Sobrevive Amor Acima de tudo
O tempo não cura tudo, o tempo apenas ensina a conviver. Ele põe a ferida em nível com o cotidiano. Não apaga a dor, a integra como móvel da casa. E eu reorganizo a vida em torno desse novo móvel. Conviver é aprender a dançar com o incômodo sem tropeçar.
A compaixão por mim começa por aceitar a minha lentidão. Nem tudo que quero se resolve em pressa. Há processos que têm horário próprio, distante do relógio. Deixo-os correr com sua cadência e não os atropelo. A lentidão vira cuidado, e o cuidado vira respeito.
Eu carrego uma coragem disfarçada, que só aparece quando tudo desaba, é ela que me puxa pelos cabelos da alma e me obriga a tentar mais uma vez, e é por isso que nunca paro.
Um coração ferido ainda sabe amar, mas ama com olhos atentos, não entrega tudo de uma vez, mas também não fecha as portas, ama com sabedoria.
A fé não resolve tudo, mas resolve o que mais importa, a guerra dentro de mim, sem ela eu já teria desabado, com ela eu renasço.
A fé me ensinou a esperar, mesmo quando tudo parece tardio, o tempo de Deus não falha, e quando chega, chega perfeito.
Vivemos acorrentados ao que já sabemos. O dia em que você disser "Eu sei de tudo" é o dia em que você parou de viver, começou a estagnar.
Não rejeite o seu começo imperfeito nem tudo que faz sua natureza única, aceite a confusão como o ponto de partida para quem você é de verdade. É na simplicidade do que está quebrado e na exposição dos seus restos que a sua verdadeira e inegável grandeza finalmente é construída.
Há dias em que a alma parece uma casa sem teto: tudo entra, tudo molha, tudo desaba. Mas mesmo nas ruínas, algo dentro pede reconstrução. E esse pedido é prova de que a esperança, embora pequena, ainda respira. Respira fraco, mas respira.
O tempo não cura tudo, apenas muda o lugar onde a dor se acomoda. Às vezes ela se torna menor, às vezes muda de forma, às vezes se transforma em sabedoria. E em raros momentos, vira força. Mas nunca desaparece totalmente.
Um menino de costas carrega nas mãos vazias
tudo o que não pôde salvar. O piano calado chora por dentro, o violão perdeu as cordas como quem perdeu a fé. Anjos sujos ajoelham na lama, pedindo perdão por não terem chegado a tempo. As máquinas, cansadas de pensar, aprenderam o silêncio. E mesmo assim, ao longe, a água insiste em cair, porque o mundo acaba muitas vezes, mas a vida sempre encontra um jeito de continuar descendo.
A perda me ensinou a medir tudo em silêncio. O pouco que sobrou passou a ter peso de tesouro. Conto moedas de afeto e invisto em gestos pequenos. Há economia no cuidado com o próprio quebrado. E essa prudência constrói a base para novos começos.
Meus sonhos se enrolam como fios de lã mal tricotados. Às vezes puxo um fio e desfaz tudo que fiz. Outras, consigo transformar em manta para me cobrir. A habilidade é saber quando parar de puxar. E aprender a tricotar com as mãos que tenho.
Quando tudo parece ruir, existe um fio invisível. Ele amarra as coisas que não queremos perder. Não se vê, mas se sente firme como corda de navio. Segurar esse fio é ato de fé pequeno e contínuo. E por ele chegamos a novas margens.
Meu silêncio não é deserto, é multidão, está lotado de tudo o que ninguém teve coragem de perguntar ou paciência de ouvir.
O raso me causa vertigem. Tudo em mim é abissal: se amo, me perco, se sofro, me afogo, se escrevo, transbordo.
Não ostento força, ostento permanência. Com tudo o que já me convidou ao fim, o fato de eu ainda estar aqui é meu maior feito.
Talvez a força seja exatamente isto: a incapacidade de desistir, mesmo quando tudo em nós grita pelo fim.
Sou o resultado de todas as vezes que eu disse "está tudo bem" enquanto meu mundo interno estava sendo devastado por um tsunami de incertezas. A resiliência é uma forma de exaustão que aprendeu a usar maquiagem, uma força que nasce da total falta de opção.
A tristeza é uma cor que combina com tudo o que eu escrevo, um pigmento que extraio das sombras que o sol projeta quando decide se pôr cedo demais. Não busco o arco-íris, busco a gradação de cinzas que existe entre a dor absoluta e o alívio de um sono sem sonhos.
