Renato Russo Poemas sobre a Vida
Poesia Parceiro de Laço
Hoje, quando saltar do brete
A novilha em disparada,
Meu moro esbarra no pasto,
Da cancha já encharca.
Meu laço fica nas ancas,
No mais de exposição,
Mostrando que o 12 braça
Hoje não solta da mão.
Por anos de parceria
Nesses rodeios afamados,
Se foi meu velho parceiro
Se bandio pro outro lado,
Botando corda, por certo,
Tapiando bem o chapéu.
Agora bota armada
Na querência grande do céu.
Que dupla que nós formava
No berro do narrador!
No mais se pedia porta
E aguardava o corredor.
Depois era facerisse
Naqueles acampamentos:
A gaita, o violão,
Assado de fundamento,
E a canha nunca faltava,
Parceira do chimarrão.
As prosas de campereada
E cosas de coração…
Que jeito vou botar corda,
Que jeito vou ao rodeio,
Se tu me deixou solito?
De todos, melhor parceiro,
É coisa triste de ver
Teu baio pedindo cancha,
Solito ali no potreiro,
Donde tua alma descansa.
E o laço dependurado,
Já seco, faltando gracha.
Um tirador, umas botas,
Jogado com as bombachas.
Sempre que venho te ver
Nesse teu velho galpão,
Fico bombendo os retratos:
Quantos troféus na tua mão!
De todos esses rodeios
Que andamos por esse estado,
E me pergunto a esmo:
Quem foi esse teu jurado
Que te negou a armada
Se a cancha tu não queimou?
Eu vi, estava do lado!
Quantos bois tu laçou…
Será que lá nas alturas
Alguém, solito ao léu,
Te quis pra formar dupla
Lá no rodeio do céu?
Mas hoje não tem mais laço,
Rodeio, gaita, violeiro.
Só laço quando morrer
E te encontrar, meu parceiro.
Renato Jaguarão.
Se gosto do meu cavalo
Se gosto do meu cavalo,
Que jeito não vou gostar
Se é meu melhor parceiro,
Me leva pra todo lugar.
Se me acorda no rancho
Cedinho, já relinchando,
Não só o boi que pede,
Quer me ver cedo matiando.
Se às vezes, na amargura
Dos dias de temporal,
Eu falo solito com ele,
Esqueço que é um animal.
Ele me escuta em silêncio,
Com aquele olhar inocente,
Que, às vezes — não me leve a mal —
Vale mais do que muita gente.
Por vezes se achega pra perto,
Parecendo me provocar,
Pedindo pra ir no bolicho,
Sabendo que vou me alegrar.
Se gosto do meu cavalo,
Que jeito não vou gostar
Quando saio, deixo ele,
Já tô louco pra voltar.
E quando, no trago, me perco
Por coisas do coração,
Ele conhece o caminho
E me traz de volta ao galpão.
E ali me jogo no catre,
E o catre é a solidão.
E quando acordo,
Só ele entende minha razão.
Não tem maior alegria,
Prêmio ou consolação,
Que ter um cavalo bueno,
Manso e bom de função.
Às vezes, pensando, pergunto
A Deus, que não tem defeito,
Donde buscou o milagre
Pra fazer algo tão perfeito.
Se gosto do meu cavalo,
Que jeito não vou gostar
Quem tem cavalo entende:
Não tem como não gostar.
E, por fim, se sou gaúcho,
Tendo a pampa de regalo,
É porque, peleando ao meu lado,
Sempre teve um cavalo.
Se gosto do meu cavalo,
Que jeito não vou gostar
Renato Jaguarão.
Meu Cavalo
Tenho um cavalo
Que não conheço igual
Melhor que o meu bagual
Não hay ou não conheço
Já tive oferta
Duns quanto pila na mão
Todos sabem no rincão
Que meu pingo não tem preço
Foi um regalo
Do Vainer Gomes Silveira
Que trouxe lá da fronteira
E depois me presenteou
Já desde potro
Se criou pela mangueira
Depois botei nas cocheira
E de baixo se amansou
Quando eu puxei
Não fiz muita judiria
Bocal deixei poucos dias
E no freio se domou
Se eu me achego
Pilchado e bem perfumado
Já sabe, vamo ao polvoado
Pra alguma festa campeira
Se me emborracho
Comigo ele tem paciência
Me trás de volta a querência
Só para vendo a porteira
Por isso eu digo
E falo a bem da verdade
Não conheço amizade
Maior que desse meu pingo
Ele eu não vendo
Não empresto e não regalo
Pra muito mais que um cavalo
É o meu melhor amigo.
