Poesia de Pais de Pedro Bandeira
A vontade de saber e o processo de conhecimento coexistem em múltiplas fendas do tecido do intelecto, como se cada indivíduo carregasse um mapa interno de possibilidades infinitas.
O homem, neste contexto, não é mero receptor de verdades; é o artífice da própria compreensão, movido por um desejo que transcende o simples acumular de informação.
Falar em “conhecimento” é abordar uma entidade relativa: a sabedoria adquirida é sempre parcial, limitada pelas lentes de quem observa, mas a vontade de saber é absoluta — é a força motriz que impele o sujeito a atravessar o abstrato e tocar o realizar.
O conhecimento, portanto, não é estático; é ponte e travessia, movimento consciente do pensar rumo à ação, do conceito à manifestação.
O mundo se apresenta como campo de experiências, um palco onde cada decisão e cada percepção são provas da interação entre o desejo humano e a realidade.
E Deus, na perspectiva entregacionista, não é apenas criador externo, mas sim a lógica imanente que permeia o universo e a consciência:
uma presença silenciosa que estrutura as leis da existência e concede ao homem o poder de descobrir, criar e concretizar.
Assim, compreender não é apenas saber; é transformar-se na própria experiência do saber,
é unir vontade e realização, desejo e ato, mente e mundo.
O conhecimento entregacionista é, acima de tudo, a arte de ser e realizar simultaneamente,
uma dança entre o homem, o cosmos e o princípio divino que tudo estrutura.
Toda revolução começa com o cansaço.
O esgotamento leva o homem a querer algo novo.
Voltar ao passado também é algo novo.
Entregar-se ao acaso da vida é revolução — é o novo.
A Mão e a Caneta
Ela conhece o seu homem como ninguém;
sabe quando ele falha por dentro
e quando está inteiro.
Não o decifra pelo que diz,
mas pelo peso da mão,
pela tensão do toque,
pela forma como o silêncio pulsa entre os dedos.
Quando ele a toca, ela dança sem nota,
porque não há partitura para o desejo consciente.
Move-se em gestos simples e discretos,
como quem aceita o caminho sem lutar contra ele.
Não há culpa, nem espetáculo.
O amor se mostra direto,
no atrito breve entre pele e ideia.
Marcante e perfeita, ele nunca a rejeita,
pois rejeitá-la seria negar a si mesmo.
É uma união de outro plano:
não de posse, mas de rendição.
A mão não comanda a caneta.
A caneta não domina a mão.
Ambas se entregam ao traço
e deixam que o sentido aconteça.
Cansado de viver em um mundo onde acordo antes do sol para trabalhar e retorno apenas depois da lua.
Cansado de seguir padrões que em nada me favorecem, moldes que não me cabem.
Cansado de um mundo típico, estruturado para a repetição, mas não para a minha sobrevivência.
Tudo o que desejo é o contrário — e isso soa como loucura.
Mas louco, de verdade, é perceber que a multidão que me julga por pensar e ser assim
carrega, em silêncio, os mesmos desejos que eu
Se sou desastrado, significa que cometo erros.
E se cometo erros, significa que não sou perfeito.
E se não sou perfeito, logo sou um ser humano.
E sendo humano, sou um ser racional.
E sendo um ser racional, penso — logo existo.
René Descartes disse isso
Mas Pedro Cabral apenas completou sua frase.
Porque o aluno que raciocina se torna mestre
E caminha ao lado dele na jornada
“Existe beleza em não conhecer as cercas religiosas, pois elas são cultura do cárcere.
Existe beleza na falta de crença: Deus não é crença, ele é.
Existe beleza no erro humano, não como falha, mas como autenticidade.
Existe beleza no feio que pintaram sobre ser feliz — escolher o que se deseja é admirável.
Existe horror em se negar.”
Entrega Escrita
Com palavras corriqueiras, eternizo-me no teu agora.
Não faço sentido se não estiver escrito.
Lê-me, relê-me.
Lembra de mim quando pegares no papel.
Sou tua folha e tua tinta.
Canso-me ao lembrar que, no mundo, ainda persistem os que se erguem acima dos outros apenas por se acreditarem superiores.
Inúteis, fúteis, mesquinhos e miseráveis — assim são os que se julgam padrão.
Basta de hipocrisia: os que vendem felicidade são, quase sempre, os mais tristes; os que dizem ter tudo são, no fundo, os mais pobres.
