Ser Capaz de ser Feliz

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Antes, éramos substituídos por outros seres humanos; hoje, somos ameaçados de ser substituídos por algoritmos que calculam, produzem e até simulam empatia sem nunca terem derramado uma lágrima.

MONÓLOGOS DE UM MISERÁVEL




Cap. IV: Como São Chamados: Monstro ou Deus?


Todo ser humano carrega um monstro dentro de si.


Um monstro invisível aos olhos alheios, mas dolorosamente perceptível às emoções de quem o abriga. Nenhum instrumento é capaz de detectá-lo. Ele habita os recantos mais obscuros da alma, nutrindo os desejos mais vis e orientando as ações mais destrutivas.


Chamam-no de “deus”, mas esse deus não cria mundos, não concede vida, não oferece consolo. Apenas consome. Apenas destrói. Reina soberano sobre o caos interior de cada indivíduo.


Esse monstro manifesta-se por meio de conflitos, ódios, exclusões, cobiças, luxúrias, ciúmes, invejas e desprezos.
Não pede licença. Impõe-se.


E, em troca, oferece algo: a promessa de auxiliar-nos na realização de nossas ambições desde que entreguemos a consciência em sacrifício.


A inveja, por exemplo, não se limita a corroer; ela propõe um pacto. Sugere o caminho mais curto para a ruína daquele que mais se destaca.


A “deusa inveja” apodera-se do coração humano e o converte em predador.
Nada permanece fora de alcance: matar, trair, manipular, sacrificar os próprios aliados; tudo em nome da autopreservação, tudo em nome de si mesmo.


O ser humano criou deuses, fetiches, sistemas de crença, na tentativa de dominar a si próprio — e fracassou.


Agora, essas entidades imaginárias conduzem a sua ruína.


Todos querem parecer heróis. Todos querem ser vistos.


Mas ninguém admite agir movido pela vaidade. O elogio é uma droga que inflama o ego; a vergonha, uma coleira que aprisiona a vontade. Ambos são grilhões.
No início, todos tentam resistir ao monstro que os habita. Logo, porém, percebem que esse monstro constitui a própria essência. E rendem-se. A emoção prevalece. A razão cede. Resta, então, a obstinação cega — destrutiva.


Não se deve mudar ninguém. Cada ser escolhe o que é: ou o que merece ser.


Assim, o monstro nasce da escolha livre daquilo que se decide ser.


O ser humano é um resíduo. Uma aberração ambulante. A sua existência é uma sentença: uma enfermidade. E, por isso, está condenado ao sofrimento. Nada o salvará: nenhum deus, nenhum amor, nenhuma sociedade.


O mesmo miserável que se viu ameaçado pelos seus semelhantes criou a polícia para se proteger. E a polícia — essa encarnação da lei — tornou-se, hoje, um dos seus mais cruéis inimigos. Finge proteger enquanto reprime. Finge servir enquanto saqueia.


O mesmo desgraçado elegeu um governo para guiá-lo e protegê-lo. E agora rasteja sob o peso daquilo que criou. O poder que ergueu o esmaga. O monstro que alimentou o devora.


E agora ele vive...


Reclamando;
Mendigando dignidade;
Carregando uma existência miserável, hostil e inútil.


O ser humano é incapaz de aprender com o próprio erro.


Repete, repete e repete — como um tolo fascinado pelo próprio fim, governado pelos monstros (ou deuses) que ele mesmo engendrou.

PRÓLOGO: À PROCURA DO SER HUMANO




Havia muita gente na rua...


Os cônjuges passeavam de mãos dadas; jovens congregavam-se à sombra de uma mulembeira, discutindo a literatura africana dos séculos XVIII e XIX; outros, mais curiosos, discorriam sobre a ascensão do Iluminismo e a Revolução Científica e Tecnológica; alguns, do outro lado do ocidente, ostentavam vaidosamente aquilo que vestiam e consumiam...


Havia ainda aqueles que se entregavam a pelejas por nada menos do que pecúnia. Talvez, à primeira vista, isso pareça fútil, inclusive para um Miserável como eu... irrisório de se dizer e absurdo de se ouvir.


Cheguei a cogitar interceder; não obstante, como estava apenas de passagem, pouco desejava o meu íntimo que assim o fizesse.


Fui-me embora.


Segui adiante como segue o vento: sem olhar para trás.


Pensei se a minha atitude seria passível de apreciação por parte da sociedade. Por outro lado, temia igualmente que ela me censurasse por ter permitido que o meu subconsciente se recusasse a interceder em favor daqueles incompatíveis.


Ponderei, afinal, que a vida se assemelha a um cemitério, onde as tumbas já foram preparadas para nós há muito tempo. Daí que aquilo a que chamamos viver seja, de facto, um belo enterro.


Enfim...


