Tenho um ser que Mora dentro de Mim
A maior batalha do ser humano não é contra o mundo, mas contra os conflitos que carrega dentro de si. Quando aprendemos a compreender nossas dores, deixamos de ser prisioneiros delas e começamos a viver com mais liberdade.
-Jouberth Toffoli
No ar das estrelas brilha o ser navegante...
Dentro do horizonte resplandece a planície muito além do conhecimento...
Devaneio obscurece os traços ilumados de uma verdade que verte numa cascata de névoas
Ousamos ser Ousados,
Dentro do paradigma somos o paradoxo...
Dentro do desdém das dúvidas
Somos alucinantes na prática do viver...
Tantas ilusões
Ainda assim ves o destino...
Em uma prática soluvel
Estamos bêbados
Nesta época que a liberdade é uma escolha política...
Sejamos justos, algumas pessoas não merecem ser ajudadas por que estão órfãs e acomodadas dentro da própria infelicidade que virou um meio, torto de vida. Só devemos ajudar, quem pede ajuda em um momento difícil mas por vergonha da situação, vai fazer de tudo e mais um pouco para superar. A esmola consecutiva, vicia o cidadão que nunca irá buscar trabalho para ganhar o pão. Erra mais quem da do que quem recebe.
O reluta em ser resiliência se sois aparencia.
Para ser tenta sobreviver dentro do seu ser.
Ouve um olhar sente o tom da ilusão.
Mais profundo do que achamos e apenas equivalência da inércia.
A Casa Vazia
Existe uma casa dentro de cada ser humano. Ela não tem endereço, não aparece nos mapas e não pode ser construída por outra pessoa. É feita de memória, silêncio, desejo e consciência. É o lugar onde a nossa voz ainda é nossa. Quando somos capazes de habitá-la, conhecemos seus corredores, sabemos onde guardamos nossas alegrias, onde escondemos nossos medos, quais portas evitamos abrir e quais janelas deixamos voltadas para o mundo. No centro dessa casa existe uma chama pequena e silenciosa. É ela que nos diz: “Você está aqui.”
O problema começa quando deixamos a porta aberta por tempo demais. Lá fora, o mundo não pede licença. Ele chama, acende luzes, oferece promessas, produz urgências, entrega desejos prontos e mostra vidas cuidadosamente enquadradas. E nós saímos. Primeiro por curiosidade, depois por desejo, depois por hábito, até que um dia percebemos que estamos há tanto tempo do lado de fora que já não lembramos como era estar em casa.
Não fomos expulsos. Essa talvez seja a parte mais difícil de admitir. Nós mesmos fomos nos afastando. Trocamos o silêncio pelo ruído, a presença pela distração, a experiência pelo espetáculo e a própria voz pelo eco das vozes alheias. Começamos a conhecer a vida de pessoas que nunca encontramos, a acompanhar histórias que não são nossas e a reagir a acontecimentos que não podemos tocar, enquanto alguma coisa dentro de nós espera, em silêncio, para ser percebida.
Os espelhos se multiplicam. As telas iluminam rostos, as comparações entram pelas janelas e os sucessos alheios tornam-se medidas para a nossa própria existência. Sem perceber, começamos a perguntar menos “Quem sou eu?” e cada vez mais “Como estou sendo visto?”. Parece uma mudança pequena, mas é profunda. Quando o olhar dos outros se transforma no nosso principal espelho, começamos a construir a própria identidade do lado de fora. E uma casa construída pelo olhar alheio nunca permanece verdadeiramente nossa.
Então precisamos de mais: mais reconhecimento, mais aprovação, mais intensidade, mais alguma coisa que faça silêncio dentro de nós. Quanto mais procuramos, porém, menos encontramos. A casa permanece vazia não porque não exista nada dentro dela, mas porque ninguém está lá para perceber.
O abandono de si não acontece de uma só vez. Ele acontece em pequenas ausências: quando ignoramos aquilo que sentimos, quando dizemos “está tudo bem” sabendo que não está, quando seguimos uma direção apenas porque todos estão seguindo, quando confundimos desejo com necessidade, quando nos distraímos para não pensar ou quando falamos tanto que já não conseguimos ouvir a própria voz. A poeira se acumula, não sobre os móveis, mas sobre a memória de quem somos.
