Shakespeare sobre o Amor Soneto 7
Soneto da Escuridão
Talvez eu deva sumir para estrelas,
De tanto mal consentimento, não hei
De amargurar. Talvez, por centelhas,
A solidão seja dádiva — e sei.
Talvez eu nunca deva, em outro mundo,
Existir. De tão único, falhei.
Por isso, não chores — afundo,
Não sei o que houve, nem o que serei.
Possa estar viva, mas eu traga.
Possa estar morta — neu adega.
Possa existir vestígios da escuridão.
Intensa, à noite ou no pleno dia.
O sol é o exemplo mais claro, então,
Da mais pura e fiel melancolia.
SONETO 01 - QUEDA LIVRE
Além de Si
Quando dei por mim
Já não era mais eu...
Tudo onde via ser meu
Faziam partes do fim.
O amor que outrora fora tudo,
Agora não mais restava um pouco.
Momentos marcados como loucos
E eufóricos foram apenas absurdos.
Um todo por metades desiguais,
Ou fragmentos de uma parte.
Pois o meu desejo foi a arte
Que preencheu esse vazio demais.
Agora estou eu cá sem ver o que há aqui...
Por doar-se demais além de si.
/SONETO 02 - QUEDA LIVRE
Acima do Véu
Prometi a ti a vida que falei.
Rasguei os músculos dormentes,
Queimei a pele no sol quente
E até as lágrimas, enxuguei.
Mergulhei fundo na vida para ter o mundo.
Segundos duraram anos longe de você.
Profundos tormentos senti para vencer
E no fim vejo somente sorrisos imundos.
Quisera eu poder alcançar o céu
Sem precisar ver acima do véu.
Estaria você a me iludir com vagas esperanças.
Agora frágil e jogado ao léu,
Vivendo amargo feito fel,
Como poderia eu ainda ter confiança?
Quis faróis, tens que visam Salvador,
Vai-se soneto branco chamuscado;
Falais aos caranguejos e saguis,
Imitantes atores às marés, areias,
Num traquear desolado Atlântico:
Vens lufada abrangente e Carioca;
Branda a lufar — se nós lufássemos
— que sejais samba, roda de pagode.
Baianos cativados contemplam
As areias, caranguejos na ciranda,
Até saguis em marés. A elite levanta
E sai do Monte Pascoal a ver samba:
— Que fazeis esses? Longe; aqui na Bahia?
—Esses, acampar-se-ão no Farol da Barra.
Soneto à Morte do Conde Orgaz -
Lá longe, mais além, onde não vejo ninguém,
existe um préstito funéreo
a que minh'Alma se prende, porque contém,
um profundo olhar etéreo ...
Vão muitos a sepultar, entre lúgubres caminhos,
D. Gonzallo de Tolledo, Senhor da Vila de Orgaz.
"Óh morte, quando é que também me vestes...?" Assim diz, o Poeta-Conde, Senhor da vila de Monsaraz!
E em hora derradeira ouve-se uma voz sem Paz:
Não há ninguém que me conforte,
oiço ainda o Vento chorar trágico e forte!
E tanta gente se vê nos funebres chorões do seu caminho
a abrir com lágrimas de morte, um qualquer destino,
para aquele que foi outrora o Conde de Orgaz!
(Soneto que nasce da belissima Tela do Pintor El Greco em que o tema principal é a morte e enterro do Conde Orgaz.)
Soneto, “fim de aventura”
— Repentinamente a alegria transformou em entristecimento
— O riso converteu em lamento,
— Surgiram lágrimas e abatimento
— Momentaneamente, o que era paz, se transformou em tormento
— Inesperadamente;
— Na expressão extinguiu a luminosidade
— O afeto converteu em incerteza, não havia mais tanta clareza
— Os encontros converteram em preocupações, já não faziam diferença!
— inusitadamente;
— A solidão se fez presente,
— habitou o coração
— A vida, perdeu o sentido, naquela aventura que estava vivendo.
— Aquela fantasia, perdeu a razão, senti estar sofrendo.
— Imprevistamente, o vento levou, terminou!
Rosely Meirelles
Soneto ao Conde de Monsaraz -
E escuto à noite, na Voz do Universo,
cálido, certeiro, feito de Estrelas,
uma Voz que ecoa, deixando-me imerso,
num manto doce de tímidas procellas:
"... há uma Paz infinita na solidão das herdades,
ó Alma das coisas mortas,
eu sinto que me confortas,
nos campos, quando me invades ..." *
E há um silêncio sinistro e misterioso
que me escorre a Alma num pálido sentir,
ora doce ora amargo, ora alegre ou doloroso ...
