Pertencer
O Estado laico não possui teologia oficial, porque sua constituição deve pertencer a todos e porque a existência de Deus permanece uma questão que o poder público não pode resolver.
Se algum dia estas palavras parecerem antigas, talvez tenham cumprido sua finalidade: pertencer ao tempo sem pertencer inteiramente a ele.
Ao nos distrairmos, nós nos traímos: entregamos ao ruído a atenção que deveria pertencer à consciência.
Cor, sabor e outras qualidades podem pertencer à esfera da percepção; a estrutura objetiva da realidade exige investigação para além da aparência sensível.
Prefiro mil vezes ser chamado de louco por inventar uma ideia mirabolante do que pertencer a essa legião de pessoas falsas que fingem apoiar o progresso, mas nos bastidores torcem com toda a força para que os outros afundem na lama da mediocridade.
Substituiu-se a busca pela certeza pela urgência em pertencer a um grupo, custe o que custar à realidade.
Minha natureza é livre, mas o meu coração quer "pertencer". E se a minha atitude te confunde, e faz tua razão se perder, é porque você não enxerga com a alma, aquilo que eu sou pra você.
O luxo do teu amor
sei que me pertence,
Como nunca deixe
de pertencer-te,
Você me puxou
pela mão e me deu
uma fita de cetim
para dançar contigo
a Dança do Tipiti,
Deste dia bonito
jamais me esqueci.
Contigo somente existe
a possibilidade teleológica
de pertencer sem volta,
A conversa simples e dialógica,
e o silêncio que revigora,
Com direito a cabeça apoiada
no seu ombro com direito
as boas feituras e partilhas
da memória conjunta analógica,
Com presença satisfatória
um dando na boca do outro
austrais Morangos-da-costa
com toda a delícia amorosa.
Pressa de te pertencer
assumo que tenho,
Ao ponto de vir sussurrando
o melhor desejo
de fazer o tempo parar
aqui em Rodeio.
Para onde me levar
as estrelas certamente
na sua companhia contar,
e com gestos confessar.
Quando o dia chegar
a existência da pressa
não vou nem mais lembrar,
e você também não;
O mundo será obrigado a parar,
e um nos braços do outro
irá docemente sossegar e morar.
Eu demorei para entender que minha fé não precisava de moldura. Não era sobre pertencer a um templo específico, repetir palavras decoradas ou provar algo para alguém. Um dia percebi, quase em silêncio, que Deus não estava distante nem escondido atrás de rituais; Ele morava em mim. E quando entendi isso, algo dentro de mim ficou tranquilo, como se finalmente eu tivesse chegado em casa.
Não depender de religião não significa desrespeitar quem encontra Deus nela. Pelo contrário, cada pessoa tem seu caminho, sua ponte, sua forma de conversar com o céu. A minha foi mais silenciosa, mais íntima. Foi no meio das minhas dúvidas, das quedas, das noites em que eu conversava sozinha com o teto, que comecei a sentir uma presença que não precisava de intermediários. Era uma fé simples, quase cotidiana, como respirar.
Eu descobri que Deus aparece quando eu cuido de alguém, quando eu escolho ser justa mesmo sem aplauso, quando eu perdoo, quando eu me levanto depois de um dia difícil. Ele está nos gestos pequenos, nos pensamentos que tentam ser melhores do que ontem. Mora nas decisões que tomo quando ninguém está olhando.
E isso muda tudo. Porque quando a gente acredita que Deus vive dentro da gente, a responsabilidade também muda. Eu passei a olhar mais para dentro, a vigiar minhas próprias atitudes, a tentar ser um lugar bom para Ele habitar. Não perfeito, porque ninguém é, mas verdadeiro.
Hoje eu caminho assim: sem precisar provar fé para ninguém, sem carregar rótulos pesados, mas com uma certeza calma de que não estou vazia por dentro. Há uma luz ali, discreta, constante, que me lembra todos os dias que Deus não está longe. Ele está aqui, comigo, vivendo cada passo da minha história.
Muitas vezes sentimos vergonha de pertencer à humanidade. Não porque somos perfeitos, mas porque enxergamos o abismo entre o potencial humano e a realidade que construímos. Somos uma espécie que fala de amor enquanto pratica a indiferença. Que pede paz enquanto alimenta conflitos. Que sonha com um mundo melhor, mas frequentemente espera que outra pessoa faça o trabalho necessário para transformá-lo.
Mas existe algo que merece uma reflexão ainda mais profunda.
Quando dizemos que o ser humano só pensa em violência, talvez estejamos olhando apenas para o barulho. A violência faz manchetes. O ódio viraliza. A crueldade chama atenção. Mas quantas pessoas silenciosamente ajudam alguém todos os dias? Quantos resgatam animais? Quantos dividem o pouco que têm? Quantos choram ao ver o sofrimento de um desconhecido?
Cuide bem daquilo que ficou, porque por mais que não esteja com você aquilo ainda pode te pertencer..
O orgulho de pertencer a um lugar, religião ou torcida, é bom até certo ponto: até o ponto em que não haja preconceito.
É difícil ter consciência de pertencer a si próprio, reconhecer-se em si, deixando de ver-se pelo reflexo/imagem através da sociedade/espelho.
