Tenho Cara de Metida
Ultimamente tenho ficado mais na minha casinha: o pensamento.
Sim! eu estou morando lá, por enquanto. Fico lá, ouvindo os alertas da consciência, fazendo autorreflexões, muito tranquilo.
Às vezes, lacrimeja no cantinho do olho, mas são os respingos da alma, quando não pode fazer o corpo gemer.
Pelos cantos da boca às vezes vem também aquele risinho, sublime e matreiro, esticando a pele do meu rosto de forma sorrateira.
Quando chegam as murmurações eu prontamente transformo tudo em gratidão, aprendizado e dou uma voltinha no pensamento vago para relaxar.
Tenho usufruído do que recebo de "direitos autorais" ou melhor, dos direitos causados pelas minhas atitudes, uma deliciosa e inevitável colheita, mesmo sem ter sido um santo, e tendo cá os meus espinhos e calos, desfruto de tudo que vem igualmente feliz: sinto espadas de fogo ao meu redor que me protegem, ouvidos estão sempre atentos aos meus clamores, harpas tem embalado o sono e há sempre um pouco de trigo no canto da cozinha para sovar o meu pão.
Resisti, apesar do peso e do medo! Mesmo quando os abraços vinham seguidos de punhais, resisti!
Mesmo quando a "autossabotagem" tentava contrapor, eu resisti!
Agora, passado tudo, pelo menos eu acredito, quero ficar mais um pouco no casulo do meu pensamento.
Ah! Se houver algum tempo livre, saio daqui e dou uma passadinha na contemplação, mas só ficarei lá se a felicidade também me acompanhar.... sem pressa, por enquanto, só pensar!
Deusa
(Clovis Ribeiro)
Se poeta eu não fui
Poeta eu não fui
Certeza tenho de ter vivido
Rimas perfeitas e frágeis
Que o tempo dissolveu no ar.
Se poeta eu não fui
Poeta eu não fui
Como foi-me possível
Amar e cultivar o amor
Amar e cultivar amigos.
Meu coração não tem olhos
Coração não tem olhos
Nem vergonha na cara
Não para
Não pira
E não vê
Que minha Deusa é você.
Dedicado á HB
As vezes acho que não perteço a minha geração. Se eu não soubesse em que data nasci, tenho certeza que não acreditaria na minha idade...
Faço todo dia as pazes comigo, tenho plena consciência do poder de renovação que trago em mim, o medo e as frustações surgem, faz parte. Planto pés de esperanças
Confesso:
Tenho tido a sensação que sou covarde.
Pois mesmo ligado a um sonho, um desejo.
Não consigo me entregar.
Perdoe-me.
Não posso ter tudo que desejo, mas o que tenho é muito além do que já desejei, e o que achei necessário não é tanto assim! Porém as vezes me sinto triste, mas amanhã passará, como dizia Clarice: Não sou tão triste assim, é que hoje estou cansada.
(Des)encaixes
Sou uma peça defeituosa neste quebra-cabeça da vida, tão fragmentado. Não tenho um lugar de encaixe, não. Estou desconectado das outras peças. Talvez eu deva cortar os meus excessos, minhas ásperas arestas que me impedem de encaixar-me neste tão cruel jogo.
Estou vencido, talvez tenha desistido ou mesmo nunca tenha tentado coisa alguma. Devo despir-me das ilusões, das expectativas vãs, para poder encontrar uma peça que possa me completar. Devemos lutar para conquistar o nosso espaço, mas tudo isso me pesa.
A pele que visto é errada; rasguei-me e de mim nada restou. Esta é a razão do meu sofrimento e das coisas fugidias. Quem me dera pudesse resolver este grande desafio, montar este estúpido jogo e dar-me por satisfeito.
Às vezes a vida é traiçoeira, e o destino parece um enigma insolúvel. Mas para mim, a vida nunca foi senão uma acompanhante de sentir. Compreendi finalmente que a sua beleza está na futileza. Aproveitar a vida, deixe-me ser azarado no jogo; tenho tido azar na sorte, mas a minha sorte está no amor, ah, e como eu amei.
Eu tenho o péssimo hábito
de amar tudo aquilo
que me escapa à mão.
Talvez o amor, em essência,
seja um desejo inatingível,
perseguindo incansavelmente
o próprio rabo, como um cão à roda.
Carrego em minha pequenez
a cruel ironia
dos sonhos que, alçados,
se erguem como montanhas firmes,
e que, num instante breve,
se desmoronam em montes de areia.
Soterrado pela rotina,
pela futilidade do dia-a-dia,
sinto o peso da realidade
que escorre entre meus dedos
como areia numa ampulheta.
Talvez esperar que o mundo
se despenhe em barranco,
e morrer deitado à sombra
não seja de toda a má ideia.
