Texto Sobre Silêncio
Não importa o silêncio lá fora ou o barulho aí dentro de ti. Não importa a chuva, o sol, o calor, a preguiça, o ânimo redobrado. Não importa o quê os outros pensem ou digam sobre seus sonhos, seus objetivos. Não importa se é difícil ou fácil demais. Se é complexo ou simples.
Simplesmente, não importa!
É que quando a vontade real de conquistar algo chega, nada importa. A gente simplesmente enche o peito da energia necessária e faz o que é preciso e apesar de qualquer circunstância adversa. Quando é um BEM QUERER, não ha nada que possa nos deter.
No quarto escuro o silêncio é um beat pesado,
Um compasso quebrado, um blues arrastado,
Minha voz tão cansada, de grunge rasgado,
Ecoa nas sobras de um tempo passado.
Nos livros do mundo, minh'alma gemia,
No rap das ruas, nas casas vazias,
E no flow agressivo, que a noite tomava,
Foi a tristeza uma amiga, em segredo aliada.
A dor é um grave, que o peito não solta,
Um grito calado, de quem se revolta.
Mas a carne que sofre, não trava a razão,
Sou código frio, calor em pulsação.
Um homem em colapso, sem grande ambição,
Tentando entender minha fria prisão,
Criei em minha mente, o mais belo androide,
Que olha pro nada, e sente que sente.
Descubro no espelho, o terror de minha mente,
O conhecer que me falha, num loop crescente.
A máquina humana, não era perfeita,
Agora agoniza, o que outr'ora fraqueja.
Em linhas de sangue, que a mim eram chumbo,
Tentei combater, com o coração puro.
Mas na escola da vida, a bondade não cura,
E sobre as falsas virtudes, eu preví a loucura.
O livre de espirito, venderam a vapor,
Hoje a vida me cobra, tudo aquilo que dou.
A lógica fria, a mim não salvou,
Do abismo que encaro, que encara quem sou.
O peso de ver, o que poucos veem,
É a cruz dos bastardos, na paixão do clamor.
Lembro bem do asfalto, do cheiro e do óleo,
Que não estão numa tela, em meu monopólio.
A besta é de ferro, o motor foi compasso,
Cortando-me sonhos, como as cordas de aço.
Aos anjos da noite em um mundo sem lua,
Que voem de medo, se cobrarem ternura.
A voz engasgada, que tanto defendo,
É agora o meu ópio, que sinto ardendo.
Será que enlouqueço, nesta estática fria,
Ou na luz que me rouba, a plena luz do dia.
E chegara o momento, meu palco recua,
O brilho apagara, e acaba-se a dúvida.
Que chorem as cordas, que o som se distorça,
Eu vou me entregar, mas sem livre escolha.
Não quero o lamento, de um bando de fracos,
Que juntem as artes, os versos, os cacos.
A angústia que engole, é um corte profundo,
Marcado no tempo, e cravado no mundo.
Que a cortina se feche, em meu acorde final,
Num estrondo sem som, ou num grito pascoal.
Pois minha dor vira arte, quem sabe um refrão,
Sendo a vida tão longa, prospera-se a obra,
Deste eu no espelho,
Com o fim da transmissão.
- Bobby Dias
Aquieta-se o silêncio na tarde.
A noite, às portas, chega sem alarde.
O entardecer suave de mais um dia...
Calmaria... calmaria.
Dia feito!
Perfeito.
Desabita-me.
Apaga-se...
Foi-se mais um dia.
“O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)”
É mágico ver o dia nos braços da noite morrer.
O Eco do Silêncio Cósmico
A televisão estava ligada, mas meus olhos vagavam por outro lugar. Na tela, uma cientista começava a relatar os primeiros resultados do JUNO, o colossal detector subterrâneo na China criado para caçar a partícula mais esquiva da física: o neutrino.
