Poema Nao Chora mais ele vai Voltar
Ele disse que precisava ir, que tinha um jogo de futebol ou qualquer coisa do tipo e deu um beijo no rosto das garotas presentes. No meu caso, não. Ele pegou minha mão e a beijou. Não sei porque ele fez isso; se foi porque me desprezava para dar um beijo no rosto ou se foi porque eu estava muito longe. Eu nunca vou saber o porquê. O fato é que ele beijou minha mão de forma cortês e saiu. Ele me beijou a mão, se fosse o rosto ou a boca eu não teria ficado tão vulnerável, tão frágil, tão fácil, tão dele...Por um segundo eu fui dele e ele nem percebeu.
E quanto a ele, bem...Estive pensando e apesar de ele ter sido grosseiro, me falado aquelas coisas horríveis, eu sentia paz. Sentia paz por ter resolvido nosso impasse, nosso chove não molha, essa angústia que me dilacerava há mais de mês. Por mais que agora doesse, não doía ao ritmo de uma sinfonia de Beethoven, e sim ao ritmo de uma bossa nova e era como se o amor doesse em paz.
E eu e minha amiga rimos e falamos de garotos, até que ela tocou no nome dele e eu disse como ele era idiota e que bom que estava fora da minha vida. Só que quando fui dormir, como todos os dias, ele ainda foi o último pensamento do meu dia. Quer dizer, o penúltimo, porque o último foi uma frase de Drummond: "essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca ,às vezes sara amanhã".
E ele estava sozinho e ele estava sofrendo e pagando por cada uma das minhas lágrimas derramadas, por cada gota de rivotril tomada. Isso me deu vontade de assistir um filme de Carlitos, correr uma maratona e morrer de rir.
Talvez ele tenha me traumatizado com os aeroportos para sempre. Talvez eu esteja estragada e nunca mais consiga voltar a ser inteira. Talvez eu não consiga mais entrar num aeroporto e sentir a leveza e a calma na alma , e só consiga sentir angústia. Não sei. Talvez até Fagner esteja certo quando diz que "o amor deixa marcas que não dá pra apagar". Mas não fique triste por mim, porque eu não estou. E apesar de tudo, essa é minha vida: brilhante, surpreendente, poética e louca. Talvez o futuro seja azul, azul como o céu, o mar, o amor e a música do Djavan. Quem sabe tenha amor e poesia , ou quem sabe seja repleta de tragédias e escuridão, traumas e angústias. Eu não tenho como saber , mas nesse meio tempo eu aposto: aposto no sol que brilha, no amor que consome, nas músicas que alegram , nos sentimentos que nos salvam , nas escolhas que nos definem, e na sorte.
Ele riu de uma maneira deliciosa e isso fez meu peito ficar em fogo, como se fosse uma fera selvagem que eu tentasse domar. Eu ia repreender minha felicidade boba mas me contive. Há quanto tempo eu estava repreendendo minha felicidade e não a deixando ser plena, ser livre, flutuar nos céus como balões ? A vida era muito curta e talvez um amigo meu estivesse certo quando disse que devemos nos permitir sentir, deixar o coração ser selvagem, como na música do Belchior, e se libertar das amarras da razão.
Hoje foi um dia engraçado, pois eu me peguei tentando lembrar das músicas que relacionei a ele e ri alto por lembrar de apenas duas entre dezenas. Outrora aquelas músicas pareciam definir minha vida, como se as palavras desenhassem a trajetória da minha história com ele, como se ao serem cantadas espalhassem o meu amor pelos ares. E ele era a minha vida, as músicas eram pedaços fragmentados de minha própria alma e agora eram só palavras ao vento. São engraçadas essas voltas que a vida dá.
E quanto a ele...Ele já foi perturbação , já foi arrepio , já foi flor e espinhos. E acho que no fundo ele é mais espinhos do que flor , talvez por isso amá-lo seja sangrar de corpo e alma. Ele é instável, sendo às vezes brisa , às vezes tempestade e é tão mutável, tão volúvel, que jamais daríamos certo, mesmo que tentássemos por mil anos.
Ele disse como eu era linda enquanto me abraçava e eu pensei com surpresa que meu último namorado fazia a mesma coisa quando me abraçava e me surpreendi ao lembrar dele sem um pingo de saudade. Talvez meu amor por ele tenha voado para longe, ou congelado nas minhas veias, ou ainda, como gosto de pensar, ele tenha ido morar nos meus versos e assim viverá para sempre.
Senti satisfação quando ele me chamou, uma espécie de orgulho de mim mesma por ter algum tipo de poder sobre ele , exercer sobre ele alguma espécie de atração. Contudo, em momento algum meu coração palpitou , minhas mãos suaram e meu corpo tremeu. Isso fez eu me sentir como uma árvore oca e seca judiada pela geada , como se meu coração tivesse secado e não houvesse deus ou homem que o fizesse florir de novo. Talvez não haja.
Ele disse que eu tinha esgotado o vocabulário dele no
Inglês e para mudarmos a conversa para o português . Eu prontamente concordei e quase respondi a ele que se ele quisesse eu falava Inglês , Português, Latim , forçava um Espanhol e enrolava um Italiano, mas que a paixão não tinha idioma, que ela falava por si mesma , traduzindo nossos sentimentos e gestos de um jeito que só ela podia e nenhuma outra emoção era capaz.
