Relógio Parado
Sabe aqueles momentos em que eu te abraço e fico ali, parado, só sentindo sua presença? É o meu jeito de dizer que sei o tesouro que tenho nas mãos. É um presente que eu nunca vou cansar de agradecer. Olhando para trás, vejo que meus maiores medos sumiram, porque agora eu sei que não preciso encarar mais nada sozinho.
Você me dá equilíbrio quando eu sinto que o mundo está um caos. E, por isso, eu quero que você saiba — não apenas com palavras, mas com cada atitude minha — que o meu lugar é ao seu lado.
Até que o oceano deixe de tocar a areia, e muito depois disso... eu serei sempre o seu homem.
Lembro-me de cada detalhe, como se o tempo tivesse parado no instante em que nossos olhos se cruzaram pela primeira vez. Foi, sem dúvida, amor à primeira vista. Naquele momento, o mundo ao redor emudeceu para que eu pudesse apreciar o seu sorriso magnífico, que iluminou tudo o que eu conhecia.
Sua voz encantadora soou como uma melodia que eu não sabia que precisava ouvir, mas que meu coração reconheceu instantaneamente. E o nosso primeiro beijo... aquele toque foi o selo de uma conexão que já parecia escrita. Cada gesto seu, o perfume que ficou gravado em minha memória e a forma como o destino nos uniu naquela data, transformaram um simples encontro na recordação mais bonita da minha vida. Você não foi apenas uma pessoa que passou; você foi o início de tudo o que eu sempre sonhei.
Todos os dias você constrói histórias. Mesmo quando acha que está parado. Mesmo quando acredita que nada relevante está acontecendo. Cada gesto, cada omissão, cada escolha repetida vira um traço daquilo que você chama de vida. Você deixa marcas. Algumas profundas, outras quase invisíveis. Você chama isso de legado, como se fosse algo grandioso, sólido, permanente. Mas vale perguntar com honestidade. Legado para quem?
Queria ter parado no tempo, mas entendo que a mudança foi necessária e que, independente do meu amanhã, o meu coração se alegra por apenas ter vivido coisas lindas em tempos passados.
A natureza segue seu curso, o tempo passa, e o sujeito continua ali, parado na própria estupidez, achando que está abafando.
Eu ficaria parado por horas a fio, imerso na contemplação de cada traço teu, se a lucidez não me trouxesse o receio de parecer insano ante a tamanho sentimento por você. É um fascínio que me paralisa, uma hipnose consentida.
Vejo em ti uma deusa despida de vaidades terrenas.
Teus cabelos esmerados moldam um semblante onde a própria arte encontra o seu limite. Não se trata apenas da harmonia do teu rosto, mas da luz terna e quase melancólica que emana de ti. És a materialização da calmaria, o refúgio onde uma alma exausta como a minha ansiaria repousar.
E, no entanto, a cruel geografia ri do meu desespero.
Quilômetros e horizontes se estendem como um abismo infinito entre o bater do meu peito e a suavidade da tua pele. A matéria me aprisiona neste canto do mundo, enquanto o meu pensamento, rebelde e desesperado, já habita o teu espaço. É a mais sublime das torturas: ter o universo inteiro diante dos meus olhos através de uma imagem, e ao mesmo tempo ter as mãos atadas pela tirania da distância.
Nessa agonia do inalcançável, porém, encontro a minha mais pura certeza.
Minha essência, antes peregrina, cega e trôpega, reconhece na tua imagem o fim da sua busca. Não anseio mais pela abstração do ideal, pois o meu sentido encontrou pouso na tua existência.
Sinto, com a força de um paradoxo indomável, que és o encerramento da minha jornada. A mulher que desenhei nos meus delírios mais lúcidos, aquela a quem eu entregaria não apenas o meu amor, mas a eternidade dos meus dias. Estás tão fisicamente longe, mas, de alguma forma inexplicável, nunca alguém esteve tão perto de ser o tudo que me falta.
O CORPO DO CORVO
Morto ser porquê foste diante meu ser...
