Poesia Agua de Mario Quintana
Herege
Em grego significa escolha
e isto revela que liberdade
não combina com religião
Esta deseja pessoas obedientes
que amarão a própria escravidão
e verão a liberdade de escolha
como o mais hediondo
dos crimes.
Admirável Inimigo Novo
Primeiro inimigo foi o nazismo
Só uma águia podia cravar as garras no globo
Então, a partir da Normandia o ataquei
juntamente com o urso
Destruí o país da águia alemã e dividi os pedaços
com a fera de aço russa
Ainda sobrava a ilha do Sol nascente
e para destruí-la fiz explodir no céu
um pequeno artefato
mais brilhante do que mil sóis
Depois veio os soviéticos que revelaram as garras
A guerra foi fria ficando mais
nas ameaças do que na ação
Revoluções, golpes e conflitos marcaram o século XX
Cansado do impasse armei os homens das estepes
Algumas décadas mais tarde a bandeira vermelha
foi retirada de Moscou
Quando pensei que o mundo era minha posse
meus aliados do Oriente decidiram me atacar
Quando as duas torres foram destruídas
dirigi minha máquina bélica contra
a terra entre dois rios
Fiz tudo isto em nome de GOD que é
um acrônimo de gold, oil and drugs
Eu produzo muitas armas e não
quero que fiquem enferrujadas
A cada inimigo derrotado
aumento a vigilância sobre o mundo
e na falta de adversários trato de criar um, pois
necessito de opositores para justificar
minhas ações
Sou o xerife do mundo, o maior defensor da liberdade
e da democracia e espalharei o medo até que
a Terra seja minha.
Figura oculta
Partido mais poderoso do Brasil
Membros presentes em todas as esferas do Estado
Deputados e senadores conspirando nas sombras
Blindados pelo foro privilegiado e com sede de poder.
Castelo de Cartas
Construí meu castelo, acreditava ser forte e inabalável. Usei como material muito amor, amizade e confiança, pensava estar muito bem protegido de tudo e de todos no seu interior. Eis que a vida manda uma leve brisa e o desmonta, estou atordoado, derrotado, quão frágil e incerta é a vida, jamais teremos certeza de nada.
Cabaré Cósmico
Eu finjo estar feliz, talvez assim seja mais fácil conviver, dessa forma não preciso justificar minha tristeza, se alguém perguntar se tudo está bem eu direi que está, mesmo não estando. Vago pela noite, a bebida é felicidade e coragem líquida que consumo pra tentar me levar adiante, não estou nada bem. Pelas noites encontro meus amigos de copo e compartilhamos momento vividos, outros contam aventuras que nunca tiveram, todos sabemos que é mentira, mas a estória é boa, qual o motivo de desmentir alguém que conta uma boa prosa? Falamos mal de terceiros, por qual motivo é tão bom falar mal das pessoas? Mas claro que nunca na sua presença, se forem falar mal de mim, por favor, aguardem minha ausência também, somos canalhas e adoramos isso. Minhas contas não param de chegar, devo muitas pessoas, não mais me importo, camuflo minha infelicidade em noitadas infinitas e a grande quantidade de relacionamentos que possuo é uma tentativa de compensar a qualidade dos mesmo. Não sou feliz, mas vivo como se fosse, nesse cabaré que é a vida, uma hora ou outra estaremos fodidos, vamos adiar o quando pudermos tudo isso...
Quem é você?
Tenho certeza que pelo menos alguma vez na vida já fomos intimados a responder tal pergunta, e como era de se esperar a resposta foi precedida por uma breve pausa, e uma tentativa de olhar pra dentro de nós mesmos procurando a resposta, algumas palavras foram proferidas, mas a grande pergunta nunca foi totalmente respondida. É tão difícil falar de si pelo simples motivo de que estamos em constante mudança, o eu de hoje é diferente do eu de ontem e claro que menos completo que o eu do amanhã. Já gostei de novelas e hoje não mais assisto, tive uma quedinha por louras, hoje prefiro as morenas. Adorava futebol e hoje prefiro outros esportes, já tentei até beber, a euforia do álcool me agrada, mas a ressaca é desanimadora. Jurei nunca casar, filhos? Jamais, e veja só onde me encontro, já fui até organizado, hoje sou externamente bagunçeiro, não gostava de ler e hoje leio bastante. A vida nos transforma ou somos nós que transformamos a vida? Seres em constante mudança, em procura de algo que nem mesmo sabemos o que é, se hoje lhe odeio amanhã lhe tenho amor, como já dizia Raul Seixas, eu prefiro ser aquela metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Quem é você? Ninguém possui essa resposta, ou se a tem, precisaria escrever um livro pra respondê-la.
