Tenho um ser que Mora dentro de Mim
Nunca me medi em centímetros ou metros.
Nunca me pesei em quilos ou gramas.
Mas meu pequeno
tem a leveza do tamanho de uma infância
No anteontem do retrato,
no sofá estou sentado com dois amigos.
No ontem do retrato,
no sofá estou sentando com um amigo.
No hoje do retrato,
no sofá estou sozinho.
No amanhã do retrato,
o sofá está vazio
Quando aqui cheguei
as crianças eram crianças
os adultos já eram adultos
os velhos eram sempre velhos
e o mundo estava pronto
concluído e imutável para se viver
Quando daqui me for
as crianças cresceram
os adultos são outros
todos os velhos morreram
o mundo havia tanto mudado
e eu não sou mais o mesmo
Atestado poético
Tão longe,
Tão perto
Como te desperto?
Às vezes, me consome,
Noutras, esconde-se
Por que some?
Hoje, faz falta,
Amanhã, transborda
Por que meu peito ainda salta?
Somos dois,
Um.
Dias depois, nenhum?
Tão cedo, tão tarde,
Descubro que não é paixão,
Mas patologia: crise de saudades.
Transitando entre o concreto e o incerto,
Dou adjetivos às coisas que desconheço,
O que há de ser absoluto, se a arte da vida é recomeço?
Sistema solar
Só.
Sonhar.
No teu luar.
Só.
Sossegar.
No teu estrelar.
Sou estrela-só,
A amar
Desandar-se
Realinhar-se: sol.
Quando o sol reluz
Os desejos inacabados
Apague a luz.
Finde-se em meu jardim
De Íris enegrecida,
Escureça e amanheça em mim.
A canção desafina,
O retrato cai e se esmiúça,
As flores murcham.
Outrora, desabrocham
Em novos vasos,
Ocupando velhos espaços.
Na esquisitice,
Estranha
Mesmice.
Descanse, tire os sapatos que apertam os seus pés e já não te servem mais. Deixe também ali no canto a vaidade e o ego que machucam as suas costas. Dispa-se das amarras, que deixam marcas nos seus punhos e te aprisionam entre paredes que não se pode ver.
Amores virtuais,
Manda nudes,
Liga o Facetime.
Amores virtuais,
Ama-se a distância,
Odeia-se a distância.
Amores virtuais,
Será que somos mesmo tão iguais?
Com outra irmã morta,
Todos nós morremos juntas,
Todos os dias, pouco a pouco.
De que valem as gotas salgadas
escorrendo dos olhos?
Minha garganta seca ainda engasga
Quando em seu nome canto.
- Livro de poemas "Flores Roxas", Editora Patuá.
Quando estou perto de você,
Sinto meu coração bater mais forte,
É como se o mundo parasse,
E só existisse o nosso suporte.
Você é tão especial,
Que não consigo ficar longe,
Preciso da sua presença,
Como preciso do oxigênio.
Seus olhos brilham como estrelas,
E seu sorriso é como o sol,
Me sinto tão feliz ao seu lado,
Que não quero mais nada além.
Você é a minha inspiração,
A razão do meu viver,
Estar perto de você é tudo,
Que eu sempre quis ter.
Então, minha linda mulher,
Saiba que você é muito especial,
E que eu preciso de você,
Como preciso do ar para respirar.
A MORTE
É instintivo lutar contra o próprio desaparecimento.
Todos os animais agem dessa maneira e tentam se proteger de acordo com seus próprios meios.
Mas a morte é inflexível para todas as espécies de vida!
O sonho das pessoas sempre foi enganar a morte e, muitas vezes, tentam fazer isso, enganando a si mesmas. Claro, é muito mais confortável e não exige leitura ou contorcionismos intelectuais.
Essa é uma das principais causas da busca por seitas e religiões, algumas delas muito ingênuas.
Textos ditos sagrados trazem mensagens valiosas, mas na forma de metáforas ou simbolismos. Muita gente compreende esses escritos literalmente, concluindo por verdadeiros disparates.
O assunto fica mais complicado, quando as crianças requerem explicações, para compreender o sofrimento pela perda de um ente querido.
Já pensei em escrever um livro infantil, explicando que o bichinho nasce, cresce, brinca e morre. Também a florzinha nasce, cresce, toma sol e morre. É o ciclo biológico!
Quando a pessoa completa esse ciclo, mediante uma vida feliz, digna, e se vai, mesmo entristecido, eu me resigno com facilidade. Mas acho inadmissível o falecimento de uma criança ou adolescente, principalmente, se for por doenças curáveis, fome, violências, acidentes evitáveis. Eu fico arrasado!
Não matar, para mim, é o mais importante dos Mandamentos.
Acho que todos devemos respeitar a religião alheia e nunca tentar pregar a própria para os outros. Lembrando José Saramago, essa pregação é uma tentativa de colonização do próximo.
O assunto apresenta uma enorme diversidade de entendimentos, sobretudo, quando se discute a vida após a morte, a imortalidade da alma, a reencarnação.
Karl Marx dizia que “a religião é o ópio do povo, porque ela aliena as pessoas, impedindo-as de pensar e lutar por justiça na terra, pensando apenas em um mundo do porvir”.
Já Czeslaw Milosz contrariou: "O verdadeiro ópio do povo é acreditar que não há nada após a morte -- o imenso consolo de pensar que nossas traições, ganância, covardia e assassinatos não serão julgados."
É impossível concordar com isso, pois a maioria desses erros e crimes são julgados em vida mesmo. Quem tem ética, educação e amor ao próximo não os comete e não precisa de prêmios ou ameaças para agir com correção.
Já os criminosos, bandidos, psicopatas, não temem julgamentos reais nem hipotéticos.
E eles, entre os quais os maiores genocidas, sempre se escondem na imagem de pessoas de fé, de religiosidade, de espírito cristão.
Nessa barafunda de ideias, dogmas e extremismos, eu prefiro ter uma visão poética da vida. Até na Bíblia, enxergo poesia e não religião.
Amor é vida. Vida é amor!
Socorro-me, então, do Soneto de Fidelidade, do Vinicius de Moraes:
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito, enquanto dure.
Sérgio Antunes de Freitas
Junho de 2023
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