Quando a Gente Pensa
Abaixo do Sol
depois de outra noite
sem sonhos
Tanta gente acorda
E se propõe a sonhar
Portanto se lavantam
E se põe a correr devagar
Por uma estrada acidentada
Que a bem da verdade
Ninguém sabe onde ela conduz
Talvez não leve a nada
Inconscientemente acordados
Fazem um acordo consigo
Abaixo do Sol
Muitos sonhos amansam
Tristonhos
Se lançam à vida
Numa dúvida doída
A única certeza
é que as folhas caem
após o outono
Mas os sonhos não descansam
Talvez seja por isso
Que em certas noites
Eles não vem durante o sono.
Um dia a gente promete
Promete pra gente mesmo
Que com a gente
Vai ser tudo diferente
E que vai mudar muita coisa
Um dia a gente percebe
descontente
Que este mundo engana a gente
A uns menos, a outros mais
E por mais que a gente tente
A vida condena a gente
à mesma sina que nossos pais
A natureza da vida
Os caminhos do Mundo
A mesma chuva caindo
E roupa secando no varal
Muita coisa muda
e no final a gente percebe
Que o tempo mudou tanto a gente
Pra depois finalmente
A gente constatar
Que pra bem ou pra mal
Não há nada diferente
e tudo aquilo que fizemos
Acabou deixando a gente
Muito igual
Na mesa
Os papéis que eu desenhava
As conversas que a gente tinha
As coisas que eu esperava
e não vinham
Uma luz acesa
Uma reza
Fé sem certeza
O café que esfriou
O caderno onde escrevia
Um convite
Pra uma festa que não vou
A fotografia
Você que ria
Sem nem saber
e nem querer saber
Por quê
Na mesa
Um prato
Uma taça
Comida
bebida
despedida
Fumo
Fumaça
Esperança
Um adeus
A vida prossegue
Mas hoje a gente não consegue
Nem de longe
Que a vida tenha
A mesma graça
Quando a gente era criança
E a vida era simplesmente
Um lance um tanto mágico
Praticamente um Circo
Semi-monossilábico
Um circo onde havia até dança
Aquela dança
Que a gente não se cansa
Nunca...jamais; de se recordar
A Pá já se levantava
Com aquele sorriso a mais
E quando ela vinha pra sala
Trazia as duas outras atrás
A Pá corria pra lá
A Sí sentava-se aqui
Eu dava um pãozinho pra cada
Mas a mais malandra
Sempre foi a Sandra
Acordava emburrada
Não falava nada
Tomava o seu café
e depois dava no pé
As outras duas
A Pá e a Sí
Ficavam brincando por ali
Achando que eram princesas
Uma olhava e a outra ria
Minha mãe chegava e mandava
A Sì limpar toda a mesa
Enquanto a Pá lavava
A louça que estava na pia
Lá da sala, a Sandra ria
E assim começava o dia
Num tempo
Hoje tão distante
Que causa saudade cortante
Nesse pobre coração
Daquele, outrora sempre presente
Irmão de sangue, de alma
e de saudade
Edson Ricardo Paiva
Pode ser que aconteça
De um dia a gente conseguir
Firmar os nossos pés
Naquele lugar
Onde queremos chegar
Eu desejo demais
Que a vida nos dê essa chance
Ao calor do meio-dia
Há sempre excesso de energia
O calar da madrugada
Sempre se assemelha
Ao findar da centelha de vida
Já não tenho mais
Tanto tempo assim
Não consigo nem pensar
O que será de mim
Caso as asas do tempo me alcancem
Há sempre histórias sem fim
Enfim, é pouco
O que vou deixar ao mundo
Nem todas as coisas bonitas
Que deviam acontecer
Estão escritas