Sob um dossel de suave ledice
A fremir confuso o arcabouço forte
Vê no amor o bem, o esteio a bela sorte
A rubra flama que o mal desdice
O sólido áureo do viver desfruta
Porque a sorrir, a musa lhe dissera
num ósculo: Ah! Dulce quimera.
Tens meu ser que ao teu amor tributa.
A Mulher e a Fruta
Seu olhar é como um morango
É atraente
Deixa qualquer um contente
Após fixar neste olhar lindo e rasgado
Lábios com a cor de uma maçã vermelha
Com o sabor de pêssego
Doce como uma cana
Seu beijo é papaia deixa-me em sossego
Seu corpo frágil que nem a uva
Seu abraço deixa-me na Lua
Manga rosa sempre pontual
Mulher fruta a sua presença é tropical.
Tempo! Eu quisera, se fosse possível, voltar no tempo e em uma folha em branco, traço a traço preencher todo o espaço, um retrato...
... do tempo.
Mesmo que você aí
Não saiba o que eu
Esteja sentindo
Não há porque...
Mesmo que você
Não se lembre de mim
A todo momento
Como eu de ti
Não há porque...
Mesmo que ao me ver
Seus olhos mudem de direção
Enquanto os meus
Só sabem te olhar
Não há porque...
Eu deixar de gostar de você
Porque te amo
Mesmo assim...
Multidão de Solitários
Jamais saberemos a visão que os outros tem do mundo, vivemos presos dentro de nossa casca e nela criamos nossos conceitos, fazemos nossos julgamentos, alimentamos nossas expectativas, só deixamos entrar o que nos é conveniente e só mostramos a ponta do iceberg. Cabe a nós apenas imaginarmos como os outros enxergam as coisas, vivemos uma constante visão deturpada da realidade alheia, montamos a pessoa dentro de nossa própria cápsula, construímos ela a partir de estereótipos prontos na nossa cabeça, minimizamos o extremamente complexo para que caiba na nossa ilha, uma multidão de solitários presos em seu próprio mundo.
A distância é necessária para se apreciar a beleza
É do conhecimento geral de todos que a espécie humana possui grande poder de adaptação, e que junto com esse poder vem a possibilidade da vida cair em meio ao tédio, só podemos notar que algo é grande se comparamos com o pequeno. O namorado que abraça sua bela companhia, por estar tão perto da mesma acaba focando seu olhar em outra garota, a distância que os separa proporciona um amplo campo de visão onde o mesmo pode minuciosamente admirar a beleza aquém do seu domínio. Só podemos nos dar conta de que estamos felizes, porque já passamos por muitos momentos tristes. Muitas pessoa são são ditas como humildes pois adoram estar em companhia dos menos favorecidos, mas são esses que o fazem lembrar de sua condição financeira privilegiada. É necessário que a vida seja uma montanha russa de altos e baixos para que não se caia no abismo do marasmo.
Suco de maracujá
A década era de 1980, o ano não lembro ao certo, eu era acordado por minha mãe todas as manhãs com o intuito de ir à escola, época de prova acordava mais cedo pra estudar. Meio que no automático eu levantava e ia para a mesa tomar meu café, me servia de café com leite e pão caseiro com margarina, na época chamava de manteiga, não tinha noção que a verdadeira manteiga era mais cara. Dificilmente aguentava tomar um banho que preste, quando somos crianças sentimos tanto frio, meio que só molhava o cabelo e vestia a farda azul da escola Instituto José de Anchieta de Bragança, pegava a merendeira e nunca sabia ao certo qual seria o lanche daquela manhã.
Junto com meus irmãos, já prontos, também seguíamos em caminhada com destino à escola, eu nunca fui só para a escola, já que fui o segundo filho a nascer, sempre tive a companhia do meu irmão mais velho nessa caminhada. Os demais irmãos se juntavam assim que alcançavam a idade de estudar.
