Quem tem Telhado de Vidro Evita Chuva de Pedra
O patriotismo vê-se na coragem de criticar quem está no poder, ou será que se vê num povo que serve esse mesmo poder, especialmente quando foi ele que o elegeu?
Quem critica Angola por usar o português esquece que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa partilha o mesmo dilema: a necessidade de usar a língua herdada para a administração e para a unidade nacional.
Até quem provou da luz pode traí-la nas sombras. Judas entregou a intimidade do mestre aos seus inimigos e vendeu a luz que o amou. Ama, sim, mas com a prudência de quem sabe que até o mais próximo pode escolher a traição.
Dormindo acordado
Quem é humilde não sabe que é humilde.
Quem é feliz não sabe disso.
Quem conhece, não conhece.
Quem é, é.
Eu amo meu amor. Sinto-me grato por ser agradecido. Sinto-me bem por ser quem percebe. A vida é um presente que me dei.
A poesia
Me dá azia
Deixa um travo
Na boca
De gosto amargo
Quem me dera
Ser poeta
Em outra era
Em que a verdade
Era sincera
“A Versão de Mim Que Mora nos Olhos de Quem Me Ama”
Existe uma versão de nós que talvez nunca consigamos conhecer completamente.
Ela não mora no espelho.
Não aparece quando nos examinamos em silêncio.
Não se revela nas noites em que contamos nossos erros, nossas perdas e tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.
Essa versão mora nos olhos de quem nos ama.
É curioso: passamos a vida inteira dentro de nós mesmos e, ainda assim, talvez sejamos as pessoas menos imparciais para dizer quem somos.
Conhecemos demais as nossas fraquezas.
Sabemos onde escondemos nossos medos, lembramos das palavras que gostaríamos de retirar, das oportunidades que desperdiçamos, das promessas que fizemos a nós mesmos e não cumprimos.
Carregamos os bastidores da própria existência.
Os outros, porém, muitas vezes enxergam o palco.
Enquanto eu me lembro das vezes em que quase desisti, alguém se lembra de que continuei.
Enquanto eu me condeno por ter sentido medo, alguém me considera corajoso justamente porque me viu caminhar apesar dele.
Enquanto eu penso que fiz tão pouco, talvez exista alguém guardando na memória uma palavra minha que chegou exatamente quando precisava.
E talvez seja essa uma das maiores ironias da existência:
somos capazes de transformar a vida de alguém sem perceber que fizemos isso.
Há pessoas que carregam uma versão nossa muito mais bonita do que aquela que carregamos dentro de nós.
Não porque estejam cegas.
O amor verdadeiro não é cegueira.
Talvez seja justamente o contrário.
Amar alguém é enxergar suas imperfeições e, ainda assim, não reduzir essa pessoa a elas.
Nós fazemos isso conosco o tempo inteiro: pegamos um erro e transformamos em identidade.
“Eu fracassei” lentamente se transforma em “eu sou um fracasso”.
“Eu tive medo” transforma-se em “eu sou covarde”.
“Eu não consegui” transforma-se em “eu não sou capaz”.
É assim que a consciência, quando ferida, falsifica nossa própria biografia.
Esquecemos todas as páginas e ficamos relendo justamente aquela em que caímos.
Mas quem nos ama talvez esteja lendo o livro inteiro.
Lembra-se das vezes em que fomos generosos quando ninguém estava olhando.
Das vezes em que permanecemos quando seria mais fácil partir.
Das pequenas bondades que nós mesmos esquecemos.
Das batalhas que vencemos sem comemorar.
Dos dias em que achávamos que estávamos apenas sobrevivendo, mas alguém, olhando de fora, enxergava coragem.
Talvez por isso existam momentos em que precisamos cometer um pequeno ato de humildade:
emprestar os olhos de alguém.
Quando nossa visão estiver turva, quando a tristeza diminuir aquilo que somos, quando a culpa exagerar aquilo que fizemos, talvez seja necessário perguntar silenciosamente:
Como me enxergaria alguém que verdadeiramente me ama?
Não para alimentar o ego.
Não para fugir das nossas responsabilidades.
Mas para recuperar a proporção das coisas.
Porque humildade não significa pensar menos de si.
Significa também não se condenar injustamente.
Às vezes acreditamos que conhecer a nós mesmos significa conhecer nossas sombras.
Mas conhecer-se verdadeiramente é ter coragem de reconhecer também a própria luz.
E essa talvez seja a parte mais difícil.
Aceitamos facilmente quando alguém aponta nossos defeitos, mas desconfiamos quando alguém reconhece nossa beleza.
Talvez porque exista dentro de nós um juiz muito antigo, acostumado a recolher provas contra nós mesmos.