Eu só escrevo as que consigo
Preciso antes dizer
Que aquele sorriso
Que um dia me conquistou
Carrego sempre comigo
A todo lugar onde vou
Tem sido o meu Céu e meu chão
Minha única esperança
E será também a última lembrança
Que um dia haverei de carregar
No lugar reservado
às lembranças felizes
Que eu trago aqui no coração
Não conheço
Ninguém que não sonhe
Conheço gente
Que mente a si mesma
Enquanto tenta
Conformar-se e desistir
Negando-se o direito
de ao menos tentar
Viver como gostaria
E passa um tempo infinito
Afogando tudo aquilo
de bonito que traz no peito
E tenta viver sem sonhos
Enganada
Quer viver de outro jeito
Julga não valer à pena
Tamanho sacrifício
Não percebe, que na verdade
Difícil
É viver a realidade
e triste
É viver sem sonhar
Chega a ser triste
Que tanta gente distante
Seja presença constante
No coração da gente
E a gente
de coração transbordante
Tentando fazer um ninho
Nos corações daqueles
Que estão a um passo da gente
Porque será
Que aqueles que nem ligam pra gente
Nos momentos
em que a gente mais precisa
São sempre os mesmos
Que precisam da gente
Quando finalmente
A gente está tão distante
Parece que o amor
É uma semente de mostarda
Que muito tarda a crescer
Por que será
Que a gente tanto reclama, descontente
da rotina e pasmaceira
Que às vezes a vida apresenta
E depois percebe
Mais descontente ainda
Que a vida já correu
Passou-se, quase que inteira
E a gente não teve tempo
Pra quase nada
O tempo correu
E a gente não está mais lá
E também nunca esteve aqui
A gente nunca está onde precisa
E nos lugares onde está
Ninguém precisa da gente
Por que será
Que naqueles momentos
Em que nos sentíamos
tão perdidos
Na verdade, foram os únicos momentos
Em que a gente realmente
Sabia onde estava?
Edson Ricardo Paiva
Num mundo de conflitos
Chega a parecer esquisito
Quando alguém gosta da gente
Mas a vida é um lugar
Por demais confuso
Que a gente faz de conta que entende
Pra dizer bem a verdade
tanto faz
Aquele que menos sabe
sabe mais
Eu espero a solidão da madrugada
E enquanto ninguém diz nada
e também não ouve
Eu tento explicar
Pra mim mesmo
Que sou um homem simples demais
E que nunca, jamais
Vou poder entender a vida
Como pode
alguém gostar de alguém
Como pode
alguém que não sabe nada
Acordar de madrugada
Pra dizer o que ninguém vai ouvir
e ao final
Achar bonita a vida
dividida
Entre belezas e conflitos
deste mundo
Mágico
Trágico
e sem lógica
A gente passa quase toda a vida
Cuidando das coisas que acredita
E medindo a passagem do tempo
Como se o passar do tempo
Aliado à nossa capacidade
de estar consciente dessa passagem
Nos trouxesse alguma vantagem
E fosse uma espécie de conquista
Esquecendo
Que conforme o tempo passa
Sem que nada se faça
Além de somente medí-lo
Sem crescer, evoluir e aproveitá-lo
simplesmente observando
Como passou depressa
Esse trem que corre lento
O mundo gira
O Universo se move
O relógio não pára
e o tempo passa
Não existe nenhum dinheiro
Que compre e que traga de volta
A vida que correu
Quase que inteira
Existência tão cara
Que a gente recebeu de graça.