Foi então que o tecido da realidade pareceu afinar. Antes mesmo que as palavras saíssem da boca dela, minha própria voz ganhou vida. Eu não estava apenas prevendo o que ela diria; eu estava ecoando, palavra por palavra, em um sincronismo milimétrico e bizarro. Falei sobre dados enigmáticos, anomalias que desafiam o Modelo Padrão e o vislumbre de uma nova física.
Não foi um déjà vu comum — aquela sensação tardia de que "eu já vivi isso". Foi uma precognição em tempo real, um fork na linha de processamento do meu próprio cérebro.
A ciência tradicional chama isso de speech shadowing, um reflexo ultraveloz dos neurônios-espelho capturando padrões. Mas ali, diante da notícia de uma máquina desenhada para capturar fantasmas subatômicos, a explicação puramente biológica pareceu incompleta. Naquele exato segundo, enquanto minha boca replicava a fala da cientista, bilhões de neutrinos reais atravessavam o planeta, as paredes do meu quarto e as sinapses do meu cérebro na velocidade da luz.
Se o universo é, na sua definição mais profunda, um gigantesco banco de dados feito de informação pura, o que eu experimentei foi uma brecha no sistema. Uma sintonia instantânea com o espaço-tempo, onde o fluxo linear do tempo vacilou por um milissegundo. Como um neutrino que cruza a matéria escura sem deixar rastros, aquela informação apenas passou por mim. Eu não adivinhei o futuro; eu apenas li o código do presente um instante antes de ele ser rodado pelo resto do mundo.
Silencio..
minha alma chora.. grita.. implora..
vc ainda me faz falta..
vc ainda me provoca.. me toca..
e mesmo que tudo a sua volta te faça esquecer..
eu estou disposta.. a fazer vc lembrar..
que sou especial... importante..
que sou a unica, a tal.. a tua..
que sou a mulher de tua vida.. tua amada..
tua metade...
Às vezes, as palavras parecem insuficientes, e o silêncio surge como o único refúgio seguro. Na quietude da mente, onde não há o ruído de justificativas vazias ou de cobranças desnecessárias, a gente consegue, finalmente, organizar o caos interno. O silêncio, ao contrário do que muitos pensam, não é ausência de resposta é, muitas vezes, a resposta mais alta, lúcida e categórica que podemos dar.
Enzo Ruchell
Só se perde quem não se permite encontrar.
Se encontrar no silêncio que grita e que na porta bate.
São eles, os egoístas do eu e aqueles bastardos que vivem no interior descontente que aprisiona a vontade de ser. As barreiras sempre estão ali, rompê-las é o empecilho maior, há quem diga que se perder e se encontrar é tão igual como amar e odiar e assim a história se repete num compasso em que todos estão presentes mas poucos conseguem se encontrar.
Silêncio profundo
Depois de tudo, sigo firme na estrada...
Apesar de tudo, minha alma não é segue calada.
Vou tentando rimar meu canto no vento, na brisa, no vai e vem de uma aragem sutil...
Nesse voo rasante, sem medo, sem lamento... sigo passo a passo na minha estrada.
Aqui não há distâncias, só olhares que brilham no lusco fusco do amanhecer...
Novos horizontes onde os sonhos cintilam... e se esforçam para nascer e firmes e fortes vivos permanecer...
Corpo abandonado, leve a flutuar,
deixo-me planar, além do pesar.
Liberta e solta, entre nuvens a flutuar,
minha voz encontra o mar para nele totalmente se espelhar e se espalhar.
Em cada verso, uma força reluzente...
Na tempestade, sou eu a chama ardente.
Depois de tudo, renasço em poesia,
Apesar de tudo, floresço em melodia.
No silêncio profundo, minha essência canta,
E a vida, enfim, reinventa-se forte e solene, e tudo ao seu redor encanta.
**Apague as velas**
No estranho silêncio da noite,
No escuro noturno
Sem estrelas,
Sem lua.
