Sentada
No ponto de ônibus
A vi sentada distraída
De cabeça baixa
Seus cabelos escorriam
Pelos seus ombros
Do ônibus onde eu estava
O mundo passava rápido
Mas ela fez o tempo parar
No ponto de ônibus
Sem que soubesse
Que de outro lado
Apreciada ela era
Com todos seus detalhes
Que na velocidade
Ficaram como rascunhos
Na minha memoria vaga
Nada mais além de rascunhos
Tenho agora pra salvar as memorias
Memorias dela que o tempo
Sem clemência ira censura-las.
Sentada ao meu lado, com aquele seu sorriso de canto.
A brisa bate contra seus cabelos, e traz a mim
O cheiro que desliga minha inocência.
Faz minha imaginação se perder em meio a você e seus detalhes
Que de tão únicos, apaixonantes são estes.
E por frações de segundos
Consigo pincelar a imagem de teus lábios aos meus
A leve sensação de seu beijo
Ser aquele que mais tem gosto até os dias de hoje.
E junto ao teu beijo, eu sinto a sua dose
Que logo então, de um vício misterioso
Me aniquilou.
Naqueles dias de aula no verão, passava por uma velha senhora sentada todos os dias na varanda, tão sola. Me perguntava se ali estava seus parentes pra conversar ou fazê-la rir. Aquilo não saia da minha cabeça, pois os dias passavam e sempre via ela no mesmo lugar. Até que um dia eu gritei ao seu portão: Oi vó, posso entrar, vim te trazer uma coisa. Ela respondeu com a cabeça e um gesto de positivo, eu então lhe entreguei uma flor. E antes de ver sua reação eu abracei ela. Depois daquele dia, nunca mais vi aquela velha senhora. Acho que eu libertei sua alma.
Hoje sentada no sofá,
tomando café com pão,
sem vontade de fazer nada, pensei...
Putz! Tá dando tudo muito certo.
Ops! Será que tem alguma coisa errada.
A importância do sem importância.
Esta semana eu estava no hospital e sentada comecei a observar o mundo.
Vi uma senhora que sentada numa sala olhava a TV, era estranho, ela apenas olhava, pude notar claramente que ela não assistia nada, pois sua mente estava num canto qualquer onde aquelas imagens da tela não podiam alcançar.
E comecei a perceber como muitas vezes somos assim na vida, como se estivéssemos diante de uma grande TV, as imagens passam, mas não conseguimos assisti-las, não conseguimos senti-las, o coração fica frio e a vida sem emoção.
Precisamos acordar mesmo quando pensamos que não estamos dormindo.
Mas de repente o som gritante de uma sirene a fez despertar daquele transe e os olhos se voltaram para aquele grande carro branco com a cruz vermelha.
Eu nunca gostei daquele som, sempre sinto um nó no estomago e uma vontade de chorar como se eu estivesse sofrendo com quem esta sofrendo lá dentro, creio que seja a angustia de saber que impotente e que o simples desejo de querer bem, não é a real capacidade de conseguir fazer o bem.
O som da sirene deu lugar então ao breve silêncio e desceu um motorista com uma cara de nada com coisa nenhuma, um ser que certamente não deveria ser chamado de humano, um humano que não tem a capacidade de ser, sentir... Pois abriu aquelas portas e desceu aquela maca como se estivesse abrindo um caminhão de frigorífico e retirando uma daquelas grandes partes de um boi morto.
Naquela maca eu consegui enxergar que havia uma senhora, com seus 90 e poucos anos, uma mulher que certamente é repleta de histórias e lições, alguém que com certeza teria muito que ensinar a aquele pobre motorista, uma mulher que um dia foi uma criança, que um dia correu ou brincou de boneca, uma moça que teve seus amores e desamores e que certamente na sua mocidade jamais imaginou um dia estar naquela maca.
Um contraste de vidas e sentimentos...
Para o motorista era apenas mais um dia de trabalho, mais uma vez que ele teria que fazer o esforço de descer uma maca da ambulância, era apenas um dia em que ele enfrentava o trânsito para ganhar o seu pão de cada dia, era apenas uma maca, apenas uma velha.
É estranho como muitas vezes não damos importância ao que realmente importa, muitas vezes somos pegos pelas palavras “É apenas”
É apenas um pão.
É apenas um cachorro.
É apenas um cigarro.
É apenas um sorriso.
É apenas um tiro.
É apenas um abraço.
É apenas mágica
É apenas um beijo
É apenas uma criança
É apenas um carinho
É apenas atenção
É apenas uma dor
É apenas uma tapa
É apenas lagrimas
É apenas amor
É apenas fé
É apenas uma oração.
É apenas uma velha
É apenas uma vida!
E a pouca importância vai se alastrando, vai tomando conta do coração e quando menos percebemos estamos como o motorista ou como à senhora que assistia TV.
Estamos apenas estamos.
Não sentimos.
Beijos
Rê Pinheiro
Parada de ônibus
Sentada na parada...
Não espero nada,
a não ser o tempo passar
e as lágrimas secarem.
O tráfego passa...
Será que não vê
que ele foge de você?
Apenas penso...
Matemática pura:
não há encontro
sem procura.
Ônibus, carros, tudo passa...
Mas não vejo mais nada.
Só o brilho dos seus olhos
e o seu sorriso.
A parada se enche e esvazia.
Uma multidão de estranhos.
Aos poucos, todos se vão —
mas eu, não.
A saudade chega,
de novo, com força,
atormentando o coração.
Agora tenho que ir...
O transporte se aproxima,
mas uma lágrima insiste.
Vou no próximo. Desisti.
Um sol gostoso beija meu rosto,
o vento brinca nos cabelos...
Mais um coletivo passa.
Finjo que não vejo.
A parada guarda meus segredos:
as horas passadas,
o rosto molhado,
o desespero contido.
Agora, sim, tenho que ir...
Me olho no espelho,
vejo se tudo está "ok",
se os olhos seguem vermelhos.
Alheia... procurando, esperando
o que o coração tanto anseia.
A parada é fria e solitária —
ou sou eu?
O ônibus chega.
Entro.
E vou.
Edineurai SaMarSi
Sentada no banco
da Avenida Rio Branco,
Descanso a agonia
e dialogo mentalmente
sobre a perplexidade
ante a covardia,
A beleza da bouganville
me faz companhia,
E logo recupero
a coragem e a alegria.
Sozinha, sozinha sentada,
Escrevendo um verso ao avesso
tentando não me preocupar
Se lembro ou se eu esqueço
É melhor esquecer, será?
Política,
não presta,
saúde nem mais nos resta
E agora o que fica é solidão.
Esperança saiu nas ruas
gritou, gritou
e gritou
estamos assustados,
aonde a gente parou...
Estou sentada à beira mar.
Sozinha, mais ninguém.
Balanço a cabeça:
Não, não quero as recordações!
Só quero estar aqui
A olhar pro horizonte
Perdido junto ao mar.
Mas elas insistem,
Não resito,
Me deixo levar pra junto delas.
Uma hora estou no poço,
Grito: Alguém me ajuda!
Poucas pessoas estendem as mãos,
Mas são estas poucas que acreditam quem realmente eu sou.
Outras horas estou na torre,
E mesmo que comigo nada tem em comum,
Não há espaço para mais ninguém.
Cansada de vagar,
Sento-me novamente à beira mar.
Daqui para onde fui,
É uma distãncia enorme,
Mas esta distância
Não traz o esquecimento:
Que eu sempre seguirei
Prisioneira das minhas próprias recordações.
