Pedro Bandeira - Identidade
“Existe beleza em não conhecer as cercas religiosas, pois elas são cultura do cárcere.
Existe beleza na falta de crença: Deus não é crença, ele é.
Existe beleza no erro humano, não como falha, mas como autenticidade.
Existe beleza no feio que pintaram sobre ser feliz — escolher o que se deseja é admirável.
Existe horror em se negar.”
Entrega Escrita
Com palavras corriqueiras, eternizo-me no teu agora.
Não faço sentido se não estiver escrito.
Lê-me, relê-me.
Lembra de mim quando pegares no papel.
Sou tua folha e tua tinta.
Canso-me ao lembrar que, no mundo, ainda persistem os que se erguem acima dos outros apenas por se acreditarem superiores.
Inúteis, fúteis, mesquinhos e miseráveis — assim são os que se julgam padrão.
Basta de hipocrisia: os que vendem felicidade são, quase sempre, os mais tristes; os que dizem ter tudo são, no fundo, os mais pobres.
Cansado estou também dos que se fazem de oprimidos para obter o que desejam — isso é ainda pior.
Mulheres, homens, velhos e crianças, todos disputando para chegar primeiro.
Pergunto: onde querem chegar?
Se pensar bem, percebe-se que a linha de chegada para todos é a morte.
Parem de mentir, de forçar sorrisos ou de querer imperar sobre os demais.
Vivam, amem, sintam. O tempo está passando.
Não é o mundo que destrói o homem.
É o homem que, ao abandonar o sentido, destrói o mundo.
Entregacionismo -
Com apenas uma linha e uma agulha, é possível tecer as mais belas peças e bordados. Contudo, com essa mesma linha — tão insignificante — e essa agulha — tão desprezível — também se pode provocar os maiores estragos, a ponto de corromper por completo a integridade de um tecido.
Entregacionismo -
Entregacionismo é viver sem fingir.
É abandonar padrões impostos, assumir quem se é e encarar a vida com verdade.
Uma filosofia de P. H. Amancio.
ENTREGACIONISMO × CONTROLE
O confronto entre a entrega e a dominação do existir
Há duas forças que atravessam silenciosamente a experiência humana: o impulso de se entregar e a necessidade de controlar. Nenhuma delas é neutra. Nenhuma é inocente. Ambas disputam o centro da existência.
O Entregacionismo nasce como reação. O controle nasce como medo. Entre esses dois polos, o sujeito tenta sobreviver.
I — O CONTROLE: A PROMESSA DE SEGURANÇA
O controle surge como resposta ao caos. Ele organiza, delimita, estrutura. É o esforço humano de transformar o imprevisível em algo administrável. Através dele surgem normas, sistemas, crenças, rotinas, morais.
Controlar é tentar garantir continuidade.
O problema não está em sua origem, mas em sua ambição.
Quando o controle deixa de ser ferramenta e passa a ser finalidade, ele se torna tirânico.
O controle promete:
* segurança
* estabilidade
* previsibilidade
* proteção contra o erro
Mas cobra um preço alto:
a renúncia à experiência viva.
Sob o domínio do controle, o sujeito passa a existir como projeto. Mede-se, compara-se, vigia-se. O erro vira falha moral. O desejo vira ameaça. A dúvida vira pecado.
O controle não suporta o imprevisível — e a vida é, por natureza, imprevisível.
II — O ENTREGACIONISMO: A RECUSA DA DOMINAÇÃO
O Entregacionismo nasce quando o sujeito percebe que o controle não o salvou.
Não é um grito de revolta, mas uma lucidez tardia. A constatação de que nenhuma estrutura conseguiu conter o caos interno, nenhuma promessa garantiu sentido, nenhuma disciplina impediu a perda.
Entregar-se, aqui, não é desistir.
É abandonar a ilusão de domínio.
O entregacionista não rejeita a responsabilidade, mas recusa a tirania do planejamento absoluto. Ele entende que a vida não se deixa capturar por esquemas.
A entrega é um ato de coragem porque exige aceitar:
• a incerteza
• a impermanência
• a fragilidade
• a ausência de garantias
Enquanto o controle tenta congelar o mundo, o Entregacionismo aceita o fluxo.
