Preto

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As imagens em preto e branco sussurravam.


Havia uma voz intima em cada canto.


Ouvi novamente minha mãe a perquirir:


- Sabes para que servem as andanças?


Para que possamos volver a casa,


Onde fundamos despertares.


In Poema " A CASA"

Monalisa é Jesus de preto no calendário anual.

O Tribunal do Saco Preto


Passava das duas da tarde e o calor, aquele típico aqui de Altamira que parece derreter até o pensamento, castigava as ruas empoeiradas de Cachoeira da Serra. Empurrando meu carrinho de coleta pelos restos de asfalto quente, eu ia fazendo o meu trabalho diário de recolher o que os outros não querem mais. Parecia que eu tinha meu próprio sol ali, bem do meu lado, fazendo-me cozinhar por dentro e escaldar por fora, mesmo assim, a mente trabalhava mais rápido que as mãos.


Dizem por aí que para conhecer os segredos de uma pessoa, basta invadir o celular dela. Bobagem. Como trabalhador das ruas, eu garanto: quer saber quem é alguém de verdade? Esqueça a senha do Wi-Fi e olhe para o lixo que ela joga na calçada.


Outro dia mesmo, passei na frente da casa do "Doutor" da esquina, aquele que anda de caminhonete importada e fala alto no celular para todo mundo ver. No saco de lixo dele? Só embalagem de macarrão instantâneo, garrafa de cachaça barata e notas de cobrança rasgadas. Na mesma rua, parei na casa da Dona Rita, que anda a pé e conta as moedas para comprar a farinha nossa de cada dia. A lixeira dela estava cheia de aparas de lápis e rascunhos de redação escritos à mão pelos netos — o retrato claro de quem investe o pouco que tem na esperança de um futuro melhor.


É engraçado como a gente vive em uma época de aparências. As pessoas postam fotos sorrindo, vestem roupas de marca e fingem que a vida é um comercial de margarina. Mas o lixo não tem filtro de rede social; ele é fidedigno, não sabe mentir. No momento em que você dá um nó na sacola, a sua privacidade acaba e a sua verdadeira essência é exposta na calçada. Como bem disse Veríssimo em uma de suas crônicas, através do lixo, o nosso particular se torna domínio público.


A verdade é que a lixeira é o nosso maior tribunal. E enquanto eu separo o papelão do plástico debaixo desse sol de rachar, só consigo rir sozinho da ironia de tudo isso. Fica a pergunta para você, que me lê agora: quando eu passar na frente da sua casa amanhã, o que o seu saco de lixo vai fofocar sobre você? Hum?!


ALENCAR.V.C.

[Superstições]


Encontrar aquela gata de preto
Em plena sexta-feira 13,
Foi sorte demais
Pruma vida só.


(Michel F.M. - Altas do Cosmos para Noites Nebulosas - Trilogia Mestre dos Pretextos)

Sou aquela preto que não deixa nada em branco.

Preto, favelado, sonhador.
Menino nascido em São João de Meriti,
onde o medo vestia fantasia de alegria,
e sobreviver já era uma forma de poesia.

Foi no barro que criou raízes,
foi na luta que encontrou as cicatrizes.
Cada queda lapidou sua coragem,
cada lágrima desenhou sua viagem.

O menino amado pela avó virou homem,
e seus passos hoje carregam um sobrenome.
Muitos conhecem Matheus Albuquerque, o rosto, a presença, a fama.
Mas só ele conhece Matheus Silva, a alma que nunca se engana.

Sua ousadia rompeu fronteiras,
transformou ruas em passarelas inteiras.
Nunca esperou a porta abrir,
aprendeu cedo que nasceu para construir.

Chamaram de louco... ele sorriu.
Chamaram de impossível... ele insistiu.
Enquanto muitos duvidavam do seu valor,
ele alimentava, em silêncio, o próprio ardor.

Começou pequeno, sem palco e sem plateia,
mas quem nasce gigante nunca aceita uma plateia pequena.
Seu verdadeiro sonho nunca foi apenas vencer,
foi encantar, emocionar, transformar e fazer acontecer.

Matheus... Matheus... Matheus...
Um nome. Mil versões.
Mil talentos. Mil missões.

Erra, aprende, cai, levanta.
Recomeça antes mesmo que a dor o espante.
Porque quem conhece o próprio propósito
nunca se rende ao improviso da sorte.

Poucos conhecem o peso do seu passado.
Poucos imaginam tudo que foi sacrificado.
Mas o futuro... ah, esse não pertence ao acaso.
Pertence à coragem de quem nunca desistiu do próprio traço.

Continue sendo intenso.
Continue sendo diferente.
Continue sendo o improvável que desafia o evidente.

Seja louco o bastante para sonhar.
Forte o suficiente para continuar.
Humilde para aprender.
E gigante para nunca deixar de crescer.