Cansado estou também dos que se fazem de oprimidos para obter o que desejam — isso é ainda pior.
Mulheres, homens, velhos e crianças, todos disputando para chegar primeiro.
Pergunto: onde querem chegar?
Se pensar bem, percebe-se que a linha de chegada para todos é a morte.
Parem de mentir, de forçar sorrisos ou de querer imperar sobre os demais.
Vivam, amem, sintam. O tempo está passando.
Não é o mundo que destrói o homem.
É o homem que, ao abandonar o sentido, destrói o mundo.
Entregacionismo -
Com apenas uma linha e uma agulha, é possível tecer as mais belas peças e bordados. Contudo, com essa mesma linha — tão insignificante — e essa agulha — tão desprezível — também se pode provocar os maiores estragos, a ponto de corromper por completo a integridade de um tecido.
Entregacionismo -
Entregacionismo é viver sem fingir.
É abandonar padrões impostos, assumir quem se é e encarar a vida com verdade.
Uma filosofia de P. H. Amancio.
Entregar-se ao acaso
Eu, jovem, preso numa monotonia velha,
canso de sorrir
para esconder as lágrimas.
Canso de nadar contra a correnteza
e sempre me ver longe da borda,
muito longe da borda —
que triste.
Não quero morrer assim.
Não quero que esse seja meu fim.
Entrego-me, de corpo e alma, ao acaso.
Não faço mais planos,
nem tento controlar meus dias.
De hoje em diante, apenas viverei:
serei, amarei, gozarei.
Chega. Já me enchi demais.
Comecei a me esvaziar.
A morte não me assusta,
e a vida é uma velha amiga.
Um vento me venta e um intento eu invento.
Aqui e ali sou apenas um momento.
Se vier, vai me levar pra lá, longe me prender.
Lá onde me calam e não podem me socorrer.
Se for assim, então que minha voz logo se espalhe,
antes que venham e tinjam de preto a mortalha
que cobre minha nobre elegância, que mataram quando ainda era criança.
Antropometria, uma baixaria esculpida e despida, a pobre Luzia.
Preço bem baixo, essa mercadoria.
Quem olhou decidiu que não mais pagaria.
Sem valor, a obra sofre calada, desnuda.
Feita para alegrar os olhos, porém tudo muda
quando aquele que vê já desvaloriza a alma da arte que fora esculpida.
Um andar pela rua que não é segura faz "té" fraquejar,
coração confinado num peito sem espaço quer bombear.
Oprimido de vício, chorar é preciso para se salvar.
Mas se for bem de noite, só pede socorro se alguém quiser te ajudar.
Declamo aos penetrantes, estrênuos, loquazes
Reclamo quão infames, nocivos, temperamentais
Dai-me espaço para ser quem sou
Tão sem força deixam a minha voz
Declamo aos que me escutam, mas me deprezam
Aos que sabem da minha verdade, mas que me calam por pura maldade
Dai-me tempo para que eu consiga convencê-los
Dai-me liberdade de fala para que possam me conhecer
Digo: sejam, nem que por uma vez, humanos
Repito: dai-me espaço, preciso só de um dia, nem chega a ser um ano
Querem saber quem sou sem me deixarem apresentar
E, quando me deixam mostrar quem sou, mandam-me calar
Peço: deixem-me ser assim
Esse sou eu
Deixem-me andar nesse caminho, ele é meu
Deixem-me viver com o meu eu
P. H. Amancio.
Ser livre é algo errado? Por que tanta represália quando vivemos como queremos, então?
Seria mais prático apenas viver a vida, sem julgar ou palpitar nas escolhas alheias.
Usamos bases fictícias para moldar a nossa verdade; que blasfêmia isso! O prazer é real, palpável, tal qual a felicidade. Tudo existe de verdade e é para ser experimentado por nós sem nenhum tipo de rótulo.
Será que a felicidade e o prazer se tornarão mitologia? O que está matando essa verdade?
A pluralidade é a graça da coisa. Tudo anda tão igual...
Mesmos dias,
Mesmos rostos,
Mesmos gostos,
Mesmos cheiros,
Mesmas sensações.
Nada muda,
Nada novo.
Presos em infernos que não são nossos.
A vontade de cada um se tornando nula por uma verdade universal. Cadê a liberdade que tanto se prega? Estamos voltando para a era das trevas. Precisamos soltar os iluministas presos em nossas vontades reprimidas, para que possamos mudar o futuro de nossa civilização.