Parado num túmulo de contradições sois a replubica que reluzente nas asas da democracia.
Larvas surgem em seu corpo tão igual euforismo político funcional...
Geopolítica a estatua corroida pelas correntes de retóricas golpista.
O que sois no cranio ja vivo incompatível desejo de ser como as chamas que deformam com tempo.
As vestis sao mortalhas fúnebres
Pois a ignorância faz o monstro da corrupção.
Imperfeições
Sem destino ou hora pra chegar,
Me encontro parado no mesmo lugar,
Esperando algum dia você voltar
E o nosso destino se encontrar.
Entre tempos escuros e temporais,
Olho para dentro de mim e pergunto o que restou.
E, às vezes, quando olho para trás,
Sinto falta da melhor versão que sou.
Aprendemos juntos sobre o amar,
Mas entre nós, tantas palavras se perdiam,
E os momentos de silêncio diziam o que não conseguíamos falar.
E hoje passo todos os dias contando as horas
Para, quem sabe, recomeçar mais uma vez.
Deixar o passado do lado de fora
E aceitar que somos feitos também de imperfeições...
O amor sempre foi uma escolha,
E todos os dias eu escolhi amar você.
Depois de passar cerca de três meses parado, gastando muito e sem ganhar nada, surgiu uma oportunidade de voltar a trabalhar na área energética.
Tudo começou numa conversa com um amigo que trabalhava em uma empresa de equipamentos de segurança. Como seus clientes eram empresas do setor elétrico, ele comentou sobre uma fábrica em São Bernardo do Campo que produzia escadas para concessionárias de energia e tinha a intenção de entrar no mercado de linha viva, justamente a minha especialidade.
Ainda decepcionado com a experiência da empresa anterior, ouvi a proposta com certa desconfiança. Porém, como precisava urgentemente voltar ao mercado de trabalho, resolvi conhecer a empresa e conversar com seu proprietário.
O dono era o Sr. João, um homem de aproximadamente sessenta anos, cheio de ideias e entusiasmo, embora com poucos recursos financeiros para investir. Os equipamentos utilizados na fabricação de ferramentas para linha viva eram caríssimos e, pior, não eram produzidos no Brasil.
Passamos algumas horas conversando. Ele me mostrou a fábrica de escadas para o setor energético e, ao lado dela, um enorme galpão onde eram fabricadas escadas domésticas, bancos-escada e tábuas de passar roupa, produtos destinados ao mercado residencial.
Como eu já estava há algum tempo sem trabalhar, acertamos uma experiência voltada aos setores elétrico e telefônico. O salário era bem inferior ao que eu recebia na empresa anterior, mas minha situação não permitia muitas exigências.
Comecei realizando um trabalho de divulgação das escadas junto às companhias elétricas. Como eu já conhecia muitos clientes daquele segmento, o desenvolvimento do trabalho foi relativamente fácil. Em seguida, passei a atuar também no setor telefônico.
Atendendo a solicitações das concessionárias de energia, desenvolvemos algumas escadas especiais montadas sobre veículos. Com esses equipamentos voltei a viajar, embora em uma frequência muito menor do que nos tempos anteriores.
Com o passar do tempo, após a saída do gerente da área doméstica, acabei assumindo a parte comercial das duas fábricas.
Foi nessa época que vivi um episódio que jamais esqueci.
Certo dia, eu conversava em minha sala com minha esposa sobre a situação da minha sogra. Ela estava muito doente e internada em um hospital de Osasco. Seu estado de saúde se agravava a cada dia, e o atendimento que recebia nos preocupava muito.
O Sr. João entrou na sala e ouviu parte da conversa. Ao entender o que estava acontecendo, pegou o telefone e ligou para um amigo que era diretor do Hospital de São Caetano.
— Qual é o nome da sua sogra? Em qual hospital ela está internada?
Passei as informações.
Ele falou com o amigo, explicou a situação e, ao desligar, disse apenas:
— Vamos tirar ela de lá.
E foi exatamente o que aconteceu.
