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Renascer Carlos Drummon de Andrade

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O OUTRO

Como decifrar pictogramas de há dez mil anos
se nem sei decifrar
minha escrita interior?

Interrogo signos dúbios
e suas variações calidoscópicas
a cada segundo de observação.

A verdade essencial
é o desconhecido que me habita
e a cada amanhecer me dá um soco.

Por ele sou também observado
com ironia, desprezo, incompreensão.
E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos, impossibilitados de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal curiosidade.

E agora José?

O dia dos Namorados
para mim é todo dia.
Não tenho dias marcados
para te amar noite e dia.

O dia 12 de junho,
como qualquer outro, diz
(e disso dou testemunho)
que contigo sou feliz.

⁠Na ordem natural das coisas,
são os pais que acordam os filhos..

⁠Aquele que pratica, ou aquele que combate, são portadores do mesmo traço.

⁠Viveu demais..
Viveu a mesma cena duas vezes!

⁠Que seja a tua dor, apenas uma dor que dói.

Aquele que engole Sapos,
Quase sempre pensa Dragões!⁠

⁠Tenho vários livros dentro de mim,
mas não consigo escrever, uma linha!

⁠Aquele que vai pra Guerra ou pra "Disney", não volta!

⁠Primeiramente faça silêncio.
Depois, faça tudo em silêncio!

⁠Amizade verdadeira, tem sovaco molhado no ombro!

⁠Não saberia dizer qual o meu maior sonho.
Mas você foi o mais próximo que cheguei desse sonho!

⁠Algum dia assim como Chico, também desejo sair à francesa e bem no meio de festa.
Me agrada ainda a ideia de morar no Céu, mas viver no inferno como fazem os anjos.

⁠Um dia você se dá conta de que não está cercado de inimigos mas, de espelhos!

⁠Há momentos que vejo meu Anjo, naquilo que vem de você.
Num gesto, numa fala, ou até mesmo num breve olhar.

Pare antes do saciar ou, odiará um reencontro⁠.

⁠Você pode sim, ter uma opinião sobre mim.
Só não me fale, a menos que eu peça.

⁠vontade e motivos eu tenho.
Mas, não posso sair por aí
fechando portas.

O ano passado

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Carlos Drummond de Andrade
Poesia Completa, Rio de Janeiro: Nova. Aguilar, 2002.