Quebrado
Existe uma parábola simples sobre um copo quebrado no chão. À primeira vista, parece só perda, estilhaços espalhados, água derramada. Mas quem observa com calma percebe que aquele espaço vazio no chão é também o lugar onde algo novo pode ser colocado.
O vazio funciona assim. Ele chega como se fosse o fim de tudo, mas na verdade é apenas um começo disfarçado de ausência. Quando perdemos algo, uma pessoa, um sonho, um propósito antigo, sentimos que o chão sumiu debaixo dos pés. Só que esse chão vazio não é um abismo, é um terreno limpo, pronto para receber uma nova construção.
Pense num campo depois da colheita: parece morto, sem vida, sem cor. Mas é justamente esse vazio aparente que permite à terra descansar e se preparar para germinar de novo.
Assim é a alma humana diante das perdas profundas. O vazio dói, sim, e dói de verdade, mas ele não é o destino final da história, é apenas a página em branco antes do próximo capítulo ser escrito. Quem aprende a enxergar o vazio dessa forma, aos poucos para de temê-lo e passa a usá-lo como espaço fértil de recomeço genuíno.
Existe um relógio quebrado que, por engano, marca a hora certa duas vezes ao dia. De longe parece falha, um erro mecânico. Mas quem observa com atenção percebe que, mesmo parado, ele continua fazendo parte de um ciclo maior, o próprio tempo que segue girando sem depender dele.
A vida costuma parecer assim: pedaços soltos, decisões sem lógica aparente, dias que não se encaixam em nenhum plano visível. Perdas que não fazem sentido, encontros que parecem acaso, caminhos que se cruzam sem explicação clara. Só que, por trás dessa bagunça toda, existe uma engrenagem silenciosa trabalhando.
Pense numa colcha de retalhos: cada pedaço, sozinho, parece aleatório, sem harmonia, sem propósito. Mas quando a costura termina, revela-se um desenho completo, feito exatamente daquilo que parecia erro.
O caos, na verdade, é apenas ordem que ainda não terminou de se revelar. Cada dor, cada espera, cada dúvida sem resposta, está costurando algo maior do que conseguimos enxergar no momento presente.
Talvez o segredo não seja entender tudo agora, mas confiar que existe um propósito silencioso organizando cada fragmento solto da nossa história, mesmo quando parece que nada, absolutamente nada, faz sentido.
Feitiço quebrado
Depois de despir meus sentimentos,
quebrei minha alma em pedaços,
Te tratei como uma divindade,
me entregastes uma cegueira covarde, um mundo em ruínas,
Quero meu juízo de volta,
para que isso aconteça preciso que você desapareça,
No feitiço quebrado, o relâmpago trouxe a luz, mas a respiração ainda se mantém perdida e
no difícil pensar, quisera eu aprender a reconstruir,
Um colo tem se disponibilizado e ao mesmo tempo tem assustado os dias ruins, logo essa barreira entre o bem me quer e o mal me quer será vencida.
Você não estava quebrado, mas foi tratado muitas vezes como se estivesse.
Uma coisa quebrada precisa ser consertada para voltar a ter valor. Uma pessoa ferida precisa de cuidado. Uma pessoa diferente precisa de linguagem, ambiente, apoio, respeito, tempo, escolha. Durante anos, talvez tenham oferecido conserto onde faltava escuta, compreensão e proteção.
O mundo chamou de ajuda muita coisa que apenas ensinava a pessoa a desaparecer com mais eficiência.
Eu tenho um coração triste e quebrado, marcado por dores que o tempo ainda não conseguiu apagar.
Carrego cicatrizes de batalhas silenciosas, de decepções que eu não queria viver e de sonhos que ficaram pelo caminho.
Mas, mesmo ferido, ele continua batendo.
Talvez mais cauteloso, mas ainda encontra forças para seguir.
Porque um coração quebrado não deixa de bater; apenas aprende que algumas dores se tornam parte da história que carregamos para sempre.
Mundo quebrado: Todos estão sujeitos às dores físicas e sociais de uma Terra afetada pelo erro humano. P.G
A Face do Silêncio que Deve Ser Quebrado
O silêncio certamente tem mais de uma face: a tranquilidade distante dos conflitos, a omissão de um sofrimento, o desconhecimento de uma triste realidade, a melodia que a alma precisa ouvir em um determinado momento, uma zona de conforto atraente e inapropriada ou aquela sensação confortável que não deixa a mente ficar esgotada.