Por isso, quando alguém disser:
“Você é mais forte do que imagina.”
Talvez não seja necessário responder imediatamente:
“Você não me conhece.”
Talvez conheça.
Talvez conheça uma parte sua que você perdeu de vista.
Talvez tenha testemunhado sua coragem justamente nos momentos em que você acreditava estar apenas tentando sobreviver.
Talvez tenha encontrado generosidade em gestos que para você pareciam pequenos.
Talvez enxergue possibilidades onde você só consegue enxergar limites.
Existe uma versão de você vivendo na memória das pessoas que você tocou.
Uma versão feita das palavras que ficaram depois que você foi embora, dos abraços que chegaram na hora certa, das conversas que impediram alguém de desistir, das risadas que tornaram determinado dia suportável.
Você talvez nunca conheça completamente essa pessoa.
Mas ela existe.
E haverá dias em que o espelho não será suficiente.
Dias em que a nossa própria consciência estará coberta pela neblina das decepções, do cansaço ou das culpas.
Nesses dias, talvez não seja fraqueza pedir emprestado o olhar daqueles que nos amam.
Às vezes precisamos enxergar a nós mesmos através de outros olhos até que os nossos voltem a reconhecer quem somos.
Porque talvez exista uma verdade muito simples escondida nisso tudo:
há pessoas que acreditam em nós não porque desconhecem nossas fraquezas, mas porque conheceram algo em nós que nossas fraquezas jamais conseguiram destruir.
E, algumas vezes, acreditar no amor de alguém também significa acreditar que aquilo que essa pessoa enxerga em nós pode ser verdade.
Quando as Cicatrizes Encontram um Propósito
Há quem passe a vida inteira tentando esconder as próprias cicatrizes, como se elas fossem manchas deixadas pelo fracasso, lembranças de uma batalha perdida ou marcas de uma fraqueza imperdoável. Vivemos em um tempo que exalta a perfeição e, por isso, muitos acreditam que a beleza está na pele intacta, na história sem rupturas, na alma que jamais conheceu o peso da dor.
Mas a vida, silenciosamente, ensina o contrário.
As cicatrizes não são o fim da beleza; são a sua maturidade.
Elas são a assinatura do tempo sobre aqueles que tiveram coragem de continuar caminhando quando tudo parecia desmoronar. Cada marca carrega uma história que o corpo talvez não conte, mas que a alma jamais esquece. Há lágrimas que secaram há muitos anos, mas que permanecem gravadas como rios invisíveis dentro de nós.
Durante muito tempo pensei que minhas feridas eram lembranças de tudo aquilo que eu gostaria de apagar. Hoje compreendo que elas são capítulos indispensáveis da pessoa que estou me tornando.
Porque existe uma diferença profunda entre viver marcado pela dor e viver transformado por ela.
A dor aprisiona quando se torna identidade.
Mas ela liberta quando se transforma em propósito.
É então que a cicatriz deixa de ser apenas memória e passa a ser missão.
Ela já não aponta para aquilo que nos destruiu, mas para aquilo que aprendemos a reconstruir. Deixa de ser uma prisão do passado para tornar-se uma ponte em direção ao futuro.
Talvez Deus permita certas tempestades não para celebrar o sofrimento, mas para revelar uma força que desconhecíamos possuir. A árvore que enfrenta os ventos aprofunda suas raízes. O ouro conhece sua pureza no fogo. O coração amadurece quando aprende que nem toda perda é definitiva e que nem toda queda anuncia o fim da caminhada.
Hoje não agradeço pela dor em si.
A dor continua sendo dor.
Mas agradeço pelo homem que ela me ajudou a formar.
Se minhas cicatrizes puderem impedir que outra pessoa desista, então elas já terão encontrado um sentido. Se minhas lágrimas puderem ensinar alguém a acreditar novamente, então nenhum sofrimento terá sido desperdiçado. Se minhas quedas fizerem nascer esperança no coração de quem já não consegue enxergar o horizonte, então minhas feridas terão deixado de ser apenas minhas.
Descobri que a vida possui um estranho e belo mistério: aquilo que quase nos destruiu pode tornar-se exatamente aquilo que nos torna capazes de sustentar outras vidas.
Hoje já não escondo minhas cicatrizes.
Olho para elas como quem contempla antigas cartas escritas pelo tempo. Cada uma me recorda que sobrevivi, que amadureci e que a graça de Deus não elimina todas as marcas da caminhada, mas lhes concede um novo significado.
E talvez seja esse o maior milagre da existência: perceber que Deus não desperdiça nenhuma lágrima sincera. Nas mãos d’Ele, as feridas tornam-se fontes de compaixão, as quedas transformam-se em degraus de sabedoria, e as cicatrizes deixam de contar apenas a história daquilo que nos feriu para anunciar, com silenciosa grandeza, a história daquele que jamais desistiu de recomeçar.
