Professor Carlos Drumond de Andrade

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Sempre vimos boas leis, que fizeram com que uma pequena república crescesse, transformarem-se depois num peso para ela, depois de grande.

Hoje, setenta por cento da humanidade ainda morre de fome... e trinta por cento faz dieta.

Um leitor inteligente descobre frequentemente nos escritos alheios perfeições outras que as que neles foram postas e percebidas pelo autor, e empresta-lhes sentidos e aspectos mais ricos.

Não construais estátuas aos vossos heróis, é melhor erguer estátuas às vossas vítimas.

Os soberbos são ordinariamente ingratos; consideram os benefícios como tributos que se lhes devem.

O invisível é real. As almas têm o seu mundo.

Nós apenas trabalhamos para encher a memória e deixamos o entendimento e a consciência vazios.

É preciso que um autor receba com igual modéstia os elogios e as críticas que se fazem às suas obras.

Num povo ignorante a opinião pública representa a sua própria ignorância.

O aborrecimento entrou no mundo pela mão da preguiça.

O silêncio, ainda que mudo, é frequentes vezes tão venal como a palavra.

A autoridade não se consegue sem prestígio, nem o prestígio sem distanciamento.

Os que têm tentado reformar os costumes do mundo, no meu tempo, com opiniões novas, reformam os vícios da aparência; quanto aos da essência, deixam-nos intactos, quando não os aumentam.

O homem mais sensível é necessariamente o menos livre e independente.

Nas revoluções políticas os povos ordinariamente mudam de senhores sem mudarem de condição.

O mundo não deve ter fronteiras, mas horizontes.

Há muita gente que, assim como o eco, repete as palavras sem lhes compreender o sentido.

Ensinam-nos a viver quando a vida já passou.

A luxúria é como a avareza: quantos mais tesouros tem, mais sôfrega se torna.

Telha de vidro

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!