E quando uma paixão desenfreada toma conta, uma das consequências é a falta de amor-próprio — que pode resultar em uma prisão silenciosa devido a uma inconsistência de reciprocidade e uma frequência de angústia numa falsa tradução de felicidade, onde sempre apenas um dos lados luta e faz a sua parte.
Nesse caso tão danoso, o quanto antes, em alguma oportunidade, o silêncio tem que ser quebrado, o desgosto do desrespeito deve ser reconhecido e logo ser rejeitado, caso contrário, será cada vez mais destrutivo. Portanto, não deve permanecer camuflado debaixo de migalhas de afetos ou de sentimentos fingidos.
Não é nada fácil ter seus princípios e valores violentados, principalmente por quem tanto se ama, mas é exatamente isso que faz ser um privilégio encontrar paz na violência, enxergar o conforto verdadeiro: o reconhecimento da própria existência, da importância da mutualidade, que um laço sadio não tem prisioneiros e que os sinais estão nos detalhes.
Tem gente que olha pra vida como quem olha pra um espelho quebrado e pensa assim, vou deixar um pedaço meu espalhado por aí, quem sabe assim eu não sumo por completo. Aí faz filho como quem planta uma placa escrita “eu estive aqui”, como se o tempo fosse um porteiro educado que respeita avisos. Mas o tempo não respeita nada, minha filha. O tempo entra sem bater, apaga luz, leva os móveis e ainda sai assobiando.
A gente cresce ouvindo nomes de família como se fossem heranças eternas, como se aquele sobrenome fosse uma espécie de colete à prova de esquecimento. Só que aí você para pra pensar com calma, numa terça-feira qualquer, lavando uma panela ou dobrando roupa, e percebe que mal lembra o nome dos seus bisavós. Às vezes nem foto tem. Viraram um vulto, uma história mal contada, uma frase começando com “dizem que...”. E pronto. Foi assim que uma vida inteira virou rodapé.
E não é falta de amor, não. É excesso de tempo mesmo. O tempo vai empilhando gerações como quem guarda caixa em cima de caixa no fundo do armário. Uma hora ninguém mais abre. E lá dentro ficam risadas que ninguém mais escuta, medos que ninguém mais entende, sonhos que ninguém mais sabe que existiram. Tudo guardado, tudo esquecido, tudo tão humano.
Aí me vem essa ideia de imortalidade através de filho, e eu fico meio assim, meio rindo, meio pensativa. Porque não é sobre permanecer no mundo, é sobre ter feito sentido enquanto esteve aqui. Não adianta querer eco eterno se a própria voz nunca foi ouvida de verdade nem por si mesma. Não adianta deixar descendência se a existência foi vazia de presença.
No fim, a gente não fica. O que fica é um gesto, um jeito, uma frase repetida sem saber de onde veio. Fica um costume, um traço no rosto de alguém, uma mania de rir em hora errada. A gente vira detalhe. E talvez isso seja até mais bonito do que virar monumento. Monumento ninguém toca. Detalhe vive sem pedir licença.
Então talvez o segredo não seja tentar não ser esquecida. Talvez seja viver de um jeito que, mesmo esquecida, tenha valido cada segundo. Porque a verdade, meio sem glamour nenhum, é essa: o esquecimento não é o contrário da importância. É só o destino comum de quem passou por aqui.
E eu, sinceramente, acho libertador. Dá um alívio danado saber que não preciso carregar o peso de ser eterna. Já basta ser inteira enquanto dura.
Entre ir e ficar
Te encontro onde o chão ainda engana, espelho curto de céu quebrado, teus passos fazem círculos que fingem profundidade.
Bebo teu silêncio com sede antiga, mas a água não afunda o nome que penso; tudo flutua
— promessas, e o medo de molhar demais.
Há sol demais para ser abrigo, claridade que expõe o fundo antes do toque; amo o risco de nadar parado, de chamar de mar o que me alcança o tornozelo.
