Poemas sobre quem Realmente eu sou
Se eu não estivesse aqui
As árvores continuariam a bailar
Sob o som e os encantos dos vendavais
Sob as janelas e os coloridos vitrais
O pássaro voaria, de qualquer modo
Ignorando que eu nunca existi
As flores desafiariam a terra dura
E nasceriam mesmo assim.
Se eu não estivesse aqui
Ainda haveria nuvens
E o céu e o sol a arquejar
O tempo medido pela lua
As águas do rio e do mar.
Nada sentiria a minha ausência
Ou a não presença anterior
Tudo seria sentença
Do mesmo modo de amor...
Se eu não estivesse aqui
As montanhas ainda assombrariam
Os sonhos e devaneios de alguém
Os animais vadiariam
E as pedras se esconderiam de quem?
Ah, se eu não estivesse aqui!
Não veria a vida
Não sentiria a vida
Não morreria em vida
Só para poder viver...
Você me olha e me julga
Você não me conhece
- Nem tente! Eu ainda estou neste caminho!
Você acha que pode dizer
quem sou
para onde vou
porque estou
apenas pelas minhas vestes
Você nem me conhece!
- Nem tente! Eu ainda estou neste caminho!
Você franze o cenho
E, intencionalmente, me mede
Seus olhos, seu corpo, sua alma
- Nem negue!
Você acha sua falsa superioridade uma prece
e busca em mim reforçar sua tese.
Você me deseja rebaixada
e subjugada à sua palavra.
- Nem tente! Eu ainda não fiz meu caminho!
Você fala com olhar de desdém
- A quem? Você é apenas mais um sozinho…
E eu sou outro ser solitário
Num caminho de mil descaminhos
Num infindo pomar de esteios
Num perverso clamor de espinho.
Pega-se o bonde quase andando
- Ninguém usa mais esta expressão!
Provavelmente eu seja cringe
Ou vão me chamar de “sem noção”
Nonsense fui lá no passado
Agora pescaram uma nova alusão
E eu vou boiando nesse arado
Sem tempo, sem pressa, sem razão!
Como posso considerar a não boniteza
bela?
Eu posso tudo enquanto caio
em direção ao desconhecido,
afinal, estou morrendo, lembra-se?
A última gota
Eu estou aqui ainda
O que posso eu fazer
enquanto vivo?
Eu estou aqui ainda
Posso ser juiz
ou ser juízo!
Eu estou aqui ainda
Posso lamentar
ou saltar o abismo.
Eu estou aqui ainda
Posso enfurecer
ou tornar-me aprisco.
Eu estou aqui ainda
O que posso eu fazer
enquanto a vida pulsa
em meu peito
em minha face
em minhas mãos?
há decisões que – ainda -
podem ser tomadas
e escolhas que prescindem dos nãos!
Quando vivo o presente não ignoro o passado nem menosprezo o futuro.
Pelo contrário, eu honro meu passado, honro aquela que fui. Honro os medos, as dores, as perdas, os “fracassos” (odeio quem divide o mundo entre fracassados e bem-sucedidos, aliás. Mas isso é assunto para outro momento).
E, ao mesmo tempo que honro meu passado, amo meu futuro. Estar no presente de verdade me dá estas chaves: honra e amor.
O que mais eu poderia querer? Mas eu sei que não é fácil. Não tanto como gostaríamos. Nossa mente gosta de uma certa facilidade… Dizem que é questão evolutiva.
Apesar disso eu posso dizer: é uma escolha. Você escolhe estar presente em um momento. E no próximo momento você escolhe de novo. E no próximo você escolhe de novo.
Eu queria ter sonhos maiores
Queria ter sonhos melhores
Pular de muros infindos
Abrir caminhos desconhecidos
Rezar a deuses antigos
Ser apenas um entre os inícios
Cada vez que olho nos olhos do céu
Eu vejo que ainda estou aqui
Uma parte de mim ainda resiste
Ainda existe
Ainda é
Eu sinto o cálido torpor do vendaval
Levando meus braços para longe
De alguma ação
De algum chão
De mim...
Se o dia não estiver bonito
Que eu o embeleze
Se a mente esquecer a oração
Que minha boca reze
Se a fagulha não insistir
Que meu fogo eleve
Se o tempo acordar ruim
Que meu corpo, greve!
É bom ser criança
E ser amada
E, antes de dormir,
Ouvir um Eu te amo
Enquanto se derrama num abraço
Cheio de aconchego e abrigo.
Ah, como é bom ser criança!
Desse jeito assim...
(criação)
até o que eu sentia
fui eu mesma que criei
é minha própria invenção
essa dor que sinto
no fundo da alma
do meu coração
(escapatória)
eu andava perdida na vida
até me descobrir artista
e entregar-me de vez...
a-tra-vés
ou-tra-vez
ouço-me em silêncio
Ah, os meus passos correm
como eu corro
como minha alma corre
como minha vida corre
como meu tempo corre
- E se escorre!
Mas eu não me abandono
Eu nunca me abandonarei
- Não mais!
Para as alegrias da infância
É que eu almejo voltar
O céu na Terra bailando
A delicadeza do ar
Um baile na primavera
Lindo verão a surgir
Ah, quão doce era
Sua presença em mim!
Para as alegrias da infância
Eu sempre volto a sonhar
Canções no pé da estrada
Cantigas que fazem ninar
Um vento e uma caldeira
Imagens podem cingir
Tão vasta de brincadeiras
De novo volto a sorrir!
um dia fui eu
outro dia não mais
o que serei eu
sem um pingo de paz?
a guerra
a morte
o não
o talvez
o tempo
a hora
o espaço
desfez
Eu aprendi a ver seu olhar
Eu comecei a enxergar seus olhos
No inexato instante do agora
Foi por causa da máscara, eu sei
A máscara que colocou pra fora
A máscara que tomou parte de sua face
A máscara que escondeu seu sorriso
Foi ela que me fez encarar
Seus olhos
Tão preciosos, belos
Tão firmes, cheios de sonhos
De estranhezas, de esmero!
Foi ela quem levantou meus olhos
E fê-los encontrarem os seus
Olhos
De todas as cores
De todas as vidas
De todas as tentações
Seus olhos saltando aos meus
Meus olhos tão perto dos seus
Eu aprendi a ver seu olhar...
E, neste exato instante, não posso
Não amar!
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