Chega então um momento em que o silêncio assusta. Depois de tanto ruído, ficar sozinho consigo mesmo pode parecer entrar em uma casa abandonada. Mas talvez o silêncio não seja vazio. Talvez seja apenas o espaço onde aquilo que foi abafado finalmente pode ser ouvido.
É ali que começa o retorno. E o retorno não exige grandes gestos. Não precisa de espetáculo, de uma nova vida ou de uma nova versão de nós mesmos. Começa pequeno: sentar, respirar, escutar, perguntar e permanecer tempo suficiente para ouvir a resposta. “O que está acontecendo dentro de mim?” Talvez ela venha baixa, talvez confusa, talvez acompanhada de coisas que preferíamos não encontrar. Não importa. A casa precisa ser reaberta.
Um cômodo de cada vez. Uma lembrança, um sentimento, uma verdade, uma escolha, uma janela. Até que a luz volte a entrar.
E então descobrimos algo essencial: voltar para si não significa abandonar o mundo. Pelo contrário. É somente quando sabemos onde estamos que podemos verdadeiramente encontrar alguém. É somente quando reconhecemos a nossa própria voz que conseguimos escutar outra pessoa sem desaparecer dentro dela. É somente quando conhecemos os nossos limites que conseguimos respeitar os limites do outro.
Uma casa habitada não é uma prisão. Tem portas, janelas e espaço para receber. Escuta o mundo, celebra, ama, aprende e acolhe, mas sabe quem possui as chaves. As paixões podem entrar sem incendiar a casa. As ideias podem entrar sem ocupar todos os cômodos. A opinião dos outros pode ser ouvida sem se transformar em sentença. O mundo pode atravessar nossas janelas sem se tornar proprietário da nossa existência.
Talvez maturidade seja isso: não fechar a porta para o mundo, mas deixar de viver permanentemente do lado de fora.
Precisamos sair. Precisamos experimentar, amar, errar, conhecer outras paisagens e encontrar outras pessoas. Mas precisamos também voltar. Voltar quando o mundo estiver barulhento demais. Voltar quando a aprovação já não bastar. Voltar quando percebermos que estamos vivendo para sustentar uma imagem que não reconhecemos. Voltar quando ninguém estiver olhando. Voltar simplesmente porque sentimos falta de nós mesmos.
Talvez essa seja a verdadeira casa: não o lugar onde nos escondemos do mundo, mas o lugar a partir do qual conseguimos habitá-lo sem nos abandonar.
No fim, não precisamos construir uma nova casa. Ela já existe. Talvez esteja apenas silenciosa. Talvez tenha algumas janelas fechadas. Talvez haja poeira sobre aquilo que um dia foi importante. Mas a chama ainda está lá, esperando.
E talvez ela não diga muita coisa. Talvez diga apenas: “Volte.”
Quando voltamos, percebemos que nunca estivemos realmente perdidos. Estávamos apenas longe demais para ouvir a nossa própria voz.
A porta sempre foi nossa. A casa sempre esteve lá. E a luz nunca deixou de esperar por nós.
AUTOANAMNESE
Entre a memória e o que ainda podemos ser
Existe uma história dentro de cada pessoa.
Uma história que não está escrita apenas em fotografias, documentos ou lembranças. Ela também vive nos gestos, nas escolhas, nos medos, nos sonhos, nas palavras que ficaram e, principalmente, naquilo que fazemos sem perceber.
Somos feitos de encontros, despedidas, descobertas, perdas, conquistas, erros e recomeços. Somos também feitos de perguntas que nunca encontraram respostas e de respostas que o tempo modificou.
Talvez por isso a autoanamnese seja tão importante: porque, antes de compreender o mundo, precisamos aprender a observar aquele que o contempla.
Volto os olhos para trás,
não para morar no passado,
mas para compreender
as pegadas que deixei.
