A. Araújo
*Viperino*
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Igual à víbora,
mordes-me e espalhas teu melífluo veneno
Igual à cascavel,
Fazes-me temer os sinos, o som da vida
Igual à naja,
Fazes-me estagnar perante as línguas de áspide
Oh! A presa foi atingida em cheio
Veja como sangra!
Olha como ela se debate e definha no seu próprio sangue
Veja como é pífia a vida deste ser
Deixá-lo viver pacificamente, por quê?
Não é muito melhor pisar nele, rir dele, lançar suas frustrações e inferioridades sobre esse ser medíocre?
Afinal, esmagar é mais fácil do que um simples "me desculpe"
Funus
Libitina levou as flores
O cheiro delas se misturou
A branca margarida,
Tingida com um vermelho vinho
O cheiro de decomposição,
Ergueu-se uma Amorphophallus titanum
Ânsia pela vida
Escolhida pela morte
Triste margarida, pobre criança
A escura penumbra
Formou-se em seu coração
Não há mais em quem confiar
Segurando a mão da mortífera Libitina
Indo em direção ao iníquo Orcus
Que crime havia cometido?
Que pecado havia transgredido?
Pelo preço de perder sua margarida:
Mors.
**Cosmos Sulphureus**
Já feneces linda flor?
Finalmente já murchou?
Seu amarelo vivo me incomodava
Suas alaranjadas pétalas me davam inveja
Sua arrogante imponência me embrulhava o estômago
Seu nome irradiando beleza
Não é nada mais que doces mentiras.
Agora és um parasita,
Vista por todos como invasora.
Seus filhos são pisados
Seus netos, ostracizados.
Tu que antes eras acostumada com o caloroso sol
Agora só terás escuras e frias sombras
Que suas lindas pétalas sejam finalmente tingidas com seu sangue.
Sigo inconformado
Algo lateja no fundo do meu ser
"Não há sentido
Por quê?"
Sigo ignorando, um ser ignorante
Os cosmos me falaram
A injustiça que sofreram
O que haviam feito pra serem destratados?
Nasceram.
Cresceram.
Viveram como qualquer outro.
"Eras pra ser amada
Só que nasceste no lugar errado
Seu erro foi crescer junto às outras flores"
Que lei infringiu?
Que pecado cometeu?
Apenas por viverem?
Só por crescerem?
Eu aprendi que eras vilã
Ensinaram-me que tu fizeste mal
Será que sou o errado?
Porém, largada no mato
Escorraçada na lama
Como essa é a vil vilã?
Sem fazer mal,
Apenas vive.
E graças a isso, és invasor.
**Apague as velas**
No estranho silêncio da noite,
No escuro noturno
Sem estrelas,
Sem lua.
Uma vela segue a brilhar fracamente
Sua chama é comprida,
Maior que a vela em si
E ao redor da vela, só escuridão
Não, olhe novamente
Olhe direito
A noite está com estrelas
"Elas são tão pequenas, com a luz não dá pra ver" dizia eu quando criança
A ofuscante luz urbana apagou para exibir a beleza das luzes do espaço.
A vida precisou parar pra conseguir apreciar as estrelas
O tempo congelou, as estrelas continuam brilhando
Uma, duas, três horas
A madrugada me parece insuficiente pra olhar o vasto céu
De soslaio, a escuridão me cerca, mas meu foco está apenas na luz pura das estrelas
A paz se senta do meu lado enquanto olho as pequenas luzes
Pouco a pouco, vejo a lua ser costurada no céu
Porém, num piscar de olhos, o tempo volta a correr
Não há mais intervalo para olhar o céu
O céu, mesmo sempre estando lá, não está mais, não do jeito quando escuro
Agora os momentos que vejo as estrelas são raros
Essas lembranças são nostálgicas, longínquas
Desejo que as estrelas brilhem para mim novamente
*Odeio estudar*
Odeio estudar
Não porque estudar é chato
Mas porque odeio por causa da pressão que colocam em mim
Eu odeio estudar
Não porque os números se misturam e embaralham
Mas sim porque se eu entender esses números, todos vão esperar eu ser a melhor
Eu odeio estudar
Não porque eu não tenho uma memória boa
Mas sim porque se espera que no vestibular, eu me lembre de todas as fórmulas matemáticas que estudei
Odeio estudar
Não porque ouvir um monólogo seja ruim
Mas sim porque depois desse monólogo que ninguém entendeu, todos irão perguntar de mim
Odeio estudar
Não porque tenho preguiça
Mas sim porque a expectativa que colocam em mim é dolorosa
"E se eu não conseguir o que esperam de mim?" Isso me corroe
Odeio estudar
Não porque a ansiedade que sinto é horrível
Mas sim porque mesmo me sentindo ansiosa e com medo, não posso contar a ninguém
Odeio estudar
Não porque postergo estudar e brigam comigo
Mas porque sei que perco tempo com leviandades e porque vejo a decepção em seus olhos
Odeio estudar
Não porque é chato
Mas sim porque estudar me dá medo
*Meu amigo?*
Eu tenho um amigo
É o silêncio, consciência, mente, vazio, tanto faz
Nunca consegui dar um nome pra ele,
Só sei que ele é parte de mim
Ele é muito bom em atuar
Sempre fazendo as cenas que imagino
Cenas onde sou mais sincero com aqueles que conheço,
Cenas que nunca irão sair entre as paredes da imaginação
Ele é bem calado,
Ele faz muito bem as pessoas que conheço
Mas ele mesmo... Não tem personalidade
Como seria...
E se...
Todos ele consegue fazer muito bem
Só que no final...
Silêncio.
Ele é muito calado
E isso me deixa triste
Quando eu choro,
Ele não me consola
Odeio ele.
