Poemas e Poesias
Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
Hoje te parecem desoladas todas as avenidas.
Podes senti-las em tuas roupas que cheiram ainda
aos corredores que se lançavam apressados nos portões
de partida. Tudo foi claro e tudo foi absurdo, como agora
no poema, quando rimas e melancolia brotam ridículas,
pretensamente belas como orquídeas desmedidas.
Amanhã, porém, tudo estará limpo e seco e reto.
Cicatrizadas as feridas, restarão contra o céu
muito branco da memória não mais que
a silhueta precisa — pernas braços cabelos —
daqueles pinheiros, tristíssimos, e uma palavra
sem nexo: Curitiba, Curitiba.
Talvez você não seja mais que isto: alguém,
de costas, tenta acender um cigarro ao vento.
E há este oceano abstrato que vem bater em nosso quarto.
É preciso cuidado, não são poucas e são altas suas ondas;
escuto, mas quem compreenderia a valsa monocórdia
dos afogados, feita de uma boca intraduzível?
O vento dispersa o que eu diria, não chego
a você, a seus ouvidos; assim também minha mão
que desmorona antes de alcançar seu rosto onde
do que entre nós alguma vez foi nítido embaraçam-se
os fios; o vento derrama seus olhos para longe,
dessalga e seca nos meus a hipótese da queixa;
vento da noite, que espalha suas pedras negras
no imenso metro entre nós.
Talvez o mundo mais perfeito seja apenas isto:
você, enfim, acende seu cigarro.
Guia prático dos sofredores anônimos
Hoje nós vamos sofrer.
Só por hoje vamos sofrer.
Sofrer tudo de uma vez.
Tudo o que há para sofrer.
Vamos sofrer calados.
Vamos sofrer cantando.
Tudo de uma só vez.
Do jeito que der para sofrer.
Sem ressalvas.
Sem reservas.
Sem esquemas.
Sofrer apenas.
Sofrer de olhos abertos.
Sofrer sem sentir pena.
Toda dor será bem-vinda.
Abriremos as feridas.
Toda chaga, toda mágoa.
Só por hoje vamos sofrer.
Sem saber onde.
Sem saber como.
Sem nem querer saber.
Sofrer de braços abertos.
Até não mais poder.
Sofrer sem dizer nada.
Tudo o que há para sofrer.
Jovem deixa óculos em museu
e visitantes pensam que é obra de arte.
Jovem deixa obra de arte em museu
e visitantes pensam que perderam os óculos.
Jovem recolhe óculos de museu
e visitantes pensam qualquer outra coisa.
Jovem, colabore.
Admiro as plantas que vivem neste apartamento.
Sem água fresca, cortinas fechadas, pouca conversa.
Respeito estas plantas: pequenas, robustas, teimosas.
Sem ninguém por perto quando o sol castiga.
Sem quem abra a janela para entrar a brisa.
Sobre a mesa da sala, no banheiro, na varanda.
Em silêncio, orgulhosas.
Não morreriam a troco de nada.
É preciso muita garra e determinação para alcançar o topo.
É preciso muita garra e determinação para alcançar o.
É preciso muita garra e determinação para alcançar.
É preciso muita garra e determinação para.
Enfim, vocês entenderam.
A felicidade alheia me fere.
A felicidade alheia me oprime.
A felicidade alheia me faz pensar em desistir.
Passo horas na internet, investigando até onde vai a brincadeira.
Passo horas sofrendo, lendo posts e mais posts.
Um sofrimento gostoso.
Um sofrimento justo.
Um sofrimento necessário.
Às vezes penso em jogar a toalha,
mas a felicidade alheia me redime,
a felicidade alheia me alimenta,
a felicidade alheia me salva.
Só ela pode me salvar.
Tenho raiva de tudo o que não seja a felicidade alheia.
Tenho muita raiva.
Você não faz ideia.
Trabalhe em dois livros, simultaneamente.
Dedique a maior parte do seu tempo ao livro 1.
É nele que você colocará os melhores poemas.
No livro 2, escreva o que vier à cabeça,
sem muitas preocupações temáticas ou estilísticas.
Ele vai funcionar como um caderno de exercícios
e provavelmente nunca será lido.
Enquanto isso, continue trabalhando com afinco
nos poemas do livro 1.
Ao final do processo,
jogue fora os poemas do livro 1
e publique o livro 2.
a vertigem
do dia são estas
horas:
luz e fogo
levando
embora a noite
calma.
um nada
no nada,
meu adágio
sai e segue.
e um deus (morto)
bebe um café
comigo.
Como os dedos
que rasgaram
o papel do
presente.
Como o ausente
dos vários
segredos
que não
revelaram.
Como o café
que repousa
na mesa
e será bebido.
Como o livro
lido
duas, três
vezes até
ser amada
a sua beleza.
Como quando
entrei
em você
pela
primeira
vez e entendi.
Como, por uma
besteira, não sei,
minha vó chora
e depois ri.
Como os dias
em que Vivo
e não quando
estou morto
e respirando
feito verme.
Como a tua mão
procurou ver-me
no escuro
de mim e do quarto:
como quando um
coração
faz um Uivo.
Um fio
se liga
a outro, diz
o eletricista.