Há caminhos que escolhi conscientemente. Outros surgiram diante de mim quando eu sequer sabia para onde estava indo. Alguns abandonei. Outros me abandonaram. E existem aqueles que ainda percorro, tentando compreender por que os escolhi.
Fazer uma autoanamnese é estabelecer um diálogo sincero com a própria história.
É perguntar:
Quem fui?
Quem sou?
O que me trouxe até aqui?
O que ainda carrego?
E o que já posso deixar partir?
Não se trata de procurar culpados, nem de transformar o passado em sentença. Trata-se de compreender.
Porque aquilo que não compreendemos muitas vezes se repete.
Repetimos comportamentos, escolhas, relações e pensamentos sem perceber que estamos seguindo antigos caminhos.
Por isso, olhar para dentro pode ser um ato de liberdade.
Há hábitos que herdei,
há pensamentos que aprendi,
há caminhos que percorri
sem jamais perguntar
se realmente eram meus.
A autoanamnese nos permite separar aquilo que somos daquilo que simplesmente aprendemos a ser.
Na vida pessoal, ela nos ajuda a reconhecer nossos valores, limites, desejos e contradições.
Nas relações, revela como amamos, confiamos, ouvimos, perdoamos, reagimos e estabelecemos limites.
Na família, permite compreender as histórias que recebemos e decidir conscientemente quais heranças queremos preservar e quais precisam ser transformadas.
Na vida acadêmica e profissional, ajuda a perceber talentos, interesses, escolhas e caminhos que talvez tenham sido construídos mais pelas expectativas externas do que pelos nossos próprios propósitos.
Nas decisões, cria um espaço entre o impulso e a escolha.
E, nesse pequeno espaço, pode nascer a consciência.
Antes de responder,
eu observo.
Antes de escolher,
eu compreendo.
Antes de seguir,
eu pergunto
para onde estou indo.
Também precisamos fazer uma autoanamnese dos nossos erros.
Não para viver em culpa, mas para transformar experiência em aprendizado.
O erro pertence à nossa história, mas não precisa determinar nosso destino.
A pessoa que fomos tomou decisões com os conhecimentos, sentimentos e circunstâncias que possuía naquele momento. Hoje podemos saber mais. Podemos enxergar diferente. Podemos escolher diferente.
Ontem eu não sabia.
Hoje compreendo.
Amanhã talvez transforme
aquilo que hoje ainda estou aprendendo.
Isso também é amadurecer.
Olhar para quem fomos sem desprezo, olhar para quem somos sem arrogância e olhar para quem podemos ser sem medo.
A autoanamnese também alcança nossos sonhos.
Quantos desejos são verdadeiramente nossos?
Quantos nasceram das expectativas de outras pessoas?
Quantas vezes confundimos sucesso com aprovação?
Quantas vezes seguimos uma estrada porque todos diziam que era o caminho certo?
Há sonhos que permanecem,
sonhos que se transformam
e sonhos que descobrimos
que nunca foram nossos.
Conhecer a própria história é também descobrir quais sonhos ainda fazem sentido.
E talvez esse seja um dos maiores poderes da reflexão: perceber que o passado explica muito, mas não determina tudo.
Somos memória, mas também possibilidade.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos continuidade, mas também transformação.
O passado pode explicar nossas cicatrizes, mas não precisa escrever sozinho os próximos capítulos.
Carrego o que vivi,
mas não sou apenas o que vivi.
Carrego minhas marcas,
mas elas não são meu nome.
Carrego meus erros,
mas eles não são meu destino.
A vida inteira pode ser compreendida como uma grande conversa entre aquilo que fomos e aquilo que estamos nos tornando.
E talvez seja justamente por isso que precisamos, de tempos em tempos, silenciar o mundo.
Desligar o ruído.
Parar.
Respirar.
E perguntar:
O que está acontecendo dentro de mim?
Nem toda resposta surgirá imediatamente.
Algumas perguntas precisam permanecer conosco durante algum tempo. Algumas respostas chegam lentamente, através da experiência, da reflexão e das mudanças que fazemos no cotidiano.
A autoanamnese não é uma fotografia de quem somos.
