Poesia Felicidade Fernando Pesso
SENHA DE ACESSO
quem sabe me amar de verdade
primeiro acaricia minha alma
pra só depois invadir meu corpo
na mais completa liberdade
Sísifamente hercúlea
Que triste a nossa sina:
conviver com a morte
todos os dias
e lutar pra mantê-la
esquecida.
Getsêmani
a cruz que mais me dilacera
e que traz maior sofrimento
não é a que o ombro carrega
e sim a que pesa aqui dentro
Sem telescópio
ainda giram ao seu redor
muitas estrelas raras, lindas
não espere o cair da noite
para se dar conta de quais
brilham mais, mesmo que de dia
CANINO
o capitalismo
sempre arreganha os dentes
seja pra sorrir
ou devorar
um cão selvagem
é sempre um cão selvagem
inclusive quando
calmo ele está
DOS DOIS
para Carlos de Queiroz Telles
de amor mesmo, nada sei.
mas amo além do que posso.
ao sair de mim, te achei.
deixei de ser meu: eu sou nosso.
AMOR BACANTE
a noite divide o dia em retalhos,
cada resto de luz some num abraço.
na cama, também me desfaço:
são teus todos os meus pedaços.
BLINDADOS
para Ruy Proença
Quem se lembra ainda daqueles tempos idos
em que havia poucos muros, grades e redes?
As paredes até podiam ter ouvidos,
mas os ouvidos não tinham tantas paredes.
AMOR LÍQUIDO
para Zygmunt Bauman
Tanto e-mail, post, depoimento,
entram e saem juras de amor,
amizade eterna e sentimentos.
Para mim resta o questionamento:
fundamentalismo emocional
ou emoções sem fundamento?
DESCONSTRUIÇÃO
Quando os pais e os avós
vão aos poucos morrendo
é como um prédio antigo
perdendo os pavimentos.
Mas não é ele que cai:
sou eu
desmoronando
por dentro.
NEM FREUD EXPLICA
Em matéria de doideira,
eu não perco pra ninguém.
Depois que fui ao psicólogo,
meu psicólogo precisou procurar
um psicólogo também.
MOTO-CONTÍNUO
para Heráclito de Éfeso
A vida às vezes faz
às vezes não faz sentido.
Serão mesmo desiguais
as águas de um rio?
Muita expectativa
Acarreta frustrações
No mundo das emoções
Esta forma negativa
Atrapalha e desmotiva
Inúmeras convivências
Então tenha paciência
Vá devagar com as pessoas
Não se estresse á toa
Pra não perder sua decência.
A lágrima te ensina
O valor de um sorriso
Aonde o tempo é preciso
Ao alcance da retina
Mas um dia ele termina
Ligeiro igual trovão
E o efeito da tua ação
É o que faz você colher
Felicidade ou sofrer
Para o seu coração.
Erros servem de lição
Para trilhar o caminho
A idade é um cursinho
Que te dá graduação
Sendo esse o galardão
Através de muita dor
Você se torna o pintor
Que pinta a aquarela
Da sua vida mais bela
Com as cores do amor.
RETRATO DE MÃE
Mãe... tens o amor primeiro
O colo tão cheio de atenção
Sublime o teu doce coração
Com o teu carinho certeiro
Tens o puro nome: missão
Resignação, apoio certeiro
És tu Mãe, teor verdadeiro
Que oferta toda a devoção
Teu olhar o olhar de Deus
Bom, amigo, tão presente
No esmero dos tinos teus
És o sermão com jeitinho
Aquele amor inteiramente
Alento no nosso caminho!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
30 de agosto, 2022, 19’03” – Araguari, MG
DE NATUREZA SELVAGEM
De onde vim deixei um mundo inteiro
Minhas várias gerações
Trazendo opções
De habitar novas versões
Descobri mistérios
Entrei em vales
Acendi fogueiras
Dancei em rodas
Usei ervas
Cantei para lua
Amei ao sol
Pisei na terra
Em cachoeiras lavei-me
No mar mergulhei
Mergulhei em mim
Renasci
Renasço todos os dias
Abraço
Almas que chegam
Lavo pés, beijo mãos
Recebo bênçãos
Aprendo lições
Boas vibrações
Eu me enxergo
Eu sou vista
Eu vivo grandes conquistas
Eu sirvo
Com todos os meios
Eu curo
Com todas as fontes
Eu tenho
O mundo de onde vim
Minha origem
Eu mantenho
A verdade eu carrego
Eu entrego
Eu pinto um livro
Aquarelando as páginas
Com tons, pétalas e
O brilho de lágrimas
De fé e devoção
Que me comovem
Me movem
Me convém
Convencem
A viver a natureza selvagem
De quem eu sou
