Quebrado
Guardamos o passado como um espelho quebrado — quanto mais tentamos consertar, mas vemos nossos fragmentos distorcidos.
EduardoSantiago
No espelho quebrado da rotina, vejo mil rostos todos meus.
Fragmentos de promessas, vícios de urgência, gritos que ninguém ouve.
As loucuras dançam, sedutoras, me puxando para o abismo do excesso.
Mas hoje, eu ergo o punho contra elas.
Chega de correr em círculos como um animal enjaulado pela própria mente.
Chega de alimentar o caos com distrações baratas e pendências empilhadas como cadáveres esquecidos.
O foco é minha arma.
A disciplina, meu açoite.
Cada passo certo é um prego no caixão da desordem.
Não quero mais sobreviver em meio ao ruído.
Quero silêncio.
Quero o peso do agora.
Quero o corte limpo da verdade.
Fortalecer o emocional não é sorrir para o espelho
É encarar o monstro que vive atrás dele.
É alinhar o processo à dor, ao medo, à vontade de desistir
E mesmo assim, continuar.
Seguro.
Eficaz.
Frio como aço, firme como pedra.
Porque só quem atravessa a noite com os olhos abertos
conhece o valor da luz.
11.01.2026
By Evans Araújo
Mosaico de uma vida
Espelho quebrado, estátua de si mesmo,
Em cada pedaço, uma imagem, uma faceta da vida,
Em cada olhar fixo, uma exposição da gema, uma visão íntima,
Ver o que não era visto, perceber o que não percebia, saber o que era sabido,
Sombras do passado, marcas do presente, mosaico de uma vida.
Tem gente que olha pra vida como quem olha pra um espelho quebrado e pensa assim, vou deixar um pedaço meu espalhado por aí, quem sabe assim eu não sumo por completo. Aí faz filho como quem planta uma placa escrita “eu estive aqui”, como se o tempo fosse um porteiro educado que respeita avisos. Mas o tempo não respeita nada, minha filha. O tempo entra sem bater, apaga luz, leva os móveis e ainda sai assobiando.
A gente cresce ouvindo nomes de família como se fossem heranças eternas, como se aquele sobrenome fosse uma espécie de colete à prova de esquecimento. Só que aí você para pra pensar com calma, numa terça-feira qualquer, lavando uma panela ou dobrando roupa, e percebe que mal lembra o nome dos seus bisavós. Às vezes nem foto tem. Viraram um vulto, uma história mal contada, uma frase começando com “dizem que...”. E pronto. Foi assim que uma vida inteira virou rodapé.
E não é falta de amor, não. É excesso de tempo mesmo. O tempo vai empilhando gerações como quem guarda caixa em cima de caixa no fundo do armário. Uma hora ninguém mais abre. E lá dentro ficam risadas que ninguém mais escuta, medos que ninguém mais entende, sonhos que ninguém mais sabe que existiram. Tudo guardado, tudo esquecido, tudo tão humano.
Aí me vem essa ideia de imortalidade através de filho, e eu fico meio assim, meio rindo, meio pensativa. Porque não é sobre permanecer no mundo, é sobre ter feito sentido enquanto esteve aqui. Não adianta querer eco eterno se a própria voz nunca foi ouvida de verdade nem por si mesma. Não adianta deixar descendência se a existência foi vazia de presença.
No fim, a gente não fica. O que fica é um gesto, um jeito, uma frase repetida sem saber de onde veio. Fica um costume, um traço no rosto de alguém, uma mania de rir em hora errada. A gente vira detalhe. E talvez isso seja até mais bonito do que virar monumento. Monumento ninguém toca. Detalhe vive sem pedir licença.
Então talvez o segredo não seja tentar não ser esquecida. Talvez seja viver de um jeito que, mesmo esquecida, tenha valido cada segundo. Porque a verdade, meio sem glamour nenhum, é essa: o esquecimento não é o contrário da importância. É só o destino comum de quem passou por aqui.
E eu, sinceramente, acho libertador. Dá um alívio danado saber que não preciso carregar o peso de ser eterna. Já basta ser inteira enquanto dura.
O perdão quando é praticado com frequência tem a aparência de um vaso que foi quebrado em pedaços e com o tempo foram colados todos os seus pedaços, desta forma fica no seu formato original, porém com muitas cicatrizes a vista.
Tempo presente
O espelho foi quebrado,
Os sentidos estão nus,
O pecado é sem vergonha,
As causas impossíveis as vezes são os fetiches dos começos,
E que o meu tempo presente contigo te traga desejos insaciáveis e memórias inesquecíveis.
Não venhas com pedras ao encontro do quebrado;
vem com mãos, com curativos, com pão.
Que o julgamento se converta em cuidado,
e a acusação, em abraço.
Pois quem guarda pedras perde a ternura;
quem as entrega encontra graça,
e no colo do Amigo ferido, aprende a amar sem ferir.
Entre ir e ficar
Te encontro onde o chão ainda engana, espelho curto de céu quebrado, teus passos fazem círculos que fingem profundidade.
Bebo teu silêncio com sede antiga, mas a água não afunda o nome que penso; tudo flutua
— promessas, e o medo de molhar demais.
Há sol demais para ser abrigo, claridade que expõe o fundo antes do toque; amo o risco de nadar parado, de chamar de mar o que me alcança o tornozelo.
Se fico, é por não saber voltar seco, se parto, levo sal que não nasceu aqui; entre ir e ficar, aprendo:
há águas que não enganam
— não juram fundo antes da hora.
É nas cicatrizes que
o amor decide permanecer.
Não para consertar o que foi quebrado, mas para provar
que ainda há beleza no que sobreviveu.
Porque amar é escolher ficar,
mesmo onde a dor já morou.
Chorar não é o oposto de ser forte.
É o corpo dizendo “ainda tô aqui, mesmo quebrado”. Gente forte não é quem não desaba, é quem levanta todo santo dia com a alma em pedaços e ainda tenta dar um jeito.
*Efeito espelho quebrado*
Tem gente que só enxerga seu valor quando te perde.
Enquanto você era porto, tratava como passagem.
Enquanto era cuidado, chamava de exagero.
Aí o espelho quebra na ausência e,
de repente, você vira “inesquecível”.
Eu perdoo, mas não reabro a porta. Aprendi que quem não soube me cuidar quando tinha, não merece meu replay.
Meu valor não depende de arrependimento tardio.
_Van Escher_
