Poesia Amor Nao Realizado Olavo Bilac
Contrariamente ao que supõe uma óptica inocente e folhetinesca, o poder não é tanto uma questão de punhos quanto de nádegas.
O que se qualifica em alguns homens como firmeza de carácter não é ordinariamente senão emperramento de opinião, incapacidade de progresso, ou imutabilidade da ignorância.
Muitas vezes as objeções nascem do simples fato de que aqueles que as fazem não são os mesmos que tiveram a ideia que estão a atacar.
Naturalmente, os bébés não são humanos. São animais e têm uma cultura muito antiga e ramificada, como a dos gatos, dos peixes e até das cobras.
A inteligência é o maior filtro: a sua função, mais que compreender, é a de não compreender demasiado.
Não deveríamos estar demasiado ansiosos por encorajar a inovação em casos de melhoramento dúbio, pois um sistema velho tem sempre de ter duas vantagens sobre um novo: está estabelecido, e é compreendido.
Não é de forma alguma um pequeno número de fortunas colossais que faz a riqueza de um país, mas a multiplicidade de fortunas medíocres.
Só é possível tornar-se filósofo, não sê-lo. Assim que se acredita sê-lo, cessa-se de se tornar filósofo.
Experimentar tudo, não por prazer, mas para se não preocuparem mais com isso, eis o método utilizado por alguns cristãos que pretendem curar-se da ambição.
Não se reconhece tanto a ignorância dos homens no que confessam ignorar, como no que blasonam de saber melhor.
Falhaste a vida, é evidente. Mas não o digas. Porque haverá logo quem venha proclamar em alvoroço que tu mesmo afinal confessas que falhaste para o cretino trombeteiro se julgar menos falhado e os cretinos como ele.
Não hás-de apreciar a pessoa pela aparência, mas pela função. Pondera o exercício da sua função e reconhece a sua dignidade.
Desconfia que a ambição não seja a cobertura do orgulho e que a modéstia não seja senão um pretexto para a preguiça.
Não se pode imaginar uma cor, fora das cores do espectro solar. Não se pode ouvir um som, fora da nossa escala auditiva. Não se pode pensar, fora das possibilidades da língua em que se pensa.
Amigos há de grande valia, que todavia não podem fazer-nos outro bem, senão impedindo pelo seu respeito que nos façam mal.
Os faladores não nos devem assustar, eles revelam-se: os taciturnos incomodam-nos pelo seu silêncio, e sugerem justas suspeitas de que receiam fazer-se conhecer.
Somos muito generosos em oferecer por civilidade o que bem sabemos que por civilidade se não há-de aceitar.
Não respeite o próximo: Ame-o. Nenhum de nós merece respeito, mas do amor todos precisamos desesperadamente.
Tudo pode ter altos e baixos, menos o amor. O amor é um juramento eterno. Ou então não é amor, é ilusão.
O amor humano vem mesclado de tantos elementos fisiológicos, lúdicos, sociológicos etc., que não passa de um vestígio remoto, uma sombra ou mesmo uma caricatura do amor divino, mas nem por isso ele deixa de ser real na sua própria escala. O amor divino devolve os mortos à vida, ao passo que o amor humano às vezes mal chega a aliviar um pouco os sofrimentos da pessoa amada. Mais do que todos os males e pecados, o amor humano é a prova da nossa miséria. O santo que intercede por nós tem um coração mais ardente de amor do que todos os amantes de todos os séculos. Levei setenta anos para perceber isso.
