lucianopinheiro_1989_1126368
O peso do imperfeito
A incompreensão assusta!
Ninguém ama o "quebrado", o mal-amado,
Ninguém ama o feio, o despedaçado...
E, cada um com seu fardo,
Caminham com passo lento e com pesar.
É difícil amar o imperfeito,
Aquilo que não foi feito para nos servir.
As ideias assustam...
É sobre o que não falamos,
Sobre o que não planejamos.
Carregamos feridas que ninguém quer ver,
Cicatrizes expostas na escuridão,
Pois o mundo rejeita quem ousa sofrer
E exige a leveza de uma ilusão.
Gritamos por dentro em busca de abrigo,
Na esperança de um peito que saiba acolher,
Mas o espelho se torna o pior inimigo
Quando o próprio reflexo custa a entender.
E no fim, cada um carrega o seu fardo.
Caminhamos a sós.
Não há alento,
E acabou o tempo.
Eu não te amo.
Senti tua falta por tanto tempo,
mas não te amo.
Chorei, sofri, bebi,
berrei teu nome no vazio.
Eu… provavelmente não te amo.
Procurei outras bocas, outros corpos,
mas nenhuma tinha tua voz, teu cheiro —
nenhuma era você.
Sim… eu te amo.
Não — não amo.
Amei a versão que inventei de ti,
essa que me cabia,
essa que não doía tanto.
E no fim, praguejando,
implorei que voltasse.
Que voltasse ao teu lugar,
a bagunçar meus sentimentos,
a me desfazer por dentro.
Eu realmente não te amo.
Descobri em mim a solidão:
sozinho, não sofro —
mas também não tenho você.
E às vezes choro
pela lembrança rouca da tua voz.
Eu não amo você.
Não quero amar.
Mas amo a falta
que você me faz.
A Morte e Eu
Rio de Janeiro — 23:50
EU
Morte, minh'amiga, escuta o meu clamor,
Leva esta alma que já se desfaz.
Para mim só resta a noite e a dor,
Na escuridão eu busco a minha paz.
Aos teus pés me ponho a caminhar,
Deste sofrimento quero me livrar!
MORTE
Quem roga forte pelo nome meu?
Chamaste até meu longo sobrenome...
Olha a beleza que o tempo me deu,
A minha imagem o teu medo consome.
Não trago a crueldade em minhas mãos de luto,
Eu fui o teu alívio em menos de um minuto.
Eu sou a punição que o traidor desaba,
E a certeza exata em que tudo desaba.
Eu sou o carrasco e a mão mais amiga,
Que no século passado já curará tua intriga.
23:53
EU
Espera... os olhos abro com espanto,
Vejo quão linda és, meu pálido anjo!
A cada passo sinto o teu confronto,
Olho o relógio e vejo que não estou pronto!
Não pode ser o fim do meu estado,
O velho tempo ainda não foi parado!
MORTE
Tu negavas agora o que pediu?
O tempo dos mortais é como um açoite.
Amanhã o meu manto um rei vestiu,
Mas escolhi ser bela na tua noite.
Não temas o fim, sou a certeza real,
E a minha beleza é sempre atemporal.
23:55
EU
Monstro maldito vestido de gala!
Que ostenta o fim como se fosse glória!
Rogo a pior praga da história,
Rasgando as páginas da minha memória!
Te dou meu ouro, as rimas, meu tesouro,
Mas não me leves para esse douro!
MORTE
Tuas moedas já envelheceram no ano que vem,
E os faraós me entregam esse ouro agora.
Nenhum suborno me afasta de alguém,
Pois eu já terminei quando fores embora.
Compreendo o teu ódio, ele o meu peito adorna,
Mas sou o teu alívio, e a minha paz te torna.
23:57
EU
O chão sumiu, já não sinto o meu peso,
A escuridão engoliu o meu ser.
O mundo apaga o que tinha de aceso,
Resta-me apenas chorar e sofrer.
Se eu der um passo em tua direção,
Cessa o mistério e a dor do coração?
MORTE
O teu pranto antigo com o meu véu combinará,
Lágrimas frias que no passado eu sequei.
Tu já tocaste minha mão que virá,
E o frio que sentes foi o calor que eu deixei.
Eu não sou cruel, descanse em meu charme,
Eu gostava do instante em que tentas tocar-me.
23:59
EU
Olho teus olhos... aceito o destino.
Quero partir, dar o fim ao meu pranto,
Mas tremo ao ouvir este som repentino,
Pois temo o mistério além do teu manto.
O que há depois que você me levar?
Tenho medo do além onde vou acordar...
MORTE
Eu abriria o portal, mas não sigo contigo,
O meu papel é só dar a passagem.
O pós-fim é teu, meu assustado amigo,
E cada alma desenha a sua própria viagem.
O que hás de encontrar na eterna morada
Dependeu da expectativa em tua mente guardada.
Tua entrega assustada é a minha canção,
O quadro perfeito da tua transição.
00:00
MORTE
O tempo parou... ou a história começa?
Bati a meia-noite que ontem já deu.
Recolho o meu manto, não tenho mais pressa,
Pois o cortejo mais lindo da noite... foi meu.