No fim, compreendi que não sou definido pelas dores que carreguei, mas pelo propósito que escolhi dar a elas. E é justamente aí que a esperança floresce: quando as cicatrizes deixam de ser lembranças do sofrimento e passam a ser testemunhas vivas da transformação da alma.
O Labirinto que Construímos Dentro do Mundo
Há quem diga que o mundo é difícil. Há quem acorde pela manhã e veja no horizonte um campo de batalhas invisíveis: contas a pagar, afetos mal resolvidos, desigualdades antigas, dores que atravessam gerações, silêncios que pesam mais do que palavras. E então se conclui, quase sempre sem pensar: o mundo é complicado.
Mas será mesmo?
Talvez o mundo, em sua essência, nunca tenha sido complicado. A manhã nasce simples. O sol não hesita em nascer. A chuva não faz discursos antes de cair. A árvore não questiona se deve crescer para cima ou para os lados. O rio não perde tempo odiando a pedra que encontra no caminho; ele apenas contorna e segue. A natureza inteira parece conhecer uma sabedoria silenciosa que nós, humanos, tantas vezes desaprendemos.
O complicado talvez não esteja no mundo. Esteja em nós.
Somos nós que transformamos diferenças em muros. Somos nós que pegamos aquilo que era apenas diverso e chamamos de ameaça. A cor da pele, a língua, a fé, o sotaque, o lugar de origem, o modo de amar, a forma de pensar. O que poderia ser riqueza vira conflito. O que poderia ser encontro vira disputa. O que poderia ser aprendizado vira preconceito.
O mundo oferece matéria-prima. Nós escolhemos a forma.
Pegamos o tempo, que era só passagem, e o transformamos em ansiedade. Pegamos o amor, que era só entrega, e o transformamos em posse. Pegamos o trabalho, que era dignidade, e o transformamos em prisão. Pegamos a política, que deveria ser serviço, e a transformamos em guerra. Pegamos a fé, que poderia ser consolo, e a transformamos em julgamento.
E depois culpamos o mundo.
Há uma ironia triste nisso tudo: complicamos a vida tentando controlá-la. Queremos prever tudo, garantir tudo, vencer sempre, nunca perder, nunca sofrer, nunca errar. Queremos uma existência lisa, sem rachaduras, sem tropeços, sem despedidas. Mas viver nunca foi isso. Viver é atravessar incertezas com coragem. É aceitar que algumas portas fecham, que algumas pessoas partem, que algumas respostas nunca virão.
O simples nos assusta porque exige humildade.
É mais fácil criar teorias do que oferecer perdão. É mais fácil discutir grandes ideias do que pedir desculpas. É mais fácil falar de humanidade do que tratar bem quem está ao lado. É mais fácil reclamar da escuridão do que acender uma vela.
Talvez por isso o mundo pareça tão pesado: carregamos pesos desnecessários. Orgulho antigo. Mágoas colecionadas. Competições inúteis. Aparências mantidas a custo da alma. Queremos parecer fortes, enquanto por dentro estamos apenas cansados.
Mas existe um caminho de volta.
Ele começa quando entendemos que nem tudo precisa ser guerra. Nem toda opinião contrária é inimiga. Nem toda diferença é ameaça. Nem toda demora é fracasso. Nem toda lágrima é fraqueza. Nem todo silêncio é vazio.
Há beleza no que é simples: sentar e ouvir alguém de verdade. Dividir o pão. Cumprimentar com respeito. Trabalhar com honestidade. Amar sem teatro. Reconhecer erros. Recomeçar sem vergonha. Olhar para o outro e lembrar que ele também carrega dores invisíveis.
Talvez a pergunta correta não seja “qual é a diferença no mundo?”, mas qual diferença temos criado dentro de nós e entre nós.
Porque o mundo, no fundo, continua girando com a mesma serenidade antiga. O céu continua abrindo espaço para as estrelas. O mar continua beijando a areia. A terra continua oferecendo frutos. O vento continua visitando janelas esquecidas.
Quem se perdeu fomos nós.
E ainda assim há esperança. Porque se fomos nós que complicamos, também somos nós que podemos simplificar. Se erguemos muros, podemos abrir portas. Se espalhamos ruídos, podemos semear silêncio. Se criamos ódio, podemos escolher respeito.
O mundo talvez nunca tenha pedido tanto de nós. Talvez ele peça apenas isto: menos máscaras, menos vaidade, menos medo… e mais humanidade.
Praticar os ensinamentos de Deus é o aprendizado que nos liberta de quem somos pra quem devemos ser.
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