Pensamentos de Clarice Lispector

Cerca de 317 pensamentos de Clarice Lispector

Pouco sei sobre o amor. Apenas lembro-me que o temia e o procurava.

Clarice Lispector A bela e a fera. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio. Sei que haverá uma ordem.

Clarice Lispector Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Eu e minha liberdade que não sei usar

Eu não sei colocar pontos finais, eu não sei acabar com algo, eu não sei excluir alguém da minha vida.

Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim.

Perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Eu também não sei não pensar. Acontece sem esforço. Só é difícil quando procuro obter essa escuridão silenciosa. Quando estou distraído, caio na sombra e no oco e no doce macio nada-de-mim.

Clarice Lispector Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

Sei o que é absoluto porque existo e sou relativa. Minha ignorância é realmente a minha esperança: não sei adjetivar.
Olhando para o céu fico tonta de mim mesma.

Alguns, bem sei, já até me disseram, me acham perigosa, Mas também sou inocente. Sei, e talvez só eu e alguns saibam, que se tenho perigo tenho também uma pureza. E ela só é perigosa para quem tem perigo dentro de si. Às vezes a raiz do que é ruim é uma pureza que não pôde ser.

Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.

Clarice Lispector A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Nota: Trecho da crônica Em busca do outro.

Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração, não me façam ser o que não sou.
Não me convidem a ser igual porque sinceramente sou diferente.

Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.

Clarice Lispector A Hora da Estrela

Não gosto do que acabo de escrever - mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.

Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração, não me façam ser o que não sou.

Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calmo e perdoo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas de que eu me lembre.

Clarice Lispector Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro, 1998.

Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada.

Com perdão da palavra, sou um mistério para mim.

Clarice Lispector A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Nota: Fontes indicam que a frase é citada no livro "Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato", de Olga Borelli

A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.

Clarice Lispector Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.

Clarice Lispector LISPECTOR, C. Água Viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 1973.