Tag poesia
gosto da segurança de criar
raízes em solo firme
mas não significa
que não possa me podar
para florescer em outro lugar
SEUS OLHOS
Embalam-me a alma de ternura
Elegância que acompanha minha trilha
Vejo neles reflexos de fadas que nunca ouvi
Em seus olhos as vi
No vagar do tempo
Vejo um fio de água descendo do seu rosto
Numa pisca já vão mil tristezas num só momento
A dor de todos os tempos
Levam-me à dejavu,
Os seus olhos negros
O encanto que reconta os seus contos
De mil maneiras de amar os outros
Triste é esse silêncio nos seus olhos
Empalidecendo seus lábios no seu semblante
A sua voz muda, gritando sua dor no augi da alma
Triste é sua dor, no silêncio dos seus olhos.
Ah! Não Posso
Se uma frase se pudesse
Do meu peito destacar;
Uma frase misteriosa
Como o gemido do mar,
Em noite erma, e saudosa,
De meigo, e doce luar.
Ah! se pudesse!... mas muda
Sou, por lei, que me impõe Deus!
Essa frase maga encerra,
Resume os afetos meus;
Exprime o gozo dos anjos,
Extremos puros dos céus.
Entretanto, ela é meu sonho,
Meu ideal inda é ela;
Menos a vida eu amara
Embora fosse ela bela.
Como rubro diamante,
Sob finíssima tela.
Se dizê-la é meu empenho,
Reprimi-la é meu dever:
Se se escapar dos meus lábios,
Oh! Deus, - fazei-me morrer!
Que eu pronunciando-a não posso
Mais sobre a terra viver.
Os crus dissabores que eu sofro são tantos,
São tantos os prantos, que vivo a chorar,
É tanta a agonia, tão lenta e sentida,
Que rouba-me a vida, sem nunca acabar.
Não queiras a vida
Que eu sofro - levar,
Resume tais dores
Que podem matar.
E eu as sofro todas, e nem sei
Como posso existir!
Vaga sombra entre os vivos, - mal podendo
Meus pesares sentir.
Talvez assim deus queira o meu viver
Tão cheio de amargura.
P'ra que não ame a vida, e não me aterre
A fria sepultura.
E as dores no peito dormentes se acalmam.
E eu julgo teu riso credor de um favor:
E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se,
Rendida aos sublimes mistérios do amor.
Não digas, é crime - que amar-te não sei,
Que fria te nego meus doces extremos...
Eu amo adorar-te melhor do que a vida,
melhor que a existência que tanto queremos.
Deixara eu de amar-te, quisera um momento,
Que a vida eu deixara também de gozar!
Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te,
Sou louca... perdida, só sei te adorar.
"Última Poesia"
Certa vez, eu à amei... Embora o sentimento tenha durado enquanto tolo eu era, fui feliz.
O tanto que chorei... É justificável por um rio que outrora seria um poço, mas ampliar-se com as lágrimas escorridas de meu rosto.
Aquela tão boa garota não passava de ilusão, desejava que ela fosse perfeita, como a havia criado em minha imaginação... O erro foi feito; desculpar-me talvez deveria, mas não há tempo, lamento, será esta a minha Última Poesia.
CERRADO ERUDITO
Andei sobre o cerrado
Como os bandeirantes
Tão triste desmatado
Fui as lágrimas soluçantes
Fui por ele calado
Um dia cerrado, gigantes
No seu torto encantado
Só para me recordar
E não pude fascinar
Fiz uma poesia
Como poeta do cerrado
Soltei brados de fantasia
Pra tê-lo do meu lado
Mas a lembrança esvaia
Pelo axioma empoeirado
Neste preço tão alto
Do belo desnudado
E então, como Cora Coralina
Eu cantei versos ao luar
Neste chão, e céu anilina
Pra a sedução fascinar
Aí, me curvei
Chorei... Ante a força do sertão
Até quando este estado?
Surrado. Resiste a civilização
Ainda andei sobre o cerrado (...)