Entregar-se ao acaso
Eu, jovem, preso numa monotonia velha,
canso de sorrir
para esconder as lágrimas.
Canso de nadar contra a correnteza
e sempre me ver longe da borda,
muito longe da borda —
que triste.
Não quero morrer assim.
Não quero que esse seja meu fim.
Entrego-me, de corpo e alma, ao acaso.
Não faço mais planos,
nem tento controlar meus dias.
De hoje em diante, apenas viverei:
serei, amarei, gozarei.
Chega. Já me enchi demais.
Comecei a me esvaziar.
A morte não me assusta,
e a vida é uma velha amiga.
Um vento me venta e um intento eu invento.
Aqui e ali sou apenas um momento.
Se vier, vai me levar pra lá, longe me prender.
Lá onde me calam e não podem me socorrer.
Se for assim, então que minha voz logo se espalhe,
antes que venham e tinjam de preto a mortalha
que cobre minha nobre elegância, que mataram quando ainda era criança.
Antropometria, uma baixaria esculpida e despida, a pobre Luzia.
Preço bem baixo, essa mercadoria.
Quem olhou decidiu que não mais pagaria.
Sem valor, a obra sofre calada, desnuda.
Feita para alegrar os olhos, porém tudo muda
quando aquele que vê já desvaloriza a alma da arte que fora esculpida.
Um andar pela rua que não é segura faz "té" fraquejar,
coração confinado num peito sem espaço quer bombear.
Oprimido de vício, chorar é preciso para se salvar.
Mas se for bem de noite, só pede socorro se alguém quiser te ajudar.
Declamo aos penetrantes, estrênuos, loquazes
Reclamo quão infames, nocivos, temperamentais
Dai-me espaço para ser quem sou
Tão sem força deixam a minha voz
Declamo aos que me escutam, mas me deprezam
Aos que sabem da minha verdade, mas que me calam por pura maldade
Dai-me tempo para que eu consiga convencê-los
Dai-me liberdade de fala para que possam me conhecer
Digo: sejam, nem que por uma vez, humanos
Repito: dai-me espaço, preciso só de um dia, nem chega a ser um ano
Querem saber quem sou sem me deixarem apresentar
E, quando me deixam mostrar quem sou, mandam-me calar
Peço: deixem-me ser assim
Esse sou eu
Deixem-me andar nesse caminho, ele é meu
Deixem-me viver com o meu eu
P. H. Amancio.
Ser livre é algo errado? Por que tanta represália quando vivemos como queremos, então?
Seria mais prático apenas viver a vida, sem julgar ou palpitar nas escolhas alheias.
Usamos bases fictícias para moldar a nossa verdade; que blasfêmia isso! O prazer é real, palpável, tal qual a felicidade. Tudo existe de verdade e é para ser experimentado por nós sem nenhum tipo de rótulo.
Será que a felicidade e o prazer se tornarão mitologia? O que está matando essa verdade?
A pluralidade é a graça da coisa. Tudo anda tão igual...
Mesmos dias,
Mesmos rostos,
Mesmos gostos,
Mesmos cheiros,
Mesmas sensações.
Nada muda,
Nada novo.
Presos em infernos que não são nossos.
A vontade de cada um se tornando nula por uma verdade universal. Cadê a liberdade que tanto se prega? Estamos voltando para a era das trevas. Precisamos soltar os iluministas presos em nossas vontades reprimidas, para que possamos mudar o futuro de nossa civilização.
Os influenciadores são os novos ditadores, e os padrões são os métodos de tortura. Todo o poder está localizado na placa-mãe. Revolução já! Iluminismo já! Tudo se repetindo...
Monólogo do Caráter
Agora, neste exato momento, percebo que me perdi há muito tempo. Carrego o vazio que eu mesmo construí ao desistir de sustentar o progresso. Culpo-me por abandonar o que me fazia bem em nome do que parecia correto aos olhos de outros. Como retornar ao instante em que me anestesiei com a pílula da mesmice?
Será mesmo falta de tempo? Não. Falta-me foco, falta-me organização — coisas que nunca aprendi a cultivar. Devo continuar idealizando futuros belos ou despertar para transformar a realidade? A responsabilidade por não ter e por não ser recai apenas sobre mim.
Caminho sempre contra a multidão, mas quem garante que não são eles que avançam, apressados, na direção errada? Quem, afinal, está certo?
