Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Um filósofo na mídia é um pregador 'in partibus infidelium' — um jesuíta entre antropófagos. Não entendem uma palavra do que ele diz e ele ainda se arrisca a ser comido vivo. Em outras épocas, filósofos-jornalistas como Ortega y Gasset, Gabriel Marcel e Raymond Aron podiam contar com um público habilitado, que compreendia seus argumentos. Hoje é preciso, ao mesmo tempo, argumentar e ensinar ao público o que é um argumento. Pior ainda: quanto mais despreparado, mais o público de hoje é arrogante e palpiteiro. O que recebo de cartas pretensiosas, sem pé nem cabeça, é uma grandeza.
O individualismo, em si, não tem sentido, porque a individualidade humana não é causa sui: ela depende de um quadro cultural e político que, justamente, só as tradições podem criar. Vocês podem averiguar, historicamente, que a consciência de individualidade humana, como a conhecemos hoje, esteve ausente em toda a humanidade anterior ao cristianismo. Um primeiro vislumbre surge na Grécia, mas só entre intelectuais (é o assunto do livro maravilhoso de Bruno Snell: A Descoberta do Espírito). Solta a si mesma, a individualidade se decompõe em fragmentos cada vez menores e se dissolve atomisticamente nas forças ambientes. O máximo de liberdade aparente conduz aí à total escravização.
Vencer os comunolarápios não basta. É preciso bani-los da vida pública PARA SEMPRE. Entenderam? PARA SEMPRE. E só há um meio de fazer isso: Não deixar que a velha geração esqueça e as novas gerações ignorem o que eles fizeram. Os crimes inumeráveis que eles cometeram -- e os muitos outros que preparavam -- garantiram para eles o direito à imortalidade: a imortalidade da vergonha, do opróbrio e da desonra. Negar-lhes isso é fazer-lhes uma tremenda injustiça.
Não há, em todo o universo das conversações filosóficas, estupidez maior do que tentar explicar um filósofo a partir da sua catalogação profissional e da coincidência fortuita do título dos seus livros com os de outros livros quaisquer, ignorando solenemente as suas referências intelectuais, a formação das suas idéias, a estrutura da sua obra e o texto mesmo do que ele escreveu.
"A fé sem as obras é morta" não quer dizer apenas que a fé sem obras é uma fé diminuída, incapaz de salvar. Quer dizer que ela NÃO OPERA como verdadeira fé, que é mera crença ou idéia e não fé, isto é, que ela não existe de maneira alguma. Se a fé mesma já não é em si um agir, um trabalho, uma OBRA no interior da alma, ela não existe exceto como hipótese.
É no mínimo curioso, para não dizer cômico, que alguém se considere filósofo por ter cursado uma faculdade de filosofia. Pela lógica, o que o sujeito é se define pelo que ele faz e não pelo que recebeu pronto dos outros. A qualificação numa atividade profissional prova-se no seu exercício e não na mera autorização recebida para exercê-la. Um diploma de letras não faz de você um escritor, um diploma de Direito não faz de você um advogado. Tudo depende do que você faz depois de recebê-lo. Isso é tão óbvio que ter de explicá-lo já prova que o nosso interlocutor é um jumento. Escreva pelo menos três livros de filosofia que os outros filósofos considerem importantes, ou dê cursos onde as pessoas sintam encontrar algum ensinamento filosófico valioso, e aí sim diga que é filósofo. Um diploma prova apenas que seus professores o consideraram apto a tornar-se filósofo, e não que você já o seja efetivamente.
Não sei qual dos dois é pior: o Estado que deixa o cidadão desprotegido ou o que o impede de proteger-se. Mas o Estado brasileiro faz as duas coisas.
"Vamos falar o português claro: Aquele que não dá o melhor de si para adquirir conhecimento e aprimorar-se intelectualmente não tem nenhum direito de opinar em público sobre o que quer que seja. Nem sua fé religiosa, nem suas virtudes morais, se existem, nem os cargos que porventura ocupe, nem o prestígio de que talvez desfrute em tais ou quais ambientes lhe conferem esse direito."