Edson Ricardo Paiva
Um dia finalmente
A gente vai poder viver
Sem precisar
fechar os olhos pra ver
A gente vai se olhar
E se enxergar
E nunca mais
Somente imaginar
A gente tenta pensar
Em um novo começo pra tudo
Sem ter que se preocupar
Onde termina aquela estrada
Vamos viver somente o momento
Sem pensar em nada
Pra cada dia seu sofrimento
Vamos seguir
O Movimento do vento
Frases sem crises
Poemas e não problemas
Poesias como garantia
Vida
Sem prazo de validade
Porém, por ora
A gente somente fecha os olhos
E tenta criar
Pra gente mesmo
Uma nova realidade
Que há de nascer amanhã
Juntamente com o Sol
Quando a gente ainda é jovem
É preciso que muitas coisas
Sejam pulsantes, brilhantes,
gritantes e extravagantes
Pra que assim a gente as veja
E pouca coisa nos comove
Pois o jovem
Implora pra que haja chuva
Enquanto chove lá fora
E jamais percebe a perda
de cada dia que vai embora
Mas a vida corre
E por mais protegida que seja
e por menos que a gente veja
Fatalmente, um dia
A Inês é morta
E o tempo corrige
A maneira torta, tortuosa
e às vezes pretensiosa
de pensar que as coisas eram
E feras vem bater à porta
Porque fomos nós
Quem as chamamos
Quando a gente é jovem
Tudo precisa ser exuberante
Mas o tempo ensina a gente
A enxergar mais profundamente
e também a pensar com clareza
e com isso enxergar a beleza
Que a gente não via
Com nossos olhos e alma fria
Imaginando milagres e maravilhas
onde nada havia
e passa a descobrir
Os milagres e maravilhas
Que existem e sempre existiram
Mas agora a gente sabe
Onde eles estão.
Edson Ricardo Paiva
A gente procura sempre
Andar pelos caminhos que conhece
Pois assim não há medo de errar
e também não precisa pensar
A gente vai tão naturalmente
Que quando vê
de repente já está lá
Mas nem tudo na vida é assim
Tem coisas que, quanto mais se sabe
Menos queria saber
E quanto mais conhece
Muito mais, gostaria de esquecer
Pois
Quanto mais a vida engana
Mais correto a gente aprende
E entende
como desviar-se de armadilhas
E então
Quanto mais aguçadas
se tornam as vistas
Mais a gente percebe
No quão ardilosos
Podem ser os caminhos da vida.
Edson Ricardo Paiva
Por mais palavras
que a gente conheça
Por mais tempo a gente viva
Jamais haverá coisa nova
Com a mesma graça
Que aqueles simples voos de papel
Que jamais alcançaram grande altura
Mas traziam alegria tão pura
Que agora, ao lembrar
Eu os vejo pertinho do Céu
Portanto
Não importa
Quantos voos se voe
Nenhum deles se compara
e nem jamais haverá de comparar
E qualquer voo que tentar
Estará voando à toa.
Edson Ricardo Paiva
Nada na vida
muda tanto a gente
quanto as coisas
que a gente sente
Enquanto o tempo passa
Lenta e velozmente
A gente aprende
Com as mentiras
Que o tempo conta
E o tempo
Conta mentiras sem monta
Meu Deus, como o tempo mente
Sem se importar
Com a tristeza que a gente sente
Dizem
que não se pode aferir
Pois a emoção
é algo abstrato,
Coisa que não se mede
Porém, Também mente
e mente estratosfericamente
Quem diz que os sentimentos
são inatingíveis quantitativamente
Nunca mais eu pude
me expressar tão bem
como no tempo de criança
Quando eu podia
ignorar as regras
"Mãe, eu gosto de você até no céu
e meu é maior que o mundo"
Todo mundo morria de rir
enquanto eu vivia chorando
mas me vinha
aquela ideia
de vez em quando:
Quando crescer, serei poeta
e quanto melhor
eu souber escrever
menos eu vou usar
a forma correta
criaram tanta regra pra gente
me impedindo de ser feliz, realmente
Três toneladas de felicidade
dez quilômetros de alegria
quinhentos graus de entusiasmo
Setenta libras de amizade
porém, veio a justa forma
E transformou
tudo em marasmo
desisti de ser poeta
Tentando usar a forma correta
Pra falar sobre o que sentia
E enquanto tempo
Eu perdia e perdia
os anos me consumiam
enquanto os dias eu contava
os sentimentos me transformavam
nada muda tanto a gente
Quanto aquilo
Que a gente
Não sente.
