MONÓLOGOS DE UM MISERÁVEL Cap. IV:... Miguel Chiyo Tomás

MONÓLOGOS DE UM MISERÁVEL




Cap. IV: Como São Chamados: Monstro ou Deus?


Todo ser humano carrega um monstro dentro de si.


Um monstro invisível aos olhos alheios, mas dolorosamente perceptível às emoções de quem o abriga. Nenhum instrumento é capaz de detectá-lo. Ele habita os recantos mais obscuros da alma, nutrindo os desejos mais vis e orientando as ações mais destrutivas.


Chamam-no de “deus”, mas esse deus não cria mundos, não concede vida, não oferece consolo. Apenas consome. Apenas destrói. Reina soberano sobre o caos interior de cada indivíduo.


Esse monstro manifesta-se por meio de conflitos, ódios, exclusões, cobiças, luxúrias, ciúmes, invejas e desprezos.
Não pede licença. Impõe-se.


E, em troca, oferece algo: a promessa de auxiliar-nos na realização de nossas ambições desde que entreguemos a consciência em sacrifício.


A inveja, por exemplo, não se limita a corroer; ela propõe um pacto. Sugere o caminho mais curto para a ruína daquele que mais se destaca.


A “deusa inveja” apodera-se do coração humano e o converte em predador.
Nada permanece fora de alcance: matar, trair, manipular, sacrificar os próprios aliados; tudo em nome da autopreservação, tudo em nome de si mesmo.


O ser humano criou deuses, fetiches, sistemas de crença, na tentativa de dominar a si próprio — e fracassou.


Agora, essas entidades imaginárias conduzem a sua ruína.


Todos querem parecer heróis. Todos querem ser vistos.


Mas ninguém admite agir movido pela vaidade. O elogio é uma droga que inflama o ego; a vergonha, uma coleira que aprisiona a vontade. Ambos são grilhões.
No início, todos tentam resistir ao monstro que os habita. Logo, porém, percebem que esse monstro constitui a própria essência. E rendem-se. A emoção prevalece. A razão cede. Resta, então, a obstinação cega — destrutiva.


Não se deve mudar ninguém. Cada ser escolhe o que é: ou o que merece ser.


Assim, o monstro nasce da escolha livre daquilo que se decide ser.


O ser humano é um resíduo. Uma aberração ambulante. A sua existência é uma sentença: uma enfermidade. E, por isso, está condenado ao sofrimento. Nada o salvará: nenhum deus, nenhum amor, nenhuma sociedade.


O mesmo miserável que se viu ameaçado pelos seus semelhantes criou a polícia para se proteger. E a polícia — essa encarnação da lei — tornou-se, hoje, um dos seus mais cruéis inimigos. Finge proteger enquanto reprime. Finge servir enquanto saqueia.


O mesmo desgraçado elegeu um governo para guiá-lo e protegê-lo. E agora rasteja sob o peso daquilo que criou. O poder que ergueu o esmaga. O monstro que alimentou o devora.


E agora ele vive...


Reclamando;
Mendigando dignidade;
Carregando uma existência miserável, hostil e inútil.


O ser humano é incapaz de aprender com o próprio erro.


Repete, repete e repete — como um tolo fascinado pelo próprio fim, governado pelos monstros (ou deuses) que ele mesmo engendrou.