Por isso eu digo
E falo a bem da verdade
Não conheço amizade
Maior que desse meu pingo
Ele eu não vendo
Não empresto e não regalo
Pra muito mais que um cavalo
É o meu melhor amigo.
Renato Jaguarão.
Velha Figueira.
Velha figueira na beira das casas
Já virou brasa em algum fogo de chão.
Lembro do rancho, agora tapera,
Nesta primavera de eterna ilusão.
Se foram os potros da antiga mangueira,
Pela porteira o tempo passou.
Eu me vi guri, enfurquilhado no potro,
Fazia gosto, e meu pai me ensinou.
Ali ainda resta um oitão caído
E o chão demarcado onde era o galpão.
Já apodrecido, um palanque inclinado,
Que no passado aguentava o tirão.
Até o meu cusco eu vejo correndo,
Me acompanhando na lida campeira,
Tocando o gado, grudando o garrote,
Seguindo meu trote rumo à fronteira.
Voltar à querência, depois desse tempo,
É como o vento que um dia passou,
Levando meu mundo do campo à cidade,
Onde a saudade se aquerenciou.
Só restam agora as minhas lembranças
Da velha estância onde me criei:
O meu velho rancho, cochilha e mangueira,
E a velha porteira que um dia deixei.
Renato Jaguarão.
A lo largo.
Mirando o campo ao largo,
Mateia o rude peão.
Cada puxada do amargo,
Campeando com a solidão.
O tirador pendurado,
Mango, pelongo, xergão,
Freio, buçal e cabresto,
E o velho fogo de chão.
Nesses fins de invernada,
Onde até Deus esqueceu,
Mangueira, potro, a cuscada,
E a vida que lhe escolheu.
Pra esses tombos da lida
De tropa, doma, caseiro,
Peão, destino e ofício
Pra quem nasceu campeiro.
Mirou o tempo passado,
Mocidade se perdeu.
Ficou cuidando cavalos,
Campos que não eram seus.
Nesses lados de fronteira...
Versos, payada, acalantos,
Céu, estrelas e a lua,
Amadrinham pirilampos.
Donde o gaúcho mesmeia
Sonhos no seu velho catre,
Potros e quadras de campo
A cada virada de mate.
Quem nasceu ao largo,
Tal existência paisano,
Sem sobrenome, legenda,
Potro se fez orelhano.
E a descendência se finda,
Nem fez questão de passar.
Essa pobreza reinuna,
Nem freio faz sujeitar.
E assim, no mais solito,
Segue a taura vivência,
Por vezes qual um monarca
Que nasceu sem procedência.
Tendo a pampa por morada
E as cochilhas por sossego,
As encilhas como trono,
Enfurquilhado em pelego.
Nesses lados de fronteira...
Versos, payada, acalantos,
Céu, estrelas e a lua,
Amadrinham pirilampos.
Donde o gaúcho mesmeia
Sonhos no seu velho catre,
Potros e quadras de campo
A cada virada de mate.
Renato Jaguarão.
Mãe Gaúcha
Em cada rancho do pago
Um belo amor floresceu:
Mulher guerreira, gaúcha,
Presente que Deus nos deu.
Sempre com mate cevado
E o carinho no olhar,
Depois dos filhos criados
A saudade lhe faz chorar.
Nos braços do seu carinho
Ela ensina com saber,
Mostrando rumo e caminho
Pro filho não se perder.
Minha mãe querida,
Onde estiver,
A bênção de Deus,
Gaúcha mulher!
Que criou seus filhos
No rancho, no galpão,
Te levo pra sempre
Em meu coração.
De poncho, alma erguida,
Feita de campo e ternura,
Mãe gaúcha é luz da vida,
Bondade e formosura.
Não tem nada no mundo
Maior que seu valor:
Um abraço de mãe
É verdadeiro amor.
E quando ela nos deixa
A vida perde a razão,
Mas seu mate nunca esfria
Em nosso coração.
Minha mãe querida,
Onde estiver,
A bênção de Deus,
Gaúcha mulher!
Que criou seus filhos
No rancho, no galpão,
Te guardo, minha mãe,
Dentro do coração.
Renato Jaguarão.
No princípio.
A pampa era pasto, no mas,
Rio, coxilha e mato,
Sanga e quaraguatás.
Livres viviam por anos
Charruas e Minuanos,
Naqueles meados atrás.
Jês (Kaingang), tribos de mesmo sangue,
Pampiano — Charrua e Minuano —
Que um dia seriam paisano.
Guarani — Tapes, Arachanes, Carijós —,
De pedra, poeira e pó.
