​No quarto escuro o silêncio é um... Bobby Dias

​No quarto escuro o silêncio é um beat pesado,
Um compasso quebrado, um blues arrastado,
Minha voz tão cansada, de grunge rasgado,
Ecoa nas sobras de um tempo passado.

Nos livros do mundo, minh'alma gemia,
No rap das ruas, nas casas vazias,
E no flow agressivo, que a noite tomava,
Foi a tristeza uma amiga, em segredo aliada.

A dor é um grave, que o peito não solta,
Um grito calado, de quem se revolta.
​Mas a carne que sofre, não trava a razão,
Sou código frio, calor em pulsação.

Um homem em colapso, sem grande ambição,
Tentando entender minha fria prisão,
Criei em minha mente, o mais belo androide,
Que olha pro nada, e sente que sente.

Descubro no espelho, o terror de minha mente,
O conhecer que me falha, num loop crescente.
A máquina humana, não era perfeita,
Agora agoniza, o que outr'ora fraqueja.

​Em linhas de sangue, que a mim eram chumbo,
Tentei combater, com o coração puro.
Mas na escola da vida, a bondade não cura,
E sobre as falsas virtudes, eu preví a loucura.

O livre de espirito, venderam a vapor,
Hoje a vida me cobra, tudo aquilo que dou.
A lógica fria, a mim não salvou,
Do abismo que encaro, que encara quem sou.

O peso de ver, o que poucos veem,
É a cruz dos bastardos, na paixão do clamor.
​Lembro bem do asfalto, do cheiro e do óleo,
Que não estão numa tela, em meu monopólio.

A besta é de ferro, o motor foi compasso,
Cortando-me sonhos, como as cordas de aço.
Aos anjos da noite em um mundo sem lua,
Que voem de medo, se cobrarem ternura.

A voz engasgada, que tanto defendo,
É agora o meu ópio, que sinto ardendo.
Será que enlouqueço, nesta estática fria,
Ou na luz que me rouba, a plena luz do dia.

​E chegara o momento, meu palco recua,
O brilho apagara, e acaba-se a dúvida.
Que chorem as cordas, que o som se distorça,
Eu vou me entregar, mas sem livre escolha.

Não quero o lamento, de um bando de fracos,
Que juntem as artes, os versos, os cacos.
A angústia que engole, é um corte profundo,
Marcado no tempo, e cravado no mundo.

Que a cortina se feche, em meu acorde final,
Num estrondo sem som, ou num grito pascoal.
Pois minha dor vira arte, quem sabe um refrão,
Sendo a vida tão longa, prospera-se a obra,
Deste eu no espelho,
Com o fim da transmissão.

- Bobby Dias