Se eu Fosse Algum Rei
Conhece o velho ditado que se conselho fosse bom não se dava, se vendia? Concordo com ele em gênero, número e grau. Sempre tive ojeriza àqueles conselhos que me pedem como primeira opção, assim como os que me dão sem que os tivesse pedido. Quando peço é porque já esgotei minha capacidade de solução e aí toda ajuda é bem-vinda. e quando me pedem, pergunto se fizeram a mesma coisa, e então digo que vou trocar o conselho por alguma experiência para que o interessado reflita se serve pra ele ou não, já que pessoas diferentes podem chegar a resultados diferentes. Proporcionar reflexão é menos arriscado do que qualquer solução pronta.
Se não fosse pelos pedaços que deixamos nos outros, seríamos tão cheio de nós, que não haveria espaço para mais nada.
Sócrates: E se fosse possível prender e matar o homem que tentou libertá-los e levá-los para cima, eles não o matariam?
Glauco: Certamente o fariam.
Efluir
Fosse tristeza só minha, choraria, mas é de meu corpo, das juntas a alma, mais que o sangue.
Fosse sangue só meu, morreria, mas é da vida, pobre vida, esvai-se em sangue, agora, também em lágrimas.
Nella città II - Meu véu
Todos dizem ter a verdade, como se fosse um objeto que se guarda no bolso, ou algo a ser fatiado, repartido em porções individuais: este pedaço é meu, aquele é seu. Mas a verdade... a verdade não se deixa possuir. Ela apenas é. Está lá — livre e inteira — mesmo quando ninguém a vê.
Eu a sinto, às vezes, num instante que passa, incapturável pela compreensão. Ela não se deixa ressignificar. Não cabe em palavras, não se curva à vontade alheia. É. Como a luz que atravessa uma janela, mesmo quando o vidro está empoeirado. O que vejo... é sempre manchado pelo que sou.
Mas o erro — o erro é pensar que a verdade é minha só porque a vi. Não é. Ela não é minha, não é tua, não é de ninguém. É só dela. Minha é a percepção. E percebo com mãos trêmulas, com olhos que mentem, com o silêncio do que ainda não entendi.
Liberdade é Desobediência
Vivemos sob a ilusão da liberdade, como se o livre-arbítrio fosse um dom absoluto e não uma condição imposta pela percepção. O mundo se constrói sobre dicotomias: real e percepção, relativo e absoluto; mas nós, em nossa finitude, ainda não aprendemos a lidar com isso.
A verdade, tal como é, é que não somos livres. Nunca fomos. Deus não nos fez para a liberdade, mas para o pertencimento, a obediência e a servidão. A liberdade, se fosse real, seria plena; e, sendo plena, não poderia coexistir com leis, normas ou limites. Onde há regra, não há liberdade; onde há ordem, há sujeição.
A própria escritura nos inicia nesta consciência com a simplicidade terrível de Gênesis 2:
"E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás."
Aqui se revela o primeiro paradoxo: a permissão ampla precedida de uma interdição absoluta. E, novamente, não há liberdade onde há interdição. O verbo “ordenou” ecoa como revelação da condição humana. O homem é posto no Éden para lavrar e guardar, não para escolher o que é ou para não ser. Sua função é ação sob comando, e não criação de destino.
O engano nasce com a serpente, mas floresce na consciência humana...
" [...] se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal."
Até então, vivíamos numa percepção de liberdade, pois não havia transgressão. Não éramos livres, mas tampouco sabíamos que não éramos. Com a queda, descobrimos a medida da nossa servidão. O bem e o mal, antes indistintos, tornam-se fronteiras visíveis, e com elas nascem o medo, o pudor, a culpa e o peso da escolha.
Não se trata de uma questão de estado de ser, mas sim de percepção. Só quem se percebe servo pode ser tentado a ser livre. Quem acredita ser livre passou da percepção ao estado de consciência inerte, desapropriada da realidade, e também da percepção.
Para Deus, talvez, bem e mal sejam a mesma coisa — expressão de Sua vontade e de Sua justiça. Mas, para nós, homens, feitos carne a partir da poeira, são abismos distintos, assim como percepção e realidade. Não sabemos lidar com isso, porque fomos feitos para obedecer, e não para compreender o abismo.
Viva cada momento da vida como se fosse único e especial.
Procure a felicidade nas coisas simples da vida e terá surpresas, boas e inesperadas...
Poema- O avião das 09h:
O avião das nove riscou o céu do sertão,
como se fosse um sonho escrito em luz.
De cá, fiquei só de pé, no chão
olhando o sol nascer por trás da cruz.
Leva no ventre um punhado de gente,
cada um com seu rumo, sua fé, seu talvez.
Uns fogem da fome, outros da mente,
outros só buscam o que nunca se fez.
Nunca entrei num avião confesso.
O vento me basta, a terra me entende.
Já viajei sem mapa e sem endereço,
pelos caminhos que o tempo acende.
São Paulo, dizem, é cidade que engole,
de tanto brilho e tanta pressa.
Mas o sertão, mesmo quando dói, consola
é dor bonita, é luta e promessa.
O avião das nove leva esperança,
leva o amor de um povo inteiro.
Lá vai o sonho, lá vai a mudança,
lá vai o futuro num céu estrangeiro.
A mulher na janela enxuga o rosto,
com o mesmo pano que cobre o pão.
E pensa será que ele chega disposto?
Ou volta cansado da ilusão?
O menino corre e aponta o dedo
Olha, mãe, o passarão de ferro!
E o pai responde, num tom de segredo
Quem sabe um dia, filho, eu espero.
O chão é quente, o tempo é lento,
mas o coração arde, pulsa, insiste.
Cada rosto do sertão é um monumento
de quem vive e ainda resiste.
E lá de cima, quem voa não vê,
que o mundo é maior do que o mapa mostra.
O sertão cabe em qualquer nascer,
em qualquer alma que seja nossa.
São Paulo é pedra, fumaça e ponte,
mas também tem gente que sonha e sente.
Enquanto aqui, o sol no horizonte
ensina o homem a ser semente.
O avião das nove virou lembrança,
um risco branco no céu vazio.
Mas dentro de mim ficou a esperança,
como um lampejo, suave e frio.
E eu penso, calado, olhando o ar
um dia, talvez, eu vá também.
Mas se um verso puder me levar,
então eu já voei e fui além.
