Texto Narciso
Confesso que me amo, longe de ser “Narciso”, mas sim por ser capaz de ver alguém feliz e me sentir feliz, como chorar e sentir a tristeza que meu semelhante passa. Por sentir prazer nos olhos semiabertos de um sorriso, por ser capaz de sentir dor exatamente na parte do corpo pelo que o outro padece. Por ser sensível e ter a capacidade de ter tanta empatia. É este “dom” (se posso chamar assim) que me faz especial, pois, essa capacidade de percepção e sensibilidade é que me possibilita exercer algo espetacular, que é relevar e ignorar tanta mesquinhes e inveja de quem, adverso de mim, NÃO SE AMA!!!
O grande desafio não é analisar o rosto de Narciso redesenhado nas novas tecnologias de comunicação. Devemos ir mais longe e buscar a análise de porque precisamos sempre da imagem de Narciso no espaço comunicacional e na vida, porque o ser humano busca sempre atingir o inatingível, até para que possamos, dessa maneira, analisar os reflexos políticos vistos neste estudo.
Tudo que "NARCISO" não compreende, desconhece, não aceita, acha feio, absurdo ... Apenas sua imagem refletida na Fonte das Vaidades, o encanta, o inebria, o preenche totalmente. A beleza do seu mero físico, que enrruga, envelhece, fenece, basta, é suficiente, para si mesmo; o mito que ele criou o alimenta materialmente, sustenta espiritualmente.
Contemplanto o mundo bidimensional projetado por uma tela autoluminescente, enquanto Édipo e Electra retardam o amadurecimento de crianças, os meios de comunicação nos isolam em nossos habitáculos, nossos conflitos internos conduzem à Narciso, mas como admirar um reflexo turvo de um mecanismo que nos torna deuses ao acompanhar o mundo na palma de nossas mãos? Isolamento compartilhado, discursões escritas, mas sem literatura. Em uma divindade prevista por Michelangelo, nascia Adão, ao toque do indicador. Não vejo os meus, apenas aos meus, os observo por uma janela de projeção da realidade na pseudo segurança de meu habitat, opino, esbravejo, elogio e condecoro mas não as vivo plenamente. Palavras caladas pela racionalidade são agora resumidas em uma fria mistura de cimento e pedra.
As novas gerações vivem superficialmente em um projeto esfumaçado sem definição, no aguarde da aceitação e validação de tudo que os cercam. Em sua grande maioria vivem a borda, acumulando filmagens, exercitando a capacidade de rebanho, pelas formas estéticas pré determinadas, com um nocivo e profundo complexo narcisista e egoísta que não permitem nem a existência natural de si mesmo e impreterivelmente de qualquer outro.