E sinto em mim, às vezes, vacilante e audaz,
essa voz Eterna, doce, a sorrir,
do Conde de Monsaraz ...
Tens em minha Casa um lugar onde podes pernoitar sempre que venhas.
Tens em meus braços um ninho de amizade que te espera.
Tens em minha Alma outra Alma que sempre esperará a tua Alma ...
*Quadra de António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz. IN Musa Alentjana - 1908
... E VERSA-SE UM SONETO
... e versa-se um soneto arruelado
Na vil saudade, num gesto amargo
O coração com sentimento calado
E versos dispersos deixado ao largo
... e versa-se um soneto tão letargo
A alma ansiando tudo compassado
E a solidão infundindo o descargo
Mais do que deve, o pesar, atado
... e versa-se o soneto sucateiro
Nos suspiros do querer esquecer
Custe o que custar, teimosamente
... e versa-se um verso do madeiro
Da crucificação do soneto a sofrer
Chora o verso, queixa, inutilmente!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
25 outubro, 2022, 21’19” – Araguari, MG
Soneto para Ela
Naquela quase manhã primaveril / num dia vinte e cinco qualquer / ainda sem pandemia nem nada / era um novembro tardio
Tinha nada a dizer / Encontrei um contato na agenda/ Lenda urbana existe / lembrou-me logo você
Lentamente vi que era sábado / domingo não era era não / vivia de "bar em bar" / como Cazuza dizia, naquela Linda canção
Vá, coragem, pensei comigo mesmo: falo ou não falo? Garçom! pedi a conta e perguntei aleatoriamente: falo? Ele respondeu: sim, sincera e simplesmente.
SONETO
Prosa d’alma! Compasso e essência!
A voz duma sensação não esquecida
Despertar da recordação adormecida
Versos rimados em sua boa cadência
Literário, ilusório, atroz ou clemente
Feliz na presença, triste na ausência
A emoção palpita a cada existência
Canção que recita o evento da gente
Tu fazes da saudade a rima singular
E da felicidade, agrado, um doce lar
Traduz a menúcia da vida a seduzir
Em ti, cada um pedaço, cada instante
Em um todo, encantador e sussurante
Tu soneto, poética que se faz sentir!
© Luciano Spagnol – poeta do cerrado
21 de novembro, 2021 – Araguari, MG
BIOMA (soneto de 1 sílaba)
Cerrado
tão
arrojado
chão
agigantado
ancião,
encantado
quão
traz
o
diverso
primaz
do
universo
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
06 dezembro, 2021, 21’08” – Araguari, MG
Soneto à Diana
O sabor tão amargo de uma vida,
não me privou desta quimera doce,
uma jarra de crítica ferida
que hoje brinda uma paixão precoce...
Cativo desta saudade regida,
fenecer na clausura achei que fosse,
barganhei com teus seios a saída,
tornei-me mais ainda tua posse...
Tocaste-me, anjo, a carne consentida
na compulsão por ti só requerida,
domaste-me, lasciva, em sedução...
Com suas cifras vivas e fundidas,
maestrina destas notas tão ardidas,
soubeste me tornar composição.
Soneto bandoleiro.
Muito se tem dito,
pouco se tem feito,
e o tido como perfeito,
é, desastrosamente, desfeito.
Muito se tem falado,
pouco se tem agido,
e o que era tido como certo,
hoje se esgueira; na sombra escondido.
Seria da natureza do homem,
tamanha afronta que nem se dá conta
de seus semelhantes esfomeados que somem.
Os infortunados banidos, bandidos,
como se fossem bandoleiros,
porque acabou o dinheiro?
SONETO NATUREZA
E Quando eu olho pela minha janela,
Maravilhada Avisto o céu, terra e mar.
É linda, esplêndida vista airosa, bela;
Preciosa, no vasto horizonte a brilhar .
Sim, a natureza de Deus é perfeita !
Aliando tudo em seu devido lugar;
Benditos olhos, a admirar tal feita;
A natureza digna de contemplar !
- O homem a desmatar florestas,
Um mundo cada vez mais inseguro,
Imaginar que Deus o criou tão puro !