Depois vieram as Missões,
Jesuítas e suas canções
Num dialeto desigual.
Mas havia Portugal
Naquela peleja sem fim.
E chegaram no Mirim
Pra tomar parte do pago:
O coro, o mate amargo
Do gaúcho provinciano,
Do índio com castelhano,
Português também mesclou.
E o cavalo logo chegou,
Andaluz e Berbere,
O pala pro intempere,
A bota, garrão de potro,
Geada do mês de agosto.
O velho fogo de chão,
Nascia mangueira, galpão,
Velho templo sagrado.
O rancho ainda barreado,
De palha e chão batido,
De taquara repartido.
O gado, a plantação,
Depois, a Revolução,
O grito de liberdade,
Alguns buscando igualdade,
O fim da escravidão.
Pegaram armas na mão,
Lança, espada, garrucha,
E a bandeira gaúcha
Que chamavam pavilhão.
E assim se fez a história
De um povo forte e valente,
Da América continente.
Cultura, raça e coragem,
Que moldaram sua imagem:
Homem rude, campeiro,
Fronteiriço, missioneiro,
Pampeano por procedência,
Que carrega na essência
Um DNA que é só seu.
E assim o Rio Grande nasceu,
Moldando sua estampa
Em qualquer parte que acampa.
Esse quadro em debuxo:
Do cavalo e do gaúcho,
Eterno dono da pampa.
Renato Jaguarão.
Domador do Cerro Chato.
Pode largar o aporreado
Mais sestrozo da tropilha
Tô loco pra tirar cosca
Me vou de pronto as virilha
Que ronque, castique o cabresto
Palanque aguenta o retosso
Me vou de tento pro lombo
Mango se vai ao pescoço
Despensa o amadrinhador
Me vou solito pro céu
Pra ver o mundo rodando
Por cima do meu chapéu
Saca a venda dos olho
Deixa o diabo enchergar
Enfurquilhado um gaúcho
Que já nasceu pra domar
Assim se foi o maleva
Levando o vento por diante
O lombo inchado é bufando
Deixou pra trás o palanque
Grudei espora em puaço
Fiz o potro se ajoelha
Dei uma volta nas clina
Pros dedo se ageita
Grunindo se foi ao espaço
Lá maula, senti o calor
E foi aquele gritedo
Nos verso do narrador
Vi o chão embaralhado
O céu virado do avesso
Numa troca de pescoço
Se foi lá cria meu lenço
Por fim suou a campana
Soltei a perna ao costado
Sai a passo tranquilo
O potro se foi ao alembrado
Juntei meu lenço e voltei
Só pra escuta o alaredo
E a peonada de pé
Metendo aquele gritedo
Mirei a prenda mimosa
E dei pra ela meu lenço
Tirei o chapéu saudando
Aquele acontecimento
Depois voltei pro meu rancho
E a fama de bom domador
Levei a china comigo
Como regalo de amor...
Renato Jaguarão.
"O segredo da cura jaz
guardado num infinito
o qual os homens de cá
e a medicina desconhecem"
[...]
Pés que tocam o nada,
braços que viram asas,
travessia para o sonho,
mente sã em libertação
Terapia rebuscada,
no paraíso revelada,
é uma ponte gerada
no curso da indagação
É o poder da criação
que ganha o seu espaço
no milênio da revelação
É a cura pelas águas,
pelotão de grandes águias
ressurgindo da separação
[...]
Joio e trigo: dois mundos
separados por um portal,
que é aberto pela verdade
contida no templo imortal
A esperança é tão pequena
quando o orgulho aparece,
o olhar se ofusca e a prece
perde a força e sai de cena
[...]
No interior da caverna neuronal,
memórias caudalosas se agitam,
fluidificadas do porquê do existir,
nutridas pelo sublime dom amor
No estado zero da intolerância,
onde a mente é pura essência,
alcança-se o ápice da sapiência,
momento para curar toda dor
Uma aurora é contemplada
no topo de uma montanha;
vale a pena viver a façanha
de reencontrar a plena luz
Lá de longe se ouve a Voz,
belo discurso do Supremo
o qual, onipresentemente,
habita em cada um de nós
Acesso de uma memória construída
Como descrever aquele momento? Estava calor, você foi se refrescar com uma mangueira de água encostada sobre a grama baixa, e eu, ali de longe vendo você, resolvi também me juntar!
Como a cena de um filme, você pegou a mangueira, abriu a agua de uma forma que ficasse pulverizada e começou a brincar, me molhando como se fossem duas crianças se divertindo sem preocupações. Nesse momento a água atingiu minha face, fazendo com que eu ficasse com os olhos fechados. Senti o momento, o riso, a brincadeira, a alegria e a refrescância.