Achei melhor abandonar tais reflexões e prosseguir a viagem de forma tranquila e solene.


Enquanto caminhava pelas terras da Humpata em direção à Chibia, já com a garganta ressequida pela longa jornada, deparei-me, de forma inesperada, com um viajante mukubal. Apressei-me, então, a saudá-lo:


— Graça e paz, amigo viajante. O que o traz a estas terras longínquas?


Então, respondeu-me:


— Estou à procura do ser humano. Pois, de onde venho, existem poucos.


Perplexo ante o que acabara de ouvir, tornei a inquirir:


— Afinal, amigo viajante, que tipo de ser humano procuras especificamente?


Em tom metafórico e exaurido pelo cansaço, replicou:


— Daquele que não deseja afirmação, mas perdão. Daquele que não quer possuir o céu, mas apenas ser digno de habitá-lo.


Estarrecido com as palavras do nômade, ensimesmei-me a refletir:


Que estranho...


De que tipo de ser humano se trata?


Não somos todos nós humanos por natureza?


Afinal, o que nos distingue daquele que ele tanto procura?


Permaneci aturdido diante das minhas próprias indagações e concluí que talvez tudo não passasse de um delírio do viajante mukubal; que o excesso de fadiga o tivesse levado a proferir tais afirmações aparentemente absurdas.


Enquanto monologava com o meu subconsciente, o viajante mukubal disse-me imediatamente:


— Não penses demasiado, filho.


Sabes, houve um tempo em que este mundo era habitado por pessoas verdadeiramente humanas. Pessoas de coração benigno. Zelavam umas pelas outras; faziam de tudo para resguardar a paz e a harmonia social; auxiliavam-se mutuamente, unidas por um único propósito: o bem-estar comum.


Não obstante, com o passar do tempo e com a descoberta dos minerais e de outros recursos naturais — ouro, diamantes, carvão, ferro e tantos mais —, bem como, mais tarde, do petróleo, da energia, das grandes invenções tecnológicas e, por conseguinte, da bomba atómica, esses humanos foram-se dissipando.


Na verdade, o amor tornou-se exótico nos últimos tempos.


O ego, por seu turno, erigiu-se como a suprema afirmação do homem.


Cada indivíduo passou a buscar a própria exaltação perante os demais.


Converteram-se em amantes da guerra.


Possuídos pela febre da opulência.


Famintos de poder.


Endividados pela ignorância.


Dominados pela ganância.


Obnubilados pela ausência de lucidez.


Sepultados na desgraça e engendrados pela cobiça.


É desse ser humano que estou à procura, filho.


Por acaso, viste algum por aí?

"O ser humano é sinônimo de destruição, do caos e do terror, antónimo da ordem e da paz".

"Quando o amor anterior é substituído, o actual pode ser amargo"

"Todo ser humano nasce virgem, pois a vida é a nossa virgindade, quando a perdemos é eternamente. Não volta mais. Não há segunda chance. Não há outra oportunidade."

⁠O homem só pode ser derrotado por ele mesmo, quando ele começa a sentir pena de si mesmo, quando tenta justificar seus defeitos e quando terceiriza suas responsabilidades.

“O mundo não gira ao nosso redor, e se estiver girando só pode ser vertigem.”

O problema do ser humano contemporâneo não é a escassez de informação, mas a incapacidade de transformá-la em conhecimento, conhecimento em discernimento e discernimento em transformação.

O conhecimento abre portas. A consciência nos mostra quais não deveriam ser abertas.

“Se informação fosse sinônimo de inteligência, uma biblioteca seria mais sábia que um ser humano.”

“O senso comum raramente é comum por ser verdadeiro; normalmente é comum por nunca ter sido questionado.”

“Pensar dói porque desmonta a pessoa que você acreditava ser.”

“Quem pensa o pensamento deixa de ser refém dele.”

“Nenhum dos meus livros foi escrito para ser compreendido; todos foram escritos para tornar insuficiente quem tenta compreendê-los sem antes compreender a si mesmo.”

“Quando a educação proíbe o pensamento de pensar o próprio pensamento, ela deixa de ser educAÇÃO para se tornar condicionAÇÃO.”

“O maior medo do ser humano não é descobrir quem é; é descobrir que passou a vida inteira defendendo a máscara que o impediu de ser.”

“O ser humano não tem medo de descobrir quem é; tem medo de descobrir que tudo aquilo que chamou de ‘eu’ foi apenas uma mentira bem construída para não encarar a verdade que sempre esteve dentro dele.”

“O maior paradoxo da existência humana é que o homem nasce com uma alma buscando ser, recebe uma identidade ensinando-o a parecer e passa a vida inteira tentando encontrar fora aquilo que perdeu no instante em que deixou de ser, para parecer ser”.

“O homem passa a vida tentando ser humano, sem perceber que nasceu humano e foi educado para esquecer.”