Eu me enchi de orgulho quando ela disse que percebeu que ela era muito para ele, que ele era pequeno, tinha uma mentalidade pequena e nenhum plano de vida. Ele apensas existia, como um vegetal, ou até menos insignificante, pois os vegetais pelo menos realizam a fotossíntese. Eu sei como é a sensação de ser muito para alguém e do muito dessa pessoa ser pouco, como se você merecesse mais, infinitas vezes mais do que essa pessoa poderia proporcionar, como se ela nunca estivesse disposta a crescer. "Eu quero ver meu bem quando cê vai querer crescer ", diria Djavan, mas a verdade é que certas pessoas não crescem. Certas pessoas ficam estagnadas no tempo e lhes falta amor, doçura e empatia, sendo que o amor de um só não é suficiente para suportar um relacionamento, pois ninguém é Atlas e relacionamento é ato bilateral.
Eu queria dizer a ele...queria dizer que ele tinha meu telefone, meu e-mail, meu Instagram se ele quisesse entrar em contato. Queria dizer que ele é extremamente sexy, até no sábado de manhã, enquanto eu estou um bagaço pela manhã e não funciono antes de duas xícaras de café, pois eu sou uma criatura noturna. Por fim, eu queria frisar que é claro que ele pisou na bola, e fez isso de maneira muito idiota, muito boba, mas que eu acreditava no duplo grau da jurisdição e no in dubio pro reo, e eu estava disposta a dar uma segunda chance a ele se ele quisesse, se ele me quisesse.
Foi curioso ele ter elogiado meu perfume, assim como o rapaz antes dele elogiou, me perguntando qual perfume era pois ele não conseguia desgrudar os lábios do meu pescoço. Como explicar a ele que sou a moça das flores e perfumes? Eu, a moça que não sai de casa sem delineador, é viciada em café e sempre chega atrasada nos compromissos. Eu queria dizer a ele que pensasse duas vezes antes de se envolver comigo porque eu sou louca, eu stalkeio até a mãe do tio do amigo do pai dele se duvidar, e que meus acessos de frieza podem queimar, mas eu não faço de propósito e que no fundo quase achando petróleo eu sou uma ótima pessoa e que ele não tem realmente nenhum bom motivo para ficar, mas eu gostaria que ele ficasse.
Ele me pediu se já era a hora do beijo e eu fiquei mole igual gelatina e quis largar meus materiais em cima da carteira e correr para os braços dele e beijá-lo até o deixar tonto, até minhas pernas tremerem, até a noite se tornar pequena para nós dois.
Quando ele foi para casa, após bebericar alguns goles do de licor de canela do meu copo, eu fiquei um tanto quanto melancólica. Uma parte minha- a menor parte, graças a Deus- quis abraçá-lo e dizer para jamais ir embora e para me beijar até meus olhos se virarem do avesso, até eu perder o ar, até o dia clarear e a noite ser deixada para trás. No entanto, uma parte maior- a parte dominante do meu ser- movida pelo orgulho, virou o copo de licor com elegância, sorriu e pediu aos demais que horas eram, se podíamos ir para a festa, pois afinal era sábado de madrugada e não tínhamos tempo a perder...
Ele acenou para Sílvia, que o cumprimentou de longe, e depois ele sorriu e acenou para mim. Sorri e acenei de volta e naquele momento a cena congelou como em um filme e a seguinte frase tomou conta de minha mente: "não é estranho...?" Talvez "estranho" não seja a palavra adequada e sim "curioso" ou ainda "espantoso". "Não é espantoso quando um grande amor se torna um estranho?". A cena voltou a rodar, assim como os ponteiros do relógio, meus saltos no chão e eu não senti nada. Ele ainda tinha aquele sorriso encantador do qual que me lembrava, os cabelos arrepiados e até vestia as mesmas roupas, mas algo estava diferente pois minhas pernas não amoleciam, meu coração não disparava e não havia um panapaná revoando meu estômago. Na verdade, tudo estava absolutamente igual; quem tinha mudado era eu; eu não o amava mais. Então volto ao meu raciocínio anterior: "Não é curioso quando um grande amor se torna um estranho?". É estranho...
Eu e ele somos iguais; frios, dois blocos de gelo, duas partes do iceberg que afundou o Titanic! Somos orgulhosos e para nós é extremamente difícil falar sobre sentimentos ou demonstrá-los, pois a frieza é nossa fortaleza e quebrá-la é ato de fraqueza. Ele sempre acha que estou brava com ele porque eu sou feito uma geladeira e eu sempre acho que ele está bravo comigo porque ele é glacial. A gente não troca mensagens porque mandar mensagem também é ato de fraqueza, mas quando nos vemos, nos beijamos como se não nos víssemos há um milhão de anos! Então ficamos nesse impasse e alguém tem que ceder...
Houve um momento em que ele subiu em uma árvore e ficou olhando para mim. Seus olhos castanhos se fixaram em mim como se quisessem me puxar para ele, como se ele fosse uma espécie de imã e eu de repente sentia que o frio em minha barriga aumentava a ponto de eu sufocar e não lembrar mais de como se respirava. Ele olhou bem para mim, só para mim, diário, eu tenho certeza disso porque virei para trás nessa hora para verificar se ele não estava olhando para outra pessoa, mas não havia ninguém ali. Ele vestia uma blusa rosa, eu acho, não lembro ao certo, talvez fosse branca, ou até azul, mas para mim pareceu cor-de-rosa, mas quem sabe nem fosse, e era somente eu que via tudo cor-de-rosa naquele momento de tontura.
Ele quebra meu protocolo, derrete meu gelo, fragiliza as barreiras que eu construí e me deixa sem ar, sem palavras, sem defesas...
- Relacionados
- Frases de alegria para inspirar e tornar o seu dia mais feliz
- Frases de aniversário para dar os parabéns (e tornar o dia mais feliz)
- Frases de Amor Não Correspondido
- Frases de desprezo para quem não merece mais a sua atenção
- Amor não correspondido
- Frases de raiva que dizem o que você não consegue falar
- Poemas para o Dia dos Pais (versos de carinho e gratidão)