Ainda é tempo ; busque cuidar da natureza
Olhe o expendido horizonte pela sua janela
Respire o ar fresco com cheiro de alecrim e canela !
Maria Francisca Leite
Direitos autorais reservados sob a lei -9.610/98
Soneto da Felicidade
Há quem diga que para ser feliz,
Precisa-se de algo ou alguém,
Mas sabedoria é saber que o que diz
É que sempre precisamos de alguém ou algo, também.
Eu digo que tenho ambos, com certeza,
Mas felicidade é mais do que isso,
É ter em mente que cada beleza,
Está nas coisas simples do dia a dia, no seu puro sorriso.
Felicidade é ter domingos fartos,
De boas conversas e risadas sem fim,
De amigos por todos os cantos,
E de momentos de paz dentro de mim.
Ela também está nos cantos e choros,
Nas brigas que nos fortalecem,
E no consolo que encontramos no amor,
Felicidade é estar presente em tudo que desejamos e merecemos.
SONETO ENFERMO
Geme o soneto, enfermo, na tristura
Amargo, sofrente, no acaso padece
Trova assim dura, por que o merece
Ferindo a poética com tanta loucura?
Ó sensação peia, ó teia sem ternura
Se o versar ouvisse a súplice prece
Da emoção, e o leve rimar pudesse
O verso seria o que o alívio procura
Como chora a estrofe no desengano
Escorre pela mão somente o flagelo
Deixando o versejar maldoso, tirano
Sim, é a sorte, num ousado atropelo
E o emocional com sentimental plano
Pondo o cântico em vicioso pesadelo
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
20 maio de 2023, 16’06” – Araguari, MG
Soneto 63º aniversário de Brasília
O quadradinho visto em sonho
Riquezas ocultas entre os montes
De um ponto a outro, suponho
Tesouros de abundantes fontes.
Santo Bosco a ouvir amiúde:
Quão grande é a Prometida!
Oh! veluda voz não me ilude
Leite e mel jorrarão toda vida.
Nos graus 15 e 20 deságua,
Posto que cercada por espelhos d’água,
Reflete riquezas inconcebíveis.
De Colômbia a Sul da Argentina
Guiado por vozes audíveis
Dom Bosco viu a Terra de Brasília.
SONETO NO EMBALO DA CANÇÃO CANÇAO
Ouvindo uma sublime, linda canção
Eu Te encontro em minha imaginação
ao fechar os olhos levo você comigo.
Quero teus braços para o meu abrigo
*
sinto seus braços me envolverem;
O teu calor deixa- me extasiada
Como num sonho e desse sonho
Nunca mais quero ser acordada .
*
No embalo de uma canção, tu me envolves
Com desejos tresloucado; tudo que mais
Anseio no embalo da canção é ter você ao meu lado !
Dentro de meus sonhos, meu mundo imaginário; Acredite se quiser, é especial,
Simplesmente Um lugar extraordinário !
*
Maria Francisca Leite
Direitos autorais reservados sob a lei - 9.610/98
TAL UMA BOCA QUE DESEJA
Vês? Não sentiste meu soneto amável
Poetizado com a sensação em espera
Somente o desinteresse, em ti impera
Deixando à emoção: tristura inevitável
E, neste poetar de uma paixão sincera
Um amor, aberto, ao coração palpável
Vindo d’Alma, do sentimento inevitável
Uma necessidade, de doce atmosfera
Agora, resta o pranto, o silêncio bizarro
A dor cortante, afastamento, o escarro
Quem um dia amou, todavia, apedreja
Se o meu verso causa inda poética saga
Tu o vês insignificante, ele, que te afaga
Beija, ameiga, tal uma boca que deseja!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
29 maio de 2023, 18’24” – Araguari, MG
*soneto que dialoga com "Versos Íntimos" de Augusto dos Anjos
DIA CHUVOSO
Trovejante soneto troou na dura aflição
Dia chuvoso na tarde com melancolia
Alma num vazio, e vazio na sensação
Em uma mescla de angústia e poesia
Trovejante sentimento troou pensativo
Na emoção, realidade vera ou fantasia
Quanto inteiro cerrado, tremeu ilativo
Obedecendo a dor, que versar queria
E ao perpassar por margem sofrente
O verso soluça num soneto chorando
E o bardo, também, chora soluçando
Trovejante poema troou descontente
Surge a saudade no infortúnio atado
Ferindo o emotivo coração da gente!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
Janeiro, 2023, 17'51” – Araguari, MG