Porque o destino não escolheu um homem comum.
Escolheu alguém que nasceu para inspirar multidões.

Que ontem seja apenas lembrança.
Que hoje seja sua força.
E que amanhã seja a prova de que quem acredita, resiste; quem resiste, conquista; e quem conquista deixa de ser apenas lembrado… para se tornar inesquecível.

Mesmo com o amor no preto e branco é possível se viver momentos inesquecíveis.

Quando você estiver passando por momentos difíceis, e a vida parecer estar em preto e branco, lembre-se do calvário de Jesus, ele suportou tudo calado, simplesmente por AMOR..

Um menino pintado de vermelho...
Vivendo em preto e branco...

Sinto que minha vida é um filme em preto e branco passando em uma sala de cinema vazia, onde eu sou o único espectador que não consegue ir embora antes dos créditos finais. A beleza está no contraste, na forma como a sombra define a luz e a ausência define o que restou.

Preto e branco?


A vida não é só preto e branco,
há espaços em cores,
há nuances, há apostas,
sem respostas.
Há bem mais...
que apenas duas posições,
radicalmente opostas...
há mistérios insondáveis,
impenetráveis...
Há o conhecido sim,
e o desconhecido também,
o que poderia ter sido...
há o sentido, o avesso,
sem sentido...
sexto sentido,
o encontrado, o perdido.
O tropeço...
o oculto,
o revelado...
A vida não é só um lado,
e outro lado...
não é só presente e passado.

"Refém do Invisível"

Sento no chão, olhos no nada,
o mundo em preto e branco,
e eu… desbotado.

Culpa que não é minha,
peso que não é meu,
mas me jogam, me culpam,
como se ser mais novo
me fizesse de ferro,
me fizesse imortal.

Amei até doer,
me humilhei pra ter migalhas,
e hoje sou refém
de um amor que me acorrenta,
de uma vida que me arrebenta.

Queria sumir, desaparecer,
não pra fugir...
mas pra saber se alguém sentiria minha falta.
Se alguém olharia pro vazio e pensaria:
“Ali existia alguém... alguém que só queria ser amado.”

O que eu fiz de errado?
Por que sempre eu?
Por que meu grito ecoa no nada
e ninguém ouve, ninguém vê, ninguém sente?

Talvez... talvez me atirar no silêncio
seja mais fácil do que continuar implorando
pra existir, pra ser visto, pra ser ouvido.

Mas… entre o abismo e o chão,
talvez exista uma mão.
Talvez exista um recomeço,
talvez, só talvez...
exista vida além do peso,
exista cor além do cinza,
e eu aindanãoenxerguei.

Se o seu marido está doente, compre logo um vestido preto.

Sonhei com um touro preto, querendo entrar pela porta para me atacar.




Agosto de 2024

Gato preto segue o teu curso,
Não cruza o meu caminho
Preciso de sorte pra caminhar sozinho
Preciso de uma gata
pra caminhar com sorte
Preciso de um urso para ser mais forte
Gato preto na encruzilhada é espirito ruim,
Na madrugada é mau sinal,
No meio do caminho é tempo de azar,
Gato preto, meu pesadelo,
Tigresa dente de sabre,
Dromedário no deserto,
Gato preto fica esperto,
Não fica perto, perto de quem come...
Longe de quem trabalha, não atrapalha,
Tá chegando o carnaval,
Não vai virar tamborim...

A tua ida aos céus

Um carro preto, tão escuro quanto o céu, aconchegava dentro de si um belo casal de humanos.
Humanos estes que, a todo momento, ficavam batendo nos cantos.
Um jovem casal belissimamente lindo!
Pena que o jovem rapaz não sabia o que estava vindo…

Ao ligar o velho motor, tomou-se pela dor,
porém preferiu ignorá-la, para não tirar de sua garota o sorriso.
Garota elegante, com olhos cor de madeira e cabelo cor de petróleo,
olhava-o com certa ambiguidade em seu olhar.
Pena que o jovem não houve de notar.
À toa, o carro gastava seu óleo.

Cada hora da noite — noite esta que se assemelhava mais à eternidade — os dois, novamente, demonstravam um amor que, confesso eu, nunca antes recebi, um amor cheio de reciprocidade.
Como queria estar igual aos pombinhos, amando na flor da idade!
Continuemos…
Seguiram-se amando, trocando beijos e palavras lindíssimas.
Pena que, para o jovem rapaz, estas seriam as últimas.

O seu olhar a fitava, amava e a desejava ao seu bombeador de sangue.
A sua mão a tocava, ou melhor, tratava-a como a uma mulher.
Depois de um tempo, a viagem seguiu.

Um caminhão, maior que minha mão, foi de encontro ao carro.
Talvez para cobrar-lhe uma antiga dívida?
Pena saber que, para o jovem, o combinado custou caro.
A jovem, por sua vez, teve a sua saúde mantida.