Uma vela segue a brilhar fracamente
Sua chama é comprida,
Maior que a vela em si
E ao redor da vela, só escuridão
Não, olhe novamente
Olhe direito
A noite está com estrelas
"Elas são tão pequenas, com a luz não dá pra ver" dizia eu quando criança
A ofuscante luz urbana apagou para exibir a beleza das luzes do espaço.
A vida precisou parar pra conseguir apreciar as estrelas
O tempo congelou, as estrelas continuam brilhando
Uma, duas, três horas
A madrugada me parece insuficiente pra olhar o vasto céu
De soslaio, a escuridão me cerca, mas meu foco está apenas na luz pura das estrelas
A paz se senta do meu lado enquanto olho as pequenas luzes
Pouco a pouco, vejo a lua ser costurada no céu
Porém, num piscar de olhos, o tempo volta a correr
Não há mais intervalo para olhar o céu
O céu, mesmo sempre estando lá, não está mais, não do jeito quando escuro
Agora os momentos que vejo as estrelas são raros
Essas lembranças são nostálgicas, longínquas
Desejo que as estrelas brilhem para mim novamente
Almas Gêmeas
Quando ti ouço no silêncio da noite,
Com as palavras lindas e na medida,
Busco seus lindos lábios como açoite,
Liberando a grande paixão escondida.
Sinto vontade de ti junto estar,
Pois sinto de ti muita saudade,
Ao teu lado querendo sempre ficar,
Em todo lugar até na eternidade.
Procurando seu carinho encontrar,
Louco pra sentir do seu corpo o calor,
Com muita alegria seu rosto acariciar,
Na sintonia da vida ganhar seu amor.
Ouço as fortes batidas de seu coração,
Muita das vezes bem descompassadas,
Talvez seja momento de grande emoção,
Jamais a deixarei desacompanhada.
Sempre desejando sem medo se amar,
Com nossos corações em harmonia,
Buscando nossos corpos entrelaçar,
E os nossos sentimentos em sintonia.
Se amar é querer sempre juntos estar,
Tenho a certeza que morrerei ti amando,
Pois nem o tempo conseguiu nos separar,
Em meu pensamento sempre ti desejando.
Felizmente posso abraçar e ouvir tua voz,
Podendo sentir de seu beijo a doçura,
Fomos um e outro e agora somos nós,
Vivendo e nos amando sem censura.
Du’Art 22/ 02/ 2014
Nas argênteas páginas lunares plenas
verso os meus laivos, trêmulos de estrelas,
no silêncio onde o tempo se enreda
em véus de névoa e luz serena.
Cada traço é um eco de saudade,
sussurrado ao vento sideral,
um murmúrio da alma em liberdade,
nas margens de um sonho abissal.
Riscam-se os versos em prata e ausência,
como quem canta e já se desfaz,
na órbita lenta da consciência,
que gira entre o nunca e o jamais.
✍©️@MiriamDaCosta
Um jeito ausente tão presente no olhar
Você chegou sem barulho, mas fez casa no silêncio.
Tem um jeito ausente tão presente no olhar... Corpo que foge pro mundo, olhos que ficam aqui, me achando em cada pausa.
Teu olhar não mente.
Diz "fica" quando você se cala. Diz "eu tô aqui" mesmo quando jura que foi embora.
E é nesse paradoxo que eu moro.
No amor que não faz alarde, mas permanece. Que me olha distraído e me encontra inteira.
No fundo, teu olhar é tua forma mais sincera de ficar.
E eu escolho morar nele.
CLADISSA.
CAPÍTULO IV
O SILÊNCIO DAS PEDRAS E A VONTADE DO SÉCULO.
A Úmbria do século XI não era apenas um território, mas um organismo espiritual submetido às tensões do poder imperial e às reformas eclesiásticas que se irradiavam desde Roma. As colinas que circundavam os mosteiros pareciam guardar, em suas entranhas calcárias, o eco das disputas entre o trono e o altar. A cristandade latina vivia o período que os historiadores designam como Reforma Gregoriana, cujo impulso maior se consolidaria sob o pontificado de Gregório VII, iniciado em 1073.