É um espelho em movimento.
Hoje enxergamos uma parte.
Amanhã compreenderemos outra.
E, enquanto vivemos, aprendemos que conhecer a si mesmo não é encontrar uma definição definitiva, mas permanecer disposto a se conhecer novamente.
Sou memória
e sou possibilidade.
Sou passado
e sou caminho.
Sou aquilo que aprendi
e aquilo que ainda posso aprender.
Por isso, fazer uma autoanamnese não é voltar para trás.
É voltar para dentro.
É revisitar a própria história com honestidade, reconhecer o que nos construiu, compreender o que nos limita, valorizar o que nos fortalece e escolher, com maior consciência, aquilo que desejamos levar adiante.
Porque a vida não é somente aquilo que nos acontece.
É também aquilo que fazemos com o que nos acontece.
E enquanto houver consciência, haverá aprendizado.
Enquanto houver aprendizado, haverá transformação.
Enquanto houver escolha, haverá possibilidade.
E enquanto houver vida,
a história ainda estará sendo escrita.
A ONÇA DENTRO DE NÓS
Por: Marco Arawak
Há em cada ser humano uma região que não se revela inteiramente à própria consciência. É uma zona anterior às palavras, onde permanecem impressões que não sabemos quando adquirimos, medos que não lembramos ter aprendido, desejos cuja origem confundimos com liberdade e respostas que surgem em nós antes mesmo que tenhamos tempo de perguntar por quê.
Passamos a vida habitando esse território e, paradoxalmente, podemos permanecer estrangeiros dentro de nós mesmos.
Talvez uma das maiores ilusões humanas seja imaginar que nos conhecemos simplesmente porque carregamos conosco, desde sempre, o próprio nome, a própria história e a própria memória. Saber quem somos não é o mesmo que saber de onde vieram as forças que nos constituíram. Há uma diferença profunda entre ser e ter aprendido a ser. Entre aquilo que verdadeiramente escolhemos e aquilo que incorporamos para sobreviver, pertencer, agradar, proteger-nos ou simplesmente continuar caminhando.
A autoanamnese começa quando essa diferença deixa de ser uma abstração e transforma-se em pergunta.
Quem sou eu por trás daquilo que aprendi a ser?
Que parte das minhas convicções nasceu de uma escolha consciente e que parte delas foi herdada, absorvida, imposta ou construída como defesa? Quantas das minhas certezas resistiriam se eu tivesse coragem de investigar sua origem? E quantas das minhas reações pertencem realmente ao presente, quando talvez sejam apenas ecos de acontecimentos que o tempo levou, mas que a consciência ainda não elaborou?
É nesse ponto que entramos no território mais delicado da existência: o encontro entre aquilo que sentimos e aquilo que pensamos.
Antes de existir uma ideia, muitas vezes existe uma sensação. Antes de formularmos um julgamento, alguma coisa em nós já se aproximou ou recuou. O corpo percebe, a memória associa, o instinto responde. Só depois a razão chega, procurando compreender o acontecimento e, não raro, construir uma explicação para algo que já começou a nos mover.
O instinto possui uma inteligência própria. Ele não argumenta; reconhece. Não constrói teorias; responde a sinais. É a herança silenciosa de incontáveis experiências acumuladas no corpo e na memória, uma forma de percepção que frequentemente alcança o perigo, a oportunidade ou a mudança antes que a linguagem consiga traduzi-los.
É nesse sentido que a imagem da onça encontra sua força.
Ela não representa simplesmente a ferocidade que carregamos, tampouco uma natureza selvagem que precisaria ser vencida pela civilização. Representa uma dimensão primordial da existência: aquilo que percebe antes de explicar, que reage antes de justificar, que conhece determinados caminhos sem precisar transformá-los imediatamente em conceitos.
Mas justamente por possuir essa força, o instinto não pode ser confundido com verdade.
Aquilo que sentimos com intensidade não se torna verdadeiro apenas porque foi intenso. O medo pode ser um excelente guardião e, em determinadas circunstâncias, um péssimo intérprete. Uma experiência passada pode ensinar prudência, mas também pode deformar nossa percepção do presente. Uma ferida antiga pode continuar reagindo a acontecimentos que já não possuem a mesma natureza.
