Porque sou assim
Hoje eu sou feio. Mas já fui o menino mais desejado da escola. Uns desejavam me bater, outros me matar.
Não sou contra um Estado nuclearmente armado por ser pauta da esquerda, nem contra o armamento civil por ser pauta da direita. Sou contra o armamento inconsciente, por ser cristão.
Sou muito da poesia, mas se a vida me empurrar para a artilharia,
jamais vou me furtar.
Porque há em mim uma inclinação natural para as palavras que curam, para os silêncios que acolhem e para as metáforas que ajudam o mundo a respirar um pouco melhor.
A poesia, afinal, é o território onde a sensibilidade ainda tem cidadania e onde a humanidade tenta se lembrar de si mesma.
Mas viver não é apenas contemplar.
Há momentos em que a realidade deixa de pedir versos e passa a exigir coragem.
Momentos em que a delicadeza, sozinha, já não protege quase nada — nem a dignidade, nem a verdade, nem a própria vida.
Nessas horas, permanecer apenas na poesia pode ser confundido com ausência, e silêncio pode parecer concordância.
Não porque a poesia seja fraca, mas porque existem tempos em que até a beleza precisa aprender a defender-se.
E nem se trata de abandonar a poesia, mas de compreender que ela também pode vestir armadura quando necessário.
Que quem cultiva sensibilidade não está condenado à passividade.
E que defender aquilo que dá sentido à vida também é uma forma de honrar tudo aquilo que a poesia sempre tentou dizer.
Ser da poesia é escolher, sempre que possível, o caminho da palavra antes do confronto.
Mas é também saber que a dignidade não pode ser permanentemente desarmada.
Porque quem ama profundamente a vida não luta por amar guerra — mas para que ainda exista mundo suficiente onde a poesia possa continuar respirando.
Sou favorável à Democracia e contrário ao Conservadorismo, ao Patriotismo e ao Cristianismo igualmente Fabricados.
Não porque toda forma de Conservadorismo seja necessariamente ilegítima, nem porque amar o próprio país ou professar a fé cristã sejam, por si mesmos, problemas.
O que me inquieta, e muito, é outra coisa: quando essas palavras deixam de nomear convicções e passam a funcionar como Produtos Ideológicos cuidadosamente embalados para despertar medo, orgulho, culpa e até obediência cega.
Há um Conservadorismo que nasce da prudência, da experiência e do desejo de preservar aquilo que possui valor.
Mas existe também um Conservadorismo Fabricado, que transforma qualquer mudança em ameaça, qualquer questionamento em afronta e qualquer tradição em argumento de autoridade.
Nesse terreno, conservar deixa de significar cuidar do que merece permanecer e passa a significar simplesmente impedir que o mundo seja diferente.
Há também uma diferença entre amar um país e transformar o Patriotismo em instrumento de mobilização.
O Patriotismo Fabricado não pede apenas que amemos a terra onde nascemos; exige demonstrações públicas de lealdade, cria inimigos internos e externos e, muitas vezes, transforma símbolos nacionais em uma espécie de salvo-conduto moral.
Como se uma bandeira pudesse substituir uma consciência e um hino pudesse dispensar o Pensamento Crítico.
E há o Cristianismo Fabricado: não necessariamente aquele que nasce da fé, da espiritualidade e da busca sincera pelo Evangelho, mas aquele que é moldado conforme conveniências políticas.
Um cristianismo que fala muito de moral e pouco de misericórdia; que condena com facilidade, mas perdoa com dificuldade; que se preocupa mais em controlar comportamentos do que em interrogar a própria consciência.
Talvez o problema não esteja nas palavras — Conservadorismo, Patriotismo e Cristianismo —, mas na facilidade com que podemos esvaziá-las e preenchê-las com aquilo que desejamos que elas legitimem.
A Democracia, por sua vez, exige algo muito menos confortável: a possibilidade de convivermos com aquilo que não somos.
Ela não exige que abandonemos nossas convicções.
Exige que reconheçamos que nossas convicções não nos concedem propriedade sobre a verdade, nem autorização para retirar do outro o direito de existir, discordar e participar da vida pública.
Por isso, talvez seja necessário desconfiar das identidades que chegam prontas demais.
Daquelas que oferecem respostas antes das perguntas, inimigos antes do diálogo e certezas antes da reflexão.
Porque toda fabricação ideológica precisa de consumidores.
A Democracia, ao contrário, precisa de cidadãos.
E talvez a maior defesa da Democracia não seja escolher uma tribo para combater outra, mas preservar em nós mesmos a capacidade de pensar antes de pertencer, questionar antes de obedecer e compreender antes de condenar.
No fim, uma Sociedade Livre não é aquela em que todos pensam — ou acham que pensam — da mesma maneira.
É aquela em que ninguém precisa deixar de pensar por conta própria para poder pertencer.
A praia pode
estar deserta,
Você nunca
estará sozinho,
No coração
sou presença
que não
se ausenta
nem quando
o olhar
se distancia.
Eia a indecência
que te aquece
como o sol,
aos teus lábios
é sal e oceano
que te intensa!...
O silêncio é
a proposital
forma de
trazer a tona
o que arrepia,
e para você:
sou o sublime,
o apelo,
o que levita
e a tua fantasia.
Não, eu não preciso ser salva.