Não me reconheço como produto do meio; sou o meio que produz. Produzo, sobretudo, perguntas. Os animais sabem que são animais? Também eles existem moldados pelo ambiente. Reproduzir não é consciência — é apenas persistir. Eu não quero ser apenas mais um. Quero ser mais dois.
A ânsia de mudar o mundo sucumbe à minha própria inconstância. Sei que posso, sei que possuo os meios para ser o que é necessário, mas o medo do fracasso me visita diariamente. Cada vez que escolho a comodidade, recuso a humanidade. Inclino-me, esqueço-me, escondo-me.
Perdoa-me, mundo —
disse o caráter.
Monólogo do Diabo
O que fazes neste dia memorável?!#11;Se nem ao teu paladar o doce é agradável.#11;Dizes ser e ter, e aí, caído, nunca nem soubeste o que é vencer.
Levanta-te quando se cansa de estar caído, apenas para dizer: “se fosses tu, não faria aquilo”, e logo retornas à beira daquilo que nem sequer existe.#11;E aceitas este destino como se fosse uma vida de estirpe.
Ah, os caminhos… Pensas ser tu um mapa, uma bússola… um norte?!#11;Pobre, aceitas que não és mais um nobre.
Para um pouco de me dizer o que já se foi. Olha, o futuro é novo. Nem tu, cheio de letras, podes me dizer o que é a verdade. Não me atrairás mais, desprezo o teu “oi”.
Nem te levantes. Já perdi tempo tentando mostrar-te que já se passam anos. Nem mesmo podes me dizer: “eis, aqui estão os meus planos”.
Será que devo calar-me?! Afinal, nem mesmo tentei apresentar-me.#11;Tu eu conheço bem, já foste meu alguém.#11;Agora que já tempo nem se tem, eis o nome que me foi dado.#11;Prazer, me chamo Diabo.
Sintaxe da Existência
Existem pessoas de muitas formas: enquanto uma sorri, a outra chora.
Existem pessoas sem sentimentos; umas são eternas, outras apenas de momentos.
Uma é vírgula tensa: define a pausa, mas não a sentença.
Outra é travessão: exibe a fala de alguém, mas nunca a própria visão.
Há quem seja interrogação, sempre com dúvida no coração.
Há quem seja exclamação: quando aparece, traz emoção.
Há quem se pareça com o ponto e vírgula, cheio de hesitação na vida.
E existem os dotados das ciências, como as reticências —
sabem muito, mas nunca dizem tudo.
A Ordem Primeira
Sobre Ele, nada;
sem Ele, o que é não pode ser.
Ele é a ordem primeira,
Ele é o fluxo perfeito.
Ele é o criar do dia
e o destruir da noite.
Ele é a entrega perfeita
e a resposta expressa.
Ele é natural.
Esse é a ideia de Deus no Entregacionismo.
Há beleza no ato de observar, e há beleza em tudo aquilo que se oferece ao olhar. Pois compreender que tudo o que existe um dia foi nada — e que inevitavelmente caminha para sua própria anulação — revela a profunda compreensão de que o eterno não passa de uma ilusão do desejo, enquanto a finitude se manifesta como a mais autêntica forma de beleza.
O que nasce carrega em si o destino de cessar, e é justamente nessa transitoriedade que reside sua grandeza. Há beleza em tudo o que se desfaz, porque ao alcançar o fim cumpre plenamente sua essência. Existir, completar-se e extinguir-se: eis o ciclo que confere sentido ao ser.
A plenitude não está na permanência, mas na conclusão. E nisso habita o belo.
E eu tenho medo. Medo de não existir um amanhã em que eu possa me refazer.
Medo de me tornar pior do que sou hoje.
Medo de que até esse amanhã, que eu tanto acredito que virá, simplesmente não venha. Um amanhã que nunca vem.
E eu me prendo à possibilidade e, talvez, esqueça de viver o hoje.
Preciso RE-NAS-CER!!!!
Até parado estou sendo. Difícil é deixar de ser, e se eu quiser parar, como paro? Não paro. O coração segue batendo mesmo que eu não queira. Até quando durmo, a mente sonha, o corpo faz questão de lembrar que eu estou aqui, mesmo que sem missão.
