Poemas Anjos de Pijama Matilde Rosa Araujo
Aquele que envelheceu,
não sonha mais impossíveis.
Conformado e conformista,
o mundo é o seu cansaço.
Ele é o que já foi
e o futuro será igual.
O passado que não existe
habita o presente morto.
Envelhecemos quando o que fomos
é maior do que o que somos.
Ordem e desordem, portanto, são conceitos funcionais. Caos, para o homem, é tudo aquilo que não se ajusta aos seus padrões de ordem, a esquemas perceptuais inatos ou ad-quiridos.
O caos não existe em si, mas referenciado a um dado sistema. Pensamos que a natu-reza é paradoxal, porque acreditamos na repetibilidade absoluta das coisas. Pensamos que só é verdadeiro aquilo que se repete.
Se o homem permanecer durante algum tempo naquilo que ele denomina de caos, em breve descobrirá uma ordem no caos. A ordem é hábito.
O mundo é o que tecemos
juntos todos os dias.
Tecelões e tessitura,
somos mãos e somos linhas.
O mundo é carne e tecido,
seres, fatos e coisas
vestindo o nu existir.
MEU AMOR É UMA FLOR
Morena da cor do pecado
Eu tenho o maior orgulho de você
Uma verdadeira flor você é
Amo-te de verdade
Minha vida não teria sentido sem você
O meu coração é só festa se estou com você
Rosa, uma rosa encantadora
É você, meu amor
Um dia, acredito, estaremos juntos
Mesmo que tenha que esperar
Aguardarei pacientemente por esse dia
Feliz vou ficar quando esse dia chegar
Loucamente pretendo te amar
O tempo, sei, passará de repente
Rezarei para que não
“Ao Estudante do Comportamento Humano.”
Não sou professor
nem estudante
da vida sou amante.
Atos e comportamentos,
Aqueci o cálido coração
Obstáculos são vencidos
Sentimentos torna-se emoção.
O ser humano é estudado minuciosamente,
O seu comportamento,
É brisa vulnerável ao vento,
É paz, melodias, vividos momentos.
No caminho do coração,
Na escola da vida,
Na cartilha da alma,
Dialogando vou,
Aprendiz eu sou.
O ser humano, é um grande livro,
Estudá-lo é dever,
Aprende-lo é viver.
De grandes coisas é composto o comportamento das pessoas.
A intensidade é um mundo desigual á cada um.
Há quem olha no horizonte e chora de saudade.
Há quem olha no poente e bendiz a verdade.
A surpresa da vida, é emocionante,
Quando pensamos dizemos confiantes.
A vida vai além,
O ser humano também.
Acompanhamos a intensidade da vida!
O passado é lembrança,
O presente é vivencia,
O futuro esperança.
O comportamento é um “TODO”
Sonhar?
Sonhar é dar vida aos nossos desejos mais íntimos.
Sonhar é acreditar mesmo inconscientemente que tudo pode ser real.
Sonhar é viajar nas probabilidades da vida.
Sonhar é simplesmente sonhar.
Nunca deixe que seus sonhos se apaguem,
Queira sempre mais, afinal todos têm direito,
Busque cada dia mais, esteja próximo dos seus sonhos,
Mesmo que estes lhe pareçam impossíveis,
Os sonhos, sejam eles loucos ou de vida são como lenha,
Aumentam o fogo da nossa existência e esquentam os nossos corações.
Sonhos sem metas, são apenas sonhos;
Metas sem planejamento, são apenas ilusões;
Planejamento sem disciplina, apenas frustrações.
Não me queixo do apagar
da beleza que vivi.
Apenas preciso
por um ponto final
no luto que vivo agora.
Meias verdades...
Meias vontades...
Meias saudades...
Viver pela metade é ilusão, tire as meias e ponha o pé no chão!
Amor... e Morte...
O amor
é como a morte
ato banal de todo dia...
Emoção forte
de tristeza ou de alegria,
ele sempre nos surpreende, e a ele nunca nos acostumamos
talvez...
O amor é como a morte:
quando amamos
é sempre a primeira vez.
Quando chegares...