Não podemos mudar o curso da história do mundo, mas podemos ao menos impedir que ele esmague a nossa consciência junto com a nossa liberdade.
O eurasianismo -- juntar numa síntese mundial tudo quanto é anti-ocidental -- não é senão uma cópia parcial daquilo que a estratégia diversitária já vem fazendo pelo menos desde 1968.
Minha sorte foi não ser professor universitário. Se fosse, teria sido tentado a iniciar um combate cultural pela expressão oral pura e simples, em vez de escrever livros primeiro. E teria só levado porrada sem conseguir persuadir ninguém. O livro ainda é e será sempre o instrumento maior nesse tipo de confronto. Principalmente se não é livro de mera polêmica jornalística, mas tem um valor cultural por si próprio.
Segundo Zubiri, não existe aquela coisa kantiana de dados sensíveis brutos, caóticos, colhidos pelo corpo e sintetizados na mente segundo padrões a priori. A percepção humana é, inerentemente, percepção intelectiva ou, na fórmula zubiriana, 'inteligência senciente'. Isto tapava, de um só golpe, o abismo que três século de idealismo filosófico haviam cavado entre conhecimento e realidade. 'Realidade', diz Zubiri, é o aspecto formal que o ser oferece à percepção humana. Não há uma 'coisa em si' a ser apreendida para além da percepção, porque, precisamente, o que o ser oferece à nossa percepção é o seu 'em si' e nada mais, ou, como diria Zubiri, aquilo que ele é 'de suyo', de seu, de próprio, de real.
Uma história ter um sentido profundíssimo, valioso, revelador, não significa que ela tenha acontecido realmente. A verdade da Poesia não é a verdade da História. Nunca conheci um aficionado de história esotérica que entendesse claramente essa distinção, ou que pelo menos não se esquecesse dela com frequência.
NÃO HÁ autonomia de pensamento contra a lógica e o método científico. A divergência de opiniões é pura frescura quando não há critérios estáveis de julgamento, os quais, precisamente, têm de permanecer imunes ao jogo de opiniões. Quem acha que impor esses critérios é o mesmo que 'impor opiniões' não conhece a diferença entre o jogo e a regra do jogo. Vocês me desculpem, mas isso é um erro primário e grosseiro que não tenho NENHUMA obrigação de tolerar.
A burrice pomposa não mede esforços e não tem escrúpulos nas suas tentativas de liquidar qualquer sinal de inteligência, que pela sua mera presença é para ela uma humilhação intolerável.
Um professor tem de concentrar-se de tal modo no OBJETO da sua exposição, que não precise nem possa pensar na impressão que está dando à platéia. Um professor não é um pregador em busca de conversões, nem um ator empenhado em produzir emoções, nem um advogado ansioso para obter uma sentença favorável.
Todo aquele que não se apresenta diariamente diante do Trono do Altíssimo, com o coração trêmulo de vergonha não só pelos seus próprios pecados mas pelos de todos os seus irmãos, consciente de que, em face da perfeição e da onissapiência divinas, CADA UM dos seus atos foi errado, mesmo aqueles que sua vaidade considerou os melhores, e sentindo até o fundo da alma que o Perdão é o ÚNICO bem valioso a ser ambicionado, -- esse NUNCA saberá o que é sinceridade, nem muito menos honestidade.
O Bem não é um universal abstrato. O Bem é uma Pessoa, é Deus. Só se assimila o Bem por contato pessoal e impregnação no amor divino. O resto é filosofice uspiana. Só a prece infunde nas almas o amor ao Bem, na medida em que O vão conhecendo aos poucos, muito acima do que podem pensar ou expressar. Estudar Ética só é bom para ludibriar os trouxas.
"'influência dos astros' é um fenômeno objetivo que existe ou não existe. 'Astrologia' é um conjunto inabarcável de idéias, práticas, mitos, especulações, fantasias, tradições culturais, intuições, tudo misturado numa mixórdia indeslindável que NINGUÉM poderá jamais reduzir a uma teoria unificada passível de ser discutida. Por que sei isso? Porque estudei os dois assuntos e sei que são dois — coisa que os palpiteiros 'científicos' não percebem nem mesmo em sonhos.