O caminho pra escola era seguido de algumas brigas e brincadeiras. Cada parte do caminho tinha para a gente uma conotação especial. Chegado à escola nos dirigíamos as nossas respectivas salas. Ainda lembro das primeiras letras que consegui fazer e sempre ficava muito feliz com cada coisa nova que aprendia. Na hora do intervalo, todos as crianças tiravam de sua lancheira os lanches e faziam sua refeição, ali mesmo sentados na mesma mesa a qual estavam estudando. Naquele dia minha mãe colocara alguns biscoitos e suco de maracujá, após o termino do intervalo recomeçava a aula, o pensamento as vezes voava longe, dando asas à imaginação e dando continuidade àquilo que a professora acabara de falar. O término das aulas era anunciado, me juntava aos meus irmãos e fazíamos o caminho de volta, com as mesma estórias, as mesmas brigas, com o pensamento longe e a imaginação fértil, imaginação que apenas as crianças podem ter...
Saudades
A cada novo dia que surge, a memória que você não está mais nesse mundo é apagada. A dor continua a mesma, acordo e preciso aceitar que o que aconteceu não mais pode ser desfeito, não conto isso para ninguém. Quem nunca perdeu alguém não entenderia, me visto de coragem e enfrento a vida. Sigo em frente mas meu coração sangra, quando quase me acostumo com a dor o dia chega ao fim. O sono faz com que meus escudos psíquicos sejam derrubados. Onde está você? A paranóia recomeça, por qual motivo é tão difícil aceitar que tudo possui começo e consequentemente um fim?
Marionete do Cosmo
Mesmo sabendo que dentro de cada pessoa existe um micro universo, uma gama de infinitas possibilidades, de destinos possíveis e impossíveis, calculada ao acaso e regidas por nossas escolhas diárias, ainda reside em mim a sensação de marionete do cosmo, fazendo aquilo que ele manda e sem poder escolher determinadas situações, lutando contra os fios que me controlam, cá estou eu, sorrindo sem querer sorrir, andando pra frente quando queria estar parado, com o pensamento nas águas cósmicas as quais um dia me banhei.
A mentira que se esconde atrás da cortina, desperta qual fantasma em noite escura e faz com que seus cúmplices tremam e caiam do altar da hipocrisia, quais adoradores de deuses falsos. Que sabedoria é esta que ignora, o desejo da alma, a liberdade do ser!
vampiros que desejam a grade e a tortura, a serviço dos deuses da ignorância.
Maldito desejo, detestável sina, cobra em espiral prestes a atacar.
Fomenta o ódio e o orgulho, no coração débil, insano.
Eis que o Deus da verdade faz-se presente, eis que o dia da ira, surge de repente.
E aqueles que se iludirão, ficarão calados, tristes e envergonhados.
Rasgam-se as máscaras das faces! Agonizam-se de dor, com o próprio veneno.
Não importa o dia, a justiça virá!
Não importa a hora, a luz brilhará!
Na sombra do teu carinho, apaguei minha solidão.
Nasceu a esperança e o caminho, dentro do meu coração.
Teus olhos lindos brilharão, ao se encontrarem com os meus.
Meus olhos tristes luziram, ao se apaixonarem pelos teus.
ESTRELA
Cessem os gritos na imensidão das trevas!
Brilha uma estrela na imensidão dos céus!
Cesse a ira na torturante grade.
Voa-se uma pomba para o horizonte além.
Lava-se a mancha, nódoa da maldade.
No sangue do cordeiro, pura inocência.
Nasça o amor nos fragmentos do egoísmo.
Só Deus tem o saber de intrigante ciclo.
Só Deus tem o sangue de infindável amor.
Eis que surge a aurora, para os escravos da morte.
Mesmo nas trevas da ira, uma estrela ainda brilha!
Fará reviver as virtudes! Fará ressurgir os heróis.
Fará apagar a mentira, que dorme no berço da morte.
Fará ressurgir a verdade para o encanto dos homens que, por ela tombaram um dia.
Esta estrela radiante é sabedoria divina!
Que parece sumir nas trevas, mas brilha enquanto é dia!
TEU AMOR
Teu amor é um sol que brilha.
No meu coração uma luz!
E com essa luz eu sigo a trilha.
Da felicidade, que este amor me conduz.
Sol que brilha em meu peito.
Não me deixa vacilar!
Aquece o meu desejo.
E me faz te amar!
Egoísmo
Egoísmo, víbora malévola que sufoca os corações.
Desvia a felicidade com os laços da maldade.
Destrói os sonhos antes que ele nasçam.
Faz da terra o palco do Diabo onde a morte ronda as trevas da miséria.
O egoísmo, quando faz do coração um ninho.
Choca os seus ovos com o calor da ganância.
E envia seus filhotes para dilacerarem a vida.
Onde eles passam, deixam a fome, a doença, os crimes e as guerras.
Essas víboras fazem seus impérios, com o veneno da violência.
Um reino de escravidão!