Não sei se voltarás
sei que te espero.
Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.
A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé...
Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós...
A BICICLETA
Me lembro, me lembro
foi depois do jantar, meu avô me chamou,
tinha um riso na cara, um riso de festa:
- Guilherme, vou tapar seus olhos,
venha cá.
Os tios, os primos, os irmãos, na grande mesa redonda
ficaram rindo baixinho, estou ouvindo, estou ouvindo:
- Abre os olhos, Guilherme!
Estava na sala de jantar, junto da porta do corredor,
como uma santa irradiando, num altar,
como uma coroa na cabeça de um rei,
a bicicleta novinha, com lanterna, campainha, lustroso selim de couro,
tudo.
Me lembrei hoje da minha bicicleta
quando chegou a minha geladeira.
Mas faltou qualquer coisa à minha alegria,
talvez a mesa redonda, os tios, os primos rindo baixinho,
– abre os olhos, Guilherme!
Oh! Faltou qualquer coisa à minha alegria!
Soneto à tua volta
Voltaste, meu amor... enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho....
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.
Obrigado... Eu vivia tão sozinho...
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!
Voltaste... E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida...
Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? – se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida...
(Do livro "Eterno Motivo" " - Prêmio Raul de Leoni, da Academia Carioca de Letras - 1943)
Manhã para se feliz
Esta é uma manhã para ser feliz
em um lugar, de algum modo,
é uma manhã para ser feliz...
Esta é uma manhã para dois, para dois juntos
abraçados e tontos, num remoinho
não como nós, eu aqui, diante do sol, das árvores,
de tudo envergonhado porque estou sozinho...
Esta é uma manhã que me fala de ti, nas nuvens,
na transparência do ar,
neste azul do céu, imaculado,
na beleza das coisas tocadas de sonho
e imaturidade...
Uma manhã de festa
para ser feliz de verdade!
Esta é uma manhã
para te Ter ao meu lado...
Quando Deus fez uma manhã como esta
estava com certeza apaixonado...
Capricho da memória:
de tantos momentos em que te vejo
e em que no meu pensamento
tua imagem se insinua,
havia de fixar-te, naquele íntimo instante
em que mais te desejo:
inteiramente nua!
Essa...
Essa, que hoje se entrega aos meus braços escrava
olhos tontos do amor de que aos poucos me farto,
ontem... era a mulher ideal que eu procurava
que enchia a minha insônia a rondar o meu quarto...
Essa, que ao meu olhar parado e indiferente
há pouco se despiu - divinamente nua -,
já me ouviu murmurar em êxtase, fremente:
- Sou teu! ... E já me disse, a delirar: - Sou tua !
Essa, que encheu meus sonhos, meus receios vãos,
num tempo em que eram vãos meus sonhos, meus receios,
já transbordou de vida a ânsia das minhas mãos
com a beleza estonteante e morna dos seus seios !
Essa, que se vestiu... que saiu dos meus braços
e se foi... - para vir, quem sabe? uma outra vez.
- segui-a... e eu era a sombra dos seus próprios passos..
- amei-a... e eu era um louco quando a amei talvez...
Hoje, seu corpo é um livro aberto aos meus sentidos
já não guarda as surpresas de antes para mim...
(Não importa se há livros muita vez relidos
importa... é que afinal, todos eles têm fim...
Essa, a quem julguei Ter tanta afeição sincera
e hoje não enche mais a minha solidão,
simboliza a mulher que sempre a gente espera...
mas que chega, e se vai... como todas vão...
(Do livro - Amo – 1939)
Noturno n.º 1
Pela madrugada o rádio põe em surdina
um fundo musical de filme
em meu desespero.
E a serenidade da noite, impassível,
com sua felicidade de luar e estrelas
me faz mal,
parece afrontar meu desejo impossível
e ainda me torna mais triste, mais sentimental...
Você está em todas as formas do pensamento
E no pensamento que conforma todas as coisas...
Em vão tento fugir com a música, tento evadir-me com a noite,
em vão!
Você é a música, a noite, você é tudo!
É a própria forma e o conteúdo
Da minha solidão...