É nesse instante que a razão se torna necessária.
Não para destruir o instinto, mas para conversar com ele.
A verdadeira razão talvez não seja aquela que procura calar tudo aquilo que não consegue explicar, mas aquela que possui coragem suficiente para perguntar ao próprio impulso o que ele está tentando dizer. De onde veio esse medo? O que exatamente estou tentando proteger? Por que essa situação me ameaça tanto? Estou respondendo ao que está diante de mim ou ao que alguma experiência anterior me ensinou a esperar?
A pergunta inaugura uma distância.
E nessa distância começa a consciência.
Existe uma diferença decisiva entre sentir medo e ser governado pelo medo; entre sentir raiva e tornar-se instrumento dela; entre desejar alguma coisa e acreditar que todo desejo precisa transformar-se em ação. O impulso pode surgir sem nossa autorização. A escolha, porém, pode nascer justamente daquilo que fazemos depois de reconhecê-lo.
Talvez a liberdade humana resida nesse intervalo quase imperceptível entre o estímulo e a resposta.
É um espaço pequeno, mas nele cabe uma existência inteira.
Ali podemos interromper a automatização da própria vida. Podemos observar aquilo que se levanta dentro de nós sem imediatamente obedecer. Podemos reconhecer o impulso sem confundi-lo com destino. E, sobretudo, podemos descobrir que consciência não significa ausência de forças interiores, mas capacidade de estabelecer uma relação lúcida com elas.
Por isso, a maturidade não consiste em fazer com que a razão esteja sempre à frente do instinto. Seria uma pretensão impossível. Existem momentos em que o corpo saberá antes da mente; existem percepções que chegam sem pedir licença; existem respostas que pertencem a uma camada tão profunda da experiência que nenhum raciocínio poderia substituí-las inteiramente.
A maturidade está em aprender a voltar ao impulso.
Olhar novamente.
Interrogá-lo.
Compreendê-lo.
E então decidir.
A razão, quando verdadeiramente amadurece, deixa de ser uma tirana que pretende governar todos os movimentos interiores e passa a ser uma consciência de direção. Ela não elimina a espontaneidade; oferece-lhe contexto. Não destrói o desejo; investiga sua origem. Não nega o medo; procura distinguir proteção de aprisionamento.
Porque também a razão pode servir àquilo que deseja combater.
Podemos construir argumentos brilhantes para justificar escolhas que já havíamos decidido fazer. Podemos transformar orgulho em princípio, ressentimento em justiça, medo em prudência e conveniência em convicção. O pensamento, quando utilizado apenas para justificar aquilo que já queremos acreditar, deixa de ser instrumento de compreensão e torna-se advogado de nossas próprias ilusões.
Pensar muito não significa compreender profundamente.
Às vezes, pensar é apenas encontrar palavras sofisticadas para não olhar aquilo que nos incomoda.
A autoanamnese interrompe esse mecanismo porque nos obriga a retornar à origem. Ao revisitarmos nossa própria história, percebemos que quase nenhuma reação é absolutamente isolada. Há uma genealogia dos nossos medos, dos nossos desejos, das nossas recusas e até das nossas certezas. Aquilo que chamávamos simplesmente de personalidade pode conter antigas estratégias de proteção. Aquilo que interpretávamos como intuição pode carregar experiências mal elaboradas. Aquilo que acreditávamos ser uma escolha pode ter sido, em algum momento, apenas a alternativa que encontramos para continuar pertencendo.
Conhecer-se, então, não é acrescentar definições ao próprio nome.
É retirar camadas.
É distinguir a voz da experiência da voz do condicionamento. É reconhecer aquilo que herdamos sem necessariamente precisar perpetuá-lo. É compreender que algumas respostas foram úteis para quem fomos, mas talvez já não sejam necessárias para quem estamos nos tornando.
O passado não pode ser refeito.
Mas pode ser compreendido.
E existe uma diferença extraordinária entre essas duas coisas.