© Luciano Spagnol
Poeta do cerrado
01 de abril de 2018
Domingo de Páscoa
Paráfrase Paulo Vanzolini
Conseguimos abrir um portal
Transpassando níveis de imaterialidade
Ou somos uma simples arquitetura
Resumidas num retrato mais tarde
Como se fossemos troféus da morte do ego?
Sabe por que a fofoca existe? Há pessoas que usurparam tanto a vida alheia que tornaram-se altamente estranhas de si. Assim, a única maneira de não ter que encarar o próprio “eu” é perambulando a existência do “outro”.
Poeta de poesias ,
As vezes palavras vazias ,
As vezes anestesia ,
Mas ela volta como sempre ,
Dor na minha mente ,
Maldita duvida persistente ,
Qual era ela mesmo ,
As vezes á esqueço ,
Poeta de Poesias.
Sua melhor versão era aquela em que se travestia de poeta e inundava o mundo inteiro com seus versos.
Insight
Do lado de fora correria,
exasperação...
Diminuo a pressa,
respiro...
Só vou até o riacho
bem ali,
dentro de mim...
Papai Noel que nunca chega
(Carta de um menino zimbabuano)
Papai Noel,
Onde é que está você?
É verdade que sua barba é branca,
Feito algodão-doce, sem sabor colorido?
Que você existe mesmo eu sei...
No Natal, eu quero um pacote de bolacha
E um ainda maior de pipoca, bem grande,
Que é para dar pros meus oito irmãozinhos,
Barrigudinhos como eu. E a titia... minha tia precisa,
Somente ela, porque minha mãe morreu,
Pai já não tinha – e morreram mais crianças,
Muitos vizinhos, morreram meus irmãozinhos, afinal,
Por enquanto, só eu fiquei,
Eu, minha tia e meu primo do meio.
Papai Noel, será que é possível passar por aqui,
Quero dizer (se não for pedir muito)
Aqui primeiro, aí depois visitar o resto do mundo,
Mundo que nos esqueceu neste lugar
Onde as estrelas se escondem atrás de nuvens marrons,
Marrom-escuras, estacionadas sobre nossas almas.
Querido Papai, velho Noel, se tiver de vir, vem logo,
Não nos deixa para depois dos outros...
Se não quiser sujar o trenó de poeira ou cinza,
Faz uma coisa prática, vem de carroça,
Mas enche a carroça de bolacha, por favor.
(Nossos corações não estão vazios, até que existe esperança,
E existe agonia; e não falta união, falta alegria
Porque nossas barrigas estão ocas. Ocas,
Simplesmente assim, ocas. Nem os vermes sobrevivem.)
Aliás, por falar em união da família,
Pelo menos aqui, a fome é que tem desfeito essa união:
Deixando filhos sem pais, pais que perdem seus filhos;
Netos que não têm sequer a bênção dos avós,
Avós que nunca nanam seus netinhos;
Tios e tias, sobrinhos, madrinhas... todos,
Todos de mãos dadas, unidos,
Mas unidos num vasto e acolhedor leito de morte
– Morte que se apresenta aqui pausadamente,
Separando um do outro,
Deixando tempo demais para a despedida,
Tempo que a gente nem queria ter.
Por isso, Papai Noel, não demore tanto para chegar...
Já estamos cheios de bolachas de barro,
Bolinhos de barro, torrões...
Faz um esforço e vem com algo de verdade,
Qualquer sabor, bolachas e mais bolachas,
O melhor presente da vida.
Faz um pouco de esforço e vem,
Vem antes de o pôr do sol,
Não dá meia-volta de novo,
Não deixa a gente para trás,
Vem, mas vem antes de o sol se pôr,
Ninguém mais pode ficar de fora,
Vem, vem logo, vem,
Vem e traz bolacha pra todos,
Traz o sorriso.
Edder Alexandre é jornalista e escritor, autor do romance Silêncio na Marcha – O Drama do Homem na Ponte do Milagre; também escreveu o infantojuvenil As Gêmeas de Getsêmani.
