Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Toda figura de linguagem expressa compactamente uma impressão sem indicar com clareza o fenômeno objetivo que a suscitou. Decomposta analiticamente, revela-se portadora de muitos significados possíveis, alguns contraditórios entre si, que podem corresponder à experiência em graus variados. No Brasil de hoje, todos os 'formadores de opinião' mais salientes, sem exceção visível — comentaristas de mídia, acadêmicos, políticos, figuras do show business — pensam por figuras de linguagem, sem a mínima preocupação — ou capacidade — de distinguir entre a fórmula verbal e os dados da experiência. Impõem seus estados subjetivos ao leitor ou ouvinte de maneira direta, sem uma realidade mediadora que possa servir de critério de arbitragem entre emissor e receptor da mensagem. A discussão racional fica assim inviabilizada na base, sendo substituída pelo mero confronto entre modos de sentir, uma demonstração mútua de força psíquica bruta que dá a vitória, quase que necessariamente, ao lado mais barulhento, histriônico, fanático e intolerante.
Todo discurso ideológico busca, por definição, identificar os valores que defende com aqueles que já são aceitos majoritariamente pela platéia, isto é, assumir sempre ares de bom-mocismo.
Lendo na Bíblia a vida de Moisés, de Abrahão, de Isaac, de Jacó, de Davi e de tantos outros, uma conclusão se impõe inexoravelmente: para considerar alguém PERFEITO, Deus exige muito menos do que qualquer imbecil palpiteiro. Os imbecis são sempre juízes mais severos do que Deus. Se até n'Ele encontram facilmente algum defeito, como não o encontrariam também naqueles que Ele considerou perfeitos?
"A total sinceridade do homem para consigo mesmo e para com Deus, é a condição número um do conhecimento da realidade."
Se estou tentando preparar INTELECTUAIS, deveria ser óbvio à primeira vista que escritos de ordem puramente jornalística ou polêmica, sem especial relevância científica, literária ou filosófica, não bastam para habilitar ninguém ao estatuto de aluno modelar do Olavo de Carvalho.
Existe uma diferença enorme entre um ideal político substantivo e a camada de adornos verbais de que se reveste. Verbalmente, o socialismo é igualdade, liberdade, etc. e tal. Substantivamente, é a unificação de poder político e econômico, portanto a criação de uma casta governante mais poderosa e mais dominadora do que a anterior. O socialismo não é ruim porque se desviou do seu ideal, mas porque o realizou.
A superioridade intelectual, no Brasil, é uma anomalia, um pecado e um crime. Todos os que nasceram amaldiçoados por esse dom foram vítimas de difamação e boicote. As únicas diferenças, no meu caso, são a profusão de ataques simultâneos e articulados (ininterruptos há duas décadas) e a total ausência, neles, de críticas intelectuais, tudo não passando de intrigas miúdas, rotulações pejorativas e atribuição de crimes imaginários.
Você pode ser um bom filósofo sem nunca ter estudado lógica ou qualquer 'técnica de argumentação', mas não pode sequer ser um filósofo de segunda categoria se não souber MEDITAR, isto é, rastrear as suas idéias até a sua raiz mais profunda -- às vezes totalmente oculta -- na experiência real. Um esforço análogo ao que é o exame de consciência na religião. TODO o platonismo é uma sondagem desse tipo, e o platonismo é o modelo imortal de toda filosofia. Não conheço nenhuma escola de filosofia, no mundo, que ensine a praticar isso. O estudante aprende a argumentar, mas não adquire a menor idéia do que é meditar. Considero um escândalo que um filósofo profissional como Sir Michael Dummett defina a filosofia como uma atividade 'para quem gosta de argumentos abstratos'. TODA argumentação é filosofia de segunda-mão. Só um cretino, lendo Sto. Tomás ou Duns Scott, imagina que eles passassem o tempo todo buscando argumentos. Eles eram homens de formação monástica, para os quais a prece era TUDO. Seu esforço era todo interior. Alcançada a necessária concentração espiritual, os argumentos vinham sozinhos, sem esforço.
Se existe consciência fora do corpo, sem qualquer atividade cerebral concomitante – e está cada vez mais difícil negar que existe –, e se, por outro lado, há inumeráveis estados de consciência que são inconcebíveis sem corpo e cérebro, então é forçoso concluir que o cérebro não cria a possibilidade da consciência mas limita, enquadra e determina o seu exercício dentro das condições do espaço-tempo terrestre. TER um corpo é uma modalidade de consciência.
A 'ética laica', a 'educação para a cidadania' é o que sobra no exterior quando a consciência interior se cala e quando as ações do homem já nada significam além de infrações ou obediências a um código de convencionalismos e de interesses casuais.
A perspectiva profissional em filosofia é muito prejudicial. Quando se quer virar filósofo ou professor de filosofia, estuda-se já com esse canal, como se fosse uma profissão. Mas a filosofia não é essencialmente isso, ela é acidentalmente isso. A filosofia é sobretudo um saber, uma consciência que se adquire.
A politização geral da vida humana reduziu a atividade das consciências à mais elementar e mecânica das operações: a catalogação partidária. Já não há mais seres humanos de carne e osso, apenas eleitores, cuja única substância ontológica é o nome do candidato em que votam. O 'cidadão' já era um ente abstrato, o 'eleitor' é um segundo recorte abstrativo feito em cima do primeiro. Tão logo você nota que o sujeito é 'de direita' ou 'de esquerda', está alcançado o único e supremo objetivo da inteligência humana.
Na minha juventude fiz muitas concessões ao culto brasileiro do medíocre e do banal, porque temia desagradar as pessoas. Era como se eu tivesse vergonha de ser mais concentrado e mais sério do que aquele bando de avoados e dispersos em torno. Só me tornei um homem maduro quando me livrei dessa fraqueza.
A coisa mais abominável do mundo é o conformismo preguiçoso que se dá ares de simplicidade evangélica. A falsa humildade do medíocre é a delícia dos demônios.
"Quem é Deus? Deus é o 'Eu sou.' Ter um eu, uma autoconsciência, um para-si, uma personalidade interior, é a maior força do ser humano, porque é o que faz dele uma imagem de Deus. Só Deus e, por delegação dele, o ser humano, podem dizer 'Eu sou.' Essa sempre foi a força dos grandes homens, que os medíocres e mesquinhos desconhecem."
“Você empobrecer o povo parece economicamente irracional e é de fato irracional, mas politicamente já se sabe, desde o tempo de Maquiavel, que o sistema de poder mais estável, mais durável, mais difícil de derrubar, é aquele no qual o governo seja rico e o povo seja pobre.”
"A cultura pessoal é a condição primeira e indispensável do julgamento objetivo. A incultura aprisiona as almas na subjetividade do grupo, a forma mais extrema do provincianismo mental."
"Viver desde o coração é viver desde o centro da consciência, naquele 'fundo insubornável' de que falava Ortega y Gasset. Só isso pode assegurar que, na barbárie que nos cerca, o espírito não desaparecerá de todo e a civilização não se tornará a mera lembrança de um passado perdido e irrecuperável."
Uma das tarefas mais belas e nobres da filosofia é fazer e refazer constantemente as pontes entre a linguagem corrente — vulgar ou literária — e a linguagem das várias ciências. É um trabalho sem fim, mas sem ele a humanidade enlouquece.
Uma contradição bem determinada tem uma forma, uma identidade portanto, a identidade de uma tensão. Fenômenos socioculturais inteiros definem-se, às vezes, mais pela contradição constitutiva que trazem em si do que pela sua identidade nominal.