Compreender o passado não significa absolvê-lo de tudo nem transformar nossas escolhas anteriores em algo justificável. Significa devolvê-las ao contexto em que aconteceram. A pessoa que fomos possuía os conhecimentos, os medos, os recursos e as limitações daquele momento. Julgá-la exclusivamente com a consciência que adquirimos depois pode produzir culpa onde deveria existir aprendizado.
A memória, quando examinada com honestidade, deixa de ser apenas arquivo e transforma-se em matéria-prima para a consciência.
É assim que o instinto começa a mudar de estatuto dentro de nós.
Ele deixa de ser uma ordem.
Torna-se informação.
Essa talvez seja uma das maiores transformações produzidas pelo autoconhecimento. Não precisamos deixar de sentir; precisamos compreender o que sentimos. Não precisamos eliminar o impulso; precisamos impedir que ele permaneça invisível. Não precisamos expulsar a onça de dentro de nós; precisamos conhecê-la suficientemente para compreender quando sua força está protegendo nossa existência e quando está apenas repetindo uma ameaça que já não existe.
A razão, nesse encontro, não reina sobre o instinto como um soberano sobre um súdito. Ambos participam de uma realidade mais ampla.
O instinto nos ancora no presente imediato. A razão introduz distância. O instinto reconhece sinais; a razão compara possibilidades. O instinto percebe urgências; a razão considera consequências. Um nos aproxima da realidade concreta do momento; o outro nos permite imaginar aquilo que ainda não aconteceu.
Entre os dois nasce o discernimento.
E discernir talvez seja uma das formas mais elevadas de liberdade.
Nem todo medo merece obediência. Nem todo desejo exige satisfação. Nem toda provocação necessita de resposta. Nem toda oportunidade precisa ser perseguida. Nem toda certeza merece permanecer intacta.
A verdadeira força talvez não esteja em reagir com maior intensidade, mas em possuir liberdade suficiente para escolher quando reagir e quando não fazê-lo.
É por isso que dominar a si mesmo não deveria significar dominar a própria natureza. Uma natureza reprimida não se torna necessariamente uma natureza integrada; muitas vezes apenas aprende a esconder-se. Aquilo que negamos não desaparece. Pode mudar de forma, encontrar outras saídas, reaparecer em comportamentos que já não reconhecemos como seus.
A integração é mais difícil do que a repressão porque exige conhecimento.
Exige olhar para dentro sem transformar cada descoberta em condenação.
Exige reconhecer nossa agressividade sem glorificá-la; nossa fragilidade sem envergonhar-nos dela; nossos desejos sem transformá-los automaticamente em direitos; nossos medos sem permitir que eles decidam por nós.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da onça dentro de nós.
Não um monstro a ser derrotado.
Não uma força a ser adorada.
Mas uma dimensão da própria natureza humana que precisa ser reconhecida, compreendida e integrada.
A onça não pergunta quem somos. Ela simplesmente existe.
Nós é que precisamos perguntar o que fazemos com aquilo que existe em nós.
E essa pergunta nos devolve à autoanamnese.
Porque investigar a própria história é perceber que somos feitos de camadas: memória e esquecimento, herança e ruptura, instinto e reflexão, necessidade e escolha. Somos consequência de acontecimentos que não escolhemos, mas também somos responsáveis pela maneira como continuamos a interpretá-los.
Não somos autores de tudo aquilo que nos aconteceu.
Mas podemos tornar-nos autores daquilo que fazemos com o que nos aconteceu.
Talvez essa seja a fronteira mais profunda entre condicionamento e liberdade.
Não escolhemos todos os impulsos que surgem.
Não escolhemos todas as marcas que recebemos.
Não escolhemos o primeiro movimento da consciência.
Mas podemos, pouco a pouco, aprender a escolher o segundo.
E talvez seja justamente nesse segundo movimento que comece a verdadeira autoria de uma vida.
Entre a sensação e o significado.
Entre o impulso e a decisão.
Entre aquilo que fomos ensinados a temer e aquilo que finalmente compreendemos.
Entre a onça que reage e o ser humano que observa sua própria reação.