Colocaram o jovem sobre uma caminha — acredito que se chame “maca” —
e levaram-no, com certa despreocupação, a uma salinha cujas paredes e cujo teto eram brancos e sem vida.
No lugar, não havia nada, mas isto não era um problema ao rapaz,
pois ele sabia que, ao fim, teria perto de si sua mulher.

Os dias corriam de um lado ao outro, claramente sem rumo algum.
No entanto, não havia preocupação,
porque carregava a imagem daquela detentora de seu coração.
Não se queixava de remédio nenhum.

Os olhos, ainda brilhantes, namoravam a porta.
Sempre achei aquela porta digna de ser aberta por uma linda dama
que, no momento em que estivesse eu dentro de uma ilusão, me visitasse na cama,
que segurasse, em suas mãos de coelho, uma deliciosa torta, sorrindo para mim enquanto uma fatia corta.

Desculpe, continuemos…

O tempo muito se passou,
e a moça, no prédio, nem sequer pisou.
Pelo grau do acidente, o pobre rapaz perdeu parte de sua coordenação motora da região inferior.

Se ao menos ela o visse, poderia facilmente tratar de seu caso com o seu simples amor.
Se ao menos… Se ao menos tivesse…

Aos poucos, o movimento no interior foi diminuindo…
Mesmo em sonhos, não a conseguia ver ao seu lado sorrindo.
O lugar tornou-se um velho prédio onde todos os profissionais ficaram à disposição.
Suas pernas, já saudáveis, entrelaçavam os dedos ansiosamente.
Seus dentes chocavam-se uns contra os outros de nervoso,
e seu coração se quebrava em sua totalidade. Neste momento, arrisco dizer que parte dele foi eliminada pelos sucessivos vômitos de tristeza.
Ao final de seus dias, ficava de prantos em sua pequena mesa.

Na hora de sua partida, pegou seus pertences, derrubando um oceano de mágoas pelo chão.
No instante em que deixou o hospital, olhou ao pobre e triste céu,
querendo ver novamente sua amada e cobri-la com um lindo véu.
Pobre jovem… não há nada neste mundo material para segurar sua mão.

O homem foi caminhando a um local cheio de pedras com formato de paralelepípedo.
O lugar era belo; havia uma quantidade rica de flores deixadas por aqueles que, igual a ele, sentiam as mesmas dores.
Ele, a fim de honrar o local em que estava inserido, levava consigo um lindo conjunto de rosas que, milagrosamente, deixaram-no com o peito aconchegado.

“Como eu a amo!
Como eu a vislumbrava!
Uma mulher que, durante sua vida, feliz o meu coração deixava!
Como eu a amo!”

Àqueles que veem tudo em preto e branco, sobra ignorância e falta massa cinzenta.

O sistema enxerga tudo em preto e branco, transformando tudo em cinzas!

CHÃO PRETO II




Há um lugar distante
onde a relva perdeu a cor,
a seiva já não percorre as entranhas
e a chuva não umedece o chão.


O arado corta a terra,
finca as pontas como a rasgá-la
e diz:


“Tu és chão e terra preta
onde fornicas com as sementes
de onde nascem abrolhos
e não pureza.”
Teu chão é preto
como um coração amargurado.
Seca, já não recebes
o orvalho das manhãs
que outrora encantavam
teus pomares.


Vieste do seio da terra
e abdicaste da formosura.
Como a praga que emudece
e rouba a clorofila das plantas,
assim estás entre os picados
pelo besouro de prata:
secaste, cegaste,
planta que fenece sem luz.


E desse esvaziamento nasceu
teu intento, abrasivo e tenro,
prostituindo a alma,
despertando forças obscuras,
beijando o sinete do rei
que te fez algoz
da própria sorte.
Jaz adormecido
esplêndido
na tua bolha.


A cantiga que o vento soprava
e te fazia dançar
hoje te quebra
no limiar das pétalas.
Entre tantos adubos,
restou-te apenas
tornar-te mais um.


Ergam as mãos
e atire a primeira pedra
quem saiu ileso.
Evoquem os deuses
e, em assembleia abstrata,
certifiquem a falsa epopeia
dos grandes vassalos
que, com retóricas altivas,
oprimem esta terra
e fazem dela
chão pisado.


Ysrael Soler

Chão Preto

Quem sabe um dia
Deus desça a olhar
a terra e perceba
que ela está doente.
E quem sabe lá
escute o clamor
desta terra
que tem
o chão preto
como coração
atravessado de ódio
E rancor...

Nem Odin
lançou tantas flechas
no auge de sua tempestade.
A promessa que me faço
é de...
Guardar a pureza
onde o olhar
de maldade não a alcance...
O mundo só sofre
Porque perdeu seu rumo
E disfarça o choro
Com máscara de alegria...

Ysrael Soler

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