Sou a minha própria salvação.
Não, não sou refém!
Não sirvo a ninguém!
Nasci livre, criei asas, quebrei minhas correntes.
- Marcela Lobato
Sou a luz e a sombra
O bem e o mal
A união de todas as coisas
O caos e a paz
Sou o infinito de um universo
Finito em sua limitação
Em um mundo de prisões e correntes
Me jogo no mais profundo dos abismos
Para encontrar a libertação
Do caos, renasço em fogo e sangue
Trocando de pele como uma serpente
Mas mesmo que a essência se mantenha
Eu já não sou a mesma
Caminhando na escuridão da noite
Não aceito as algemas do carcereiro
E quando for o momento
Sairei do meu próprio jeito
Com a cabeça erguida
Por jamais ter sido submissa
E muito menos subordinada a todo esse teatro
A essa peça de marionetes mal acabadas.
- Marcela Lobato
Às vezes sinto que você não se importa
Às vezes sinto que sou um nada
Mas eu sei que você se importa
E que o medo é o que te consome
Como eu queria que pudesse vencer
Que não me deixasse mais assim tão sozinha
Como eu queria que pudéssemos viver
O final feliz, longe da tragédia continua
Mas estarei aqui, até onde puder ir
Sempre sonhando em te encontrar
E dizer aquilo que jamais disse
E viver o meu maior sonho
Que acima de qualquer coisa
É, sempre foi e sempre será
Você.
Escrevo sob corpos. Cada música é uma morte. Em todas, eu sou a vítima, deixando sobre o chão o meu próprio cadáver. Renasço como uma vampira, e sugo o meu próprio sangue para fazer da dor uma nova arte, enquanto gasto todas as minhas vidas, até que chegue o dia onde sol me queime, e não me deixe mais voltar a abrir os olhos. Quando terei escrito a última poesia, a última música e o último poema. Quando finalmente a dor cessará e não terei mais que morrer para me manter viva.
- Marcela Lobato
Na escola eu era um erro, em casa eu sou um erro, amando eu quase sempre fui um erro.
Talvez eu seja mesmo um erro.
- Marcela Lobato
Não Há Ninguém
Eu sei que sou como o pó levantado na calçada de uma rua qualquer, esquecida em um beco sem saída. Sei que caminho em passos tortos, de uma espécie de rascunho mal feito e mal passado. Sei que minhas sombras me engolem nas noites em que o coração se parte.
Busco aquilo que talvez não haja, no labirinto estreito de memorias perdidas. Tantas perdas sentenciaram o peito pelo nó de uma corda amarrada em espinhos. Ao afundar, não tive ninguém. Quando me afogar, não haverá ninguém.
- Marcela Lobato
Sempre estarei aspergindo a minha essência perfumada no teu caminho, Sou feminina, apaixonada e feita só de carinho.
Não dá para disfarçar,
que da história sou
a expectadora com agonia,
vendo a adoração cega
ao poder que nos autepsa.
Ele que nunca deu
segurança nenhuma
na vida de ninguém:
qualquer pessoa comum
nos sombrios dias de hoje
sabe reconhecer um
bajulador de longe.
Ciente disso não se iluda
fazendo culto a líderes,
porque o preço disso
é bem caro e custa
não só a tua alma.
Uma América Latina repleta
de presos políticos,
e de gente dando a vida
para se livrar de ditadores;
e o nosso povo querendo
transformar as eleições
numa passagem direta
para o inferno com direito
a marcha histérica,
com 'supremo' e com tudo.
Sem temer
a noite escura,
Com o olhar
preso na Lua,
Sou a sereia
que mergulha,
Na correnteza
em busca de
levar de volta
para a terra firme:
Um General
e uma tropa
que estão presos
num obscuro oceano
profundo de injustiças,
e sem certeza nenhuma
de quando esta e outras
tragédias irão terminar.
Sem fazer ideia de que
sou loucura de capturar
o ar e que de mim não
saberá mais regressar.
Plácida é a armadilha
do destino para deixar
os dois de joelhos,
virei ocupação perene:
de todos os teus desejos.
Sem notar o meu alto
grau de atenção,
sorrateiro e seduzindo
vens o tempo inteiro.
Desde o dia em que
você decidiu aparecer
no meu caminho,
Sem colocar poesia em tudo:
nada mais tem feito sentido.
Capororocas-Vermelhas
saúdam a chuva gentil
com cortesia gratidão,
Sei que sou o seu secreto
amor que derrete o coração.
Sei que sou a dama
das tuas doidas fantasias
mais picantes e divertidas,
Nas tuas mãos serei
absoluta mais do que
uma obra prima de da Vinci,
Sou convencida que és
a maior prova de que o amor existe.
Não sou obrigada a nada,
você também não é,
somos filhos desta porção
austral continental,
Posso ser diferente,
e você também igualmente.
Não existe cultura igual
ou pior apenas diferente,
Ninguém é obrigado a gostar,
e tampouco ser exigente
espero que entendamos
isso daqui para frente
sob a sombra do Pau-Brasil.
Às vezes ter acesso
a alguma Cultura é para uns
questão de estímulo,
acesso próximo ou oportunidade
na vida simplesmente ao som
do Sabiá-laranjeira em liberdade.
[[[Sem capricho, feitiço ou maniqueismo]]].
