Talvez
Talvez as coisas não ocorram da maneira que achamos que seriam, isso nos dá aquela ideia que expectativas são ilusões, confie mais na sua intuição.
Aquele que sabe fazer conta não é um verdadeiro artista, talvez no minimo um economista criativo ou um inventivo matemático.
Talvez o preço mais alto pelo analfabetismo digital seja a dificuldade de perceber que o acesso às notícias frescas deixou de ser direito universal, para se tornar privilégio dos que investigam.
Talvez não haja forma mais nojenta — e covarde — de se lançar numa guerra do que se calar a pretexto de pacificação.
Talvez uma gargalhada num velório seja mais honesta que um choro numa pregação religiosa.
A emoção verdadeira não obedece a protocolos, nem respeita o “ambiente adequado”.
Às vezes, a lembrança engraçada do falecido invade a mente, e rir é inevitável — e profundamente humano.
Não é desrespeito, é sinceridade.
Por outro lado, há lágrimas que escorrem, não pelo peso da fé ou do arrependimento, mas pelo constrangimento social de parecer frio.
Chora-se porque os outros choram, porque a expectativa exige um rosto molhado.
A verdade é que autenticidade não se mede pelo cenário: pode haver mais vida em uma risada fora de hora do que em mil prantos ensaiados.
O coração não conhece etiquetas — e, quando tenta segui-las, quase sempre mente.
Talvez um dia o morango perca sua essência, vendido como unidade de luxo, embrulhado em papel de bala — símbolo perfeito de um futuro onde a natureza se rende ao fetiche da embalagem.
“Talvez” um povo, em sua maioria especialista em quase tudo, só caiu nas Armadilhas da Polarização por puro capricho.
Talvez o destino mais distante que a Oração Sem Ação alcance seja os ouvidos dos tolos que a fazem.
Talvez a gentileza que tanto incomoda — quando vem dos homens — seja o pé na bunda da nojenta grosseria “masculina” que se vê por aí.
Talvez não haja desonra maior do que falar à luz da noite o que não se pode sustentar à luz do dia.
Se os fanáticos políticos tentassem cristianizar as discussões como as politizam, talvez eles seriam ainda mais chatos e fanáticos.
Talvez não haja invisibilidade que impeça a descoberta da Beleza Exterior.
Mas, há uma Beleza peculiar dos profissionais da limpeza que deveria nos constranger, o entusiasmo com o qual trabalham.
Talvez nada consiga acirrar tanto a disputa pelo pódio da imbecilização entre a TV e a Internet, quanto essa Polarização política.
Se o mundo não fosse habitado pelos Cheios de Dúvidas, talvez os Cheios de Certezas já o tivesse destruído.
No universo da resistência Negra, talvez não haja crueldade maior do que ter que Resistir sem ao menos poder Existir.
A ausência deixa espaço. E é nesse espaço que mora a dor. A memória do que já foi e talvez nunca tenha sido do jeito que a gente lembra.
Aqui a tempestade ficou engarrafada e o sentimento não resolvido é transformado em memórias que a gente não queima porque o cheiro da fumaça lembra casa.
Talvez eu parasse de tomar comprimidos se eles viessem com a garantia de que a saudade evapora, em vez de decantar no fundo da garganta.
Se sempre procurarmos em outros os defeitos que nunca enxergamos em nós, talvez descubramos que esse é o nosso defeito.