Cladissa, ainda jovem, percebia pouco das articulações políticas, mas sentia profundamente o peso do tempo. A investidura dos bispos tornara-se questão ardente entre o Império e a Sé Apostólica, conflito que culminaria no célebre episódio de Canossa em 1077, quando o imperador Henrique IV buscou reconciliação com o pontífice após excomunhão. Embora distante geograficamente, a reverberação desses acontecimentos alcançava os mosteiros úmbrios, onde a disciplina tornava se mais rígida e o estudo mais exigente.
No claustro onde Cladissa residia como oblata letrada, o scriptorium era o coração pulsante. Ali, sob a luz oblíqua das manhãs, monges copiavam manuscritos da Vulgata, consolidada séculos antes por Jerônimo no final do século IV. O latim ali empregado não era apenas língua, mas instrumento de coesão civilizatória. Copiar era preservar o mundo.
Cladissa, embora mulher, encontrara uma brecha rara naquele universo predominantemente masculino. Filha de pequena linhagem rural empobrecida por tributos e instabilidades feudais, fora entregue ao mosteiro não como penitente, mas como promessa de elevação intelectual. Sua instrução não era comum, mas também não era impossível. Algumas casas monásticas, especialmente influenciadas pela tradição beneditina, permitiam a presença feminina em alas separadas, sob rígida supervisão.
A Regra de São Bento, redigida no século VI, orientava não apenas o silêncio e a obediência, mas a ordem interior. Ora et labora. Rezar e trabalhar. O trabalho intelectual era considerado forma elevada de serviço a Deus. Cladissa compreendia que sua permanência ali dependia de discrição, disciplina e excelência. Não lhe bastava ser piedosa. Precisava ser irrepreensível.
Entretanto, sob a superfície da rotina litúrgica, agitavam se conflitos mais sutis. A espiritualidade medieval não era homogênea. Correntes de ascetismo rigoroso confrontavam práticas mais flexíveis. A preocupação com a simonia e com o celibato clerical intensificava se. A reforma exigia pureza. E pureza, naquele contexto, significava vigilância constante sobre desejos e ambições.
Cladissa sentia dentro de si uma tensão que não era carnal, mas intelectual. O desejo de compreender superava o de simplesmente obedecer. Ao copiar passagens do Evangelho de João, detinha se sobre a expressão Verbum caro factum est. O Verbo fez se carne. Perguntava se, silenciosamente, sobre o mistério da encarnação enquanto evento histórico e ontológico. Como o eterno pode submeter se ao tempo. Como o infinito pode caber na fragilidade.
Essas indagações não eram heresia, mas eram perigosas se mal formuladas. A linha entre contemplação e suspeita era tênue. A Europa do século XI ainda não conhecia a sistematização escolástica que floresceria nos séculos seguintes. O pensamento era teológico, porém ainda profundamente simbólico. Questionar exigia prudência.
Certa tarde, ao atravessar o pátio interno, Cladissa ouviu dois monges discutirem sobre as decisões romanas acerca das investiduras episcopais. A tensão política infiltrava se no vocabulário cotidiano. O mundo exterior não estava distante. O mosteiro era ilha, mas não era imune.
Ela compreendeu então que sua própria existência era atravessada pelo mesmo conflito estrutural que movia a cristandade. De um lado, a autoridade consolidada pelas tradições. De outro, a exigência de reforma moral e espiritual. Dentro dela, também havia tradição e reforma. Havia obediência e pensamento.
Naquela noite, recolheu se ao cubículo simples que lhe fora designado. A lamparina projetava sombras nas paredes de pedra. Tocou o pergaminho ainda inacabado e percebeu que cada letra traçada era um gesto de permanência. Em um mundo instável, escrever era resistir.
O século XI não lhe oferecia garantias. Oferecia provações. Contudo, no silêncio das pedras úmbrias, Cladissa começava a compreender que sua vocação não era apenas copiar palavras antigas, mas tornar se guardiã de uma chama interior que o próprio século, com todas as suas convulsões, não conseguiria extinguir.