Abro meus olhos lentamente, em meio pingos orvalhados, escuto seu doce sorriso, e, por fim, te vejo em minha frente. Sua alegria me toma e irradia, seu olhar me observando enquanto discretamente afrouxo meu sorriso junto ao teu.
Assim está feito e memorizado, um pequeno e rápido momento, que em minha mente pode perdurar por quanto tempo for mágico.
"Delicadas mãos libertas
das algemas doutras opiniões"
Toque sensitivo,
fazendo esvoaçar
cabelos em multidões;
a uns, perceptível,
mas quase sempre
turvado em distrações
Nas muitas agitações
metafísicas incoerentes,
mergulhadas noutro plano,
onde somos indigentes,
vê-se gente enfileirada
esperando o alvorecer;
vê-se até o que não se vê
quando o sono perecer
Nesta ida magistral,
resplandecente e austral,
com os porquês resolutos,
a inércia corpórea
mistura-se ao libertar
e a alma passa a delirar
seguindo novos rumos
Eu tatuei a sua imagem na minha memória. Para que eu jamais a esqueça.
E gravei, um milhão de vezes, o seu nome aqui dentro.
Te entregaria minha alma, se assim, me pedisse. Eu já era todo seu mesmo.
Será que o nosso tempo veio e se foi antes que pudéssemos perceber?
Eu te amei antes de te encontrar. Antes de sentir o gosto do seu beijo, o teu cheiro... antes de sentir o toque da sua pele.
Eu te amei por dentro. Amei seu jeito. Amei a sua essência. Amei cada palavra sua. Amei seu coração.
Eu escolhi sentir saudade antes mesmo de você ser minha. E hoje ela será minha única companhia.
Não sei bem em que parte do caminho, até você, que me perdi de mim mesmo.
Eu só sei que parece não ter mais volta. Você é minha única direção.
Me espera! Estou indo.
Mesmo que todos duvidem , mesmo que todos sejam contra , mesmo que seja difícil eu quero tentar ..
Eu quero tentar ser feliz com você ..
Eu quero sorrir com você , eu quero sonhar com você e se um dia não der certo eu quero deitar em minha cama e saber que tudo o que estava ao meu alcance eu fiz .. Mas até esse dia chegar vamos ser felizes , vamos amar como se não tivesse amanhã !!
Não deixe as emoções fazerem de você uma pessoa diferente, seja você mesmo.
Você é inteligente. Um bom lutador recebe o troféu ainda no ringue.
Não saia do ringue, você precisa estar no lugar certo na hora certa, onde o juiz
Consegue chamar sua atenção, mesmo sendo pelo apito ou por um simples gesto
Vou calçar minhas alpargatas e voltar pra fronteira,
vestir minhas bombachas, que há tempos estão guardadas,
ajeitar minha boina, de lã crua encarnada.
Quando chegar na minha terra, vou beijar o solo sagrado —
por fim, ser feliz de novo, como era no passado.
O pensamento é um visitante que costuma trazer encomendas!
A lembrança é a visitante que gosta que falar de antigamente!
A saudade é aquele visitante que trás um violão e nos faz chorar;
Quanto ao amor... Bom, o amor mora, ele não faz visitas!
UMA ÚNICA VEZ
Somente uma vez a alma será tocada pela divina faísca,
Um amor que te fará incandescer, sem deixar vestígios frios.
Ele percorrerá a essência de teus poros,
Em chamas vivas e sem regresso
A enchente deste amor te arrebatará numa única vez,
E serás tão profundamente inundado
Que o próprio oceano de sua essência emanará
De cada uma das tuas minúsculas células.
Uma só vez, e toda a tua cúpula de estabilidade,
Autocontrole e firmeza inabalável se tornará areia fina.
Teus conceitos mais sólidos serão pulverizados e se espalharão pelo ar,
Rendidos ao vendaval desse amor.
Uma vez, te descobrirás na solidão salgada de um mar sem cais,
Onde a profundeza te rouba o chão e a vista não alcança mais.
Serás o fragmento de um barco, entregue aos braços das correntes imortais
Desta paixão que te arrasta, doce naufrágio,
Rumo a portos desconhecidos e desiguais.
Uma só vez, instante único, eterno e fugaz;
O dom de agora, que jamais se refará.
Não há segunda aurora, nem outro abraço igual;
É este o tempo que não cede, não esfria, não tem final.
Anjos boquiabertos!
Querubins arrepiaram as asas!
Serafins levantaram as asas e arregalaram os olhos!
Tem um Homem assentado no trono!!!