Edson Ricardo Paiva
A gente vai vivendo a vida
Correndo as estradas do mundo
Repletas de descidas
e fartas encruzilhadas
A gente vai vivendo
a vida torta
Por essas estradas
Sem intendência ou fiscalização
Somente um pedaço de chão
esburacado
Só
A gente vai vivendo
essa vida sem parada
Juntando ao longo do caminho
o pó das diversas estradas
Esperando pelo dia
Em que alma parta
E que todas as lembranças
Sejam inexoravelmente
Engolidas pela terra
e esquecidas
E a gente
um dia também vire pó
espalhados pelas tantas estradas
de outras vidas
Edson Ricardo Paiva
As coisas
Que a gente sente
São coisas sentidas
Pela gente somente
Apesar de parecer
Que todo mundo sente
Mas ninguém jamais
Poderá saber ou sentir
do jeito que a gente sente
O coração
é um buraco sem fundo
Mas ali cabem somente
As coisas
que apenas a gente sente
Umas coisas passam depressa
Outras, arraigadas e enraizadas
Doem profundamente
Como podem ser profundos
Todos buracos sem fundo
Que existem no mundo
Tudo isso
Parece mentira
Mas na realidade
a gente sabe
Haver ali
Sempre um fundo de verdade
Edson Ricardo Paiva
Quando o coração da gente
Se faz paz por um momento
E aceita porque quer aceitar
Creia que existe um Universo
E tudo que há dentro e fora
Poderá ser posto agora
Em um Poema de três versos
E ainda sobra espaço
Pra passar um traço no final
E levar o coração
Pra onde quiser
Tudo isso apenas depende
Se esse coração
Realmente quer
Edson Ricardo Paiva
Pode até parecer
Que a gente entende
Nas horas de amigos
A gente conversa
Confessa promessas
Que o tempo esqueceu
E que a gente trocou
Por outras
que também não fez
Pode parecer que não
Mas há muitos segredos
escondidos
nos desvãos da vida
Que, na dúvida, guardamos
Na lista dos planos
deixados pra depois
Coisas das quais
hoje a gente se arrepende
Algumas porque fez
Outras
Porque deixamos passar
Aguardando pacientemente
a nossa vez
Que nunca chegou.
Edson Ricardo Paiva.
No dia em que a gente nasce
Se esquece de tudo que disse pra Deus
Esquece-se até de que Deus existe
Deus permite e não Se esquece
de cuidar da gente, em nenhum dia
Ao longo da Estrada
Encontramos
Os presentes que Deus nos envia
Muitas vezes não percebemos
Que muitas daquelas dificuldades
São lições
Escritas num livro, difícil de Ler
Mas Deus zela pela gente
Com aquele cuidado
Que poucos pais deste mundo tem
E ao longo desta vida
Põe subidas e descidas
Nos desenhos repletos de sombras
e a gente nunca percebe
Que também recebe o carinho
De um Pai que Está olhando
A nossa lição
Por cima dos nossos ombros
Segurando a mão da gente
Pra ensinar a firmar o traço
E fazer o desenho sair mais bonito
Mas sempre chega o dia
Em que a gente
Começa a perceber
Que no nosso papel da vida
O desenho e todas as demais lições
Vai aos poucos
Tomando aquela forma
Que a gente combinou com Deus
A missão que recebeu
e depois se esqueceu
Naquele momento confuso
Em que nasceu
É por isso que o Tempo de Deus
é muito diferente do nosso
E o traço de Deus
Só depois de muito tempo
faz a gente ter noção de espaço
Aquela dor que sentíamos nas mãos
Era apenas uma fase
Que todo mundo precisa passar
Pra aprender a lição recebida
Agora
Eu olho o desenho e a lição
Que Deus desenhou
Segurando em minhas mãos
e vejo
Que desde o último minuto
O desenho começou a tomar forma
E está ficando bem bonito
Só agora
Juntando letra com letra
Percebo também
O que é que Deus
Havia Escrito
Amém.
Edson Ricardo Paiva
"O preço de tudo isso
É o quanto isso vale pra gente
E não o que o mundo lhes dá
De má vontade
Pois a bem da verdade
O mundo mente."
Edson Ricardo Paiva