É nesse intervalo que a existência deixa de ser apenas acontecimento e começa a tornar-se consciência.
Talvez conhecer a si mesmo nunca signifique chegar a uma resposta definitiva. Somos seres inacabados, atravessados continuamente por experiências que reorganizam nossa percepção, deslocam nossas certezas e revelam aspectos de nós que antes permaneciam ocultos. A identidade não é uma estátua concluída; é uma construção em movimento.
Por isso, a pergunta mais profunda talvez não seja apenas “quem sou?”, mas:
“O que, dentro de mim, está participando da construção de quem estou me tornando?”
Essa pergunta exige coragem porque retira de nós a comodidade de sermos apenas espectadores da própria história.
Ela nos devolve responsabilidade.
E, com a responsabilidade, a possibilidade de transformação.
A onça continuará dentro de nós. O instinto continuará surgindo antes de muitas explicações. A razão continuará tentando compreender aquilo que a experiência apresenta. O passado continuará deixando rastros. Nada disso precisa ser eliminado.
O que pode mudar é a relação que estabelecemos com tudo isso.
Quando aprendemos a reconhecer o impulso sem nos tornarmos seu instrumento, a memória sem sermos prisioneiros dela, a razão sem transformá-la em máscara e a própria natureza sem precisar negá-la, alguma coisa essencial se modifica.
Já não somos apenas aquilo que nos atravessou.
Começamos a participar conscientemente daquilo que nos tornamos.
E talvez seja essa a forma mais profunda de liberdade: não a liberdade de deixar de possuir uma natureza, mas a liberdade de conhecê-la; não a liberdade de nunca sentir medo, desejo ou raiva, mas a liberdade de não entregar automaticamente a eles o governo de nossa existência.
A onça permanece.
Mas agora sabemos que ela está dentro de nós.
E saber disso muda a maneira como caminhamos pela floresta.
Marco Arawak
Deve ser legal ser Deus
E ficar lá de cima
E ficar aqui de dentro
Ficar em todo lugar
Ficar de perto
Estar bem longe
Estar no centro
Estar em tudo
Estar distante
E ver o que acontece
Enquanto a saudade nasce
Saber exatamente aonde
Se esconde a verdade
E virar a vontade ao avesso
desde o começo de tudo
Saber de todas as respostas
E simplesmente
Ficar aqui e ali
Quieto e mudo
Pousando no veludo impermeável
de todas as pétalas invisíveis
existentes nos jardins distantes
Saber de tudo que acontece
No instante que aconteça
Saber por onde anda
Tanto a maldade
Quanto a bondade
Muito antes
Que a criança cresça
E conhecer a forma mais correta
de trazer
mil pensamentos
Formando as coisas confusas
pra depois colocá-las
Nas cabeças dos cientistas
dos pedintes, dos vigaristas
das musas e seus poetas
Ser a chave de todas as portas
A altura de quantas janelas
e outras mais
por onde queiramos nós
simples mortais
fatalmente um dia saltar
e sentir a resistência
do ar que nos rodeia
E do Deus, que a tudo permeia
e que anda sempre acima
Tanto do mal
Quanto do bem
Não ter que dar jamais
Explicações a ninguém
Simplesmente ser Deus
Estar antes e estar após
Mandar dizer
e ficar de longe olhando
Esperando pra ver
Saber muito antes
O momento e o nome de quem vai
Um dia encontrar nas palavras
O argumento mais correto pra provar
Que nós somos deuses também.
Edson Ricardo Paiva.
Há pessoas que carregam oceanos dentro do peito e, ainda assim, passam pela vida fingindo ser apenas pequenas poças de silêncio.
O mal deixou de ser exceção e virou regra; a humanidade apodreceu por dentro, mostrando que o fim de tudo o que é bom já foi decretado pela nossa própria crueldade.
O êxtase é o instante em que o ser desaba para dentro de si e descobre que o abismo sempre esteve transbordando.
Reno Fioraso
A maior e mais profunda herança que o ser humano pode deixar após morrer é o amor dentro do coração de cada pessoa que conheceu durante sua vida.
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