Pensamentos de Mário Quintana
A arte de escrever é, por essência, irreverente e tem sempre um quê de proibido: algo assim como essa tentação irresistível que leva os garotos a riscar a brancura dos muros.
Sempre fui metafísico. Só penso na morte, em Deus e em como passar uma velhice confortável.
Sempre
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
E só as amadas mortas amam eternamente…
Verão
Há sempre, afastada das outras, uma nuvenzinha preguiçosa que ficou sesteando no azul.
O bicho,
quando quer fugir dos outros,
faz um buraco na terra.
O homem,
para fugir de si,
fez um buraco no céu.
Velhice é quando um dia as moças começam a nos tratar com respeito e os rapazes sem respeito nenhum.
Há dois sinais de envelhecimento. O primeiro é desprezar os jovens. O outro é quando a gente começa a adulá-los.
O homem é um bicho que arreganha os dentes sem necessidade, isto é, quando nos sorri.
Os silêncios
Não é possível amizade quando dois silêncios não se combinam.
As que ocultam o rosto quando choram é para disfarçarem que estão rindo.
Um autor, primeiro, é assunto. Mas a glória, mesmo, é quando ele vira falta de assunto.
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.
” Querias que eu falasse de "poesia" um pouco mais... e desprezasse o quotidiano atroz... querias... era ouvir o som da minha voz e não um eco - apenas - deste mundo louco!”
(trecho extraído do livro em PDF: Baú de Espanto)
O mais espantoso nos velhos é a sua falta de pressa, como se eles dispusessem de todo o tempo que teriam os moços se não tivessem tanta pressa.
Hoje o que mais se precisa é de silêncios que interrompam o ruído.
O que mais me revolta nas matemáticas são as suas aplicações práticas.
O mais difícil na morte é acomodar-se a gente aos novos hábitos.
O mais triste nas praias de verão é que nos assemelhamos a um bando de focas tropicais.
