Quem Diria que Iria te Reencontrar
Viver é feio e sem graça
para quem pinta essa tela;
despreze o tempo que passa
e viva o que passarela.
DESILUSÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um dia ele percebeu que de ambos, era só ele quem propunha. Fora sempre assim. Nenhuma proposta era "de lá pra cá". Só de "cá pra lá". Nunca teve uma chance de responder. Dizer sim ou sim, como sempre seria, mas dizer. Ser solicitado por ela. Ficar envaidecido pela procura. Ter sua vez de ser cortejado.
Foi assim que outro dia resolveu trocar de margem. Remanejar os extremos. Ficar em silêncio e ver no que dava. Tinha esperança de que o silêncio faria "vir de lá" o que sempre "foi de cá". Jurava em seu íntimo que aquilo não era uma disputa, mas achava que ele mesmo nunca dera uma chance de ser o alvo; a caça. Era sempre o caçador.
O tempo se foi. Ele foi se deixando. Sua espera ganhou brio, quando percebeu que nunca "veio de lá" qualquer convite. Nenhuma proposta; solicitação. Ela não o amava; correspondia ao seu amor. Não o queria. Cedia generosamente ao seu querer. Até então, estava sempre ali. Provisoriamente ao seu alcance.
No fim das contas, ele não a tinha. Era tão somente contemplado pela preguiça do seu não... pela esmola do seu sim.
MANHÃ
Demétrio Sena, Magé RJ.
De repente alcanço este sossego de saber quem sou. De saber o que faço e me sentir caber em mim. Chega o tempo em que alcanço meus sonhos e durmo para o medo que sempre tive de saber os mistérios do meu próximo passo. Do pouco além de onde piso.
Faço das verdades que agora me assaltam, meus ases num jogo. Minha pilha, minha fogueira, recarga vital. Razão pela qual sei ganhar mais um dia na roleta ou na mesa das noites. É assim que driblo essa enorme fila de assédios da hora sexta ou tardia. Consegui me alcançar na vertigem das horas, e tão somente pouso em meu colo, para me deixar seguir. Navegar na leveza de não ter mais pressa.
O meu fogo é de lenha, mas de lareira em chalé. Minha paz é de quem é, mas ao mesmo tempo se deixa estar. Hoje fecho meus olhos, abro a minh´alma e sinto este cheiro de manhã que rompe as tardes, vence as noites e continua sendo manhã.
VOZ VISUAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Para quem sabe a hora
de dizer sem falar,
silêncio é voz ocular...
PRETO NO BRANCO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei ouvir o silêncio de quem faz que diz,
mas entoa palavras de puro festim,
cria imagens, decora, dá brilho e verniz
ou enrola discursos no melhor cetim...
Também ouço quem cala feito flor-de-lis
que se planta num vaso, longe do jardim;
meu olhar investiga, vai lá na raiz
e desnuda o mistério do começo ao fim...
Sendo assim nem se anime a me julgar um tolo;
já conheço essa massa, não como seu bolo,
minha fome de amor sabe o rumo do gueto...
Faça menos rodeios; não seja sutil;
anasale seu não, seja clara no til,
se meu branco está pronto a receber seu preto...
LIVRE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Seja livre. Livre o bastante para nunca precisar fugir de quem você é.
TRIBUNAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Consciência serena.
Coração compassado...
de quem não mente.
Nunca fui governante;
vereador; deputado...
sou inocente.
MISTÉRIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A doença incurável de quem pode morrer a qualquer momento em razão da mesma ou ter vida longa sem grandes dores nem sequelas, não parece doença. Uma pessoa inteiramente sã tem suas dores normais e também pode morrer em noventa anos ou a qualquer momento, por uma bala perdida, um choque ou até um armário que resolva cair do sexto andar de um prédio.
PIOR INIMIGO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Será fácil vencer
quem vejo à frente,
se não dou de frente comigo.
ÁGUA FRIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não gaste suas exclamações com quem só tem reticências para devolver.
CARROÇA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Resolvi me calar pra quem rosna pro mundo
E tem essa carência de calar verdades,
Pois no fundo se tranca e não tem horizonte
Ou razão que adocique seus dias amargos...
Aprendi a passar por quem quer me morder;
Mostra os dentes, as garras, a voz arranhada,
Forja força e poder de causar opressão
Ou ferir meu orgulho; matar minha estima...
Sou aquela carroça distraída e calma
Que se vai na poeira das trilhas da roça
E despreza o barulho da fúria canina...
Percebi que seus dentes não podem furar
Minhas rodas de ferro, deter meu compasso,
Porque passo do tempo em que você ficou...
ASSIM, NÃO ASSADO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem quiser educar meus instintos de harpia;
dar à luz do meu dia seu clima de sótão;
modelar minhas asas para voos curtos,
cairá de meus surtos em plena vertigem...
Se tiver ilusão de me amansar aos poucos,
pôr coleira e corrente no meu coração,
saberá que meus sonhos são anti-armadilhas
e são anti-estratégias as minhas verdades...
Não invente uma forma de virar o jogo,
não há fôrma que amolde a natureza em mim,
sou assim, não assado por fogo de ofício...
Caso queira esse caso de acaso e soltura,
cuja lei da procura não distorce oferta,
venha simples e aberta pra fechar comigo...
ESTAMPA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem é quem não se pinta na faixa do rosto;
não está nas palavras do discurso aberto;
vai além da fachada e destoa do exposto,
pois o seu conteúdo é tesouro coberto...
Abstrato e distante quem se vê tão perto;
fevereiro e dezembro vestidos de agosto;
sob traços de oásis pode haver deserto,
nosso anjo da guarda pode ser encosto...
Não espere uma essência na simples fachada;
ninguém sente o sabor da conserva fechada
nem conhece o caráter por um tom de fala...
Será sempre surpresa um detalhe que for,
uma nódoa, remorso, quem sabe um rancor
ou a doce virtude que a careta cala...
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