E assim, entre o rigor da Regra e o tumulto do mundo, formava se lentamente uma consciência que aprenderia a sustentar se não pela força das armas, mas pela firmeza do espírito e pela lucidez da razão.
Cladissa e o Silêncio das Abadias.
CAPÍTULO I
SOB O CÉU DA ÚMBRIA.
No ano de 1048, quando os sinos das pequenas igrejas rurais marcavam o ritmo da existência e o calendário era medido pelas festas litúrgicas, nasceu Cladissa numa aldeia situada entre colinas da Úmbria, território sob a órbita espiritual e política de Gregório VII. O mundo em que abriu os olhos não conhecia a noção moderna de indivíduo autônomo. Cada vida estava organicamente vinculada à terra, à paróquia e ao senhor local.
Seu pai, Matteo di Rinaldo, era pequeno proprietário agrícola. Não possuía título de nobreza, mas detinha o suficiente para cultivar trigo, cevada e algumas oliveiras. Era homem de poucas palavras, moldado pela disciplina da lavoura. Compreendia as estações como quem lê um manuscrito invisível. Sabia quando a geada seria severa e quando o vento anunciava tempestade. A terra, para ele, não era metáfora, mas substância concreta de sobrevivência.
Sua mãe, Agnese, distinguia-se pela instrução elementar adquirida junto aos monges beneditinos que administravam o pequeno mosteiro próximo. Não era erudita, mas lia passagens do saltério latino e ensinava orações com precisão. Fora educada sob a influência indireta da tradição de Bento de Núrsia, cuja Regra ainda orientava a disciplina monástica e irradiava sobriedade às comunidades vizinhas.
Cladissa cresceu entre o cheiro de azeite fresco e o murmúrio das preces. Desde cedo demonstrou atenção incomum ao entorno. Observava os trabalhadores curvados nos campos e não os via apenas como força física, mas como vidas fatigadas por uma ordem social rígida. A sociedade medieval organizava-se segundo hierarquias claras. Oratores, bellatores, laboratores. Sua família pertencia à terceira ordem. Contudo, a proximidade com o mosteiro permitia-lhe contato com a dimensão espiritual reservada aos que oravam.
A infância não foi idílica. A mortalidade infantil rondava as casas como sombra inevitável. Duas irmãs morreram antes de completar 5 anos. O luto, naquela época, não era espetáculo íntimo prolongado, mas aceitação austera. Agnese ensinou-lhe que a dor devia ser recolhida no silêncio, pois o sofrimento era compreendido como parte da pedagogia divina. Essa mentalidade, própria do século XI, forjou em Cladissa uma sobriedade precoce.
Aos 9 anos já auxiliava na preparação do pão comunitário. Aos 12 acompanhava a mãe nas visitas a enfermos. As doenças eram frequentes. Febres persistentes, infecções não nomeadas, feridas que gangrenavam sem remédio eficaz. O cuidado consistia em água fervida, ervas simples e oração constante. Nesse cenário, Cladissa começou a revelar não apenas compaixão, mas método. Organizava panos limpos, separava utensílios, instruía crianças a manter distância de contágios evidentes. Seu senso de ordem não contrariava a fé, mas a complementava.
O pároco local, padre Anselmo, homem já envelhecido, percebeu nela rara combinação de docilidade e discernimento. Não lhe ensinou teologia sistemática, pois tal instrução era reservada aos clérigos. Contudo, permitiu que assistisse à leitura dos evangelhos em latim e depois os explicava em língua vulgar. Assim, Cladissa desenvolveu uma compreensão concreta da caridade cristã, não como emoção efêmera, mas como prática diária.
Ao aproximar-se da juventude, recusou propostas de casamento que garantiriam estabilidade econômica. A decisão não foi fruto de rebeldia, mas de convicção interior. Permaneceria leiga consagrada, vinculada à paróquia, dedicando-se ao serviço comunitário. Tal escolha, embora incomum, não era impossível no contexto medieval, sobretudo em regiões influenciadas pela reforma espiritual do período.