Os influenciadores são os novos ditadores, e os padrões são os métodos de tortura. Todo o poder está localizado na placa-mãe. Revolução já! Iluminismo já! Tudo se repetindo...
Monólogo do Caráter
Agora, neste exato momento, percebo que me perdi há muito tempo. Carrego o vazio que eu mesmo construí ao desistir de sustentar o progresso. Culpo-me por abandonar o que me fazia bem em nome do que parecia correto aos olhos de outros. Como retornar ao instante em que me anestesiei com a pílula da mesmice?
Será mesmo falta de tempo? Não. Falta-me foco, falta-me organização — coisas que nunca aprendi a cultivar. Devo continuar idealizando futuros belos ou despertar para transformar a realidade? A responsabilidade por não ter e por não ser recai apenas sobre mim.
Caminho sempre contra a multidão, mas quem garante que não são eles que avançam, apressados, na direção errada? Quem, afinal, está certo?
Não me reconheço como produto do meio; sou o meio que produz. Produzo, sobretudo, perguntas. Os animais sabem que são animais? Também eles existem moldados pelo ambiente. Reproduzir não é consciência — é apenas persistir. Eu não quero ser apenas mais um. Quero ser mais dois.
A ânsia de mudar o mundo sucumbe à minha própria inconstância. Sei que posso, sei que possuo os meios para ser o que é necessário, mas o medo do fracasso me visita diariamente. Cada vez que escolho a comodidade, recuso a humanidade. Inclino-me, esqueço-me, escondo-me.
Perdoa-me, mundo —
disse o caráter.
Monólogo do Diabo
O que fazes neste dia memorável?!#11;Se nem ao teu paladar o doce é agradável.#11;Dizes ser e ter, e aí, caído, nunca nem soubeste o que é vencer.
Levanta-te quando se cansa de estar caído, apenas para dizer: “se fosses tu, não faria aquilo”, e logo retornas à beira daquilo que nem sequer existe.#11;E aceitas este destino como se fosse uma vida de estirpe.
Ah, os caminhos… Pensas ser tu um mapa, uma bússola… um norte?!#11;Pobre, aceitas que não és mais um nobre.
Para um pouco de me dizer o que já se foi. Olha, o futuro é novo. Nem tu, cheio de letras, podes me dizer o que é a verdade. Não me atrairás mais, desprezo o teu “oi”.
Nem te levantes. Já perdi tempo tentando mostrar-te que já se passam anos. Nem mesmo podes me dizer: “eis, aqui estão os meus planos”.
Será que devo calar-me?! Afinal, nem mesmo tentei apresentar-me.#11;Tu eu conheço bem, já foste meu alguém.#11;Agora que já tempo nem se tem, eis o nome que me foi dado.#11;Prazer, me chamo Diabo.
Sintaxe da Existência
Existem pessoas de muitas formas: enquanto uma sorri, a outra chora.
Existem pessoas sem sentimentos; umas são eternas, outras apenas de momentos.
Uma é vírgula tensa: define a pausa, mas não a sentença.
Outra é travessão: exibe a fala de alguém, mas nunca a própria visão.
Há quem seja interrogação, sempre com dúvida no coração.
Há quem seja exclamação: quando aparece, traz emoção.
Há quem se pareça com o ponto e vírgula, cheio de hesitação na vida.
E existem os dotados das ciências, como as reticências —
sabem muito, mas nunca dizem tudo.
A Ordem Primeira
Sobre Ele, nada;
sem Ele, o que é não pode ser.
Ele é a ordem primeira,
Ele é o fluxo perfeito.
Ele é o criar do dia
e o destruir da noite.
Ele é a entrega perfeita
e a resposta expressa.
Ele é natural.
Esse é a ideia de Deus no Entregacionismo.
Há beleza no ato de observar, e há beleza em tudo aquilo que se oferece ao olhar. Pois compreender que tudo o que existe um dia foi nada — e que inevitavelmente caminha para sua própria anulação — revela a profunda compreensão de que o eterno não passa de uma ilusão do desejo, enquanto a finitude se manifesta como a mais autêntica forma de beleza.
O que nasce carrega em si o destino de cessar, e é justamente nessa transitoriedade que reside sua grandeza. Há beleza em tudo o que se desfaz, porque ao alcançar o fim cumpre plenamente sua essência. Existir, completar-se e extinguir-se: eis o ciclo que confere sentido ao ser.
A plenitude não está na permanência, mas na conclusão. E nisso habita o belo.