Minha sogra foi transferida para o Hospital de São Caetano, onde permaneceu internada por cerca de trinta dias. Recebeu um atendimento excelente e saiu de lá recuperada.
Naturalmente, minha preocupação seguinte foi com os custos.
— E a conta, Sr. João? Como vamos pagar?
Ele respondeu com a maior tranquilidade:
— Não se preocupe. Quando ela chegar, a gente dá um jeito.
Algum tempo depois a conta chegou. Eu nunca soube o valor. O Sr. João não deixou que eu a visse.
Mais tarde fiquei sabendo que ele ligou para o diretor do hospital e fez um acordo. Em seguida, carregou um caminhão com uma grande quantidade de tábuas de passar roupa, bancos-escada, escadas metálicas e escadas de alumínio, enviando tudo para o bazar beneficente do hospital.
O assunto morreu ali. Ele nunca mais comentou sobre isso.
Os anos seguiram seu curso. Continuávamos trabalhando e, de vez em quando, viajávamos juntos para visitar clientes, principalmente no Rio Grande do Sul, estado pelo qual ele tinha uma admiração especial. Adorava ir a Caxias do Sul.
Até que um dia a telefonista transferiu uma ligação para minha sala.
Do outro lado da linha estava o diretor de uma empreiteira que prestava serviços para a CESP — Centrais Elétricas de São Paulo. Chamava-se Dr. Rubens.
Ele disse que precisava tratar de um assunto confidencial e perguntou se eu poderia encontrá-lo no dia seguinte.
Conversei com o Sr. João e expliquei que uma empresa havia me procurado, mas que eu não fazia ideia do motivo.
Na manhã seguinte fui ao endereço combinado.
Ao chegar à portaria da empreiteira, me identifiquei e pedi para falar com o Dr. Rubens.
O porteiro respondeu:
— Aqui não tem nenhum Dr. Rubens.
Estranhei.
— Claro que tem. Ele marcou uma reunião comigo.
Nesse momento o telefone interno tocou. Após atender, o porteiro mudou imediatamente de atitude.
— Desculpe, eu me enganei. Ele vai recebê-lo.
A conversa foi cordial, mas algo me chamou a atenção. De cada dez palavras que o Dr. Rubens dizia, oito eram sobre a Munck.
A Munck era, naquela época, a maior fabricante de guindastes da América do Sul. Tinha sua principal fábrica em São Paulo, filiais no México e na Argentina, distribuidores espalhados por toda a América do Sul e uma operação em Londres que atendia o Oriente Médio.
Era uma gigante do setor.
Ao final da reunião ficou evidente para mim que alguém queria me contratar, mas não era aquela empreiteira.
Apesar da insistência, deixei claro que não tinha interesse imediato na proposta. Mesmo assim, prometi pensar e dar uma resposta no dia seguinte.
Saí dali e segui para o trabalho.
Durante o caminho, uma conclusão se formou naturalmente na minha cabeça: quem realmente estava tentando me contratar era a Munck.
Assim que cheguei à empresa, peguei o telefone e liguei diretamente para a fábrica da Munck.
— Gostaria de falar com o Dr. Rubens.
A telefonista perguntou quem estava ligando. Eu me identifiquei.
Poucos segundos depois ele atendeu.
Não fez apresentações nem rodeios.
Perguntou apenas:
— Quando você pode vir conversar aqui na Munck?
Foi naquele momento que percebi que minha vida estava prestes a mudar mais uma vez.
E mudou.
As cinzas transformaram
de maneira pressentida
o céu no lago parado da morte,
não sei mais a diferença
quando faz Sol ou chove.
Os meus sentidos andam
endurecidos e me pego
a cada dia gostando
menos de tudo o quê
estou testemunhando.
Perdi as contas de quantas
vezes mastiguei e engoli
a minha própria língua
por tomar noção que
muita coisa virou cinza.
Ler as notícias e insistir
em olhar para o céu
continua sendo um engano,
o Apocalipse está
dominando os pulmões.
Só sei que choro por dentro
e os pássaros cantam
de desespero antes
mesmo do Sol raiar
e não sei mais e como falar.