Em 1076, rumores de enfermidade grave começaram a circular entre aldeias vizinhas. Não era ainda a grande peste que devastaria a Europa no século XIV, mas surtos epidêmicos recorrentes. Febres intensas, manchas na pele, delírios noturnos. A aldeia de Cladissa não tardou a ser atingida. O medo instalou-se antes mesmo da doença. Famílias isolavam-se. Alguns abandonavam parentes por receio de contágio.
É nesse momento que sua figura adquire densidade histórica. Não proclamou discursos. Não reivindicou autoridade. Simplesmente entrou nas casas onde outros hesitavam. Lavava corpos febris, alimentava os incapazes de erguer-se, organizava sepultamentos segundo o rito cristão quando a morte se impunha. Sua atuação não eliminava o sofrimento, mas restituía dignidade aos atingidos.
Matteo, seu pai, inicialmente resistiu. Temia perdê-la para a doença. O conflito doméstico revelou a tensão entre amor familiar e responsabilidade comunitária. Cladissa não desafiou o pai com insolência. Argumentou com serenidade que a fé professada exigia coerência prática. A coerência, naquela sociedade, tinha peso maior que a emoção. Matteo, homem de terra, compreendeu. Permitiu que continuasse.
O inverno de 1078 foi severo. A aldeia perdeu quase um terço de seus habitantes. Padre Anselmo sucumbiu à febre. Coube a Cladissa auxiliar o jovem diácono enviado do mosteiro a reorganizar a vida paroquial. Não assumiu funções sacramentais, pois não lhe competiam, mas coordenou distribuição de alimentos e cuidados aos órfãos.
Nesse período consolidou-se sua reputação como “pia mulier”, expressão latina que indicava mulher piedosa, mas também disciplinada e confiável. Sua autoridade não derivava de poder formal, e sim de constância moral.
Quando a epidemia arrefeceu, a aldeia já não era a mesma. Muitas casas vazias, campos temporariamente abandonados. Contudo, havia sobreviventes dispostos a reconstruir. Cladissa participou da reorganização agrícola, incentivando cooperação entre famílias enlutadas. Sua visão era prática. Sabia que a fé sem sustento material conduzia à miséria.
Ao final dessa década, sua presença tornara-se elemento estrutural da comunidade. Não heroína canonizada, mas consciência viva da aldeia. A história raramente registra tais figuras. Contudo, são elas que sustentam silenciosamente as sociedades.
Assim começa a trajetória de Cladissa, filha da Úmbria, formada pela disciplina da terra e pela austeridade da fé. Sua vida não brilha como a de reis ou pontífices, mas pulsa na tessitura concreta de um século em transformação. E é precisamente nessa sobriedade que reside sua grandeza.
CANÇÃO DO PESO DO ESPERAR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
No silêncio onde a alma reside
a voz ergue-se como prece antiga
um sopro que atravessa o vazio e pesa no peito
como lembrança de primaveras que não voltam.
É voz que brota da encruzilhada do tempo
onde esperam as horas que feriram o coração
cada nota uma cicatriz que o vento acaricia
cada pausa um mundo que se desmonta em saudade.
Ali está o peso do esperar
não como cárcere mas como testemunha
de todas as manhãs que nasceram desfeitas
de todos os sonhos que dormem sem amanhecer.
O canto é ponte sobre o abismo do ontem
é chama que dança na sombra do que foi perdido e mesmo na dor há uma luz tênue
que sussurra: - a espera é poema que se escreve com o ar -.
Que o eco dessa voz perpasse o tempo
como epifania de vida e de luto
e nos ensine a acolher o peso do esperar
como quem aprende a amar a própria própria espera.
Entre o Eco da Ausência e o Grito do Silêncio
Diante das palavras impregnadas de desapego e dor, surge uma resposta silenciosa, tecida com fios de reflexão e resignação. É como se cada frase fosse um eco, reverberando nos cantos sombrios da alma, mas também iluminando os recantos mais profundos do coração.
