Em um canto sem luz, ele parado a olhava... Rodrigo Horta

Em um canto sem luz, ele parado a olhava e via o semblante de loucura que existia ali. Ela que outrora era controladora, o vendo parado sem conseguir ver seus olhos mais uma vez, sentia que a fera que existia dentro de si, hoje era dominada. A angústia dos sentimentos se perdia em um turbilhão de detalhes que estavam ali, naquele momento frente-a-frente. Um olhar escuro começava a dar lugar a luz clara que o irradiava por causa daqueles caprichos que ele tanto amava. Ao olhar sua musa ali, aos seus pés implorando seu perdão, ele sentia que nada mudaria tal situação e que aquela fraqueza, não cabia no ego que ele antes idolatrava. Ela por sua vez, não acreditava que seu amado, que a conquistara com tanto ardor, naquele momento começava a lhe igualar aos outros seres. Não para ela que tanto havia sido cortejada e desejada e que não entendia a volta daqueles sentimentos que a haviam atormentada por outros em outros momentos vividos. Ele se move das sombras na direção dela, lhe desfere um beijo e sai sem rumo definido. Ela chora agarrada ao tapete da sala se perguntando onde estavam suas súplicas de ajuda feitas em oração contra o fim daquele desalinho. Eis que a porta se abre e ela enfim consegue ver os olhos daquele que havia partido. Eram olhos de ternura e de cansaço que mostravam fardos de uma vida que se esvaia. Ele se ajoelha perante a dona de seus raios de luz e a toma nos braços. Ela fica calada e entende que ali estava seu porto, seu protetor. Aquele que poderia ter raiva do mundo mas que jamais poderia desgostar de sua dama ao ponto de partir deixando seu coração para trás. Os dois se congelam naquela cena de época e sobem aos céus como pequenos feixes de luz dentro de toda aquela escuridão que consumia todo aquele lugar, provando que não há no mundo escuridão, sombra ou pavor que possa acabar com a luz que existe dentro de cada um de nós.