleiros chegou trazendo o rei, pai de Carla, que vinha buscá-la.
— Filha, eu lutei contra a ideia de você partir… mas vendo você aqui, percebo que encontrou mais do que amor. Encontrou um lar.


O rei, emocionado, abraçou Kairo.
— A partir de hoje, o reino do rio e as terras do Mato Grosso serão um só. Para que Cora cresça entre as águas e a floresta.


E assim, Carla não apenas encontrou o amor da sua vida, como também uniu dois mundos. O rio e o mato agora corriam juntos — assim como ela e Kairo — até o fim de suas histórias


K&C 2025 ❤️

Teus olhos são a origem do tempo
Juvenil Gonçalves


Teus olhos são luas gêmeas em órbitas de vigília,
cicatrizes de um cosmos que não dorme.
Ao decifrá-las, desaprendo a física:
são elas que inventam o mar, a carne, o relógio.
Não há mundo além de seu eclipse.


O oceano que neles navega não é líquido,
mas fronteira entre o ser e o véu —
ondas quebrando em espelhos onde o real
se desfaz e recompõe, eterno ensaio.
A lua que ali dança não é astro,
é a primeira metáfora, o desejo
que antecede até o verbo desejar.


Constelações cravadas em tua pupila
são alfabetos de um caos primordial:
cada estrela, uma sílaba do nome
que jamais pronunciaremos.
Elas cartografam o vazio entre dois corpos,
a distância entre o "eu" e o "outro"
— abismo que chamamos amor,
mas que, no fundo, é só o eco
de um sol que se apagou há eras.


Há em teu olhar a vertigem do infinito:
cada piscar é um universo nascendo
de um suspiro, ou um buraco negro
engolindo todas as perguntas.
Não é angústia, é a lei secreta —
tudo que existe carrega em si
o germe da própria extinção.
Até o amor. Especialmente o amor.


Amar-te é habitar um paradoxo:
é morder a sombra de um fruto proibido
cuja polpa é feita de ausência.
É saber que a luz que me guia
já foi apagada há milênios,
e ainda assim jurar que é nova,
que é minha, que é eterna.


Porque teus olhos, veja bem,
são relógios sem ponteiros:
neles, o instante é tudo.
E tudo é só um reflexo
de algo que perdemos
antes mesmo de nascer.