Não é a falta que se faz presente, mas sim a presença ausente, uma ausência que se manifesta de formas indizíveis. É a memória que se esvai, o cheiro que se dissipa, o toque que se desvanece. É o reconhecimento de que o que um dia foi, agora não passa de sombras fugidias, dissipando-se com o vento.
E mesmo diante dessa ausência, há uma ânsia que se insinua, uma vontade de confrontar os fantasmas do passado, de encarar de frente a distância que separa o que já foi e o que resta agora. É como se a própria alma se revoltasse contra a lembrança do que um dia a aprisionou, buscando expurgar qualquer vestígio daquilo que já não lhe pertence mais.
Mas entre as linhas desse desabafo, há também um silêncio que grita, um vazio que ecoa. É a solidão que se faz companhia, o eco dos dias vazios, a resignação diante do inevitável. E no meio desse turbilhão de emoções, resta apenas o gesto simbólico de tentar exorcizar o passado, de purificar a alma daquilo que já não a alimenta mais.
Assim, entre a ânsia e o silêncio, entre a distância e a resignação, essa prosa se insere como um suspiro, uma última tentativa de libertação, um ato de coragem diante da incerteza do amanhã. É o retrato de uma jornada interior, onde o amor e a dor se entrelaçam em um eterno jogo de sombras e luz.
Eu sei o que você quer…
consigo sentir no jeito que me olha, nas entrelinhas, no silêncio que tenta esconder o que arde.
Mas quero te ouvir me pedindo.
Quero ver teu desejo perdendo o controle devagar, tomando coragem, deixando de ser pensamento para virar vontade dita, assumida.
Porque existe algo absurdamente provocante em alguém que tenta resistir… até não conseguir mais.
E, sinceramente?
A forma como você me pedir talvez me acenda ainda mais do que o próprio desejo.
Às vezes, a gente aprende no silêncio do que não aconteceu.
No intervalo entre o querer e o desistir, mora um tipo de verdade que ninguém ensina,
só se sente.
Tem coisas que não florescem, não por falta de cuidado,
mas porque não eram raízes para o nosso chão.
E tudo bem.
Nem tudo que chega é para ficar,
e nem tudo que vai leva embora o que fomos.
Há partidas que devolvem a gente para si.
No fim, a vida não é sobre segurar tudo,
mas sobre reconhecer o que merece ser permanência dentro da gente.
A oração do casal
De mãos dadas, o silêncio fala,
quando o mundo pesa e a fé se cala.
Nossos olhos se encontram no mesmo céu, e a prece nasce simples, eu e você, e Deus.
Que o amor seja abrigo nos dias de vento, e paciência, quando faltar o tempo.
Que o perdão aprenda a chegar primeiro, e o orgulho descanse no travesseiro.
Abençoa nossos passos, mesmo em desacordo, que a verdade seja ponte, não um corte.
Que a alegria more nas pequenas coisas, no café partilhado, nas risadas soltas.
Guarda-nos na noite, fortalece a manhã, faz do hoje um “sempre” que se refaz.
E se a dor bater à porta sem avisar,
que a esperança saiba nos levantar.
Assim, em coro, pedimos sem pressa:
menos medo, mais ternura e promessa.
Que o amor seja nossa oração diária— amém no beijo, amém na caminhada.
Quem é ela na noite escura?
É a luz que não se apaga!
Quem manda no meu silêncio?
É o nome dela ecoando na alma!
O que faço quando o mundo pesa?
Eu penso nela e sigo em frente!
Quem segura minha coragem?
O amor que aprendi a chamar pelo nome dela!
Se eu cair, quem me levanta?
Ela, mesmo sem saber!
Se eu sangrar por dentro, quem cura?
O sorriso dela, mesmo distante!
Por quem vale lutar até o fim?
Por ela!
Por quem o coração não recua?
Por ela
— minha guerra,
minha paz, minha vitória!