O Mendigo de Si
Tenho um teto — eis a concha,
mas o caracol já partiu.
Quatro paredes me cercam,
mas nenhuma me contém.
Tenho uma cama — é porto,
mas o barco não chega a si.
Meus lençóis envolvem o corpo,
mas a alma foge em segredo.
Tenho amigos — bons, presentes —,
e, ainda assim,
minha solidão fala mais alto
que todas as vozes ao redor.
Tenho família — carinhosa, constante —,
mas algo em mim duvida
do amor que recebo.
Talvez por nunca me sentir digno.
Tenho fé — rezo, creio, suplico —,
mas a esperança é fruto
que apodrece na mesa posta.
Acredito em Deus,
mas duvido de mim.
Não me falta coisa alguma.
Falta-me o ser que as coisas têm.
Até o pão que como
tem o gosto de outro pão —
um que ninguém me dá.
Pergunto-me, sem resposta:
se tudo em mim é empréstimo,
quem sou eu quando não peço?
Sou um mendigo de mim,
perdido no que me sobra.
E, se um dia me acharem,
que me devolvam a alma.
Ah, não é ingratidão,
nem demência, nem soberba.
É possuir tudo —
e, no fundo do peito, descobrir
que nada se tem.
Não me falta o pão,
nem o teto, nem o abraço.
Falta-me o gosto de existir.
Tudo me sobra —
e, mesmo assim, falta-me o nome
do que perdi antes de possuir.
Talvez não exista esse “eu”
que espero reencontrar
como quem acha as chaves
no bolso de um casaco antigo.
pai
não tenho memórias
desde que mostraram
a mortalha coerciva
cercando o teu corpo
pai
ouvia dizeres “é a fingir”
eu ria e dizia “é a fingir”
por isso todos acreditaram
que a minha extravagância
era um produto da loucura
pai
como se na aritmética
da vida que continua
e do tempo que passa
coubesse alguma lógica.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "aritmética do luto")
Não tenho um Espírito, sou um Espírito. Não sou um corpo que tem um Espírito. Sou um Espírito que tem um corpo.
"Eu" (1)
Minha inspiração
é só parte do ódio que eu tenho pela emoção.
Digo sem razão que meu coração não tem perdão.
Julgo inseguro sem dizer o que realmente seguro.
Grito ao mundo que mesmo sendo tão nulo
ressoo minhas emoções em um verso único.
Sem enigmas ou paradigmas.
Não há mistério em ser sincero.
Não há ressalvas em se sentir completo.
Não haverá fim,
Pois para mim
Enquanto eu me sentir mal
as minhas palavras nunca
terão
final.
"insano"
deveras sóbrio
nada quase louco
tenho certeza que fui preso pela carência
tal evidência me levou a ser cego
na cadência de realidade
o amor que não trás dor
o sufoco de não sentir calor
eu reconheço que tudo teve um começo
e que não me pareço com quem fui a pouco tempo
não teve um caminho
nem fui seguido pelo meu pensamento mesquinho
até então achei que tinha tentado
nem sempre foi o bastante e pelo contrário
julgar as palavras de tanto sábio
sem conhecimento pra gerar um contentamento
me recuso a tentar entender
somente deixo tudo acontecer
ciclo insano que me faz sofrer
e o sorriso que em mim se sobressai
ao dizer que não sonho
mas depois de aprender a caminhar imperfeito
a felicidade é a última que vai
sua arcada dentária se torna seu maior tesouro
e o valor de pedir permissão
a sua êxtase de emoção
um controle
mesmo não guiando
nem controlando
seu sorriso é esse
sua mente é unicamente essa
e seu coração floresce uma intensa emoção
que só tu sabe
e observadores reparam
mas sua infinita bondade de ser
sua mente linda em explosão
são todos parte
de você
sem alguma condição
só sempre vão estar ali
você querendo ou não.
Tem muitos que ousam dizem: Tudo que tenho é de Deus. E se Deus dissessem: vende tudo e dá aos pobres? o que faria?
Eu não tenho cicatrizes. Eu sou cicatrizes. Carrego no albergue dos olhos o ódio dos que me odiaram, a traição dos que me traíram, o pessimismo dos que não acreditaram em mim. Mas não há ressentimentos. Não optei por viver ofendido. A força que me rege é a gratidão.
Sou forte igual uma árvore
Tenho raízes profundas
E bem cravadas
Em tempestades fortes
Eu danço
Ao som dos ventos
Me arrasto até o chão
Com ofegante respiração
Um momento turbulento
Traiçoeiro e abrupto
Me assuta
Vem a brisa de mansinho
Num balançar suave
Com Delicadeza
E eu me recomponho
@zeni.poeta