Se fico, é por não saber voltar seco, se parto, levo sal que não nasceu aqui; entre ir e ficar, aprendo:
há águas que não enganam
— não juram fundo antes da hora.
É nas cicatrizes que
o amor decide permanecer.
Não para consertar o que foi quebrado, mas para provar
que ainda há beleza no que sobreviveu.
Porque amar é escolher ficar,
mesmo onde a dor já morou.
Acolher o que está Quebrado
Eu não quero somente a parte bonita de você,
Quero conhecer o que você esconde quando ninguém vê,
Quero tocar suas cicatrizes sem fazê-las doer,
E amar até aquilo que você aprendeu a esconder de si mesma.
Se o mundo te ensinou que amar era sofrer,
Eu quero ser a prova de que pode ser diferente,
Vou ficar quando suas forças desaparecerem,
E te abraçar justamente quando se sentir insuficiente.
Não prometo consertar tudo que a vida destruiu,
Nem apagar cada lágrima que caiu do teu olhar,
Mas prometo ficar quando o teu coração desistir,
E juntar, com minhas mãos, os pedaços que você deixar quebrar.
Porque eu não quero um amor perfeito, quero um amor verdadeiro,
Daqueles que permanecem quando o encanto termina,
Quero conhecer teu caos, teu medo e teu mundo inteiro,
E ainda escolher você — todos os dias, por toda a minha vida.
O peso do imperfeito
A incompreensão assusta!
Ninguém ama o "quebrado", o mal-amado,
Ninguém ama o feio, o despedaçado...
E, cada um com seu fardo,
Caminham com passo lento e com pesar.
É difícil amar o imperfeito,
Aquilo que não foi feito para nos servir.
As ideias assustam...
É sobre o que não falamos,
Sobre o que não planejamos.
Carregamos feridas que ninguém quer ver,
Cicatrizes expostas na escuridão,
Pois o mundo rejeita quem ousa sofrer
E exige a leveza de uma ilusão.
Gritamos por dentro em busca de abrigo,
Na esperança de um peito que saiba acolher,
Mas o espelho se torna o pior inimigo
Quando o próprio reflexo custa a entender.
E no fim, cada um carrega o seu fardo.
Caminhamos a sós.
Não há alento,
E acabou o tempo.
Apego Ato 3
(O palco ainda guarda vestígios do trono quebrado. A luz nasce lenta, como amanhecer.)
Sobre as ruínas, permaneço.
Não mais de joelhos.
Não mais cego pela própria devoção.
Aprendi tarde, mas aprendi
que amor não é escalar alguém até os céus,
é caminhar ao lado, mesmo quando o chão treme.
Toquei o fundo da minha própria ilusão
e descobri algo inesperado:
eu também sou digno de altura.
(olha ao redor)
Que tolos fomos, eu e meu coração,
confundindo intensidade com entrega cega.
Amar não é desaparecer.
Não é reduzir-se à sombra do brilho alheio.
Amar…
é permanecer inteiro.
Se outra vez meu peito arder,
que arda lúcido.
Que admire sem se diminuir.
Que exalte sem se apagar.
Não construirei mais tronos.
Não erguerei altares.
Se houver amor,
que seja entre dois reis sem coroa,
duas almas sem palco,
dois humanos imperfeitos
que escolhem ficar.
(pausa)
E se um dia eu voltar a sofrer
que seja por ter sido verdadeiro,
não por ter sido menor.
(ergue o olhar)
Hoje não carrego mais o peso de sustentar ninguém.
Carrego apenas a responsabilidade de ser inteiro.
E isso…
isso é liberdade.
(A luz se expande. Fim.)
Mente inquieta
Agilson Cerqueira
O prumo quebrado,
A régua que não mede o abismo.
Se a lógica farta é prisão,
O delírio é o único batismo.
Não se divide a alma em fatias,
Nem se doma o que é correnteza.
Quem busca a norma, vicia;
Quem busca o salto, tem a certeza:
Só o atrito acende a luz.
Alguns enxergam durante o dia,
Outros vislumbram estrelas.
Há os que só vivem de sentimentos,
E há quem viva de razão.
Intensidades do ser em todos momentos.
Entre o lirismo e o ceticismo existencial:
Alegria, riso, choro e decepção.
Mente inquieta - tensão essencial!
Agilson Cerqueira