Uma palavra
se liga
a outra,
diz o poeta.
Um dia
se liga
a uma noite
e uma noite
se liga
a um dia.
É assim -
nos ensina
a poesia.
Sabem
o eletricista
e o poeta
que a luz
se projeta
com o fio. Mas com
palavras, desconfiam.
Por esta janela,
cujo vidro ainda me protegerá do frio,
observo gatos noturnos passearem pelos telhados
e carros atravessarem a ponte, ao longe –
gatos de aço passeando pela noite.
Consigo ver um pouco de mim
refletido no blindex por onde vejo
os gatos, os telhados, a ponte, os carros,
a noite, a cidade.
Não sou tão nítido quanto a cidade;
e assim sou eu.
Minguante
Sou minguante
Porque não sou crescente
Imitada em brincos
Sou iluminada pelo sol
Pertenço à noite
Sou irmã das estrelas
Tenho duas fases
Uma delas
Sou mais apreciada pelas pessoas
A outra me escondo
Para quem não percebeu
Sou a Lua.
Será melhor
Quando tudo ruim estiver,
confiarei que em breve será melhor.
Quando sozinho caminhar,
saberei que a melhor
companhia encontrarei.
Quando desistirem de mim,
Saberei que foi a melhor escolha.
Pois novas pessoas ganharei.
Quando a vida bater forte
serei mais experiente e corajoso.
Quando eu chorar,
saberei que sou humano,
e regarei com lágrimas a esperança.
Quando o medo chegar,
medo terei, mas não pararei.
Será melhor o que há de vir.
Nos dias de fraqueza
descansarei, pois forças revigoradas terei,
Resiliência ganharei, isso será melhor!
Nas perdas da vida,
verei novos ganhos, melhor perder,
pois sei que tudo tem um tempo.
Não brigarei com o destino,
não sou o Senhor do tempo
para saber o melhor momento.
Quero apenas viver intensamente tudo.
Meu passado não pode ser um peso.
Deverá ser a construção do meu futuro.
Quando perder os amigos,
serei minha melhor companhia.
Quando perder uma oportunidade,
ficarei em paz, pois a próxima será melhor.
Quando perder um grande amor,
me alegrarei, pois não era um amor.
Será melhor viver uma nova história,
e apenas aprender com a antiga.
Confio que um dia tudo será melhor,
Acredito que o melhor chega.
Acredito que não há tempo ruim eterno,
Tudo será melhor, logo o jogo muda.
Tudo se vai, tudo muda.
O amor fica, Deus é presente em tudo.
Meu coração pode estar nublado,
meus olhos tampados sem fé,
Mas tudo será melhor, Sua luz clareia.
Os montes podem cair,
os mares podem secar, mas sua fidelidade não muda.
Não estou só quando penso que estou.
Sempre há de ser melhor o amanhã.
Mesmo não crendo no momento,
Há de será melhor o futuro.
As plantações morrem na geada,
e florescem melhor na primavera.
Novas estações viverei, e será melhor.
Estarei pronto para cada estação da vida,
e nelas viverei o meu melhor.
Serei melhor,
Será melhor...
Manutenção do amor
Sempre ande atento,
pois os desatentos
perdem o amor
que os tornam dois.
Se o encontrar, cuide bem,
pois de tantos descuidos
deixam de ser dois
para serem um.
Rua com Rua
Em um mundo líquido as relações são como
pequenas gotas de chuvas caindo na rua.
Rua esta que faz o favor de levar a gota ao evaporar.
Nessa relação a rua sempre vencerá, seja pela força e rigidez,
ou por sua teimosia de sempre estar no mesmo lugar.
Nessa amizade não quero ser uma gota nem tão pouco uma tempestade,
que mesmo tendo o poder de levar tudo,
não pode ultrapassar a temporalidade e constância de uma rua.
Aqui sinto a essência de sua amizade.
Pois muitos olharam e não enxergaram.
Outros pisaram e não perceberam que ela serve de caminho,
e nesse caminho há vida, ou melhor esse caminho é a vida.
Alias! Não apenas sinto, pois sou
rua que encontra com rua, sou caminho
que contigo cria caminhos.
Somos força e sempre estaremos
no mesmo lugar, pois os amigos possuem a certeza que não importam
o tempo e a tempestade, tudo passa menos
a nossa teimosia de permanecer.
Passo muito mais tempo
mergulhada em imaginações
E visualizações do futuro
de como tudo vai ser
melhor e mais incrível
quando ele finalmente chegar
mas a verdade é que
eu nem tenho certeza
de que ele realmente chegará
e enquanto fecho os olhos
para imagina-lo
fico cega para a realidade
fico cega para o agora
e ele passa rápido, ele voa
estou perdendo-o
desperdiçando-o conscientemente
enquanto o hoje se transforma em futuro
e acabo desperdiçando
ambas as fases
da minha preciosa linha do tempo
Mística
Feiticeira
Sacerdotisa
pensa no que eles sempre querem
Fortuna
Amor
Prosperidade
junta tudo, uns vestidos coloridos,
anéis pulseiras, inventa essa persona
manda fazer cartazes
pintar muros
tuas propagandas
de certezas espalhadas
por toda cidade