Meu cais
Vou clamar aquela poesia
que eu fiz um dia
pra te esquecer
algo impossível de acontecer
pois teu olhar invade meu coração
como dizer não
Se o fato ocorreu
e a gente nem percebeu
se o beijo estralou
porque não lhe dou
muito mais
venha aportar no meu cais
jogue sua âncora sem dó
vamos desatar esse nó
quero escurecer até sua cor
para contrastar minha dor
de consciência limpa
de água cristalina
que batizou
e que purificou
o nosso amor.
Ser amigo é...
Dividir um sorriso
Viver juntos mil aventuras.
Ser amigo é poder sempre contar
com uma mão estendida
um ombro para chorar
Um coração que pulsa junto
e sonha contigo
Na mesma vibração.
Ser amigo é ter o peito aberto
e andar na mesma direção,
mesmo que estejam separados.
Ser amigo é
amar em total sintonia
E guardar o amigo nas tábuas do coração.
Paula Belmino
Há poetas que dizem escrever poemas psicografados.
E quais poemas não o são?!
... Quando não descrevemos nosso próprio inconsciente
descrevemos o inconsciente do outro que ousamos
fingir que conhecemos
Poesia e psicanálise.
Bela parceria!
EXCETO POESIA
Compara a poesia à tudo!
À filosofia
À psicologia
À teologia
À metafisica
E até à ginecologia
( leio muito disso por aqui)
Só não a compara à razão.
Poesia foge à qualquer tipo de razão
Tira os passarinhos dos versos
As borboletas dos jardins
O sol ou a ausência dele na janela da moçoila
e logo não haverá nada.
Não poderá haver nada
Ou melhor,
poderá haver tudo,
exceto
poesia.
Não force a poesia
... A poesia não pode ser forçada.
Ou há poesia em ti ou não há!
Já o poema,
ah,
esse sim pode ser escrito há hora que quiseres.
Precisa apenas trabalhar nele como em tua cozinha
ou na casa em que pintas as paredes.
... A poesia nem sempre vem acompanhada de quimeras, falsas doçuras ou utopias
Poesia também é dor e espinho no roseiral.
RARIDADE
Tem dias
que a gente acorda alçapão,
um medo danado da vida...
Uma saudade misturada
com uma baita solidão!
...Mas tem dias que a gente acorda
levinho, levinho
tal qual passarinho longe do ninho.
Hoje despertei assim,
ternura sem fim.
Invocando sonhos distantes...
Raridade no corpo
na alma e
no coração.
Despertar...
Curioso...
Nunca notara o arvoredo
imponente, à beira do atalho
por onde passo todos os dias.
Será que foi porque
ando alienada da beleza
que a vida ainda irradia?
Será que hoje o sol
brilha mais intenso e alaranjado
nesse findar de tarde?
...Ou será que foi o beijo
que ganhei de ti hoje,
que pôs sonhos nos meus acasos?
Não sei.
Talvez jamais saiba.
Mas como é lindo o arvoredo
à beira do caminho!
Tão bonita...
Uma folha seca caiu
do pé de romã
do jardim
Ela partiu
Sua alma voou
transladou infinitos...
Tão bonito...
A folha secou
misturou-se ao húmus
do solo, deu brilhos às
pétalas de rosa do jardim,
brilho de carmim
Ela virou estrela.
Foi iluminar a constelação
de pégaso.
É o astro de maior grandeza.
...Tão bonita.
Minha epifania
Minha epifania
Minha fina sintonia
Meu âmago
Meu encontro
Não sei se te conto
Minha descrição indescritível
De algo que aconteceu,
De algo tão sensível
Minha epifania
Minha tênue linha
Algo tão singelo
Que só eu sei
Algo sem lei
Algo que não posso dizer
Minha epifania
Que pode ser com o Senhor
E com meu amargor
Ou comigo mesmo
No dia que percebi
De tudo que se passou
De tudo que perdi
Esta é minha epifania
Algo que não vou te contar
Algo que passou na vida minha
